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        <title>Num.° 2.</title>
        <author>Anónimo (Bento Morganti)</author>
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                        Universität Graz</orgName>
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          <orgName ref="http://informationsmodellierung.uni-graz.at">Zentrum für
                        Informationsmodellierung, Universität Graz</orgName>
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        <bibl>Anónimo (Morganti, Bento): Terceira Collecçam dos Papeis Anonymos. Lisboa:
                    Pedro Ferreira, 1754, 13-20 </bibl>
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          <title level="j">O Anonymo. Repartido pelas
                        semanas, para divertimento e utilidade do publico</title>
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          <date>1754</date>
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<p rend="EU"><milestone unit="E1" xml:id="FR.1"></milestone></p>
<div1><head>N.°.2</head>
<div2><head><hi rend="italic">Conversam da fealdade.</hi></head>
<p rend="SO"><hi rend="smallcaps"><milestone unit="E2" xml:id="FR.2"></milestone> Nam</hi> ha coiza mais admiravel, e que todos os dias vemos incessantemente reproduzida, como he a mudança repentina com que se troca a fealdade em fermosura, e o que pela manham parecia hum espectro, ou huma furia medonha, passadas algumas horas se acha convertida em prezença <pb n="14"></pb> agradavel, e objecto em que gostoza se emprega a vista. Isto que póde parecer huma coiza nova certamente a naõ he, ainda que naõ pòde deixar de se reconhecer por huma coiza bastantemente consideravel. <milestone unit="EX" xml:id="FR.3"></milestone> Pausanias escreve que Ariston Rey de Sparta teve por esposa a mais fea de todas as filhas de Lacedemon, a qual pouco depois apareceo com huma fermozura tam excellente, que affirmaõ muitos authores, que depois daquella que foi cauza do incendio de Troya, naõ vio a Grecia naquelle sexo mulher de fermozura mais completa. Heredoto refere que esta mesma tinha de antes cazado com hum certo Agetto, e atribue esta prodigiosa mudança a hũa especie de milagre, porque tendo a ama que criava hum especial cuidado de a levar, quando era minina, todas as manhas ao Tĕmplo de Helenam, invocando-a incessantemente a seu favor, recebera por força das suas rogativas, esta graça, que esteve detida, ou suspensa até o tempo posterior ao seu cazamento segundo. <milestone rend="closer" unit="EX"></milestone> <milestone unit="EX" xml:id="FR.4"></milestone> Tacito diz tambem que Livia molher de Druzo, e irmam da Germanico Imperadores Romanos fora no tempo de sua mocidade bastantemente fea, e dezagradavel, mas que ponco depois se respeitava em Roma pela mayor fermozura daquelle tempo <milestone rend="closer" unit="EX"></milestone>. Pareceme que neste secundo se poderiam referir muitos mais exemplos que excedessem toda naticia destes, e de outros Historiadores, pelos repetidos aconticimentos semelhantes a estes que nos contam, se me naõ podem soffrer que dellas se diga que tambem foram feas, ainda que muitas vezes se veja a sua fealdade convertida em fermozura. Com tudo porém nam me posso eximir de acautelar aos que virem destas estimaveis fermozu-<pb n="15"></pb>ras,e que tanto lizongeam a vista, que examinem bem com seu vagar se sam daquellas em que a arte excede a natureza, e a que se pode chamar mentiras excellentes. E certamente naõ se deve estranhar que hum homem de bom senso conceba huma justa aversam a estas falsas fermozuras, da mesma forte que como se pode conceber a respeito da moeda falsa: e que sem ser sectario da Heresia dos Iconomacos seja a este respeito inimicissimo das imagens. As mulheres que naõ sam agradaveis se naõ por artificio tem muito cuidado em naõ fazer <milestone unit="EX" xml:id="FR.5"></milestone> o que fez Venus, que foi a primeira das tres Deozas que se despojou de seus aparatozos