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        <title>Num.° 12. </title>
        <author>Anónimo (Bento Morganti)</author>
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        <edition>Moralische Wochenschriften</edition>
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          <name>Klaus-Dieter Ertler</name>
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          <name>Hans Fernández</name>
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          <name>Gerlinde Schneider</name>
          <name>Martina Scholger</name>
          <name>Johannes Stigler</name>
          <name>Gunter Vasold</name>
          <resp>Datenmodellierung</resp>
          <resp>Applikationsentwicklung</resp>
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      <publicationStmt>
        <publisher>
          <orgName ref="http://romanistik.uni-graz.at/">Institut für Romanistik,
                        Universität Graz</orgName>
        </publisher>
        <publisher>
          <orgName ref="http://informationsmodellierung.uni-graz.at">Zentrum für
                        Informationsmodellierung, Universität Graz</orgName>
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        <pubPlace>Graz</pubPlace>
        <date when="2018-10-04">04.10.2018</date>
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        <bibl>Anónimo (Morganti, Bento): Segunda Collecçam dos Papeis Anonymos. Lisboa:
                    Pedro Ferreira, 1753, 89-96 </bibl>
        <bibl type="Einzelausgabe" xml:id="OAn">
          <title level="j">O Anonymo. Repartido pelas
                        semanas, para divertimento e utilidade do publico</title>
          <biblScope unit="volume">2</biblScope>
          <biblScope unit="issue">012</biblScope>
          <date>1753</date>
          <placeName key="#GID.1">Portugal</placeName>
        </bibl>
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<p rend="EU"><milestone unit="E1" xml:id="FR.1"></milestone></p>
<div1><head>N.°.12</head>
<div2><head><hi rend="italic">De huma inscripçaõ Antiga </hi></head>
<p rend="SO"><milestone unit="E2" xml:id="FR.2"></milestone> Nam ha genero de amizade mais gostoza para os homens que procuram aplicarse em aproveitar o tempo, que tanto foge, como he a comunicaçaõ com as pessoas de <pb n="90"></pb> quem se póde tirar alguma utilidade para o estudo proprio, e para a instrucçaõ do publico; sendo certo, que por mais barbara que seja huma Naçam, sempre nella ha sogeitos, que estimam todos, e quaesquer meyos que se lhe offerecem para desterrar a ignorancia. Para conseguir este fim conservo alguma correspondencia, e frequento a comunicaçaõ de alguns amigos a quem naõ poupo, para me instruir no que naõ sei, e dezejo saber; maxima na verdade recomendavel, e que todos devem practicar, porque ha infalivelmente certo que nem todos sabem tudo, e por mais que hum homem prezume que sabe, deve modestamente considerar que por superior que seja o seu engenho, póde haver outro de mais elevado espirito que possa subir mais degraos para se aproximar ao venerado cume do excelso monte da sabedoria: naõ havendo tambem couza mais detestavel que prezunçaõ, e vaidade que os homens formam de seu proprio juizo, devendo cada hum a propriar para si a maxima do Filosofo, quando preguntado pelo que sabia respondeo com modestia, e compultura scientifica, <milestone unit="ZM" xml:id="FR.3"></milestone> <hi rend="italic">que sómente sabia</hi>, <hi rend="italic">que</hi> <pb n="91"></pb> <hi rend="italic">nada sabia. <milestone rend="closer" unit="ZM"></milestone></hi> Mas desprezada a verdade desta maxima, e contra toda a boa doutrina Filosofica-Moral, e ainda Escolastica, nenhuma outra couza se encontra ordinariamente no commum dos homens mais que vaidade presumptuoza unida a huma ignorancia crassa, e poucas vezes vencivel, para o que naõ bastam nem as doutrinas, nem os exemplos; porque estes se desprezam, e aquellas se naõ ouvem. </p>
<p>Para practicarmos do modo possivel hum uzo contrario do que se observa, eu, e os meos amigos naõ deixamos de nos alegrar muito quando se encontra alguma occaziam em que haja perguntas, e respostas; porque corremos com tam boa armonia que nem se argue ignorancia ao que pergunta, nem a vaidade incha ao que responde; porque no que se pergunta póde naõ haver intrinsecamente motivo de qualificar ignorancia, e muito mais quando a duvida se funda em materia pouco uzada. </p>
