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        <title>Num. 6</title>
        <author>Anónimo (Bento Morganti)</author>
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        <edition>Moralische Wochenschriften</edition>
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      <publicationStmt>
        <publisher>
          <orgName ref="http://romanistik.uni-graz.at/">Institut für Romanistik,
                        Universität Graz</orgName>
        </publisher>
        <publisher>
          <orgName ref="http://informationsmodellierung.uni-graz.at">Zentrum für
                        Informationsmodellierung, Universität Graz</orgName>
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        <pubPlace>Graz</pubPlace>
        <date when="2018-10-04">04.10.2018</date>
        <idno type="PID">o:mws.6986</idno>
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        <bibl>Anónimo (Morganti, Bento): Primeira Collecçam dos Papeis Anonymos. Lisboa:
                    Pedro Ferreira, 1752, 41-48 </bibl>
        <bibl type="Einzelausgabe" xml:id="OAn">
          <title level="j">O Anonymo. Repartido pelas
                        semanas, para divertimento e utilidade do publico</title>
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          <biblScope unit="issue">006</biblScope>
          <date>1752</date>
          <placeName key="#GID.1">Portugal</placeName>
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            <term xml:lang="it">Riflessione Autopoetica</term>
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                            Reflection</term>
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                            Autopoética</term>
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            <term xml:lang="pt">Costumes e Tradições</term>
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<p rend="EU"><hi rend="smallcaps"><milestone unit="E1" xml:id="FR.1"></milestone></hi></p>
<div1><head><hi rend="smallcaps">Num.° 6.</hi></head>
<div2><head><hi rend="italic">Reflexam sobre as Livrarias.</hi></head>
<p rend="SO"><hi rend="smallcaps"><milestone unit="E2" xml:id="FR.2"></milestone> Po</hi>r conta deste sitio ser delicioso, depois que os amigos tiveram noticia, que eu me tinha retirado para elle, alguns me vem fazer de quando em quando suas visitas, quando sam de mais cumprimento, là me agoniam, porque nam tenho todo o provimento, e petrechos necessarios para os hospedar com propriedade, e ceremonia, que he descomodo, que ordinariamente se experimenta no campo, e nem de repente se pòde ter tudo tam prompto como na Cidade; o que nam sucede com as pessoas de confianҫa, e de amizade particular, porque estas nam querem outro trato melhor, mais do que <hi rend="italic">hum seja V.m. bem chegado</hi>, dito com bom coraҫam, e com bom animo. </p>
<p><pb n="42"></pb> <milestone unit="AE" xml:id="FR.3"></milestone> Entre os meus hospedes interpolados chegou os dias passados hum, ainda que nam de muita confiança, sim de bastante entendimento, que quanto a mim estes sam bons hospedes, porque ao menos recompensam o tratamento que se lhes faz, com a boa conversaçaõ, e com a boa doutrina com o que se nam vem a perder tudo: depois de o conduzir hum dia a ver varias quintas, em que se admira mais a industria para a conveniencia, que o bom gosto para a recreaçam, passamos por huma parte, onde tinha deixado hum homem dos principaes da terra, a seu filho huma grande, e copioza livraria, e como conhecia, que para elle nam era pequeno divertimento; lhe disse; ora jà que estamos aqui, quero que V.m. veja huma cousa de seu gosto, subimos assima, e chegamos à grande sala dos livros, e quando eu esperava que entrasse a ver alguns, nam passou da porta, e com hum pè dentro, e outro fóra entrou a exclamar. </p>
<p rend="MO"><milestone unit="ZM" xml:id="FR.4"></milestone> —— <hi rend="italic">O quantum est in rebus inane</hi>!</p>
<p rend="QU">Pers. satyr. I.V.R. </p>
