
<TEI xmlns="http://www.tei-c.org/ns/1.0" xmlns:xsi="http://www.w3.org/2001/XMLSchema-instance" xsi:schemaLocation="http://www.tei-c.org/ns/1.0 http://gams.uni-graz.at/mws/schema/mws.xsd">
  <teiHeader type="mws">
    <fileDesc>
      <titleStmt>
        <title>Num. 14</title>
        <author>Anónimo (Bento Morganti)</author>
      </titleStmt>
      <editionStmt>
        <edition>Moralische Wochenschriften</edition>
        <respStmt>
          <name>Klaus-Dieter Ertler</name>
          <resp>Herausgeber</resp>
        </respStmt>
        <respStmt>
          <name>Hans Fernández</name>
          <resp>Herausgeber</resp>
        </respStmt>
        <respStmt>
          <name>Elisabeth Hobisch</name>
          <resp>Mitarbeiter</resp>
        </respStmt>
        <respStmt>
          <name>Pascal Striedner</name>
          <resp>Mitarbeiter</resp>
        </respStmt>
        <respStmt>
          <name>Sarah Lang</name>
          <name>Gerlinde Schneider</name>
          <name>Martina Scholger</name>
          <name>Johannes Stigler</name>
          <name>Gunter Vasold</name>
          <resp>Datenmodellierung</resp>
          <resp>Applikationsentwicklung</resp>
        </respStmt>
      </editionStmt>
      <publicationStmt>
        <publisher>
          <orgName ref="http://romanistik.uni-graz.at/">Institut für Romanistik,
                        Universität Graz</orgName>
        </publisher>
        <publisher>
          <orgName ref="http://informationsmodellierung.uni-graz.at">Zentrum für
                        Informationsmodellierung, Universität Graz</orgName>
        </publisher>
        <pubPlace>Graz</pubPlace>
        <date when="2018-10-04">04.10.2018</date>
        <idno type="PID">o:mws.6994</idno>
      </publicationStmt>
      <sourceDesc>
        <bibl>Anónimo (Morganti, Bento): Primeira Collecçam dos Papeis Anonymos. Lisboa:
                    Pedro Ferreira, 1752, 105-112 </bibl>
        <bibl type="Einzelausgabe" xml:id="OAn">
          <title level="j">O Anonymo. Repartido pelas
                        semanas, para divertimento e utilidade do publico</title>
          <biblScope unit="volume">1</biblScope>
          <biblScope unit="issue">014</biblScope>
          <date>1752</date>
          <placeName key="#GID.1">Portugal</placeName>
        </bibl>
      </sourceDesc>
    </fileDesc>
    <encodingDesc>
      <editorialDecl>
        <interpretation>
          <ab type="interpGrp">
            <interpGrp type="Narrative_Darstellungsebenen">
              <interp xml:id="E1">Ebene 1</interp>
              <interp xml:id="E2">Ebene 2</interp>
              <interp xml:id="E3">Ebene 3</interp>
              <interp xml:id="E4">Ebene 4</interp>
              <interp xml:id="E5">Ebene 5</interp>
              <interp xml:id="E6">Ebene 6</interp>
            </interpGrp>
            <interpGrp type="Narrative_Darstellungsformen">
              <interp xml:id="AE">Allgemeine Erzählung</interp>
              <interp xml:id="SP">Selbstportrait</interp>
              <interp xml:id="FP">Fremdportrait</interp>
              <interp xml:id="D">Dialog</interp>
              <interp xml:id="AL">Allegorisches Erzählen</interp>
              <interp xml:id="TR">Traumerzählung</interp>
              <interp xml:id="F">Fabelerzählung</interp>
              <interp xml:id="S">Satirisches Erzählen</interp>
              <interp xml:id="EX">Exemplarisches Erzählen</interp>
              <interp xml:id="UT">Utopische Erzählung</interp>
              <interp xml:id="MT">Metatextualität</interp>
              <interp xml:id="ZM">Zitat/Motto</interp>
              <interp xml:id="LB">Leserbrief</interp>
            </interpGrp>
          </ab>
        </interpretation>
      </editorialDecl>
    </encodingDesc>
    <profileDesc>
      <creation>
