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        <title>Num. 5</title>
        <author>Anónimo (Bento Morganti)</author>
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        <edition>Moralische Wochenschriften</edition>
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                        Universität Graz</orgName>
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          <orgName ref="http://informationsmodellierung.uni-graz.at">Zentrum für
                        Informationsmodellierung, Universität Graz</orgName>
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        <date when="2018-10-04">04.10.2018</date>
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        <bibl>Anónimo (Morganti, Bento): Segunda Collecçam dos Papeis Anonymos. Lisboa:
                    Pedro Ferreira, 1753, 33-40 </bibl>
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          <title level="j">O Anonymo. Repartido pelas
                        semanas, para divertimento e utilidade do publico</title>
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          <date>1753</date>
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<p rend="EU"><milestone unit="E1" xml:id="FR.1"></milestone></p>
<div1><head>N.°.5</head>
<div2><head><hi rend="italic">Sonho moral. </hi></head>
<p rend="SO"><hi rend="smallcaps"><milestone unit="E2" xml:id="FR.2"></milestone> De</hi>pois de ter revolvido varios daquelles papeis para ver em que havia pegar primeiro, como naõ faço esta diligencia se naõ quando quero fazer horas para me deitar, apertou como o sono, e naõ tive mais remedio, que ceder ás suas forças, e dar lugar a que fizesse de mim o que lhe pareceo. Encosteime hum pouco com tençaõ de naõ ser por muito tempo, mas enganeime de meyo a meyo: porq̃ pegou em mim de taõ de võtade, que assim vestido, inteiro, e entregado passei toda a noite sem mudar de sitio. <milestone unit="AE" xml:id="FR.3"></milestone> Acordei pela manhan, vi o dia claro, e disse comigo: boa a fiz; isto para a saude he <pb n="34"></pb> huma maravilha; naõ havia osso que me naõ doesse, porque fiquei com o corpo torcido, encostado a hum braço, o pescoço dependurado, e todo eu feito em hum novello. Mas tudo isto me pareceu nada àvista (sic) de gosto, que tive lembrando-me do que sonhei em todo aquelle tempo; e nesta ocasiaõ acabei de conhecer, que naõ ha cousa mais certa, que sonhar hum homem dormindo o que muitas vezes fala acordado; ou que retendo a idèa muitas especies do que se pratìca de dia, fórma a imaginaçaõ as praticas, as vistas, os passeos, as negociaçoens, e outras cousas semelhantes de que se excitam os sonhos; o como isto se faz, corre por conta dos Medicos; e certo he, que eu sonhei com o mesmo sobre que tinha ouvido falar no dia antecedente, que foi sobre huma conferencia, ou conversaçaõ que teve Alexandre com Diogenes Cinico. Como esta foi a ultima cousa sobre que discorri com outros amigos, foi tambem a primeira com que sonhei, e ainda que isto foi entre especies confuzas, quando acordei là me lembràram algumas, e o melhor que pude fiz meus apontamentos para naõ perder de todo a lembrança, com tençaõ de quando tivesse tempo, pôr em alguma ordem esta pratîca, porque lá viria tempo que servisse. Assim como pude fui escrevendo o que me lembrava, e tal qual he ahi a remetto aos amigos da Corte, e segundo o que me parece, entendo que della naõ falta que aproveitar, o ponto he saber bem escolher: mas a isto digo: <milestone unit="ZM" xml:id="FR.4"></milestone> <hi rend="italic">quis potest capere capiat</hi> <milestone rend="closer" unit="ZM"></milestone> Alexandre. <milestone unit="TR" xml:id="FR.5"></milestone> Naõ me conheces? Pois sabe que sou o Grande Alexandre. </p>