<p rend="SO">Que em Portuguez quer dizer: <hi rend="italic">Quantas cousas ha no Mundo, que nam servem para nada</hi>! <milestone rend="closer" unit="ZM"></milestone> Ao ouvir esta nam esperada exclamaçam, cuidei que elle dizia isto por saber jà que o dono de quem presentemente era a tal Livraria, passava annos inteiros sem que abrisse hum só livro daquelles, e que sómente os conserva por Estado, e por dizerem naquellas vizinhanças, que he homem grande; porque tem muitos livros, que ha muitos, que conheço desta natureza. Neste lugar nam posso <pb n="43"></pb> deixar de referir dous cazos bem galantes, e dignos de ponderaçam, que confirmam este pensamento em que entrei com a exclamaçam do meu amigo, e depois continuarei com o que disse sobre ella. Achava-me em certa occaziam em caza de hum Negociante de Livros, quando entrou huma pessoa Ecclesiastica, que depois veyo a ser das Principaes da Corte na dignidade, sendo-o entam jà por nacimento, e querendo proverse de alguns livros, porque tambem o lugar que occupava requeria este genero de provimento, entrou a buscar, e a escolher à toa, e entre huma boa porçam, que apartou, pegou tambem nas Obras do Doutor Hoffmano, o Medico mais practico, e mais douto entre os Modernos, passou varias paginas, fez que lia, muitos Titulos de seus excellentes tratados, e por ultimo, voltou dizendo: <milestone unit="D" xml:id="FR.5"></milestone> Ah Senhor; o certo he, que estes homens do Norte escrevem em materias do Direito melhor, que todas as mais naçoens, tambem quero estes. <milestone rend="closer" unit="D"></milestone> O Negociante, que nam era culpado da ignorancia do comprador, armou a conta com os mais, e o tal Doutor mandou carregar com todos para caza, aonde entendo se conservaram virgens atè o tempo da sua morte. <milestone rend="closer" unit="AE"></milestone> <milestone unit="AE" xml:id="FR.6"></milestone> O outro cazo da mesma natureza succedeu com outro que veyo à Corte pertender huma das muitas Igrejas do Padroado Real, que se achavam vagas, entrou em caza de hum destes Livreiros, pegou em hum Livro de Moral, que se intitula Hortus Pastorum, e depois de ler por elle quasi hum quarto de hora sem virar folha, voltou para hum dos circunstan-<pb n="44"></pb>tes que se achavam na mesma caza, conversando; e muito simplesmente lhe perguntou <milestone unit="D" xml:id="FR.7"></milestone> <hi rend="italic">nam me dirà V.m. de que trata este Livro</hi>? <milestone rend="closer" unit="D"></milestone> Vejam agora, que Parocho, e que Juiz seriam estes dous? O peyor he, que hum ficou exercitando o Officio de julgar, e o outro foy provido na Igreja, que pertendia. E de que serviaõ a estes as livrarias. <milestone rend="closer" unit="AE"></milestone></p>
<p><milestone unit="AE" xml:id="FR.8"></milestone> Mas tornando à exclamaçam do amigo na entrada da Livraria, nam foi pelo que eu cuidava, foy sim por outro principio differente, porque logo acrescentou, vendo que eu me admirava; <milestone unit="D" xml:id="FR.9"></milestone> digame, senhor, para que servem neste mundo os cimiterios, e os corpos mortos, que nelles se acham? Certamente hade V.m. confessar, que para cousa alguma: pois estas grandes livrarias, e estes muitos livros nam sam outra causa mais, que cimiterios, e corpos mortos. Eu que fiquei confuzo, porque ainda nam tinha comprehendido toda a força do conceito, branda, e mansamente por lhe nam fazer exaltar a colera, conhecendo que o seu genio he hum pouco ardente, lhe perguntei a razam porque com estes titulos tratava as Livrarias de cimiterios, e os livros de cadaveres; ao que elle satisfez, dizendo: sam cimiterios as Livrarias; porque nellas ordinariamente jazem, e dormem sepultados no pò tantos livros sem alma como se fossem cadaveres, por nam terem o condimento precizo do sal, nem o espirito, e substancia preciza para respirarem mais vida com que poderem ser uteis aos seus leitores, sendo condenados a hum sono eterno, porque para elles nam tem trombeta o juizo, nem voz a Fama. Cor-<pb n="45"></pb>rompem-se muitos destes volumes sem voar, como succede ordinariamente às corujas, que cobertas de penas vans, attordoadas cahem das torres, e jazem pizadas de todos sem se poderem levantar, porque nam tem azas, que bastem para levantar seus corpos, tambem o magestozo do frontispicio de hum livro nam basta para lhe dar voo no conceito dos doutos. Muitos volumes nam voam se nam pelo nome, e ainda muitas vezes nem por elle mesmo, porque nem nomeados sam. Morrem muitas obras primeiro que seus Authores, porque estes sam como os Pays achacados, que geram os filhos com a mesma constituiçam: e alguns morrem nas envoltas, servindolhe a mesma prensa de berço, e tumba. Outros sam tam fracos, que nam podem caminhar muito, e por isso param de quando em quando, atè que finalmente cahem em alguma cova donde senam tiram, por nam haver quem lhe dè a mam.</p>