ornamentos na prezença de Paris, para que sem o artificio da industria julgasse o merecimento da sua belleza: <milestone rend="closer" unit="EX"></milestone> mas sim muito pelo contrario se escondem debaxo do branco, e do vermelho que tomam emprestado, e só assim occultas, he que se cõsideraõ com cara de aparecer, principalmente nas assembleas, e occazioens de concurso: e tudo quanto pòde fazer o Pintor mais excellente querendo tirar o seu retrato, he copiar huma pintura para outra pintura, sendo-lhe impossivel trabalhar pelo natural. Quantas se conhecem que naõ tendo aparentemente de dia mais que vinte annos, se acham à noite ter quarenta, e cincoenta: outras aparecendo de dia huma aurora rizonha, e quasi formadas dos candidos pedaços de neve, ou à noute, ou em outros certos dias aparecem cobertas de sombra debaxo de veo natural da sua propria escuridam. Mas ao menos naõ podemos deixar de confessar que nisto conseguem a ventagem de se poderem desvanecer, que sem serem devedoras à natureza, como muitas, a sua boa graça, e as sua fermozura sam obra de suas proprias maõs. </p>
<p><pb n="16"></pb> Se podemos dizer que no mundo se observam fermozuras feas, naõ sera mentira se acrecentarmos que ha fermozuras perigosissimas. As cores mais agradaveis do mundo, sam as misturadas de outro, e de azul, e com tudo reluzem muitas vezes na pele de huma serpente: a Aconito tam terrivel, florece mais agradavelmente que outras muitas plantas utilissimas. Saem dos olhos de huma molher fermoza certos rayos, que influindo como os da lua fazem hum numero infinito de estolidos, e de enfermos: ou para melhor nos explicarmos, naõ contem em si parte alguma atè o minimo de seus cabellos, que naõ tenha poderoza virtude para captivar o mais sabio dos homens. <milestone unit="EX" xml:id="FR.6"></milestone> Isto he o que fes escrever, que obrigado Leandro da força de huma fermozura, atravessou muitas vezes o Helesponto, e que todo o corpo daquella molher estava tam cheyo de differentes graças, que todos os que lhe precederaõ se enganaram quando as reduziram sòmente ao numero de tres. <milestone rend="closer" unit="EX"></milestone> <milestone unit="EX" xml:id="FR.7"></milestone> E com este mesmo fundamento escrevendo Aristenetas as perfeiçoens de Cydippes extremosamente amada por Acontio, affirma que seus olhos naõ satisfeitos só das tres graças só das tres graças de Efiodo, tinhaõ mais cem que nunca os deixavam. <milestone rend="closer" unit="EX"></milestone> Seja o que for, ninguem pode negar, que tudo quanto a força mais absoluta, ou a Rhetorica mais persuasiva, podem à custa de maior trabalho e de maior deligencia conseguir sobre os homens, o poem em execuçaõ o sexo a quem tocou por forte a fermozura, com hum simples descuido dos olhos, ou com os rayos de huma vista hum pouco inclinada, com o que se dicipa inteiramente toda a rezistencia que tinha encontrado o trabalho, e a persuasam. <milestone unit="EX" xml:id="FR.8"></milestone> Quero afastar a vista de Salamam, e de outros seme-<pb n="17"></pb>lhantes a elle, para contar sòmente o que impedio ao grande seductor Mafoma a passar para Persia, confessando que sómente a aprehensam que tinha concebido das molheres daquelle paiz foi a cauza que o absteve de emprender semelhante viagem; porque eram tam cheyas de atractivos, que atè os mesmos Anjos se podiam enamorar dellas, e sugeitarem se à sua vontade. <milestone rend="closer" unit="EX"></milestone> Em todos os tempos se occuparam os Theatros em reprezentar este absuluto poder da fermozura sobre as vontades, <milestone unit="EX" xml:id="FR.9"></milestone> e o unico exemplo de Cleopatra bastará para que se comprehenda livremente hum breve espaço de tempo na sua companhia, ainda que fosse com o excessivo preço de sua propria vida. <milestone rend="closer" unit="EX"></milestone> </p>