<p>Diogenes. E tu naõ me conheces ò Magnanimo Rey? Pois eu sou Diogenes. </p>
<p>A. Eu sou aquelle filho de Jupiter Amon. </p>
<p>D. E eu sou o filho de <milestone unit="ZM" xml:id="FR.6"></milestone> <hi rend="italic">Serapis que morde. <milestone rend="closer" unit="ZM"></milestone></hi> </p>
<p>A. Eu sou o que descarrego vigorozos golpes com a espada. </p>
<p><pb n="55"></pb> D. E eu os descarrego tambem com a lingoa. </p>
<p>A. Eu disbarato exercitos inteiros com os meus soldados. </p>
<p>D. E eu acometo com os meus dentes Cidades inteiras. </p>
<p>A. Naõ sabes, que sou o Macedonico! </p>
<p>D. E eu o Cinico, ainda que me naõ importa que saibas. </p>
<p>A. Eu naõ caibo no Mundo. </p>
<p>D. E para mim he bastante lugar esta tina. </p>
<p>A. Naõ tremes com a minha presença? </p>
<p>D. Eu naõ sou folha, que haja de tremer com qualquer vento; porque o poder humano he hum leve vento a respeito da Omnipotentia Divina. </p>
<p>A. Eu sou aquelle vento, que arranca as arvores mais antigas, e que destruo os corpos mais robustos. </p>
<p>D. Pois quanto mas sopras, mais depressa passas. </p>
<p>A. Ao meu Cetro se curvaõ os Tronos, e se postraõ os Imperios. </p>
<p>D. Naõ: elle he o que se curva para usurpar Imperios, e pescar Tronos. </p>
<p>A. Logo eu sou ladram, usurpador, e pescador! </p>
<p>D. <milestone unit="FP" xml:id="FR.7"></milestone> Sim tudo isto es. Porque es ladraõ coroado, e pescador de enguias: pois quando hum Rey toma o que he seu, he ladram coroado. e pescador de enguias, porque saõ de pouca consideraçaõ as conquistas terenas. Vôs outros Monarcas naõ fazeis escrupulo de usurpar Provincias inteiras, ao mesmo tempo que mandaes tirar a vida aos miseraveis, que roubaõ huma pequena ceza. Pescaes os Reynos no turbido das revoluçoens, assim como faz o Pescador com as enguias batendo as aguas dos lagos, mas depois vos fogem tambem das mãos os Reynos, assim como ao pescador fogem as anguias. Nesta mũdana pesca tudo o que se toma, quanto mais se aperta tanto mais foge. <milestone rend="closer" unit="FP"></milestone></p>
<p><pb n="36"></pb> A. Tu Diogenes tens muita liberdade em falar! </p>
<p>D. Porque tambem vòs fois muito resoluto em adquirir. </p>
<p>A. Eu se tomo os Estados alheos he para os dar, e naõ para os reter. </p>
<p>D. Excellente generosidade de ser liberal do que naõ he seu? </p>
<p>A. Os Reys tem o Direito nas armas, e valem mais as pontas das espadas, que os paragrafos das Leys para decidir qual seja o Senhor do Mundo: porque nacendo este livre, foy decretado pela fortuna para quem o ocupasse com valor: e por isso he de quem o ganha. </p>
<p>D. As armas ordinariamente se apoderam com a força de tudo quanto se naõ pòde conseguir com a razaõ. Vòs outros destruidores da terra formais de cada pretexto hum artigo para convalidar as vossas conquistas. Vós como filho putativo de Jupiter pertendeis ter nacido herdeiro do universo, mas nisto vos enganais muito; porq̃ vos naõ pertence mais que sete palmos da terra como a outro qualquer homem. E assim seja o vosso sepulcro hum magestozo cenotafio, tam magnifico como o vosso Trono, <milestone unit="FP" xml:id="FR.8"></milestone> quaes seraõ os vossos creados, e os vossos cortezãos depois da morte? Naõ seraõ outros mais que aranhas, ratos, toupeiras, bichos, moscas; que todos estes verdadeiramente saõ os symbolos dos que assistem nas Cortes. <milestone rend="closer" unit="FP"></milestone> </p>
<p>A. Ouvis amigos como vos trata este Filosofo, ou como vos morde este Cinico? </p>
