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        <title>Num. 2</title>
        <author>Anónimo (Bento Morganti)</author>
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        <edition>Moralische Wochenschriften</edition>
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                        Universität Graz</orgName>
        </publisher>
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                        Informationsmodellierung, Universität Graz</orgName>
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        <pubPlace>Graz</pubPlace>
        <date when="2018-10-04">04.10.2018</date>
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        <bibl>Anónimo (Morganti, Bento): Primeira Collecçam dos Papeis Anonymos. Lisboa:
                    Pedro Ferreira, 1752, 9-15 </bibl>
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          <title level="j">O Anonymo. Repartido pelas
                        semanas, para divertimento e utilidade do publico</title>
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          <date>1752</date>
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<p rend="EU"><hi rend="smallcaps"><milestone unit="E1" xml:id="FR.1"></milestone></hi></p>
<div1><head><hi rend="smallcaps">Num. 2</hi></head>
<div2><head>Dos meyos de enriquecer, e da industria, que a necessidade dà aos homens.</head>
<p><milestone unit="E2" xml:id="FR.2"></milestone> Por não faltar o que prometi, venho cumprir a obrigaҫão em que me puz de não deixar os meus amigos sem o seu papelinho em que gastem por conta da sua curiosidade huma porção de tempo; o que posso fazer he não ser muito enfadonho. Para assumpto deste Discurso encontrei este lugar de Persio.</p>
<p rend="MO"><hi rend="italic"><milestone unit="ZM" xml:id="FR.3"></milestone> Magister artis ingeniique largitor Venter</hi>.</p>
<p rend="QU">Per.Sat. Prol.verf. II. </p>
<p rend="SO">Que quer dizer: <hi rend="italic">Que a fome he a que ensina as boas artes, e que dà o Espirito, e facilita o engenho. <milestone rend="closer" unit="ZM"></milestone></hi> E sobre este pè não cahe mal dizer alguma cousa sobre os meyos, que pódem conduzir para hum homem ser rico, e que ordinariamente a necessidade applica aos <pb n="10"></pb> homens a ser industriosos para as artes, e sciencias, com que se augmenta o esplendor de huma Republica.</p>
<p>Queixa-se Luciano dos Filosofos do seu tempo, que não podião concordar se as riquezas erão hum verdadeiro bem: as feitas mais severas o negavão fortemente, ao mesmo tempo, que outras o affirmàrão com igual ardor, e efficacia.</p>
<p>Facilmente me inclino a crer, que à porporção que o mundo se fez mais polido, se desprezou a opinião daquelles Filosofos rigidos, e não ha presentemente pessoa alguma, que não confesse, que o possuir hum bom cabedal, he acompanhado de grandes conveniencias. Ainda, que aquelles que se persuadem ter muita virtude desprezão huma boa parte dos gostos, que se buscão neste mundo, com tudo não poderão certamente ser insensiveis ao pezo, e à dignidade, que hum ter honesto dà ao seu caracter, aos seus conselhos, e às suas acçoens.</p>
<p>Depois deste pequeno elogio das riquezas, não duvido, que a mayor parte dos leitores desejem encontrar aqui huma breve Dissertaçaõ sobre os meyos de estabelecer a sua fortuna, ou a Arte de enriquecer: e como me for possivel não deixarei de satisfazer a sua curiosidade.</p>
<p><milestone unit="EX" xml:id="FR.4"></milestone> O primeiro, e o mais infallivel destes meyos he o <hi rend="italic">Poupar</hi>. Todos os homens não tem os talentos precizos para ganhar dinheiro: mas todos pódem ser muito bons economicos, e ha muito poucas pessoas, que querendo reflectir sobre a sua vida passada, hão de achar que se tivessem poupado todas as pequenas quantias, que tem mal gastado, e sem necessidade, terião presentemente hum honesto cabedal. <milestone rend="closer" unit="EX"></milestone> <milestone unit="EX" xml:id="FR.5"></milestone> O segundo meyo he o da <hi rend="italic">Diligencia</hi>. Ambas estas duas qualidades, reco-<pb n="11"></pb>mendão os Italianos em tres proverbios de que frequentemente usão, e me parece, que saõ excellentes; e dizem:</p>