<p><milestone unit="EX" xml:id="FR.4"></milestone> Por este principio de nossa boa instrucçaõ, e soccorro mutuo que queremos dar huns aos outros, me mandou hum dos amigos da nossa sociedade a copia de huma ins-<pb n="92"></pb>cripçaõ sepulchral que se achou em huma pedra, querendo abrirse o alicerse para reedificaçaõ de humas cazas perto da Freguezia de Santa Maria Magdalena, a qual junto com outras que se conservam servem de hum bom argumento de antiguidade no tempo que os Romanos occuparam este Reyno, entam Provincia da sua juridiçaõ, entre todas me dizia ser esta a mais particular, e como tal lhe coube a peor forte, porque sendo a mais distinta no merecimento, foi a que primeiro se sepultou para se ignorar; experimentado ainda o insensivel os effeitos ou da emulaçam, ou da infelicidade, desterrando-se como desconhecimento a sua memoria. E foi precizo que hum estranho lhe desse nova luz com a sua curiozidade, já que lha extinguiram cegos os meus compatriotas, e he desgraça que se ache no animo de hum alheyo, pela origem, a vida de que a privaram os naturaes, a quem por obrigaçam corria o conservarlha. <milestone unit="ZM" xml:id="FR.5"></milestone> Se o homem he o lobo do outro homem <milestone rend="closer" unit="ZM"></milestone> para lhe devorar a sua estimaçam, nam sei porque oculta influencia até as pedras de hum mesmo paiz, de huma mesma terra, e de <pb n="93"></pb> hum mesmo Reyno se revestem da mesma inclinaçaõ, ainda que sem ser por seu proprio movimento, e acçaò, para conculcarem humas, a outras e extinguirem o seu merecimento, e a sua mesma serventia. </p>
<p>Constava esta pedra de humas letras Romanas, bellissimamente intalhadas, algumas dellas cheyas do mesmo bitume que o tempo, e a terra deixaram por consumir; talvez para mostrar como se devem guardar tezouros que se podem converter em beneficio da parte mais nobre que anima o homem, como he o entendimento, e muito cautelozamente copiou o meu amigo o que ella continha, com o receyo de que a ignorancia dos que vissem esta averiguaçam, lhe ocazionase algum motim quando se vê huma couza estranha, e dezuzada. Mas naõ lhe faltando engenho, e promptidaò tirou a copia, e era da fórma seguinte. </p>
<p><pb n="94"></pb><hi rend="italic"> <milestone unit="ZM" xml:id="FR.6"></milestone> D.M. M Varonis Quaefloris Qui post natalem suum Tertium supra trigessimum <lb></lb>Pruna in pensuli posita Urgente facto ip Se sanum necavit se L. varro &amp; Fulvia Aelia Filio <lb></lb>pientissimo &amp; sibi H. M. F. F. <milestone rend="closer" unit="ZM"></milestone></hi></p>
<p rend="SO">O estranho, e dezudado da expressam deste Epitafio sepulchral à memoria deste Questor, e o modo da sua morte, moveo a curiozidade deste amigo a fazer sobre ella algumas perguntas, porque nam achou em toda historia antiga documento que lhe desterasse inteiramente o desconhecimento da sua verdadeira intelligencia. </p>
<p>Nam ha duvida que he obscuro, e difficultozo o verdadeiro sentido desta inscripçam na parte em que se lê = <milestone unit="ZM" xml:id="FR.7"></milestone> <hi rend="italic">Pruna in pensili posita ipse sanum necavit se</hi> = <milestone rend="closer" unit="ZM"></milestone> E que he precizo revolver muitos livros para se encontrar com couza que ou seja certa, ou ao menos que se naõ desvie muito da sua propia intelligencia; mas nem por isso se podem deixar <pb n="95"></pb> de fazer muitas conjecturas de verosimilidade, com as quaes ainda que de todo se nam acerte, bem póde satisfazerse o juizo em quanto mais amplamente se naõ toca no ponto fixo que he precizo descobrir, para em cazos semelhantes ficar huma clareza que sirva de norma à curiozidade dos vindodouros, assim como os passados deixaram muitos de que commumente se servem os prezentes. <milestone rend="closer" unit="EX"></milestone> </p>
<p>Com o zelo de ser util ao exercicio das bellas letras recorreo a certa sociedade, para que sendo muitos os que nella se ajuntam, della rezultasse algum documento como que satisfizesse o seu juizo, e depois comunicala ao commum, fazendolhe por meyo de seu trabalho este beneficio; mas informando-me de que até o prezente se conservava o mesmo silencio, me rezolvi tambem a tomar parte do seu trabalho, comunicando-a ao publico para que todos saibam os documentos que se acham para credito dos Lusitanos, e darlhe alguma occaziam de se aplicarem no estudo de couzas antigas, ainda que cuido que por nam ser da moda, o julgam de pouca serventia; e eu, e os meus amigos teremos grande satisfaçaõ em saber alguma inte-<pb n="96"></pb>ligenca sobre esta inscripçam antiga, vendo que ainda naõ está nesta parte inteiramente extinto o exemplo de alguns Authores que nos passados seculos trabalharam em aclarar muitas couzas semelhantes a estas que respectivamente se descobriram em seus tempos. </p>
