António Joaquim Ribeiro an Hugo Schuchardt (07-09527)

von António Joaquim Ribeiro

an Hugo Schuchardt

Praia

07. 01. 1883

language Portugiesisch

Schlagwörter: Grazer Anthropologischer Verein Boletim da Sociedade de Geografia de Lisboa Publikationsversand Biographisches Publikationsvorhabenlanguage Kabardinisch

Zitiervorschlag: António Joaquim Ribeiro an Hugo Schuchardt (07-09527). Praia, 07. 01. 1883. Hrsg. von Nélia Alexandre und Jürgen Lang (2016). In: Bernhard Hurch (Hrsg.): Hugo Schuchardt Archiv. Online unter https://gams.uni-graz.at/o:hsa.letter.4065, abgerufen am 12. 04. 2026. Handle: hdl.handle.net/11471/518.10.1.4065.


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Meu caro amigo Schuchardt

Cidade da Praia, Caboverde, 7 de janeiro 1883

Antes de responder ás suas apreciavaes cartas de 19 e 28 de novembro do anno findo, começarei por pedir-lhe licença para banir de entre nós, o cerimonioso tratamento de Excellencia, muito bonito para encetar relações, mas muito pouco proprio entre amigos sinceros; contando antecipadamente com a sua annuencia, passo a responder por ordem:

Recebi e agradeço cordealmente o diploma que se dignou mandar-me, bem como o seu "Estudo sobre o creoulo de S. Thomé"; - infelizmente, como está em Alemão (lingua que me é totalmente desconhecida) não poude aprecial-o como merece; - não acha que seria conveniente vertel-o em Francez? assim seria mais bem apreciado, ao passo que, em Alemão o não póde ser, pela difficuldade d'encontrar quem conheça esta lingua cá por |2| Africa. Se o verter em Francez, eu encarrego-me de o traduzir para Portuguez.

Sei que o am.o é já socio correspondente da "Sociedade de Geographia de Lisbôa", e portanto, felicito-me por encontrar no amigo, novamente, um consocio, e que tanto honra pelos seuz meritoz, a sociedade que tem a gloria de contal-o no numero de seus membros. - Já ali foi lida uma parte dos seus estudos sobre o creoulo de Caboverde, segundo me disseram.

Escrevi ao meu amigo Julio Cesar Jansen Verdades, mas ainda me não respondeu; não sei se está doente, ou qual o motivo do seu silencio - que devéras tenho estranhado.

Rogo-lhe se não esqueça da minha pretenção ao lugar de vice-consul, ou Agente Consular, caso isso, como já lhe disse, não seja objecto de grande incommodo |3| para o amigo.

Li com adimração [sic] a sua carta escripta em creoulo, aonde se notam bem poucas faltaz, e que na folha junta, encontrará notadas, e corrigidas.

Approveitando o seu conselho, vou escrever um artigo sobre - usos, indole e lingua dos filhos d'esta ilha, e envial-o-hei para a sociedade de "Geographia" d'onde tambem m'o pedem, e mandarei n'essa occasião uma cópia ao amigo.

Pergunta-me aonde nasci?- Sou natural de Portugal; nasci na Beira-baixa, mas vivo aqui á mais de 20 annos; vim para cá, ainda criança.

Os pretos d'aqui, são uma raça cruzada de Jalofos, Fulas, Mandingas, Papeis e Biafadaz - que para aqui vieram no tempo dos primeiros donatarios colonisadores.

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Peço se não esqueça do meu pedido á cerca do nosso collega na sociedade de Geographia, e na Associação de Jornalistaz, o meu amigo Henrique Campan Garcia Torres, para a sua admissão a membro da Sociedade Anthropologica; é um mancebo que pelas suas qualidades, se torna a todo o ponto recommendavel.

Peço-lhe a fineza de mandar-lhe um exemplar do seu estudo sobre o creoulo de S. Thomé, e outro do creoulo d'aqui, q.do o publicar. - Móra na Travessa do Cabral, 35 - 1.o - Lisbôa.

Não quizera mandar-me o seu retrato p.a ao menos ter o gosto de assim conhecel-o, já que não pósso conhecer o original, como tanto desejava?

Termina enviando-lhe um abraço o

Seu am.o dedicado

Antonio Joaq.m Ribeiro

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Da carta =

En caba = deve ser = ʼn cába

man = " " = ma-ʼn

góra ʼn tâ fassê uso d’ocasion

como em crioulo não] o termo [sic]–oc-

casião, nem nada que o substi-

túa, seria melhor = góra quin

lembra, ʼn tâ mandâ nhô

el, propi pan proba screbe

na criôlo

ampoz – é do creoulo da ilha

do Fogo, mas que não é uza-

do em S. Thiago.

Pabia nho câ ta screbe, = seria

melhor = pamódi nho câ

tâ screbe

Com relação ao plural, dir-lhe-

hei que é conforme o senti-

do da oração; por exemplo:

Tenho muitas vaccas, dizem:

ʼn ten bacca cheu; mas

quando dizem = as minhas vac-

cas, é = nha baccas.

mejhor = deve ser = mijhor

di alguen outro = deve ser = qui otro al-

guen

Nhôr = Só se emprega fallando

de Deus, que se diz nhor Dês,

e na affirmativa Sim Senhor,

que se diz nhor Sin, e na

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negativa = não senhor, que se diz =

nhôr não em todos os mais ca-

sos ê nhô, tanto para designar

o senhor como o Sr. Fulano

publicou = diz-sê – pô n'imprensa

gente = = guente

Undi jha nhu nace? – diz-se = undi

nho nece?