<p><milestone unit="ZM" xml:id="FR.6"></milestone> I. <hi rend="italic">Não mandeis nunca fazer por outro, o que vós mesmo podeis fazer.</hi></p>
<p>II. <hi rend="italic">Não deixeis para amanhã o que podeis fazer hoje.</hi></p>
<p>III. <hi rend="italic">Não se devem nunca desprezar as cousas pequenas, nem as despezastenues</hi>. <milestone rend="closer" unit="ZM"></milestone> <milestone rend="closer" unit="EX"></milestone></p>
<p rend="SO"><milestone unit="EX" xml:id="FR.7"></milestone> O terceiro meyo de enriquecer, he observar em todos os negocios a ordem de que são capazes os pequenos engenhos. <milestone rend="closer" unit="EX"></milestone></p>
<p><milestone unit="EX" xml:id="FR.8"></milestone> O famozo Monsr. de Wit, hum dos mayores Politicos do seu tempo, perguntado por hum de seus amigos, como podia acudir a todos os negocios, que tinha a seu cargo, respondeu, que toda a sua Arte consistia <hi rend="italic">em fazer huma cousa de cada vez</hi>. Se tenho, dizia elle algumas cartas de importancia para escrever, não cuido senão em as expedir o mais depressa, que posso; se alguns negocios domesticos pedem mais attenção, a elles me applico inteiramente atè os deixar bem regulados. <milestone rend="closer" unit="EX"></milestone> <milestone unit="FP" xml:id="FR.9"></milestone> Em huma palavra vemos ordinariamente homens fleumaticos, e de hum espirito tardo, que chegão a ter grandes cabedaes por meyo da regularidade, e da boa ordem, que observão nos seus negocios, em lugar, que sem esta exacção os melhores Genios, e as imaginaçoens mais vivas, embarassam mais depressa os seus interesses, do que os levaraõ a hum fim util, e feliz. <milestone rend="closer" unit="FP"></milestone></p>
<p>Pelo que me parece que se póde estabelecer por maxima, que todo o homem dotado de hum bom senso commum, tem os meyos de se enriquecer seguramente na situação em que se acha. Se os mais capazes não experimentão isto algumas vezes, procede de preferirem outro qualquer objecto ás riquezas, ou de <pb n="12"></pb> que elles as querem adquirir sómente a seu modo, e á sua vontade; como não deixem de gozar todos os divertimentos, e gostos da vida.</p>
<p>Mas àlem destes caminhos ordinarios, que ha para ser hum homem rico, he precizo confessar, que o genio para isto póde muito, e que ache em que se exercitar da mesma sorte que a outro qualquer respeito.</p>
<p>Ainda, que tenha havido ha muitos seculos huma quantidade de meyos para ganhar dinheiro, os quaes ha annos a esta parte se tem multiplicado muito; com tudo ainda fica sobre este artigo hum dilatado campo para a invençam, que hum homem de huma capacidade mediocre, pòde facilmente descobrir; e achar com effeito hum meyo inteiramente novo, em que ninguem tenha dado atè o presente.</p>
<p>Vemos todos os dias alguns pobres famintos, que tem bastante viveza, e poem em uso algumas subtilezas, que mostrão a força da invenção a este respeito.</p>
<p><milestone unit="EX" xml:id="FR.10"></milestone> Dizem, que Escaramucho, celebre Bufão Italiano, reduzido a huma grande necessidade, chegando a Pariz, se lembrou de hum estratagema gracioso, para se remediar, e ter com que viver. Andava sempre rondando a porta da loge de hum homem que vendia cheiros, e outras cousas desta natureza, que era dos de melhor fama. Quando via sahir algum que comprava Tabaco em pò, logo promptamente lhe pedia huma pitada, e depois de ter junta huma certa quantidade de todas as castas, misturava tudo muito, e tornava a vender ao mesmo dono da loge, por pouco dinheiro, o qual percebendo depois a astucia, poz em moda este mesmo Tabaco, e o vendia muito bem, debaxo do nome de <hi rend="italic">Tabaco de mil flores</hi>. A historia acrescenta; que Escaramucho passava com este meyo muito bem a sua vida, atè que o desejo de se enrriquecer muito de-<pb n="13"></pb>pressa o fez hum dia tomar huma extraordinaria pitada de Tabaco da caixa de hum Official Suisso, que sem admittir desculpas, nem satisfaçoens, lhe descarregou humas poucas de bastonadas, o que o obrigou a renunciar este engenhozo modo de ganhar a vida. <milestone rend="closer" unit="EX"></milestone></p>