<p>Foi meu primeiro intento offerecer juntamente com a noticia desta pergunta o que sobre ella me occorreo responder; mas com o receyo de tropeçar, certo de que naõ tenho quem me offereça a maõ, antes sim quem me ajude a cahir de todo, por isso nada digo por agora a este respeito, mas modestamente acabo, com o mesmo que em semelhante conjunctura disse hum doutodos seculos passados: <milestone unit="ZM" xml:id="FR.8"></milestone> <hi rend="italic">Ego autem nihil affirmo, sed sententiam vestram expecto, ut sequar. <milestone rend="closer" unit="ZM"></milestone> <milestone rend="closer" unit="E2"></milestone></hi></p>
<p>Na Officina de Pedro Ferreira, Impressor da Augustissima Rainha nossa Senhora. <milestone rend="closer" unit="E1"></milestone></p>
<p></p></div2></div1></body>
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                                    que seja huma Naçam, sempre nella ha sogeitos, que estimam
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                                    ignorancia. Para conseguir este fim conservo alguma
                                    correspondencia, e frequento a comunicaçaõ de alguns amigos a
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                                    maxima na verdade recomendavel, e que todos devem practicar,
                                    porque ha infalivelmente certo que nem todos sabem tudo, e por
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                                    se aproximar ao venerado cume do excelso monte da sabedoria: naõ
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                                    que os homens formam de seu proprio juizo, devendo cada hum a
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                                    Escolastica, nenhuma outra couza se encontra ordinariamente no
                                    commum dos homens mais que vaidade presumptuoza unida a huma
                                    ignorancia crassa, e poucas vezes vencivel, para o que naõ
                                    bastam nem as doutrinas, nem os exemplos; porque estes se
                                    desprezam, e aquellas se naõ ouvem. Para practicarmos do modo
                                    possivel hum uzo contrario do que se observa, eu, e os meos                                    
amigos naõ deixamos de nos alegrar muito quando se encontra
                                    alguma occaziam em que haja perguntas, e respostas; porque
                                    corremos com tam boa armonia que nem se argue ignorancia ao que
                                    pergunta, nem a vaidade incha ao que responde; porque no que se                             
       pergunta póde naõ haver intrinsecamente motivo de qualificar
                                    ignorancia, e muito mais quando a duvida se funda em materia
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                                        aos outros, me mandou hum dos amigos da nossa sociedade a
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                                        que a privaram os naturaes, a quem por obrigaçam corria o
                                        conservarlha. <seg synch="#FR.5" type="ZM"> Se o homem he o
                                            lobo do outro homem </seg> para lhe devorar a sua
                                        estimaçam, nam sei porque oculta influencia até as pedras de
                                        hum mesmo paiz, de huma mesma terra, e de <pb n="93"></pb> hum
                                        mesmo Reyno se revestem da mesma inclinaçaõ, ainda que sem
                                        ser por seu proprio movimento, e acçaò, para conculcarem
                                        humas, a outras e extinguirem o seu merecimento, e a sua
                                        mesma serventia. Constava esta pedra de humas letras
                                        Romanas, bellissimamente intalhadas, algumas dellas cheyas
                                        do mesmo bitume que o tempo, e a terra deixaram por
                                        consumir; talvez para mostrar como se devem guardar tezouros                                   
     que se podem converter em beneficio da parte mais nobre que
                                        anima o homem, como he o entendimento, e muito
                                        cautelozamente copiou o meu amigo o que ella continha, com o
                                        receyo de que a ignorancia dos que vissem esta averiguaçam,
                                        lhe ocazionase algum motim quando se vê huma couza estranha,     
                                   e dezuzada. Mas naõ lhe faltando engenho, e promptidaò tirou
                                        a copia, e era da fórma seguinte. <pb n="94"></pb>