        <name type="place">Graz, Austria</name>
      </creation>
      <langUsage>
        <language ident="pt">Portuguese</language>
      </langUsage>
      <textClass>
        <keywords scheme="http://gams.uni-graz.at/mws">
          <term>
            <term xml:lang="de">Menschenbild</term>
            <term xml:lang="it">Immagine
                            dell&apos;Umanità</term>
            <term xml:lang="en">Idea of Man</term>
            <term xml:lang="es">Imagen de los Hombres</term>
            <term xml:lang="fr">Image de
                            l’humanité</term>
            <term xml:lang="pt">Imagem humana</term>
          </term>
          <term>
            <term xml:lang="de">Adelskritik</term>
            <term xml:lang="it">Critica della
                            Nobilità</term>
            <term xml:lang="en">Critics on Nobility</term>
            <term xml:lang="es">Crítica de la Nobleza</term>
            <term xml:lang="fr">Critique
                            de la noblesse</term>
            <term xml:lang="pt">Crítica da
                        nobreza</term>
          </term>
          <term>
            <term xml:lang="de">Moral</term>
            <term xml:lang="it">Morale</term>
            <term xml:lang="en">Morale</term>
            <term xml:lang="es">Moral</term>
            <term xml:lang="fr">Morale</term>
            <term xml:lang="pt">Moral</term>
          </term>
        </keywords>
      </textClass>
      <textClass>
        <keywords scheme="cirilo:normalizedPlaceNames">
          <list>
            <item>
              <placeName xml:id="GID.1">
                <name ref="http://geonames.org/2264397" type="fcode:PCLI">Portugal</name>
                <location>
                  <geo>-8.13057,39.6945</geo>
                </location>
              </placeName>
            </item>
          </list>
        </keywords>
      </textClass>
    </profileDesc>
  </teiHeader>
  <text>
    <group>
      <text ana="layout">
        <body xml:space="preserve">
<p rend="EU"><milestone unit="E1" xml:id="FR.1"></milestone></p>
<div1><head>N.°.14</head>
<div2><head><hi rend="italic">Retratos do Hypocrita, e Antihypocrita. </hi></head>
<p rend="SO"><milestone unit="E2" xml:id="FR.2"></milestone> Tam agradado vim dos meus amigos, que logo no dia seguinte fuy dar outra vez com elles no mesmo sitio, e cumpriram à risca a promessa que me deram, pois ainda nam tinham principiado a discorrer. Comprimenteyos como pude, estimaram muito a minha pontualidade, e a companhia que lhe queria fazer; e quazi os vi em termos de me convidarem para seu socio, mas pareceme que descobrindo em mim huma pouca de inconstancia, mudaram de conceito até ver se eu <pb n="106"></pb> frequentava mais a meudo a palestra. Isto acabado voltei para o que ficava mais perto, e lhe disse: <milestone unit="D" xml:id="FR.3"></milestone> ora Senhor naõ percamos tempo, que ja os dias vaõ sendo mais pequenos, e estou impaciente para saber em que determinaõ VV. MM. falar hoje. A isto soltou o amigo huma rizada com modestia, e respondeu. Pareceme que a materia da hypocrisia em que hontem discorremos pode chegar tambem para hoje, ainda que deduzida por outra fórma igualmente verdadeira; porem mais divertida. Pois senhor, dissemos todos, vamos dando nestes Hypocritas, que he gente indigna, e odioza a Deos, e ao mundo e tudo o que a este respeito se disser por muito que seja sempre he pouco. </p>