<p>D. Naõ vos admireis; porque naõ he justo que trate melhor os creados do que o amo. </p>
<p>A. <milestone unit="FP" xml:id="FR.9"></milestone> E com effeito parecem estes meus creados, e cortezãos moscas, bichos, toupeiras, ratos e aranhas? </p>
<p>D. Naõ ha duvida, que assim me parecem, porque na verdade o saõ. <milestone rend="closer" unit="FP"></milestone> </p>
<p><pb n="37"></pb> A. Grande liberdade de Filosofo! ora prova o que dizes, e ouviremos a tua prova, mas esta ha de ser som sophismas. </p>
<p>D. Eu abomino os sophismas, e <milestone unit="EX" xml:id="FR.10"></milestone> arrenego de quantos sophistas houve em Tiro, Smirna, Pergam, Epheso, Larisso, Assiria, Bithinia, Sidonia, Cilicia, Carthago, e Athenas, juntamente com toda a mentiroza Grecia, que todas estas foraõ patrias dos Sophistas antigos, e se houvesse de referir as dos modernos nam poderiam caber em hum grande Calepino. <milestone rend="closer" unit="EX"></milestone> Todos elles foraõ Espectros da Filosofia, Fantasmas da verdade, Mascaras as Escolas, Hipocritas das Academias, e Romendões dos argumentos; <milestone unit="SP" xml:id="FR.11"></milestone> Eu naõ ando com o pescosso torto à Beata, nem trago a barba penteada como cauda de Andorinha: Vedes as minhas mãos, que naõ tem unhas de Grifo; porque só me valho dos dentes para dar alguma mordedela no vicio, mas naõ das unhas para rapinar o ouro, e a prata, nem as bolças alheas. Olhai bem para mim desde a cabeça atè os pès, e vereis como sou pobre, e disto podereis logo inferir que sou Filosofo professor da verdade, a qual anda nua da mesma sorte, que anda a verdadeira Filosofia, porque cada hum lhe arranca hum pedaço de vestido. <milestone rend="closer" unit="SP"></milestone> </p>
<p>A. Assim serà, mas eu com tudo vejo que trazes hum capote bem forrado. </p>
<p>D. <milestone unit="SP" xml:id="FR.12"></milestone> Isto que vez he misteriozo. Eu sou o primeiro Filosofo, que uzou disto; naõ para me reparar do frio, porque para me instruir no sofrimento muitas vezes me exponho à neve; <milestone rend="closer" unit="SP"></milestone> mas para ensinar que se devem evitar as frioleiras, deixando o uzo dellas para mancebos, que sómente cuidaõ no que lhes permitte a sua idade: porque este genero de falar naõ concorda com a Filosofia seria. </p>
<p><pb n="38"></pb> A. Tudo està muito bem; mas tu ainda me naõ mostras como estes meus creados sejaõ aquelles que simbolicamente chamastes? </p>
<p>D. Entendo, que quereis cossar a cegarrega para que cante naõ sendo Agosto! Naõ me façais falar; porque direi muito, e mais do que talvez tereis gosto de ouvir. </p>
<p>A. Dize quanto quizeres, pois eu vim muito de proposito para te ouvir, já que te chamas cegarrega. </p>
<p>D. Eu sim sou cegarrega; mas das que se nutrem com o orvalho; isto he com a razaõ natural que o Ceo me destilla; e por isso inimigo do artificio com que se alimentaõ ainda à vossa custa esses qu e vos assistem, e por isto saõ aquelles que eu disse. </p>
<p>A. Mas como? </p>
<p>D. <milestone unit="FP" xml:id="FR.13"></milestone> Os que vos assistem saõ como moscas, porque se andaõ pondo sempre nos vossos ouvidos cheios de adulaçaõ, e vos cercaõ, porque tendes muito daquelle mel, que move os humores, e adoça a boca. <milestone rend="closer" unit="FP"></milestone> </p>
<p>A. Queres por ventura dizer nisto o ouro? </p>