<p><milestone unit="EX" xml:id="FR.11"></milestone> Não foy menos astuciozo hum moço Frances, que tinha pouco mais de doze annos de idade, o qual por sua grande industria, e hum continuo exercio achou o segredo de tocar a marcha de granadeiros sobre a barba. E pessoas dignas de credito affirmão, que por este meyo ganhava muito bem a sua vida, e socorria a sua pobre mãy, e ainda ajuntava alguma coiza com que hia fazendo seu mialheiro. <milestone rend="closer" unit="EX"></milestone></p>
<p>A estes dois exemplos, alem de outros muitos que se podião referir ao mesmo intento, e vemos praticar todos os dias, acrecentarei <milestone unit="EX" xml:id="FR.12"></milestone> o do famozo Rebelais, da mesma sorte que anda escripto nas <hi rend="italic">Particularidades da sua vida</hi> impressas no anno de 1711. e andão no principio das suas obras. Obrigado este a fugir de Roma, muito mal equipado sem dinheiro, e a pé, se lembrou de hum estratagema, que poderia custar muito caro a outro qualquer que não fosse elle. Chegou a huma estalagem em Liam, e pedio hum apozento mais retirado, e chamou hum rapàz que sabia ler, e escrever. Encheu logo huns pequenos saquitelos da cinza que achou na chemine, e trazendolhe o rapàz papel, e tinta, lhe mandou escrever diversos titulos que poz nos sacos; dizia hum: <milestone unit="D" xml:id="FR.13"></milestone> <hi rend="italic">Peçonha para matar o Rey; outro peçonha para matar a Rainha. O terceiro peçonha para matar o Duque de Orleans</hi>. E assim outros mais para matar outros Principes e Princezas da familia Real: isto assim preparado disse ao rapàz: <hi rend="italic">Minino, guardaivos bem de falar nisto a vossa Mãy, nem a outra qualquer pessoa, porque corre</hi> <pb n="14"></pb> <hi rend="italic">muito perigo a vossa vida, e tambem a minha. <milestone rend="closer" unit="D"></milestone></hi> E depois introduzio os paquetes na sua mala, e pedio que lhe trouxessem de jantar.</p>
<p>Estando jentando, o rapàz se não descuidou em contar a sua mãy tudo o que se tinha passado. A boa molher cheya de medo, e enfadada do mao procedimento do passageiro entendeo que estava obrigada a dar conta ao Ministro, principalmente quando naquella occazião se tinha intentado dar veneno ao Delfin, e que toda a França se achava alterada por conta deste successo.</p>
<p>O Ministro foy apressadamente com todos seus officiaes à estalagem, e tomando a informaҫão perciza, examinou Rebellais, o qual respondeo com variedade, buscoulhe a mala, e achando os taes sacos, rezolveo conduzilo elle mesmo com huma boa escolta para Pariz.</p>
<p>Montado sobre hum bom cavalo, e bem regalado pelo caminho, sem lhe custar hum real, em poucos dias foy aprezentado diante do Rey, o qual o conhecia muito bem, e lhe perguntou aonde tinha deixado o Cardial de Bellai, e como se tinha reduzido àquelle mizeravel estado? Depois deo o Ministro a sua conta, mostrou a mala, os saquinhos; e as informaҫoens que sobre isto tinha tirado. Sobre isto, o prezo entreteve, e divertio o Rey com a sua aventura, e provou diante de todos os seus pòz, o que servio de motivo de rizo, e divertimento da Corte. <milestone rend="closer" unit="EX"></milestone></p>
<p>Não ha tambem duvida que as manufacturas se podem variar infinitamente, e que esta diversidade augmenta novos ramos ao comercio do Paiz; e com esta industria de novas idéas, se podem fazer ricas algumas pessoas. Mas o negocio em geral me parece não sómente muito util ao publico, mas tambem que <pb n="15"></pb> he o caminho mais natural, e mais seguro para estabelecer a fortuna.</p>
<p>Fazendo se huma boa reflexão sobre isto, e pondo em pratica o Poupar, e a diligencia, e por outra parte a industria, se poderão achar muitas pessoas ricas, e nisto descobrirão hum verdadeiro, honesto, e seguro meyo de adquirir, e conservar algum bom cabedal com que passem decentemente o resto de sua vida; sem aspirar a outros empregos mais sublimes, porque nelles he muito facil acharse enganados; sendo ordinariamente de muito pouca duraҫão a riqueza que nelles se adquire. <milestone rend="closer" unit="E2"></milestone></p>
<p><hi rend="smallcaps">Lisboa:</hi></p>
<p rend="SO">Na Officina de <hi rend="smallcaps">Pedro Ferreira</hi> Impressor da Augustissima Rainha Nossa Senhora.</p>
<p><hi rend="italic">Com todas as licenҫas necessarias</hi>.</p>