<p>Eu entendo que todos VV. MM. se hamde (sic) lembrar de huma celebre Hypocrita que ha annos conciliou nesta corre huma grande estimaçam, por conta da sua fingida virtude; mas como isto he jà antigo quero referir o successo, para que todos se possam armar contra as fantasmas da hypocresia que andam tam frequentes entre nòs para enganar a opiniam commua. <milestone unit="EX" xml:id="FR.4"></milestone> Saberam VV. MM. que esta Beata era huma mulher astucioza, que para se acreditar boa, se fez muito peor: mas com tudo achou hum meyo para que a reputassem huma virtuoza, ainda que na realidade era como aquellas figuras de papel pizado, que por fóra sam pintadas, e mostram huma excellente côr, mas por dentro sam vazias, e cheyas de pó, leves, e insubsistentes. Passava a mayor parte dos dias com afectadas molestias, fingindo fraquezas cauzadas da <pb n="107"></pb> grande abstinencia, mas quando chegava a noite, depois de dezembaraçada das vezitas, que julgandoa tam sabai como huma sibilla, recorriaõ a ella como a interprete das contingencias incertas, dava ordem a cear com grandeza na companhia das pessoas domesticas, que para serem educadas tinha à sua conta. As Senhoras (entre outras boas creaturas que lhe davam credito) concorriam credulas para a consultarem na perplexidade do que se lhe offerecia, e ella com sagacidade lizongeava com amfibologica industria as suas esperanças duvidozas. Mas como a rapoza tantas vezes passa pelo laço atè que de huma vez fica preza, assim socedeu a esta fingida virtuoza, caindo nas mãos da vigilante justiça, que procura desterrar, e piedozamente castiga a pravidade sacrilega, determinando penas condignas aos delictos de que toma conta: e compadecida por aquelle tam pio, como justo Tribunal, que tem tantos Argos quantos sam os juizes de que se compoem, ainda que cheya de culpas, as abjurou publicamente, e foy recolhida a hum perpetuo carcere aonde acabou a sua vida. <milestone rend="closer" unit="EX"></milestone> Este foy o fim que teve esta sequaz da hypocrisia, e bom fora que todos os que profesam ainda que nam tivessem mais culpas do que esta, experimentasse o mesmo. </p>
<p>Agora eu desta vibora quero formar a triga da moralidade para fazer hum antidoto contra este mal tam perniciozo, oculto ordinariamente entre as rozas da modestia, entre os jasmins da candidez, e entre os Amarantos da immortalidade. Assento comigo em que senam deve dar credito <pb n="108"></pb> a pescoços tortos, porque ordinariamente torpeçam no caminho do espirito, e com quatro retalhos de muito ligeiras ostentaçoens, procuram parecer muito direitos. Muitas vezes tenho persuadido aos meus amigos, que fujam de semilhante peste tam prejudicial; sobre o que nunca he demaziada a advertencia quando ha redundancia do perigo: e que se guardem muito daquelles que mostram huma cara de Joab, trazendo debaxo da capa a aguda espada com que pertendem descarregar o golpe. <milestone unit="FP" xml:id="FR.5"></milestone> Ainda que se vejam despreziveis, e mansos como cordeiros, deve haver muita cautela porque debaxo daquella candida pelle sam lobos crueis. Hum grande engenho costumava comparar hum hypocrita com hum romendam, o qual anda sempre com os çapatos rotos, ao mesmo tempo que romenda os alheos: e isto mesmo faz o hypocrita, que sempre quer com zelo apparente concertar os outros, tendo elle muito mais que remendar em si, e nos seus pessimos costumes. <milestone rend="closer" unit="FP"></milestone> </p>
<p>Entre as regras que se podem dar para o conhecimento daquelles que professam huma virtude sofistica, bem podemos asignar huma muito geral, e que quazi nunca falta. Se virmos que a hum leve toque de contrariedade rebenta o peito de hum destes dissimuladores de bondade emprestada, bem se pode dizer que dentro delle ha huma mina de enxofre, como diz o Profeta: <milestone unit="ZM" xml:id="FR.6"></milestone> <hi rend="italic">Tange montes, fumigabunt. <milestone rend="closer" unit="ZM"></milestone></hi> <milestone unit="EX" xml:id="FR.7"></milestone> E assim era aquelle celebre Hypocrita de Corintho, o qual costumava rezidir à porta do Templo para o profanar com a sua hypocrisia. Grande pescador de Dobras, mostrava que era <pb n="109"></pb> simples; e