<p>D. Isso mesmo quero dizer, da mesma sorte que pela prata se figura o leite, que atrahe a si tambem as mosca: <milestone unit="FP" xml:id="FR.14"></milestone> Por isso os judeos, que tudo entendem pela casca, e naõ segundo o miolo, se apressaõ, e trabalhaõ para chegar à terra prometida abundante de leite, e de mel, porque se figuraõ ser abundantissima de prata, de ouro, e assim fazem ordinariamente os que assistem aos Principes, que somente os seguem pelo interesse, e convenciencia propria, e naõ por amor. <milestone rend="closer" unit="FP"></milestone> </p>
<p>A. Disseste muito bem, mas prova agora como saõ bichos. </p>
<p>D. Isto he muito facil de provar; <milestone unit="FP" xml:id="FR.15"></milestone> saõ estes taes bichos da seda, que sempre trabalhaõ com a boca. Nascidos como estes bichos, de huma pequena semente (por-<pb n="39"></pb>que ordinariamente saõ de pequena consideraçaõ no seu principio) se alimentaõ de folhas, isto he da verde esperança de subir: tanto que estaõ gordos, vaõ subindo por huns ramos muitos secos, à força de empurroens, e penetrantes picaduras: quando se achaõ no alto principiaõ a fabricar huma armadilha, ordindo invençoenes subtis, e calumnias refinadas, em que por ultimo elles mesmo cahem, e ficaõ prezos. <milestone rend="closer" unit="FP"></milestone> </p>
<p>A. Ora vede amigos como o cinico vos trata; mas que semelhança tem com as toupeiras. </p>
<p>D. <milestone unit="FP" xml:id="FR.16"></milestone> Saõ toupeiras cegas naõ só porque naõ vem, mas porque naõ querem ver aquella luz que alumia, e aclara o homem interior: saõ toupeiras porque se nutrem da terra, e porque nos mesmos affectos da terra vivem sepultados, e nunca abrem os olhos da consideraçaõ se naõ quando morrem. <milestone rend="closer" unit="FP"></milestone> Oh (dizem entaõ) quem tivera servido taõ cuidadosamente a Deos assim como servimos ao Principe que este foi só o nosso Deos; mas Deos ordinariamente sem mãos, como Dagon, porque o Principe que naõ dá, e naõ premea he muito semelhante a elle, e por isto naõ foi Deos verdadeiro, mas supersticioso, que somente lhe agrada o fumo: sendo que o verdadeiro chamando-se Deos porque dà, difunde, e espalha beneficio a luz, e porque naõ he hum Deos das toupeiras, por isso aquelles o naõ conhecem. </p>
<p>A. Dizes excellentemente; mas que semelhança tem com os ratos? </p>
<p>D. <milestone unit="FP" xml:id="FR.17"></milestone> A estes insectos naõ muito semelhantes; porque ha muita quantidade de ratos aonde ha mais abundancia, e se encontraõ com mais frequencia, e por isso naõ faltaõ nos Palacios dos Principes, onde tudo anda a rodo, porque toda a natureza se dezentranha <pb n="40"></pb> para lhe offerecer as iguarias mais esplendidas, e saborozas, saõ ratos, e ratos pessimos porque com a sua lingua roem continuamente, e quando naõ tem em que roer, roem no mesmo Principe. Saõ ratos porque <milestone unit="ZM" xml:id="FR.18"></milestone> <hi rend="italic">muribus magna est dulcedo furandi <milestone rend="closer" unit="ZM"></milestone></hi> como diz Textor, e vivem ordinariamente de furto, e de rapina. <milestone rend="closer" unit="FP"></milestone> </p>
<p>A. Muito bem te tenho entendido amigo Diogenes; mas dame tambem agora algum documento que me sirva de antidoto para me perservar da tua censura critica. <milestone rend="closer" unit="TR"></milestone></p>
<p>Estando nestas ultimas palavras, e tendo Diogenes ja quasi a resposta na boca, dei huma volta, e acordei, mas como o sono era bastante, peguei outra vez nelle, e como a idea se achava gostoza de ouvir semelhante pratica, tornei outra vez a continuar no mesmo sonho, e là me causava meus sustos ver, que se perderia o fio, mas sucedeume bem, porque naõ perdi couza alguma daquella boa conversaçaõ, e fiz muito para que me naõ esquecesse nada. Como foi dilatada, custoume muito fazer della huma reminiscencia, e pouco a pouco direi o que me for lembrando. e já naõ pòde ser por junto serà por partes, por naõ perder o costume; que assim faz quem como eu tem pouca memoria, e menos entendimento, mas a vontade he grande de servir o publico em cousa em que lhe possa ter alguma serventia. <milestone rend="closer" unit="AE"></milestone> <milestone rend="closer" unit="E2"></milestone></p>