<p rend="SO"><hi rend="italic">Achar-se haõ estes papeis e os mais , que se seguirem na mesma Impressam, e nas loges de Antonio Rodrigues na Rua Nova, e de Jozé da Costa defronte de Santo Antonio. <milestone rend="closer" unit="E1"></milestone></hi></p>
<p></p></div2></div1></body>
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              <seg synch="#FR.1" type="E1"> Num. 2 <seg type="U2">Dos meyos de
                                    enriquecer, e da industria, que a necessidade dà aos
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                <seg synch="#FR.2" type="E2"> Por não faltar o que prometi, venho
                                    cumprir a obrigaҫão em que me puz de não deixar os meus amigos
                                    sem o seu papelinho em que gastem por conta da sua curiosidade
                                    huma porção de tempo; o que posso fazer he não ser muito
                                    enfadonho. Para assumpto deste Discurso encontrei este lugar de
                                    Persio. <seg type="MO">
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                    <seg type="QU">Per.Sat. Prol.verf. II. </seg> Que quer
                                        dizer: Que a fome he a que ensina as boas artes, e que dà o
                                        Espirito, e facilita o engenho. </seg> E sobre este pè não
                                    cahe mal dizer alguma cousa sobre os meyos, que pódem conduzir
                                    para hum homem ser rico, e que ordinariamente a necessidade
                                    applica aos <pb n="10"></pb> homens a ser industriosos para as
                                    artes, e sciencias, com que se augmenta o esplendor de huma
                                    Republica. Queixa-se Luciano dos Filosofos do seu tempo, que não
                                    podião concordar se as riquezas erão hum verdadeiro bem: as
                                    feitas mais severas o negavão fortemente, ao mesmo tempo, que
                                    outras o affirmàrão com igual ardor, e efficacia. Facilmente me
                                    inclino a crer, que à porporção que o mundo se fez mais polido,
                                    se desprezou a opinião daquelles Filosofos rigidos, e não ha         
                           presentemente pessoa alguma, que não confesse, que o possuir hum
                                    bom cabedal, he acompanhado de grandes conveniencias. Ainda, que
                                    aquelles que se persuadem ter muita virtude desprezão huma boa
                                    parte dos gostos, que se buscão neste mundo, com tudo não
                                    poderão certamente ser insensiveis ao pezo, e à dignidade, que
                                    hum ter honesto dà ao seu caracter, aos seus conselhos, e às
                                    suas acçoens. Depois deste pequeno elogio das riquezas, não             
                       duvido, que a mayor parte dos leitores desejem encontrar aqui
                                    huma breve Dissertaçaõ sobre os meyos de estabelecer a sua
                                    fortuna, ou a Arte de enriquecer: e como me for possivel não
                                    deixarei de satisfazer a sua curiosidade. <seg synch="#FR.4" type="EX"> O primeiro, e o mais infallivel destes meyos he o              
                          Poupar. Todos os homens não tem os talentos precizos para
                                        ganhar dinheiro: mas todos pódem ser muito bons economicos,
                                        e ha muito poucas pessoas, que querendo reflectir sobre a
                                        sua vida passada, hão de achar que se tivessem poupado todas
                                        as pequenas quantias, que tem mal gastado, e sem
                                        necessidade, terião presentemente hum honesto cabedal. </seg>
                  <seg synch="#FR.5" type="EX"> O segundo meyo he o da Diligencia.