grandes simples formava abundantes compostos: lizongeava as Damas com palavras meliflulas, cultivava a sua assistencia com modos honorificos; <milestone rend="closer" unit="EX"></milestone> mas se na boca lhe levava os favos, na lingoa tinha tambem contra o seu proximo penetrantes ferroens. Se observarmos que hum destes fingidos professores de espirito, naõ perde o costume de conversar com as mulheres, ainda que seja com o pretexto de ser seu Director, bem se podem argumentar duas cousas, e delas tirar huma consequencia em Dilemma. Ou que he hum lascivo a quem agrada o cheiro do sexo, ou hum ambiciozo, e intereceiro, que como o escaravelho, tira das rozas o alimento do regalo, e o succo do proveito, e em alguns he tudo junto. Nam pareça aspera esta consequencia, porque jà hum grande engenho do seculo passado; cujas obras foram, e seram sempre bem aceitas pela sua grande erudiçam, tirou o mesmo Dilemma, falando nesta materia. </p>
<p>Quanto mais se observarem rotos, e immundos; palidos, e tristes, bem se pòde inferir por verdade infalivel, que hum destes nam he inteiro no interior, mas sim muito dilacerado na virtude. Se a côr do rosto por muito semelhante à de bronze, he hum signal patognomonico de huma conciencia rigida, de huma alma cruel, e de hum coraçam de bronze; e hum destes bem se pòde dizer que naõ he homem, ainda que se veja adornado com a precioza imagem do Creador; porque nam he outra cousa mais que huma ovelha na apparencia, e hum lobo na realidade. </p>
<p><pb n="110"></pb> <milestone unit="FP" xml:id="FR.8"></milestone> He muito para rir, ver como estes hypocritas, segundo o seu estilo, andam sempre rotos, e despresiveis, introduzindo nos de facil crença, que a perfeiçam da virtude mistica consiste nesta pobreza, e desprezo exterior do Corpo: e de tal sorte persuadem esta maxima como verdadeira, que muitos mais a haviam de acreditar se nam soubessem que aquelles que possuem a verdadeira flor, e colhem o delicioso fruto de huma virtude sincera, mostram que sómente consiste na pobreza, e deligencia do espirito, e nam do corpo: isto he na humiliaçam sincera do animo, na exacçam da observancia legal, que aperta o coraçam com o laço dos Divinos preceitos, e no generozo desprezo das comodidades, e bens da terra. <milestone rend="closer" unit="FP"></milestone> </p>
<p>Senhores meus (continou o amigo) aonde a virtude he verdadeira tudo se vê pelo contrario; porque nam he precizo ostentar o vestido roto, ou remendado; o rosto palido, nem austero; aparece o semblante sereno, e placido, pela tranquilidade do coraçam; os olhos alegres pela alegria do espirito; as faces por huma vergonhoza modestia bastantemente coloridas, mas nam vermelhas, ou palidas pela affectaçam do credito. Tudo isto assim aparece; porque o candor do rosto exprime a candidez do animo, e a pureza do sangue. A armonia das palavras, faz soar o concerto das paxoens, e a muzica dos pensamentos. Hum destes he verdadeiramente homem, porque sogeita o entendimento à razam, e vencendo os apetites tem nas mãos a palma do seu triunfo. Sofre as adversidades com a constancia, ainda que senta com a pena: desvia-<pb n="111"></pb>se dos caminhos occultos, e cheyos de lodo, e busca sempre as estradas mais sabidas, inda (sic) que mais asperas, e trabalhozas, porque sam as mais seguras. Nam ostenta com a extenuaçam artificial a mentida parcimonia do alimento, mas com a allegria do semblante confessa, que sustenta frugal esta vida caduca, em quanto lhe he necessario para que sirva a eterna. Nam poem o sentido no cabedal alheo, porq̃ fez divorcio com a ambiçam; aplicando se mais a ajuntar hum bom cabedal de solidas doutrinas, que hum grande peculio de dinheiro. Estima mais o presente de hum livro, que o convite de hum bom jantar; porque para hum destes he muito milhor alimento hum bom livro, com o que