<p>Isto que acabamos de dizer <milestone unit="EX" xml:id="FR.10"></milestone> sobre a ventagem das molheres da Persia, fas lembrar, que muitas outras regioens se desvanecem de produzirem as mais fermozas do mundo. <milestone rend="closer" unit="EX"></milestone> <milestone unit="EX" xml:id="FR.11"></milestone> A China atribue esta grande excellencia as da Cidade de Nancheu, que he na Provincia de Nanquin; <milestone rend="closer" unit="EX"></milestone> <milestone unit="EX" xml:id="FR.12"></milestone> o Padre Alvaro Semedo diz que entre as Portuguezas, saõ as da Villa de Guimaraens; <milestone rend="closer" unit="EX"></milestone> <milestone unit="EX" xml:id="FR.13"></milestone> as relaçoens modernas dizem que as Thebanas, ou da Cidade de Thebas, e outros que saõ as Insulanas de Chio. <milestone rend="closer" unit="EX"></milestone> <milestone unit="EX" xml:id="FR.14"></milestone> As mais raras formozuras do Serralho de Constantinopla, vem da Circassia, e da Georgia, que ficar para a parte da antiga Colchida, e se he verdade o que escreve Belon, em todo Estado de Graõ Senhor se pintaõ as molheres de amarelo; <milestone rend="closer" unit="EX"></milestone> ao menos sabemos de certo que na India assim se observa, ajuntando ainda este artificio à sua propria cor natural, supondo que assim parecem mais fermozas. Sem duvida bem se pode observar que esta formozura que <pb n="18"></pb> cauza o amor, e que excita nos homens paxoens taõ violentas, nem he uniforme, nem a todos parece a mesma. <milestone unit="EX" xml:id="FR.15"></milestone> A mocidade das Turcas he muito natural que nos naõ agrade, e muito menos as muitas fardas das Irlandezas, de que ordinariamente tem coberto o rosto. <milestone rend="closer" unit="EX"></milestone> <milestone unit="EX" xml:id="FR.16"></milestone> Como seria possivel que nos agradassem as molheres de Thracia cobertas de hum numero grande de timbres de armas proporcionado ao dezejo que tinhaõ de mostrar a sua nobreza, e sem duvida de augmentar tambem com isto a sua fermozura? Assim o refere Dion Chrysostomo. <milestone rend="closer" unit="EX"></milestone> Seria difficultozo crer, se as muitas relaçoens nos naõ segurassem, que ha pessoas com o rosto cortado, e cheyo de cicatrizes expressamente para augmentar a sua formozura. <milestone unit="EX" xml:id="FR.17"></milestone> Os narizes chatos das Moiras, como tambem das mulheres da Tartaria as fas muito mais amaveis para com os seus, e o mesmo sucede como a cor negra das Ethiopes, e das de Groenlanda; <milestone rend="closer" unit="EX"></milestone> pois naõ obstante a sua vizinhança do Polo ha naquellas partes, Negras como em Guiné, e aquella escuridaõ de semblantes tem forças taõ poderozas como entre nos tem a mairo alvura. Naõ me persuado que haja muitos sigaõ a opiniaõ  de Pausanias, de que a Venus Negra, ou Melenida de Arcadia, tivesse este sobre nome somente porque as trevas da noute parece que foraõ destinadas para os crimonosos divertimentos atribuidos àquella Deoza dos Amores; porque cuido que a principal razaõ deste apelido se deve deduzir de que tambem a cor negra, ou parda tem seus atractivos como a branca, e vermelha, naõ havendo cor alguma que Cupido naõ empregue para mostrar todo o seu poder. Na verdade naõ deixa de ser bem verdadeiro, e bem ideado aquele Proverbio de que vulgarmente uzaõ os Italianos, <pb n="19"></pb> que naõ he bom o que he bom, mas sim o que agrada: <milestone unit="ZM" xml:id="FR.18"></milestone> <hi rend="italic">non è bello quel`ch è bello, ma quel che piace. <milestone rend="closer" unit="ZM"></milestone></hi> Toda a diversidade que nisto se acha, depende do lugar, do tempo, e das pessoas. </p>