<p><hi rend="smallcaps">Lisboa: </hi></p>
<p rend="SO">Na Officina de <hi rend="smallcaps">Pedro Ferreira</hi>, Impressor da Augustissima Rainha Nossa Senhora, <milestone rend="closer" unit="E1"></milestone> </p>
<p></p></div2></div1></body>
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                <seg type="U1">N.°.5</seg> Sonho moral. <seg synch="#FR.2" type="E2"> Depois de ter revolvido varios daquelles papeis para ver em
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                                        novello. Mas tudo isto me pareceu nada àvista (sic) de
                                        gosto, que tive lembrando-me do que sonhei em todo aquelle
                                        tempo; e nesta ocasiaõ acabei de conhecer, que naõ ha cousa
                                        mais certa, que sonhar hum homem dormindo o que muitas vezes
                                        fala acordado; ou que retendo a idèa muitas especies do que
                                        se pratìca de dia, fórma a imaginaçaõ as praticas, as
                                        vistas, os passeos, as negociaçoens, e outras cousas
                                        semelhantes de que se excitam os sonhos; o como isto se faz,
                                        corre por conta dos Medicos; e certo he, que eu sonhei com o
                                        mesmo sobre que tinha ouvido falar no dia antecedente, que
                                        foi sobre huma conferencia, ou conversaçaõ que teve
                                        Alexandre com Diogenes Cinico. Como esta foi a ultima cousa
                                        sobre que discorri com outros amigos, foi tambem a primeira
                                        com que sonhei, e ainda que isto foi entre especies
                                        confuzas, quando acordei là me lembràram algumas, e o melhor
                                        que pude fiz meus apontamentos para naõ perder de todo a
                                        lembrança, com tençaõ de quando tivesse tempo, pôr em alguma
                                        ordem esta pratîca, porque lá viria tempo que servisse.
                                        Assim como pude fui escrevendo o que me lembrava, e tal qual
                                        he ahi a remetto aos amigos da Corte, e segundo o que me
                                        parece, entendo que della naõ falta que aproveitar, o ponto
                                        he saber bem escolher: mas a isto digo: <seg synch="#FR.4" type="ZM"> quis potest capere capiat </seg> Alexandre.
                                            <seg synch="#FR.5" type="TR"> Naõ me conheces? Pois sabe
                                            que sou o Grande Alexandre. Diogenes. E tu naõ me
                                            conheces ò Magnanimo Rey? Pois eu sou Diogenes. A. Eu
                                            sou aquelle filho de Jupiter Amon. D. E eu sou o filho
                                            de <seg synch="#FR.6" type="ZM"> Serapis que morde.