satisfas melhor o intendimento, ainda que fique o estomago faminto. Nam cuida na gloria mundana, porque sabe muito bem, que he hum sonho, que passa; huma lavareda de palha, que se converte em fumo; huma arrebatada corrente, que seca; hum relampago, que se desvanece; e hum trovam, que acaba: procura sim conservar a reputaçam illeza, armando-se contra as mordeduras de calumnia. Foge das honras, que a fortuna ordinariamente reparte aos cegos, porque muitos passam pelo que nam vem, e por isso nam dam passo em que nam tropecem. Abomina com fastozo desprezo as dignidades; porque de ordinario se vem destribuidas aos indignos, ou pelas deligencias da industria, ou pelos calculos da ambiçam, ou pelo ciume do Dominio, ou pela vehemencia do genio, ou pela paxam do Agente, ou pela conspiraçam da ignorancia... <milestone rend="closer" unit="D"></milestone> Aqui hia <pb n="112"></pb> tomando fogo o meu amigo, e fui conhecendo, que a paxam lhe puxava pela lingna (sic); acodi logo, e lhe botei agoa na fervura, dizendo, que como tinha falado só tanto tempo, estaria cançado de praticar nesta materia, e que voltassemos a outra, porque nam era justo, que se fosse com tudo ao cabo. Concordaràm os mais no mesmo, e baralhada a pratica entramos com as ultimas despedidas, e cada hum se foy recolhendo para caza levando muito na memoria estes dous retratos do Hypocrita, e Antihypocrita, que me parece nam deixam de estar muito ao vivo, e senam forem ao gosto de todos, cada hum os emende como melhor lhe parecer. <milestone rend="closer" unit="E2"></milestone> <milestone rend="closer" unit="E1"></milestone></p>
<p></p></div2></div1></body>
      </text>
      <text ana="framings">
        <body>
          <div>
            <ab>
              <seg synch="#FR.1" type="E1">
                <seg type="U1">N.°.14</seg> Retratos do Hypocrita, e Antihypocrita.
                                    <seg synch="#FR.2" type="E2"> Tam agradado vim dos meus amigos,
                                    que logo no dia seguinte fuy dar outra vez com elles no mesmo
                                    sitio, e cumpriram à risca a promessa que me deram, pois ainda
                                    nam tinham principiado a discorrer. Comprimenteyos como pude,
                                    estimaram muito a minha pontualidade, e a companhia que lhe
                                    queria fazer; e quazi os vi em termos de me convidarem para seu
                                    socio, mas pareceme que descobrindo em mim huma pouca de
                                    inconstancia, mudaram de conceito até ver se eu <pb n="106"></pb>
                                    frequentava mais a meudo a palestra. Isto acabado voltei para o
                                    que ficava mais perto, e lhe disse: <seg synch="#FR.3" type="D">
                                        ora Senhor naõ percamos tempo, que ja os dias vaõ sendo mais
                                        pequenos, e estou impaciente para saber em que determinaõ
                                        VV. MM. falar hoje. A isto soltou o amigo huma rizada com
                                        modestia, e respondeu. Pareceme que a materia da hypocrisia
                                        em que hontem discorremos pode chegar tambem para hoje,
                                        ainda que deduzida por outra fórma igualmente verdadeira;
                                        porem mais divertida. Pois senhor, dissemos todos, vamos
                                        dando nestes Hypocritas, que he gente indigna, e odioza a
                                        Deos, e ao mundo e tudo o que a este respeito se disser por
                                        muito que seja sempre he pouco. Eu entendo que todos VV. MM.