<p>Sobre isto bem se poderia duvidar se a fermozura he alguma coiza real, e certa; porque nem a proporçam dos membros, nem a sua côr que compoem a diffiniçaõ tem couza alguma de seguro, e universal. Parece que bem a podemos considerar sómente por huma obra da nossa imaginaçaõ sogeita a mil variedades, supostas as circunstancias, que assima referimos. Mas demos-lhe toda a existencia que os seus mais apaixonados lhe atribuem, com tudo naõ pòdem deixar precizamente de confessar, que he sogeita a taes differenças, que muitas vezes na simples mudança de hum lugar para outro se naõ póde conhecer, e ainda muitas vezes em si mesmo se desconhece. Em algunas occazioens se satisfaz com dar algum claram como a Lua sem comunicar calor; outras abraza como o Sol maes ardente, e intenso; mas seja o que for, sem maior exageraçaõ qualquer fermozura que se offereça revestida das circunstancias mais agradaveis, deve ser vista como huma séria reflexam. Nella com muita brevidade se póde ver outra qualquer mudança muito contraria, e diversa a esta que de prezente cauza tanta admiraçam, o que em poucos annos se póde descubrir. <milestone unit="EX" xml:id="FR.19"></milestone> Esta mudança he aquella que fez chorar 	Helena ao seu espelho, e achamar ao tempo seu terceiro, ou quarto destruidor, porque o numero de annos nem he constante, nem he certo. Estranho genero de rapto em que se vê Helena separada da mesma Helena, e aquella a quem as tres partes do mundo reconheceram pela <pb n="20"></pb> mais fermoza do seu seculo, buscando-se no vidro do seu espelho, jà naõ encontra mais que horror, e fealdade. <milestone rend="closer" unit="EX"></milestone> Esta pequena moralidade da lugar para que acabemos com outra, que pertence á obrigaçaõ que tem todas as pessoas fermozas, e sogeitas à mudança que acabamos de ponderar, de se ornarem, e compôr com a virtude que nunca se muda. Se o seu bom modo, e os seus agrados solicitados por todos os principios acharem nisto repugnancia, a sua fermosura que consiste em proporçam, ainda q̃ as suas medidas sejam differentes, tem com tudo por esta semelhança, e por esta ordem tanta analogia com a virtude, como contrariedade, e oppoziçam com o vicio irregular, e dezordenado em nodas as suas partes: E o mais licenciozo dos Poetas naõ póde deixar de reconhecer a obrigaçam, que o sexo feminino tem de amar a virtude, que he tambem do mesmo seu genero. </p>
<p rend="MO"><hi rend="italic"><milestone unit="ZM" xml:id="FR.20"></milestone> Ipsa quoque, cultu est, nomine femina virtus. <milestone rend="closer" unit="ZM"></milestone></hi></p>
<p rend="SO">E desta obrigaçam se naõ devem tambem eximir os homens, reconhecendo com huma modesta vaidade que tomando delles o nome, deve tambem delles receber toda a estimaçam, e todo o affecto: e com este adorno a humas, e a outros respeitará o mundo a sua fermozura, e se verá mais aplaudida quanto he mais duravel, e izenta das mudanças a que está sogeita toda a mais fermozura aparente, e caduca. <milestone rend="closer" unit="E2"></milestone></p>
<p><hi rend="smallcaps">Lisboa:</hi></p>
<p rend="SO">Na Officina de Pedro Ferreira, Impresssor da Augustissima Rainha Nossa Senhora. <milestone rend="closer" unit="E1"></milestone></p>
<p></p></div2></div1></body>
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                <seg type="U1">N.°.2</seg> Conversam da fealdade. <seg synch="#FR.2" type="E2"> Nam ha coiza mais admiravel, e que todos os dias
                                    vemos incessantemente reproduzida, como he a mudança repentina
                                    com que se troca a fealdade em fermosura, e o que pela manham
                                    parecia hum espectro, ou huma furia medonha, passadas algumas
                                    horas se acha convertida em prezença <pb n="14"></pb> agradavel, e
                                    objecto em que gostoza se emprega a vista. Isto que póde parecer
                                    huma coiza nova certamente a naõ he, ainda que naõ pòde deixar
                                    de se reconhecer por huma coiza bastantemente consideravel. <seg synch="#FR.3" type="EX"> Pausanias escreve que Ariston Rey
                                        de Sparta teve por esposa a mais fea de todas as filhas de
                                        Lacedemon, a qual pouco depois apareceo com huma fermozura                                        