                                            </seg> A. Eu sou o que descarrego vigorozos golpes com a
                                            espada. <pb n="55"></pb> D. E eu os descarrego tambem com a
                                            lingoa. A. Eu disbarato exercitos inteiros com os meus
                                            soldados. D. E eu acometo com os meus dentes Cidades
                                            inteiras. A. Naõ sabes, que sou o Macedonico! D. E eu o
                                            Cinico, ainda que me naõ importa que saibas. A. Eu naõ
                                            caibo no Mundo. D. E para mim he bastante lugar esta
                                            tina. A. Naõ tremes com a minha presença? D. Eu naõ sou
                                            folha, que haja de tremer com qualquer vento; porque o
                                            poder humano he hum leve vento a respeito da
                                            Omnipotentia Divina. A. Eu sou aquelle vento, que
                                            arranca as arvores mais antigas, e que destruo os corpos
                                            mais robustos. D. Pois quanto mas sopras, mais depressa                                 
           passas. A. Ao meu Cetro se curvaõ os Tronos, e se
                                            postraõ os Imperios. D. Naõ: elle he o que se curva para
                                            usurpar Imperios, e pescar Tronos. A. Logo eu sou
                                            ladram, usurpador, e pescador! D. <seg synch="#FR.7" type="FP"> Sim tudo isto es. Porque es ladraõ
                                                coroado, e pescador de enguias: pois quando hum Rey
                                                toma o que he seu, he ladram coroado. e pescador de
                                                enguias, porque saõ de pouca consideraçaõ as
                                                conquistas terenas. Vôs outros Monarcas naõ fazeis
                                                escrupulo de usurpar Provincias inteiras, ao mesmo
                                                tempo que mandaes tirar a vida aos miseraveis, que
                                                roubaõ huma pequena ceza. Pescaes os Reynos no
                                                turbido das revoluçoens, assim como faz o Pescador
                                                com as enguias batendo as aguas dos lagos, mas
                                                depois vos fogem tambem das mãos os Reynos, assim
                                                como ao pescador fogem as anguias. Nesta mũdana
                                                pesca tudo o que se toma, quanto mais se aperta
                                                tanto mais foge. </seg>
                      <pb n="36"></pb> A. Tu Diogenes tens muita liberdade em
                                            falar! D. Porque tambem vòs fois muito resoluto em
                                            adquirir. A. Eu se tomo os Estados alheos he para os
                                            dar, e naõ para os reter. D. Excellente generosidade de
                                            ser liberal do que naõ he seu? A. Os Reys tem o Direito
                                            nas armas, e valem mais as pontas das espadas, que os
                                            paragrafos das Leys para decidir qual seja o Senhor do
                                            Mundo: porque nacendo este livre, foy decretado pela
                                            fortuna para quem o ocupasse com valor: e por isso he de
                                            quem o ganha. D. As armas ordinariamente se apoderam com
                                            a força de tudo quanto se naõ pòde conseguir com a
                                            razaõ. Vòs outros destruidores da terra formais de cada
                                            pretexto hum artigo para convalidar as vossas
                                            conquistas. Vós como filho putativo de Jupiter                                      
      pertendeis ter nacido herdeiro do universo, mas nisto
                                            vos enganais muito; porq̃ vos naõ pertence mais que sete
                                            palmos da terra como a outro qualquer homem. E assim
                                            seja o vosso sepulcro hum magestozo cenotafio, tam
                                            magnifico como o vosso Trono, <seg synch="#FR.8" type="FP"> quaes seraõ os vossos creados, e os
                                                vossos cortezãos depois da morte? Naõ seraõ outros             
                                   mais que aranhas, ratos, toupeiras, bichos, moscas;
                                                que todos estes verdadeiramente saõ os symbolos dos
                                                que assistem nas Cortes. </seg> A. Ouvis amigos como
                                            vos trata este Filosofo, ou como vos morde este Cinico?