                                        se hamde (sic) lembrar de huma celebre Hypocrita que ha
                                        annos conciliou nesta corre huma grande estimaçam, por conta
                                        da sua fingida virtude; mas como isto he jà antigo quero
                                        referir o successo, para que todos se possam armar contra as
                                        fantasmas da hypocresia que andam tam frequentes entre nòs
                                        para enganar a opiniam commua. <seg synch="#FR.4" type="EX">
                                            Saberam VV. MM. que esta Beata era huma mulher
                                            astucioza, que para se acreditar boa, se fez muito peor:
                                            mas com tudo achou hum meyo para que a reputassem huma
                                            virtuoza, ainda que na realidade era como aquellas
                                            figuras de papel pizado, que por fóra sam pintadas, e
                                            mostram huma excellente côr, mas por dentro sam vazias,
                                            e cheyas de pó, leves, e insubsistentes. Passava a mayor                             
               parte dos dias com afectadas molestias, fingindo
                                            fraquezas cauzadas da <pb n="107"></pb> grande abstinencia,
                                            mas quando chegava a noite, depois de dezembaraçada das
                                            vezitas, que julgandoa tam sabai como huma sibilla,
                                            recorriaõ a ella como a interprete das contingencias                        
                    incertas, dava ordem a cear com grandeza na companhia
                                            das pessoas domesticas, que para serem educadas tinha à
                                            sua conta. As Senhoras (entre outras boas creaturas que
                                            lhe davam credito) concorriam credulas para a
                                            consultarem na perplexidade do que se lhe offerecia, e
                                            ella com sagacidade lizongeava com amfibologica
                                            industria as suas esperanças duvidozas. Mas como a
                                            rapoza tantas vezes passa pelo laço atè que de huma vez
                                            fica preza, assim socedeu a esta fingida virtuoza,
                                            caindo nas mãos da vigilante justiça, que procura
                                            desterrar, e piedozamente castiga a pravidade sacrilega,
                                            determinando penas condignas aos delictos de que toma
                                            conta: e compadecida por aquelle tam pio, como justo
                                            Tribunal, que tem tantos Argos quantos sam os juizes de
                                            que se compoem, ainda que cheya de culpas, as abjurou
                                            publicamente, e foy recolhida a hum perpetuo carcere
                                            aonde acabou a sua vida. </seg> Este foy o fim que teve
                                        esta sequaz da hypocrisia, e bom fora que todos os que
                                        profesam ainda que nam tivessem mais culpas do que esta,
                                        experimentasse o mesmo. Agora eu desta vibora quero formar a
                                        triga da moralidade para fazer hum antidoto contra este mal
                                        tam perniciozo, oculto ordinariamente entre as rozas da
                                        modestia, entre os jasmins da candidez, e entre os Amarantos
                                        da immortalidade. Assento comigo em que senam deve dar
                                        credito <pb n="108"></pb> a pescoços tortos, porque
                                        ordinariamente torpeçam no caminho do espirito, e com quatro
                                        retalhos de muito ligeiras ostentaçoens, procuram parecer
                                        muito direitos. Muitas vezes tenho persuadido aos meus
                                        amigos, que fujam de semilhante peste tam prejudicial; sobre
                                        o que nunca he demaziada a advertencia quando ha redundancia
                                        do perigo: e que se guardem muito daquelles que mostram huma
                                        cara de Joab, trazendo debaxo da capa a aguda espada com que             
                           pertendem descarregar o golpe. <seg synch="#FR.5" type="FP">
                                            Ainda que se vejam despreziveis, e mansos como
                                            cordeiros, deve haver muita cautela porque debaxo
                                            daquella candida pelle sam lobos crueis. Hum grande                                            