tam excellente, que affirmaõ muitos authores, que depois
                                        daquella que foi cauza do incendio de Troya, naõ vio a
                                        Grecia naquelle sexo mulher de fermozura mais completa.
                                        Heredoto refere que esta mesma tinha de antes cazado com hum
                                        certo Agetto, e atribue esta prodigiosa mudança a hũa
                                        especie de milagre, porque tendo a ama que criava hum
                                        especial cuidado de a levar, quando era minina, todas as
                                        manhas ao Tĕmplo de Helenam, invocando-a incessantemente a
                                        seu favor, recebera por força das suas rogativas, esta
                                        graça, que esteve detida, ou suspensa até o tempo posterior
                                        ao seu cazamento segundo. </seg>
                  <seg synch="#FR.4" type="EX"> Tacito diz tambem que Livia molher
                                        de Druzo, e irmam da Germanico Imperadores Romanos fora no
                                        tempo de sua mocidade bastantemente fea, e dezagradavel, mas
                                        que ponco depois se respeitava em Roma pela mayor fermozura
                                        daquelle tempo </seg>. Pareceme que neste secundo se
                                    poderiam referir muitos mais exemplos que excedessem toda
                                    naticia destes, e de outros Historiadores, pelos repetidos
                                    aconticimentos semelhantes a estes que nos contam, se me naõ
                                    podem soffrer que dellas se diga que tambem foram feas, ainda
                                    que muitas vezes se veja a sua fealdade convertida em fermozura.
                                    Com tudo porém nam me posso eximir de acautelar aos que virem
                                    destas estimaveis fermozu-<pb n="15"></pb>ras,e que tanto lizongeam
                                    a vista, que examinem bem com seu vagar se sam daquellas em que
                                    a arte excede a natureza, e a que se pode chamar mentiras
                                    excellentes. E certamente naõ se deve estranhar que hum homem de
                                    bom senso conceba huma justa aversam a estas falsas fermozuras,
                                    da mesma forte que como se pode conceber a respeito da moeda
                                    falsa: e que sem ser sectario da Heresia dos Iconomacos seja a
                                    este respeito inimicissimo das imagens. As mulheres que naõ sam
                                    agradaveis se naõ por artificio tem muito cuidado em naõ fazer
                                        <seg synch="#FR.5" type="EX"> o que fez Venus, que foi a
                                        primeira das tres Deozas que se despojou de seus aparatozos
                                        ornamentos na prezença de Paris, para que sem o artificio da
                                        industria julgasse o merecimento da sua belleza: </seg> mas
                                    sim muito pelo contrario se escondem debaxo do branco, e do
                                    vermelho que tomam emprestado, e só assim occultas, he que se
                                    cõsideraõ com cara de aparecer, principalmente nas assembleas, e   
                                 occazioens de concurso: e tudo quanto pòde fazer o Pintor mais
                                    excellente querendo tirar o seu retrato, he copiar huma pintura
                                    para outra pintura, sendo-lhe impossivel trabalhar pelo natural.