<p>Mas isto nam sucede só aos Livros maos, porque tambem os bons experimentam o mesmo desastre, por serem menos os que os entendem: e parece, q̃ quanto melhores sam, menos se estimam elles, e seus authores; o que se confirma pelo successo seguinte. <milestone unit="EX" xml:id="FR.10"></milestone> Hum Author Classico bem conhecido nam só em Corintho, mas tambem em todo o Oriente chamado Hiperiam, que tinha publicado muitas obras cheyas de Doutrina, e de substancia, andava com hum seu creado recolhendo as que podia, e comprandoas por todo o presso, ainda que achava poucas, pelas mãos daquelles livreiros, que conhecendo-o todos o veneravam como utilissimo <pb n="46"></pb> ao seu Officio. Todas as q̃ juntava hia dando ao seu creado, o qual as hia metendo em hum ceiram, que trazia sobre hum jumento. Despois, que escolheo os volumes, que pode das suas obras, de que fez huma boa carga ao jumento porque os livros pezam aos ignorantes, quando aos doutos servem de allivio, se foi encaminhando para a Praça publica de Corintho. Tanto, que a ella chegou, se foi a montoando o povo curioso de ver alguma novidade, e depois de lhe formar hum espaçoso circulo foi lançando todos os livros em huma fogueira q̃ para isso fez, e ao mesmo tempo assim falou ao Povo.</p>
<p><milestone unit="E3" xml:id="FR.11"></milestone> Eu creyo, que muito bem me conheceis ó moradores de Corintho! e basta, que vos diga o meu nome para que authorizeis o meu credito. Eu sou Hiperiam, aquelle, que tanto fez gemer as prensas, e que tanto fez falar a fama, cujas azas augmentadas com a minha pena, voaram a promulgar por toda a parte os Fastos dos Principes da Asia, e dos Satrapas da Grecia. Mas desagradecidos, porque, ou privados de hum entendimento agudo, ainda, que eu os qualifiquei por Aguias, ou credulos de que lhe eram devidos aquelles Elogios, que se costumam tributar aos Grandes, nenhum delles me remunerou em tempo algum com justa gratidam, porque se persuadiram ser bastante recompensa permittirme que eu os celebrasse com affectaçam. Renovei a sua antiga gloria inveterada no esquecimento, fazendo-a memoravel para a eternidade; e que fruto consegui de tudo isto? Miseravel pobre, e desti-<pb n="47"></pb>tuido como vedes sou a prova evidente de que sou letrado infeliz, porque com estar sempre embrulhado com os papeis, nunca pude sahir destes trapos; e só com razam me posso chamar homem de bellas letras, porque pelas minhas, que nam foram màs outra couza nam recebi mais, que bellas cartas ou boas letras dos Grandes avarentos, que pertenderam (como pouco Flosofos) poder recompensar a sustancia com os accidentes. Eu me contentàra ao menos se os caracteres com que os Secretarios formàram aquellas Cartas, fossem tantas Rans, jà que tinham as pernas tam compridas pelas boas penadas, que gastàram, e o corpo tenue pela pouca substancia que em si continham, porque mandando-as fritar remediaria com ellas a fome, quando ainda nam tivesse consumido com as vigilias nocturnas todo o meu azeite. </p>
<p>Ardendo com este justo sentimento, para fazer huma generosa vingança, quero se convertam em fumo estes meus escriptos, porque ao menos assim poderei conseguir depois de minha morte algum nome, pois sei, que os doutos sam como a alma de Aristoteles quando vivem entre os ignorantes <milestone unit="ZM" xml:id="FR.12"></milestone> <hi rend="italic">Laudatur ubi no est, cruciatur ubi est</hi>: isto he: que padece em quanto existe, e louva-se depois que acaba: <hi rend="italic"><milestone rend="closer" unit="ZM"></milestone></hi> assim acabou de falar este grande homem, em cuja acçam deixou hum bom documento para a posteridade. <milestone rend="closer" unit="E3"></milestone> <milestone rend="closer" unit="EX"></milestone></p>
<p>Com que, ou de huma sorte, ou de outra sempre os livros sam cadaveres; os maos, porque nam tem vida na pouca sustancia, que encerram, os bons, ou porque se nam usa delles como suc-<pb n="48"></pb>cede aos desta Livraria, ou porque se agradecem pouco, nam conseguindo seus authores alguma utilidade com que dar subsistencia à vida: e por isso as livrarias cimiterios; porque huns, e outros ordinariameute nelles estam sepultados. <milestone rend="closer" unit="D"></milestone> <milestone rend="closer" unit="AE"></milestone></p>