engenho costumava comparar hum hypocrita com hum
                                            romendam, o qual anda sempre com os çapatos rotos, ao
                                            mesmo tempo que romenda os alheos: e isto mesmo faz o
                                            hypocrita, que sempre quer com zelo apparente concertar
                                            os outros, tendo elle muito mais que remendar em si, e
                                            nos seus pessimos costumes. </seg> Entre as regras que                      
                  se podem dar para o conhecimento daquelles que professam
                                        huma virtude sofistica, bem podemos asignar huma muito
                                        geral, e que quazi nunca falta. Se virmos que a hum leve
                                        toque de contrariedade rebenta o peito de hum destes
                                        dissimuladores de bondade emprestada, bem se pode dizer que
                                        dentro delle ha huma mina de enxofre, como diz o Profeta:
                                            <seg synch="#FR.6" type="ZM"> Tange montes, fumigabunt. </seg>
                    <seg synch="#FR.7" type="EX"> E assim era aquelle celebre
                                            Hypocrita de Corintho, o qual costumava rezidir à porta
                                            do Templo para o profanar com a sua hypocrisia. Grande
                                            pescador de Dobras, mostrava que era <pb n="109"></pb>
                                            simples; e grandes simples formava abundantes compostos:
                                            lizongeava as Damas com palavras meliflulas, cultivava a
                                            sua assistencia com modos honorificos; </seg> mas se na
                                        boca lhe levava os favos, na lingoa tinha tambem contra o
                                        seu proximo penetrantes ferroens. Se observarmos que hum
                                        destes fingidos professores de espirito, naõ perde o costume
                                        de conversar com as mulheres, ainda que seja com o pretexto
                                        de ser seu Director, bem se podem argumentar duas cousas, e
                                        delas tirar huma consequencia em Dilemma. Ou que he hum
                                        lascivo a quem agrada o cheiro do sexo, ou hum ambiciozo, e
                                        intereceiro, que como o escaravelho, tira das rozas o
                                        alimento do regalo, e o succo do proveito, e em alguns he
                                        tudo junto. Nam pareça aspera esta consequencia, porque jà
                                        hum grande engenho do seculo passado; cujas obras foram, e
                                        seram sempre bem aceitas pela sua grande erudiçam, tirou o
                                        mesmo Dilemma, falando nesta materia. Quanto mais se
                                        observarem rotos, e immundos; palidos, e tristes, bem se
                                        pòde inferir por verdade infalivel, que hum destes nam he
                                        inteiro no interior, mas sim muito dilacerado na virtude. Se
                                        a côr do rosto por muito semelhante à de bronze, he hum            
                            signal patognomonico de huma conciencia rigida, de huma alma
                                        cruel, e de hum coraçam de bronze; e hum destes bem se pòde
                                        dizer que naõ he homem, ainda que se veja adornado com a
                                        precioza imagem do Creador; porque nam he outra cousa mais
                                        que huma ovelha na apparencia, e hum lobo na realidade. <pb n="110"></pb>
                    <seg synch="#FR.8" type="FP"> He muito para rir, ver como
                                            estes hypocritas, segundo o seu estilo, andam sempre
                                            rotos, e despresiveis, introduzindo nos de facil crença,
                                            que a perfeiçam da virtude mistica consiste nesta
                                            pobreza, e desprezo exterior do Corpo: e de tal sorte
                                            persuadem esta maxima como verdadeira, que muitos mais a       
                                     haviam de acreditar se nam soubessem que aquelles que
                                            possuem a verdadeira flor, e colhem o delicioso fruto de
                                            huma virtude sincera, mostram que sómente consiste na
                                            pobreza, e deligencia do espirito, e nam do corpo: isto
                                            he na humiliaçam sincera do animo, na exacçam da
                                            observancia legal, que aperta o coraçam com o laço dos