                                    Quantas se conhecem que naõ tendo aparentemente de dia mais que
                                    vinte annos, se acham à noite ter quarenta, e cincoenta: outras
                                    aparecendo de dia huma aurora rizonha, e quasi formadas dos
                                    candidos pedaços de neve, ou à noute, ou em outros certos dias
                                    aparecem cobertas de sombra debaxo de veo natural da sua propria
                                    escuridam. Mas ao menos naõ podemos deixar de confessar que
                                    nisto conseguem a ventagem de se poderem desvanecer, que sem
                                    serem devedoras à natureza, como muitas, a sua boa graça, e as
                                    sua fermozura sam obra de suas proprias maõs. <pb n="16"></pb> Se
                                    podemos dizer que no mundo se observam fermozuras feas, naõ sera
                                    mentira se acrecentarmos que ha fermozuras perigosissimas. As
                                    cores mais agradaveis do mundo, sam as misturadas de outro, e de
                                    azul, e com tudo reluzem muitas vezes na pele de huma serpente:
                                    a Aconito tam terrivel, florece mais agradavelmente que outras
                                    muitas plantas utilissimas. Saem dos olhos de huma molher
                                    fermoza certos rayos, que influindo como os da lua fazem hum
                                    numero infinito de estolidos, e de enfermos: ou para melhor nos
                                    explicarmos, naõ contem em si parte alguma atè o minimo de seus
                                    cabellos, que naõ tenha poderoza virtude para captivar o mais
                                    sabio dos homens. <seg synch="#FR.6" type="EX"> Isto he o que
                                        fes escrever, que obrigado Leandro da força de huma
                                        fermozura, atravessou muitas vezes o Helesponto, e que todo
                                        o corpo daquella molher estava tam cheyo de differentes
                                        graças, que todos os que lhe precederaõ se enganaram quando
                                        as reduziram sòmente ao numero de tres. </seg>
                  <seg synch="#FR.7" type="EX"> E com este mesmo fundamento
                                        escrevendo Aristenetas as perfeiçoens de Cydippes
                                        extremosamente amada por Acontio, affirma que seus olhos naõ
                                        satisfeitos só das tres graças só das tres graças de Efiodo,
                                        tinhaõ mais cem que nunca os deixavam. </seg> Seja o que
                                    for, ninguem pode negar, que tudo quanto a força mais absoluta,
                                    ou a Rhetorica mais persuasiva, podem à custa de maior trabalho
                                    e de maior deligencia conseguir sobre os homens, o poem em
                                    execuçaõ o sexo a quem tocou por forte a fermozura, com hum                                    
simples descuido dos olhos, ou com os rayos de huma vista hum
                                    pouco inclinada, com o que se dicipa inteiramente toda a
                                    rezistencia que tinha encontrado o trabalho, e a persuasam. <seg synch="#FR.8" type="EX"> Quero afastar a vista de Salamam, e
                                        de outros seme-<pb n="17"></pb>lhantes a elle, para contar             
                           sòmente o que impedio ao grande seductor Mafoma a passar
                                        para Persia, confessando que sómente a aprehensam que tinha
                                        concebido das molheres daquelle paiz foi a cauza que o
                                        absteve de emprender semelhante viagem; porque eram tam
                                        cheyas de atractivos, que atè os mesmos Anjos se podiam  
                                      enamorar dellas, e sugeitarem se à sua vontade. </seg> Em
                                    todos os tempos se occuparam os Theatros em reprezentar este
                                    absuluto poder da fermozura sobre as vontades, <seg synch="#FR.9" type="EX"> e o unico exemplo de Cleopatra
                                        bastará para que se comprehenda livremente hum breve espaço
                                        de tempo na sua companhia, ainda que fosse com o excessivo
                                        preço de sua propria vida. </seg> Isto que acabamos de dizer