<p>Nam me desagradou a pratica do bom hospede, e della tirei hum documento, que me parece he bem deduzido. <milestone unit="MT" xml:id="FR.13"></milestone> Se as Livrarias sam cimiterios, e os livros assim màos, como bons sam cadaveres; quero escrever estas Folhas volantes, porque nem sam livros para morrer, nem provavelmente iràm para as livrarias onde se enterrem. Nam quero sofrer a distilaçam, e as diligencias da Chimica fazendo hum livro grande, que depois de calcinado veja o meu trabalho reduzido a hum nada, nem quero ter o cuidado de Hyperiam, sendo bom de o reduzir a cinza pelo pouco agradecimento. Como isto que escrevo he pouco, nam se pòde perder muito, pelo adagio vulgar, que em pouco pouco se perde, ainda que se apure toda a Chimica em fazer todas as diligencias da arte: e juntamente como, nem louvo, engrandeço, ou lizongeo pessoa alguma, nem directamente lhe dirijo papel algum, nam tenho lugar de me resentir do pouco agradecimento, e recompensa; e acharey toda a minha satisfaçam quando o Publico o aprove, e se aproveite com a sua liçam. <milestone rend="closer" unit="MT"></milestone> <milestone rend="closer" unit="E2"></milestone></p>
<p><hi rend="smallcaps">Lisboa:</hi></p>
<p rend="SO">Na Officina de <hi rend="smallcaps">Pedro Ferreira</hi>, Impressor da Augustissima Rainha N. S. Anno de 1752. <milestone rend="closer" unit="E1"></milestone></p>
<p></p></div2></div1></body>
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              <seg synch="#FR.1" type="E1"> Num.° 6. Reflexam sobre as Livrarias. <seg synch="#FR.2" type="E2"> Por conta deste sitio ser delicioso,
                                    depois que os amigos tiveram noticia, que eu me tinha retirado
                                    para elle, alguns me vem fazer de quando em quando suas visitas,
                                    quando sam de mais cumprimento, là me agoniam, porque nam tenho
                                    todo o provimento, e petrechos necessarios para os hospedar com
                                    propriedade, e ceremonia, que he descomodo, que ordinariamente
                                    se experimenta no campo, e nem de repente se pòde ter tudo tam
                                    prompto como na Cidade; o que nam sucede com as pessoas de
                                    confianҫa, e de amizade particular, porque estas nam querem
                                    outro trato melhor, mais do que hum seja V.m. bem chegado, dito
                                    com bom coraҫam, e com bom animo. <pb n="42"></pb>
                  <seg synch="#FR.3" type="AE"> Entre os meus hospedes
                                        interpolados chegou os dias passados hum, ainda que nam de
                                        muita confiança, sim de bastante entendimento, que quanto a
                                        mim estes sam bons hospedes, porque ao menos recompensam o
                                        tratamento que se lhes faz, com a boa conversaçaõ, e com a
                                        boa doutrina com o que se nam vem a perder tudo: depois de o
                                        conduzir hum dia a ver varias quintas, em que se admira mais
                                        a industria para a conveniencia, que o bom gosto para a
                                        recreaçam, passamos por huma parte, onde tinha deixado hum                      
                  homem dos principaes da terra, a seu filho huma grande, e
                                        copioza livraria, e como conhecia, que para elle nam era
                                        pequeno divertimento; lhe disse; ora jà que estamos aqui,
                                        quero que V.m. veja huma cousa de seu gosto, subimos assima,
                                        e chegamos à grande sala dos livros, e quando eu esperava
                                        que entrasse a ver alguns, nam passou da porta, e com hum pè                         
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                      <seg type="QU">Pers. satyr. I.V.R. </seg> Que em
                                            Portuguez quer dizer: Quantas cousas ha no Mundo, que
                                            nam servem para nada! </seg> Ao ouvir esta nam esperada
                                        exclamaçam, cuidei que elle dizia isto por saber jà que o
                                        dono de quem presentemente era a tal Livraria, passava annos
                                        inteiros sem que abrisse hum só livro daquelles, e que