                                        Ambas estas duas qualidades, reco-<pb n="11"></pb>mendão os
                                        Italianos em tres proverbios de que frequentemente usão, e
                                        me parece, que saõ excellentes; e dizem: <seg synch="#FR.6" type="ZM"> I. Não mandeis nunca fazer por outro, o que
                                            vós mesmo podeis fazer. II. Não deixeis para amanhã o
                                            que podeis fazer hoje. III. Não se devem nunca desprezar
                                            as cousas pequenas, nem as despezastenues. </seg>
                  </seg>
                  <seg synch="#FR.7" type="EX"> O terceiro meyo de enriquecer, he
                                        observar em todos os negocios a ordem de que são capazes os
                                        pequenos engenhos. </seg>
                  <seg synch="#FR.8" type="EX"> O famozo Monsr. de Wit, hum dos
                                        mayores Politicos do seu tempo, perguntado por hum de seus
                                        amigos, como podia acudir a todos os negocios, que tinha a
                                        seu cargo, respondeu, que toda a sua Arte consistia em fazer
                                        huma cousa de cada vez. Se tenho, dizia elle algumas cartas
                                        de importancia para escrever, não cuido senão em as expedir
                                        o mais depressa, que posso; se alguns negocios domesticos
                                        pedem mais attenção, a elles me applico inteiramente atè os
                                        deixar bem regulados. </seg>
                  <seg synch="#FR.9" type="FP"> Em huma palavra vemos
                                        ordinariamente homens fleumaticos, e de hum espirito tardo,
                                        que chegão a ter grandes cabedaes por meyo da regularidade,
                                        e da boa ordem, que observão nos seus negocios, em lugar,
                                        que sem esta exacção os melhores Genios, e as imaginaçoens
                                        mais vivas, embarassam mais depressa os seus interesses, do
                                        que os levaraõ a hum fim util, e feliz. </seg> Pelo que me
                                    parece que se póde estabelecer por maxima, que todo o homem
                                    dotado de hum bom senso commum, tem os meyos de se enriquecer                 
                   seguramente na situação em que se acha. Se os mais capazes não
                                    experimentão isto algumas vezes, procede de preferirem outro
                                    qualquer objecto ás riquezas, ou de <pb n="12"></pb> que elles as
                                    querem adquirir sómente a seu modo, e á sua vontade; como não
                                    deixem de gozar todos os divertimentos, e gostos da vida. Mas
                                    àlem destes caminhos ordinarios, que ha para ser hum homem rico,
                                    he precizo confessar, que o genio para isto póde muito, e que
                                    ache em que se exercitar da mesma sorte que a outro qualquer                       
             respeito. Ainda, que tenha havido ha muitos seculos huma
                                    quantidade de meyos para ganhar dinheiro, os quaes ha annos a
                                    esta parte se tem multiplicado muito; com tudo ainda fica sobre
                                    este artigo hum dilatado campo para a invençam, que hum homem de
                                    huma capacidade mediocre, pòde facilmente descobrir; e achar com
                                    effeito hum meyo inteiramente novo, em que ninguem tenha dado
                                    atè o presente. Vemos todos os dias alguns pobres famintos, que
                                    tem bastante viveza, e poem em uso algumas subtilezas, que
                                    mostrão a força da invenção a este respeito. <seg synch="#FR.10" type="EX"> Dizem, que Escaramucho, celebre Bufão Italiano,
                                        reduzido a huma grande necessidade, chegando a Pariz, se
                                        lembrou de hum estratagema gracioso, para se remediar, e ter
                                        com que viver. Andava sempre rondando a porta da loge de hum
                                        homem que vendia cheiros, e outras cousas desta natureza,
                                        que era dos de melhor fama. Quando via sahir algum que
                                        comprava Tabaco em pò, logo promptamente lhe pedia huma
                                        pitada, e depois de ter junta huma certa quantidade de todas
                                        as castas, misturava tudo muito, e tornava a vender ao mesmo
                                        dono da loge, por pouco dinheiro, o qual percebendo depois a
                                        astucia, poz em moda este mesmo Tabaco, e o vendia muito
                                        bem, debaxo do nome de Tabaco de mil flores. A historia
                                        acrescenta; que Escaramucho passava com este meyo muito bem
                                        a sua vida, atè que o desejo de se enrriquecer muito de-<pb n="13"></pb>pressa o fez hum dia tomar huma extraordinaria
                                        pitada de Tabaco da caixa de hum Official Suisso, que sem
                                        admittir desculpas, nem satisfaçoens, lhe descarregou humas
                                        poucas de bastonadas, o que o obrigou a renunciar este
                                        engenhozo modo de ganhar a vida. </seg>
                  <seg synch="#FR.11" type="EX"> Não foy menos astuciozo hum moço
                                        Frances, que tinha pouco mais de doze annos de idade, o qual
                                        por sua grande industria, e hum continuo exercio achou o
                                        segredo de tocar a marcha de granadeiros sobre a barba. E