                                            D. Naõ vos admireis; porque naõ he justo que trate
                                            melhor os creados do que o amo. A. <seg synch="#FR.9" type="FP"> E com effeito parecem estes meus creados,
                                                e cortezãos moscas, bichos, toupeiras, ratos e
                                                aranhas? D. Naõ ha duvida, que assim me parecem,
                                                porque na verdade o saõ. </seg>
                      <pb n="37"></pb> A. Grande liberdade de Filosofo! ora prova
                                            o que dizes, e ouviremos a tua prova, mas esta ha de ser
                                            som sophismas. D. Eu abomino os sophismas, e <seg synch="#FR.10" type="EX"> arrenego de quantos
                                                sophistas houve em Tiro, Smirna, Pergam, Epheso,
                                                Larisso, Assiria, Bithinia, Sidonia, Cilicia,
                                                Carthago, e Athenas, juntamente com toda a mentiroza
                                                Grecia, que todas estas foraõ patrias dos Sophistas
                                                antigos, e se houvesse de referir as dos modernos
                                                nam poderiam caber em hum grande Calepino. </seg>
                                            Todos elles foraõ Espectros da Filosofia, Fantasmas da
                                            verdade, Mascaras as Escolas, Hipocritas das Academias,
                                            e Romendões dos argumentos; <seg synch="#FR.11" type="SP"> Eu naõ ando com o pescosso torto à Beata,
                                                nem trago a barba penteada como cauda de Andorinha:
                                                Vedes as minhas mãos, que naõ tem unhas de Grifo;
                                                porque só me valho dos dentes para dar alguma
                                                mordedela no vicio, mas naõ das unhas para rapinar o
                                                ouro, e a prata, nem as bolças alheas. Olhai bem
                                                para mim desde a cabeça atè os pès, e vereis como
                                                sou pobre, e disto podereis logo inferir que sou           
                                     Filosofo professor da verdade, a qual anda nua da
                                                mesma sorte, que anda a verdadeira Filosofia, porque
                                                cada hum lhe arranca hum pedaço de vestido. </seg>
                                            A. Assim serà, mas eu com tudo vejo que trazes hum
                                            capote bem forrado. D. <seg synch="#FR.12" type="SP">
                                                Isto que vez he misteriozo. Eu sou o primeiro
                                                Filosofo, que uzou disto; naõ para me reparar do
                                                frio, porque para me instruir no sofrimento muitas
                                                vezes me exponho à neve; </seg> mas para ensinar que
                                            se devem evitar as frioleiras, deixando o uzo dellas
                                            para mancebos, que sómente cuidaõ no que lhes permitte a
                                            sua idade: porque este genero de falar naõ concorda com
                                            a Filosofia seria. <pb n="38"></pb> A. Tudo està muito bem;
                                            mas tu ainda me naõ mostras como estes meus creados
                                            sejaõ aquelles que simbolicamente chamastes? D. Entendo,
                                            que quereis cossar a cegarrega para que cante naõ sendo
                                            Agosto! Naõ me façais falar; porque direi muito, e mais                                        
    do que talvez tereis gosto de ouvir. A. Dize quanto
                                            quizeres, pois eu vim muito de proposito para te ouvir,
                                            já que te chamas cegarrega. D. Eu sim sou cegarrega; mas
                                            das que se nutrem com o orvalho; isto he com a razaõ
                                            natural que o Ceo me destilla; e por isso inimigo do
                                            artificio com que se alimentaõ ainda à vossa custa esses
                                            qu e vos assistem, e por isto saõ aquelles que eu disse.
                                            A. Mas como? D. <seg synch="#FR.13" type="FP"> Os que
                                                vos assistem saõ como moscas, porque se andaõ pondo
                                                sempre nos vossos ouvidos cheios de adulaçaõ, e vos
                                                cercaõ, porque tendes muito daquelle mel, que move
                                                os humores, e adoça a boca. </seg> A. Queres por
                                            ventura dizer nisto o ouro? D. Isso mesmo quero dizer,
                                            da mesma sorte que pela prata se figura o leite, que
                                            atrahe a si tambem as mosca: <seg synch="#FR.14" type="FP"> Por isso os judeos, que tudo entendem
                                                pela casca, e naõ segundo o miolo, se apressaõ, e
                                                trabalhaõ para chegar à terra prometida abundante de
                                                leite, e de mel, porque se figuraõ ser
                                                abundantissima de prata, de ouro, e assim fazem
                                                ordinariamente os que assistem aos Principes, que
                                                somente os seguem pelo interesse, e convenciencia