                                        sómente os conserva por Estado, e por dizerem naquellas
                                        vizinhanças, que he homem grande; porque tem muitos livros,
                                        que ha muitos, que conheço desta natureza. Neste lugar nam
                                        posso <pb n="43"></pb> deixar de referir dous cazos bem
                                        galantes, e dignos de ponderaçam, que confirmam este
                                        pensamento em que entrei com a exclamaçam do meu amigo, e
                                        depois continuarei com o que disse sobre ella. Achava-me em
                                        certa occaziam em caza de hum Negociante de Livros, quando
                                        entrou huma pessoa Ecclesiastica, que depois veyo a ser das
                                        Principaes da Corte na dignidade, sendo-o entam jà por
                                        nacimento, e querendo proverse de alguns livros, porque
                                        tambem o lugar que occupava requeria este genero de
                                        provimento, entrou a buscar, e a escolher à toa, e entre
                                        huma boa porçam, que apartou, pegou tambem nas Obras do
                                        Doutor Hoffmano, o Medico mais practico, e mais douto entre
                                        os Modernos, passou varias paginas, fez que lia, muitos
                                        Titulos de seus excellentes tratados, e por ultimo, voltou
                                        dizendo: <seg synch="#FR.5" type="D"> Ah Senhor; o certo he,
                                            que estes homens do Norte escrevem em materias do
                                            Direito melhor, que todas as mais naçoens, tambem quero
                                            estes. </seg> O Negociante, que nam era culpado da
                                        ignorancia do comprador, armou a conta com os mais, e o tal
                                        Doutor mandou carregar com todos para caza, aonde entendo se
                                        conservaram virgens atè o tempo da sua morte. </seg>
                  <seg synch="#FR.6" type="AE"> O outro cazo da mesma natureza
                                        succedeu com outro que veyo à Corte pertender huma das
                                        muitas Igrejas do Padroado Real, que se achavam vagas,                                      
  entrou em caza de hum destes Livreiros, pegou em hum Livro
                                        de Moral, que se intitula Hortus Pastorum, e depois de ler
                                        por elle quasi hum quarto de hora sem virar folha, voltou
                                        para hum dos circunstan-<pb n="44"></pb>tes que se achavam na
                                        mesma caza, conversando; e muito simplesmente lhe perguntou
                                            <seg synch="#FR.7" type="D"> nam me dirà V.m. de que
                                            trata este Livro? </seg> Vejam agora, que Parocho, e que                      
                  Juiz seriam estes dous? O peyor he, que hum ficou
                                        exercitando o Officio de julgar, e o outro foy provido na
                                        Igreja, que pertendia. E de que serviaõ a estes as
                                        livrarias. </seg>
                  <seg synch="#FR.8" type="AE"> Mas tornando à exclamaçam do amigo
                                        na entrada da Livraria, nam foi pelo que eu cuidava, foy sim
                                        por outro principio differente, porque logo acrescentou,
                                        vendo que eu me admirava; <seg synch="#FR.9" type="D">
                                            digame, senhor, para que servem neste mundo os
                                            cimiterios, e os corpos mortos, que nelles se acham?
                                            Certamente hade V.m. confessar, que para cousa alguma:
                                            pois estas grandes livrarias, e estes muitos livros nam
                                            sam outra causa mais, que cimiterios, e corpos mortos.