                                            Divinos preceitos, e no generozo desprezo das
                                            comodidades, e bens da terra. </seg> Senhores meus
                                        (continou o amigo) aonde a virtude he verdadeira tudo se vê
                                        pelo contrario; porque nam he precizo ostentar o vestido
                                        roto, ou remendado; o rosto palido, nem austero; aparece o
                                        semblante sereno, e placido, pela tranquilidade do coraçam;
                                        os olhos alegres pela alegria do espirito; as faces por huma
                                        vergonhoza modestia bastantemente coloridas, mas nam
                                        vermelhas, ou palidas pela affectaçam do credito. Tudo isto
                                        assim aparece; porque o candor do rosto exprime a candidez
                                        do animo, e a pureza do sangue. A armonia das palavras, faz
                                        soar o concerto das paxoens, e a muzica dos pensamentos. Hum
                                        destes he verdadeiramente homem, porque sogeita o
                                        entendimento à razam, e vencendo os apetites tem nas mãos a
                                        palma do seu triunfo. Sofre as adversidades com a
                                        constancia, ainda que senta com a pena: desvia-<pb n="111"></pb>se dos caminhos occultos, e cheyos de lodo, e busca sempre
                                        as estradas mais sabidas, inda (sic) que mais asperas, e
                                        trabalhozas, porque sam as mais seguras. Nam ostenta com a
                                        extenuaçam artificial a mentida parcimonia do alimento, mas
                                        com a allegria do semblante confessa, que sustenta frugal
                                        esta vida caduca, em quanto lhe he necessario para que sirva
                                        a eterna. Nam poem o sentido no cabedal alheo, porq̃ fez
                                        divorcio com a ambiçam; aplicando se mais a ajuntar hum bom
                                        cabedal de solidas doutrinas, que hum grande peculio de
                                        dinheiro. Estima mais o presente de hum livro, que o convite
                                        de hum bom jantar; porque para hum destes he muito milhor
                                        alimento hum bom livro, com o que satisfas melhor o
                                        intendimento, ainda que fique o estomago faminto. Nam cuida
                                        na gloria mundana, porque sabe muito bem, que he hum sonho,
                                        que passa; huma lavareda de palha, que se converte em fumo;
                                        huma arrebatada corrente, que seca; hum relampago, que se
                                        desvanece; e hum trovam, que acaba: procura sim conservar a
                                        reputaçam illeza, armando-se contra as mordeduras de
                                        calumnia. Foge das honras, que a fortuna ordinariamente
                                        reparte aos cegos, porque muitos passam pelo que nam vem, e                              
          por isso nam dam passo em que nam tropecem. Abomina com
                                        fastozo desprezo as dignidades; porque de ordinario se vem
                                        destribuidas aos indignos, ou pelas deligencias da
                                        industria, ou pelos calculos da ambiçam, ou pelo ciume do
                                        Dominio, ou pela vehemencia do genio, ou pela paxam do
                                        Agente, ou pela conspiraçam da ignorancia... </seg> Aqui hia
                                        <pb n="112"></pb> tomando fogo o meu amigo, e fui conhecendo,
                                    que a paxam lhe puxava pela lingna (sic); acodi logo, e lhe
                                    botei agoa na fervura, dizendo, que como tinha falado só tanto
                                    tempo, estaria cançado de praticar nesta materia, e que
                                    voltassemos a outra, porque nam era justo, que se fosse com tudo
                                    ao cabo. Concordaràm os mais no mesmo, e baralhada a pratica
                                    entramos com as ultimas despedidas, e cada hum se foy recolhendo
                                    para caza levando muito na memoria estes dous retratos do
                                    Hypocrita, e Antihypocrita, que me parece nam deixam de estar
                                    muito ao vivo, e senam forem ao gosto de todos, cada hum os
                                    emende como melhor lhe parecer. </seg>
              </seg>
            </ab>
          </div>
        </body>
      </text>
    </group>
  </text>
</TEI>