                                        <seg synch="#FR.10" type="EX"> sobre a ventagem das molheres
                                        da Persia, fas lembrar, que muitas outras regioens se
                                        desvanecem de produzirem as mais fermozas do mundo. </seg>
                  <seg synch="#FR.11" type="EX"> A China atribue esta grande
                                        excellencia as da Cidade de Nancheu, que he na Provincia de
                                        Nanquin; </seg>
                  <seg synch="#FR.12" type="EX"> o Padre Alvaro Semedo diz que
                                        entre as Portuguezas, saõ as da Villa de Guimaraens; </seg>
                  <seg synch="#FR.13" type="EX"> as relaçoens modernas dizem que
                                        as Thebanas, ou da Cidade de Thebas, e outros que saõ as
                                        Insulanas de Chio. </seg>
                  <seg synch="#FR.14" type="EX"> As mais raras formozuras do
                                        Serralho de Constantinopla, vem da Circassia, e da Georgia,
                                        que ficar para a parte da antiga Colchida, e se he verdade o
                                        que escreve Belon, em todo Estado de Graõ Senhor se pintaõ
                                        as molheres de amarelo; </seg> ao menos sabemos de certo que
                                    na India assim se observa, ajuntando ainda este artificio à sua
                                    propria cor natural, supondo que assim parecem mais fermozas.
                                    Sem duvida bem se pode observar que esta formozura que <pb n="18"></pb> cauza o amor, e que excita nos homens paxoens taõ
                                    violentas, nem he uniforme, nem a todos parece a mesma. <seg synch="#FR.15" type="EX"> A mocidade das Turcas he muito
                                        natural que nos naõ agrade, e muito menos as muitas fardas
                                        das Irlandezas, de que ordinariamente tem coberto o rosto. </seg>
                  <seg synch="#FR.16" type="EX"> Como seria possivel que nos
                                        agradassem as molheres de Thracia cobertas de hum numero
                                        grande de timbres de armas proporcionado ao dezejo que
                                        tinhaõ de mostrar a sua nobreza, e sem duvida de augmentar
                                        tambem com isto a sua fermozura? Assim o refere Dion
                                        Chrysostomo. </seg> Seria difficultozo crer, se as muitas
                                    relaçoens nos naõ segurassem, que ha pessoas com o rosto
                                    cortado, e cheyo de cicatrizes expressamente para augmentar a
                                    sua formozura. <seg synch="#FR.17" type="EX"> Os narizes chatos             
                           das Moiras, como tambem das mulheres da Tartaria as fas
                                        muito mais amaveis para com os seus, e o mesmo sucede como a
                                        cor negra das Ethiopes, e das de Groenlanda; </seg> pois naõ
                                    obstante a sua vizinhança do Polo ha naquellas partes, Negras
                                    como em Guiné, e aquella escuridaõ de semblantes tem forças taõ
                                    poderozas como entre nos tem a mairo alvura. Naõ me persuado que
                                    haja muitos sigaõ a opiniaõ de Pausanias, de que a Venus Negra,
                                    ou Melenida de Arcadia, tivesse este sobre nome somente porque
                                    as trevas da noute parece que foraõ destinadas para os
                                    crimonosos divertimentos atribuidos àquella Deoza dos Amores;
                                    porque cuido que a principal razaõ deste apelido se deve deduzir
                                    de que tambem a cor negra, ou parda tem seus atractivos como a
                                    branca, e vermelha, naõ havendo cor alguma que Cupido naõ
                                    empregue para mostrar todo o seu poder. Na verdade naõ deixa de
                                    ser bem verdadeiro, e bem ideado aquele Proverbio de que
                                    vulgarmente uzaõ os Italianos, <pb n="19"></pb> que naõ he bom o que
                                    he bom, mas sim o que agrada: <seg synch="#FR.18" type="ZM"> non
                                        è bello quel`ch è bello, ma quel che piace. </seg> Toda a