                                            Eu que fiquei confuzo, porque ainda nam tinha
                                            comprehendido toda a força do conceito, branda, e
                                            mansamente por lhe nam fazer exaltar a colera,
                                            conhecendo que o seu genio he hum pouco ardente, lhe
                                            perguntei a razam porque com estes titulos tratava as
                                            Livrarias de cimiterios, e os livros de cadaveres; ao
                                            que elle satisfez, dizendo: sam cimiterios as Livrarias;
                                            porque nellas ordinariamente jazem, e dormem sepultados
                                            no pò tantos livros sem alma como se fossem cadaveres,
                                            por nam terem o condimento precizo do sal, nem o
                                            espirito, e substancia preciza para respirarem mais vida
                                            com que poderem ser uteis aos seus leitores, sendo
                                            condenados a hum sono eterno, porque para elles nam tem
                                            trombeta o juizo, nem voz a Fama. Cor-<pb n="45"></pb>rompem-se muitos destes volumes sem voar, como succede
                                            ordinariamente às corujas, que cobertas de penas vans,
                                            attordoadas cahem das torres, e jazem pizadas de todos
                                            sem se poderem levantar, porque nam tem azas, que bastem
                                            para levantar seus corpos, tambem o magestozo do
                                            frontispicio de hum livro nam basta para lhe dar voo no
                                            conceito dos doutos. Muitos volumes nam voam se nam pelo
                                            nome, e ainda muitas vezes nem por elle mesmo, porque          
                                  nem nomeados sam. Morrem muitas obras primeiro que seus
                                            Authores, porque estes sam como os Pays achacados, que
                                            geram os filhos com a mesma constituiçam: e alguns
                                            morrem nas envoltas, servindolhe a mesma prensa de
                                            berço, e tumba. Outros sam tam fracos, que nam podem
                                            caminhar muito, e por isso param de quando em quando,
                                            atè que finalmente cahem em alguma cova donde senam
                                            tiram, por nam haver quem lhe dè a mam. Mas isto nam                                         
   sucede só aos Livros maos, porque tambem os bons
                                            experimentam o mesmo desastre, por serem menos os que os
                                            entendem: e parece, q̃ quanto melhores sam, menos se
                                            estimam elles, e seus authores; o que se confirma pelo
                                            successo seguinte. <seg synch="#FR.10" type="EX"> Hum
                                                Author Classico bem conhecido nam só em Corintho,
                                                mas tambem em todo o Oriente chamado Hiperiam, que
                                                tinha publicado muitas obras cheyas de Doutrina, e
                                                de substancia, andava com hum seu creado recolhendo
                                                as que podia, e comprandoas por todo o presso, ainda
                                                que achava poucas, pelas mãos daquelles livreiros,
                                                que conhecendo-o todos o veneravam como utilissimo
                                                  <pb n="46"></pb> ao seu Officio. Todas as q̃ juntava
                                                hia dando ao seu creado, o qual as hia metendo em
                                                hum ceiram, que trazia sobre hum jumento. Despois,
                                                que escolheo os volumes, que pode das suas obras, de
                                                que fez huma boa carga ao jumento porque os livros
                                                pezam aos ignorantes, quando aos doutos servem de
                                                allivio, se foi encaminhando para a Praça publica de
                                                Corintho. Tanto, que a ella chegou, se foi a
                                                montoando o povo curioso de ver alguma novidade, e
                                                depois de lhe formar hum espaçoso circulo foi
                                                lançando todos os livros em huma fogueira q̃ para
                                                isso fez, e ao mesmo tempo assim falou ao Povo. <seg synch="#FR.11" type="E3"> Eu creyo, que muito bem
                                                  me conheceis ó moradores de Corintho! e basta, que
                                                  vos diga o meu nome para que authorizeis o meu
                                                  credito. Eu sou Hiperiam, aquelle, que tanto fez                 
                                 gemer as prensas, e que tanto fez falar a fama,
                                                  cujas azas augmentadas com a minha pena, voaram a
                                                  promulgar por toda a parte os Fastos dos Principes
                                                  da Asia, e dos Satrapas da Grecia. Mas
                                                  desagradecidos, porque, ou privados de hum        
                                          entendimento agudo, ainda, que eu os qualifiquei
                                                  por Aguias, ou credulos de que lhe eram devidos