                                        pessoas dignas de credito affirmão, que por este meyo
                                        ganhava muito bem a sua vida, e socorria a sua pobre mãy, e               
                         ainda ajuntava alguma coiza com que hia fazendo seu
                                        mialheiro. </seg> A estes dois exemplos, alem de outros
                                    muitos que se podião referir ao mesmo intento, e vemos praticar
                                    todos os dias, acrecentarei <seg synch="#FR.12" type="EX"> o do
                                        famozo Rebelais, da mesma sorte que anda escripto nas
                                        Particularidades da sua vida impressas no anno de 1711. e
                                        andão no principio das suas obras. Obrigado este a fugir de
                                        Roma, muito mal equipado sem dinheiro, e a pé, se lembrou de
                                        hum estratagema, que poderia custar muito caro a outro         
                               qualquer que não fosse elle. Chegou a huma estalagem em
                                        Liam, e pedio hum apozento mais retirado, e chamou hum rapàz
                                        que sabia ler, e escrever. Encheu logo huns pequenos
                                        saquitelos da cinza que achou na chemine, e trazendolhe o
                                        rapàz papel, e tinta, lhe mandou escrever diversos titulos
                                        que poz nos sacos; dizia hum: <seg synch="#FR.13" type="D">
                                            Peçonha para matar o Rey; outro peçonha para matar a
                                            Rainha. O terceiro peçonha para matar o Duque de
                                            Orleans. E assim outros mais para matar outros Principes
                                            e Princezas da familia Real: isto assim preparado disse
                                            ao rapàz: Minino, guardaivos bem de falar nisto a vossa
                                            Mãy, nem a outra qualquer pessoa, porque corre <pb n="14"></pb> muito perigo a vossa vida, e tambem a
                                            minha. </seg> E depois introduzio os paquetes na sua
                                        mala, e pedio que lhe trouxessem de jantar. Estando
                                        jentando, o rapàz se não descuidou em contar a sua mãy tudo
                                        o que se tinha passado. A boa molher cheya de medo, e
                                        enfadada do mao procedimento do passageiro entendeo que
                                        estava obrigada a dar conta ao Ministro, principalmente
                                        quando naquella occazião se tinha intentado dar veneno ao
                                        Delfin, e que toda a França se achava alterada por conta
                                        deste successo. O Ministro foy apressadamente com todos seus
                                        officiaes à estalagem, e tomando a informaҫão perciza,
                                        examinou Rebellais, o qual respondeo com variedade,
                                        buscoulhe a mala, e achando os taes sacos, rezolveo
                                        conduzilo elle mesmo com huma boa escolta para Pariz.
                                        Montado sobre hum bom cavalo, e bem regalado pelo caminho,
                                        sem lhe custar hum real, em poucos dias foy aprezentado             
                           diante do Rey, o qual o conhecia muito bem, e lhe perguntou
                                        aonde tinha deixado o Cardial de Bellai, e como se tinha
                                        reduzido àquelle mizeravel estado? Depois deo o Ministro a
                                        sua conta, mostrou a mala, os saquinhos; e as informaҫoens
                                        que sobre isto tinha tirado. Sobre isto, o prezo entreteve,
                                        e divertio o Rey com a sua aventura, e provou diante de
                                        todos os seus pòz, o que servio de motivo de rizo, e
                                        divertimento da Corte. </seg> Não ha tambem duvida que as
                                    manufacturas se podem variar infinitamente, e que esta
                                    diversidade augmenta novos ramos ao comercio do Paiz; e com esta             
                       industria de novas idéas, se podem fazer ricas algumas pessoas.
                                    Mas o negocio em geral me parece não sómente muito util ao
                                    publico, mas tambem que <pb n="15"></pb> he o caminho mais natural,
                                    e mais seguro para estabelecer a fortuna. Fazendo se huma boa
                                    reflexão sobre isto, e pondo em pratica o Poupar, e a
                                    diligencia, e por outra parte a industria, se poderão achar
                                    muitas pessoas ricas, e nisto descobrirão hum verdadeiro,
                                    honesto, e seguro meyo de adquirir, e conservar algum bom
                                    cabedal com que passem decentemente o resto de sua vida; sem
                                    aspirar a outros empregos mais sublimes, porque nelles he muito
                                    facil acharse enganados; sendo ordinariamente de muito pouca
                                    duraҫão a riqueza que nelles se adquire. </seg> Lisboa: Na
                                Officina de Pedro Ferreira Impressor da Augustissima Rainha Nossa
                                Senhora. Com todas as licenҫas necessarias. Achar-se haõ estes
                                papeis e os mais , que se seguirem na mesma Impressam, e nas loges
                                de Antonio Rodrigues na Rua Nova, e de Jozé da Costa defronte de
                                Santo Antonio. </seg>
            </ab>
          </div>
        </body>
      </text>
    </group>
  </text>
</TEI>