                    <seg synch="#FR.6" type="ZM"> D.M. M Varonis Quaefloris Qui
                                            post natalem suum Tertium supra trigessimum <lb></lb>Pruna
                                            in pensuli posita Urgente facto ip Se sanum necavit se                                     
       L. varro &amp; Fulvia Aelia Filio <lb></lb>pientissimo &amp;
                                            sibi H. M. F. F. </seg> O estranho, e dezudado da
                                        expressam deste Epitafio sepulchral à memoria deste Questor,
                                        e o modo da sua morte, moveo a curiozidade deste amigo a
                                        fazer sobre ella algumas perguntas, porque nam achou em toda
                                        historia antiga documento que lhe desterasse inteiramente o
                                        desconhecimento da sua verdadeira intelligencia. Nam ha
                                        duvida que he obscuro, e difficultozo o verdadeiro sentido
                                        desta inscripçam na parte em que se lê = <seg synch="#FR.7" type="ZM"> Pruna in pensili posita ipse sanum necavit se
                                            = </seg> E que he precizo revolver muitos livros para se
                                        encontrar com couza que ou seja certa, ou ao menos que se
                                        naõ desvie muito da sua propia intelligencia; mas nem por
                                        isso se podem deixar <pb n="95"></pb> de fazer muitas
                                        conjecturas de verosimilidade, com as quaes ainda que de
                                        todo se nam acerte, bem póde satisfazerse o juizo em quanto
                                        mais amplamente se naõ toca no ponto fixo que he precizo
                                        descobrir, para em cazos semelhantes ficar huma clareza que
                                        sirva de norma à curiozidade dos vindodouros, assim como os
                                        passados deixaram muitos de que commumente se servem os
                                        prezentes. </seg> Com o zelo de ser util ao exercicio das
                                    bellas letras recorreo a certa sociedade, para que sendo muitos
                                    os que nella se ajuntam, della rezultasse algum documento como
                                    que satisfizesse o seu juizo, e depois comunicala ao commum,
                                    fazendolhe por meyo de seu trabalho este beneficio; mas
                                    informando-me de que até o prezente se conservava o mesmo
                                    silencio, me rezolvi tambem a tomar parte do seu trabalho,
                                    comunicando-a ao publico para que todos saibam os documentos que
                                    se acham para credito dos Lusitanos, e darlhe alguma occaziam de
                                    se aplicarem no estudo de couzas antigas, ainda que cuido que
                                    por nam ser da moda, o julgam de pouca serventia; e eu, e os
                                    meus amigos teremos grande satisfaçaõ em saber alguma inte-<pb n="96"></pb>ligenca sobre esta inscripçam antiga, vendo que
                                    ainda naõ está nesta parte inteiramente extinto o exemplo de
                                    alguns Authores que nos passados seculos trabalharam em aclarar
                                    muitas couzas semelhantes a estas que respectivamente se
                                    descobriram em seus tempos. Foi meu primeiro intento offerecer
                                    juntamente com a noticia desta pergunta o que sobre ella me                           
         occorreo responder; mas com o receyo de tropeçar, certo de que
                                    naõ tenho quem me offereça a maõ, antes sim quem me ajude a
                                    cahir de todo, por isso nada digo por agora a este respeito, mas
                                    modestamente acabo, com o mesmo que em semelhante conjunctura
                                    disse hum doutodos seculos passados: <seg synch="#FR.8" type="ZM"> Ego autem nihil affirmo, sed sententiam vestram
                                        expecto, ut sequar. </seg>
                </seg> Na Officina de Pedro Ferreira, Impressor da Augustissima
                                Rainha nossa Senhora. </seg>
            </ab>
          </div>
        </body>
      </text>
    </group>
  </text>
</TEI>