                                                  aquelles Elogios, que se costumam tributar aos
                                                  Grandes, nenhum delles me remunerou em tempo algum
                                                  com justa gratidam, porque se persuadiram ser     
                                             bastante recompensa permittirme que eu os
                                                  celebrasse com affectaçam. Renovei a sua antiga
                                                  gloria inveterada no esquecimento, fazendo-a
                                                  memoravel para a eternidade; e que fruto consegui
                                                  de tudo isto? Miseravel pobre, e desti-<pb n="47"></pb>tuido como vedes sou a prova evidente de que sou
                                                  letrado infeliz, porque com estar sempre
                                                  embrulhado com os papeis, nunca pude sahir destes
                                                  trapos; e só com razam me posso chamar homem de
                                                  bellas letras, porque pelas minhas, que nam foram
                                                  màs outra couza nam recebi mais, que bellas cartas
                                                  ou boas letras dos Grandes avarentos, que
                                                  pertenderam (como pouco Flosofos) poder
                                                  recompensar a sustancia com os accidentes. Eu me
                                                  contentàra ao menos se os caracteres com que os
                                                  Secretarios formàram aquellas Cartas, fossem
                                                  tantas Rans, jà que tinham as pernas tam compridas
                                                  pelas boas penadas, que gastàram, e o corpo tenue
                                                  pela pouca substancia que em si continham, porque
                                                  mandando-as fritar remediaria com ellas a fome,
                                                  quando ainda nam tivesse consumido com as vigilias
                                                  nocturnas todo o meu azeite. Ardendo com este
                                                  justo sentimento, para fazer huma generosa
                                                  vingança, quero se convertam em fumo estes meus
                                                  escriptos, porque ao menos assim poderei conseguir
                                                  depois de minha morte algum nome, pois sei, que os
                                                  doutos sam como a alma de Aristoteles quando vivem
                                                  entre os ignorantes <seg synch="#FR.12" type="ZM">
                                                  Laudatur ubi no est, cruciatur ubi est: isto he:
                                                  que padece em quanto existe, e louva-se depois que
                                                  acaba: </seg> assim acabou de falar este grande
                                                  homem, em cuja acçam deixou hum bom documento para             
                                     a posteridade. </seg>

                      </seg> Com que, ou de huma sorte, ou de outra sempre os
                                            livros sam cadaveres; os maos, porque nam tem vida na
                                            pouca sustancia, que encerram, os bons, ou porque se nam
                                            usa delles como suc-<pb n="48"></pb>cede aos desta Livraria,                 
                           ou porque se agradecem pouco, nam conseguindo seus
                                            authores alguma utilidade com que dar subsistencia à
                                            vida: e por isso as livrarias cimiterios; porque huns, e
                                            outros ordinariameute nelles estam sepultados. </seg>

                  </seg> Nam me desagradou a pratica do bom hospede, e della tirei
                                    hum documento, que me parece he bem deduzido. <seg synch="#FR.13" type="MT"> Se as Livrarias sam cimiterios, e
                                        os livros assim màos, como bons sam cadaveres; quero
                                        escrever estas Folhas volantes, porque nem sam livros para
                                        morrer, nem provavelmente iràm para as livrarias onde se
                                        enterrem. Nam quero sofrer a distilaçam, e as diligencias da
                                        Chimica fazendo hum livro grande, que depois de calcinado
                                        veja o meu trabalho reduzido a hum nada, nem quero ter o
                                        cuidado de Hyperiam, sendo bom de o reduzir a cinza pelo
                                        pouco agradecimento. Como isto que escrevo he pouco, nam se
                                        pòde perder muito, pelo adagio vulgar, que em pouco pouco se
                                        perde, ainda que se apure toda a Chimica em fazer todas as
                                        diligencias da arte: e juntamente como, nem louvo,
                                        engrandeço, ou lizongeo pessoa alguma, nem directamente lhe
                                        dirijo papel algum, nam tenho lugar de me resentir do pouco
                                        agradecimento, e recompensa; e acharey toda a minha
                                        satisfaçam quando o Publico o aprove, e se aproveite com a
                                        sua liçam. </seg>
                </seg> Lisboa: Na Officina de Pedro Ferreira, Impressor da
                                Augustissima Rainha N. S. Anno de 1752. </seg>
            </ab>
          </div>
        </body>
      </text>
    </group>
  </text>
</TEI>