                                                propria, e naõ por amor. </seg> A. Disseste muito
                                            bem, mas prova agora como saõ bichos. D. Isto he muito
                                            facil de provar; <seg synch="#FR.15" type="FP"> saõ
                                                estes taes bichos da seda, que sempre trabalhaõ com
                                                a boca. Nascidos como estes bichos, de huma pequena
                                                semente (por-<pb n="39"></pb>que ordinariamente saõ de
                                                pequena consideraçaõ no seu principio) se alimentaõ
                                                de folhas, isto he da verde esperança de subir:
                                                tanto que estaõ gordos, vaõ subindo por huns ramos
                                                muitos secos, à força de empurroens, e penetrantes
                                                picaduras: quando se achaõ no alto principiaõ a
                                                fabricar huma armadilha, ordindo invençoenes subtis,
                                                e calumnias refinadas, em que por ultimo elles mesmo
                                                cahem, e ficaõ prezos. </seg> A. Ora vede amigos
                                            como o cinico vos trata; mas que semelhança tem com as
                                            toupeiras. D. <seg synch="#FR.16" type="FP"> Saõ          
                                      toupeiras cegas naõ só porque naõ vem, mas porque
                                                naõ querem ver aquella luz que alumia, e aclara o
                                                homem interior: saõ toupeiras porque se nutrem da
                                                terra, e porque nos mesmos affectos da terra vivem
                                                sepultados, e nunca abrem os olhos da consideraçaõ
                                                se naõ quando morrem. </seg> Oh (dizem entaõ) quem
                                            tivera servido taõ cuidadosamente a Deos assim como
                                            servimos ao Principe que este foi só o nosso Deos; mas
                                            Deos ordinariamente sem mãos, como Dagon, porque o
                                            Principe que naõ dá, e naõ premea he muito semelhante a
                                            elle, e por isto naõ foi Deos verdadeiro, mas
                                            supersticioso, que somente lhe agrada o fumo: sendo que
                                            o verdadeiro chamando-se Deos porque dà, difunde, e
                                            espalha beneficio a luz, e porque naõ he hum Deos das
                                            toupeiras, por isso aquelles o naõ conhecem. A. Dizes
                                            excellentemente; mas que semelhança tem com os ratos? D.
                                                <seg synch="#FR.17" type="FP"> A estes insectos naõ
                                                muito semelhantes; porque ha muita quantidade de
                                                ratos aonde ha mais abundancia, e se encontraõ com
                                                mais frequencia, e por isso naõ faltaõ nos Palacios
                                                dos Principes, onde tudo anda a rodo, porque toda a
                                                natureza se dezentranha <pb n="40"></pb> para lhe
                                                offerecer as iguarias mais esplendidas, e saborozas,
                                                saõ ratos, e ratos pessimos porque com a sua lingua
                                                roem continuamente, e quando naõ tem em que roer,             
                                   roem no mesmo Principe. Saõ ratos porque <seg synch="#FR.18" type="ZM"> muribus magna est
                                                  dulcedo furandi </seg> como diz Textor, e vivem
                                                ordinariamente de furto, e de rapina. </seg> A.
                                            Muito bem te tenho entendido amigo Diogenes; mas dame                     
                       tambem agora algum documento que me sirva de antidoto
                                            para me perservar da tua censura critica. </seg> Estando
                                        nestas ultimas palavras, e tendo Diogenes ja quasi a
                                        resposta na boca, dei huma volta, e acordei, mas como o sono
                                        era bastante, peguei outra vez nelle, e como a idea se
                                        achava gostoza de ouvir semelhante pratica, tornei outra vez
                                        a continuar no mesmo sonho, e là me causava meus sustos ver,
                                        que se perderia o fio, mas sucedeume bem, porque naõ perdi
                                        couza alguma daquella boa conversaçaõ, e fiz muito para que
                                        me naõ esquecesse nada. Como foi dilatada, custoume muito
                                        fazer della huma reminiscencia, e pouco a pouco direi o que
                                        me for lembrando. e já naõ pòde ser por junto serà por             
                           partes, por naõ perder o costume; que assim faz quem como eu
                                        tem pouca memoria, e menos entendimento, mas a vontade he
                                        grande de servir o publico em cousa em que lhe possa ter
                                        alguma serventia. </seg>
                </seg> Lisboa: Na Officina de Pedro Ferreira, Impressor da
                                Augustissima Rainha Nossa Senhora, </seg>
            </ab>
          </div>
        </body>
      </text>
    </group>
  </text>
</TEI>