                                    diversidade que nisto se acha, depende do lugar, do tempo, e das
                                    pessoas. Sobre isto bem se poderia duvidar se a fermozura he
                                    alguma coiza real, e certa; porque nem a proporçam dos membros,
                                    nem a sua côr que compoem a diffiniçaõ tem couza alguma de
                                    seguro, e universal. Parece que bem a podemos considerar sómente
                                    por huma obra da nossa imaginaçaõ sogeita a mil variedades,
                                    supostas as circunstancias, que assima referimos. Mas demos-lhe
                                    toda a existencia que os seus mais apaixonados lhe atribuem, com
                                    tudo naõ pòdem deixar precizamente de confessar, que he sogeita
                                    a taes differenças, que muitas vezes na simples mudança de hum
                                    lugar para outro se naõ póde conhecer, e ainda muitas vezes em
                                    si mesmo se desconhece. Em algunas occazioens se satisfaz com
                                    dar algum claram como a Lua sem comunicar calor; outras abraza
                                    como o Sol maes ardente, e intenso; mas seja o que for, sem
                                    maior exageraçaõ qualquer fermozura que se offereça revestida
                                    das circunstancias mais agradaveis, deve ser vista como huma                 
                   séria reflexam. Nella com muita brevidade se póde ver outra
                                    qualquer mudança muito contraria, e diversa a esta que de
                                    prezente cauza tanta admiraçam, o que em poucos annos se póde
                                    descubrir. <seg synch="#FR.19" type="EX"> Esta mudança he
                                        aquella que fez chorar Helena ao seu espelho, e achamar ao
                                        tempo seu terceiro, ou quarto destruidor, porque o numero de
                                        annos nem he constante, nem he certo. Estranho genero de
                                        rapto em que se vê Helena separada da mesma Helena, e
                                        aquella a quem as tres partes do mundo reconheceram pela <pb n="20"></pb> mais fermoza do seu seculo, buscando-se no
                                        vidro do seu espelho, jà naõ encontra mais que horror, e
                                        fealdade. </seg> Esta pequena moralidade da lugar para que
                                    acabemos com outra, que pertence á obrigaçaõ que tem todas as
                                    pessoas fermozas, e sogeitas à mudança que acabamos de ponderar,
                                    de se ornarem, e compôr com a virtude que nunca se muda. Se o
                                    seu bom modo, e os seus agrados solicitados por todos os
                                    principios acharem nisto repugnancia, a sua fermosura que
                                    consiste em proporçam, ainda q̃ as suas medidas sejam
                                    differentes, tem com tudo por esta semelhança, e por esta ordem
                                    tanta analogia com a virtude, como contrariedade, e oppoziçam
                                    com o vicio irregular, e dezordenado em nodas as suas partes: E
                                    o mais licenciozo dos Poetas naõ póde deixar de reconhecer a
                                    obrigaçam, que o sexo feminino tem de amar a virtude, que he
                                    tambem do mesmo seu genero. <seg synch="#FR.20" type="ZM"> Ipsa
                                        quoque, cultu est, nomine femina virtus. </seg> E desta
                                    obrigaçam se naõ devem tambem eximir os homens, reconhecendo com
                                    huma modesta vaidade que tomando delles o nome, deve tambem
                                    delles receber toda a estimaçam, e todo o affecto: e com este
                                    adorno a humas, e a outros respeitará o mundo a sua fermozura, e
                                    se verá mais aplaudida quanto he mais duravel, e izenta das
                                    mudanças a que está sogeita toda a mais fermozura aparente, e
                                    caduca. </seg> Lisboa: Na Officina de Pedro Ferreira, Impresssor
                                da Augustissima Rainha Nossa Senhora. </seg>
            </ab>
          </div>
        </body>
      </text>
    </group>
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</TEI>