Portugal = aqui tomam a parte

pelo todo, e assim para elles

Portugal, encerra-se em Lisbôa,

e assim as villas, cidades e

provincias portuguezas, é tudo

na Lisbôa

pôde – - melhor – podê

__________

a na bez di e mi a bó é creou-

lo da Guiné, de que não pos-

so dizer-lhe nada

engenho = diz-se = ʼnguenho

t’oraqui, ou ti ora qui = até que

‘n pôde faceba = eu podia fazer

O s entre vogaes, valle de z; po-

rém cússa, fassê, cassa (habi-

tação, deve ser escripto com

ss, para dar-lhe o valor de

ç = Cáza = é cassa fazenda

fina de algodão p.a vestidoz.

pâ el mandan informaçun

sobre = é melhor = pê contan

algun cussa di –

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2

Com relação aos acentos, per-

mitta-me que não concorde com

o amigo nas pallavraz que me

apontou; em lugar de = birá,

chigá, etc deve ser birâ, chigâ,

ficâ, fincâ, etc por que a ulti-

ma vogal no creoulo é sempre

longa, como nas ultimaz sylabaz

das pallavras portuguezas amo,

idade, uso, etc.

O acento circumflexo (^) ser-

ve para alongar ou prelongar

mais o som á vogal sobre que

assenta, como por exemplo na

segunda syllaba da palavra

portugueza amôr;

O acento agudo (´) serve

para tornar o som aberto á

vogal sobre que assenta, como por

exemplo na ultima syllaba da

palavra Portugueza oxalá.

Já vê pois que ha grande

differença sónica, entre bírâ, e

birá.

2ê ál ben ardába = elle havia de

vir a herdar

ê al ardába = elle havia de herdar.

ê bên ardába = elle vinha herdar.

Sí pai dal mé = seu pai deu-

lhe effectivamente; este mé, é

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uma segunda affirmativa, m.to

uzada no creoulo, e sem a qual

a oração fica incompleta.

Ê cá chiga lâ = acabou de lá

chegar = cá, é a abreviatura

de cába

Cando jh’ê cá gasta fépo =

quando acabou de gastar tudo

propi = mesmo

ê bá pidí ê dado un cábo =

foi pedir e deram-lhe um lugar

Cando jh’ê cuda té = não tem

traducção litteral; é uma phra-

se que significa = depois de

pensar maduramente

lí sí = aqui mesmo; ou nés

te lugar

Mórê, como digo no verso, lê-

se assentuando abertamente

a 1.a syllaba, e longamente

a 2.a = a 1.a corresponde a 1.a

de fóme, e a 2.a, á 1. a de

rei

Si diante = diante ?élle.

qué papai! Oh meu pai!

(não é gué, mas qué).

çumola ou melhor sumola

esmóla que se dá aos pedin-

tes, e mesmo sem ser a estes;

= nós dizemos, quando pedimoz

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3

um grande favor = é uma esmo-

la, fazer-me isto.

Cando jh’ê fasse ês xintido su-

guro = quando formou esta

segura resolução.

Jhâ xintil jhâ = já o tinha

sentido

ê ca' ojhâ qu’ê ojhál = acabou

de vel-o; - litteral é: = acabou

de olhar, e vel-o.

ê bíra propi na si criados; =

virou-se pessoalmente para os

seus criados.

ê acha ma câ tâ pôde ser pâ

ta facído quél festa tudo =3

to regosijo = litteral = elle acha

que não póde ser para se estar

fazendo aquella festa toda.

Diz-se facído

A êl ê dado = deram-lhe

Elle recebe, é = ê tôma

Batuco, cu musgo ta tôca =

batuque (dança indigena,

ao som de violla, e acompa-

nhada de pancadaz batidaz

a compasso naz côxas, a que

chamam chabeta) e musi-

ca a tocar.

cômâ un pai câ tâ pode dis-

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presiâ si fijho = como um

pai não póde nunca despre-

sar seu filho = aqui o ta

corresponde a nunca; sem

elle, ficaría = como um pai

não póde desprezar seu filho.

São variadissimas as fórmas

em que se empregam as particu-

las sâ e tâ, e sempre com di-

verso sentido. Por mais diligen-

cias que haja feito, ainda não

pude classificar conveniente-

mente estaz duas particulas.

 es qui fassê qui bô ojhano

nô sta tudo contenti = o 2º

no, não está demais; a tradu-

ção litteral é = é isto que faz

com que tu nos vejas a nós

todoz contentez = e que deve

ler-se = eix a rasão da

nossa allegria.

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Am.o Schuchardt.

A pressa com que escrevo, por

estár a malla a fechar, não me

dá tempo de rever; desculpe pois

algum erro que encontre, ao

Seu am.o
Ribeiro


1 Hier beginnt die Transkription der in der Sektion Werkmanuskripte 11.23.10.1 aller Wahrscheinlichkeit ursprünglich diesem Brief beiliegenden Liste von Korrekturen zu einem verlorenen Brief Schuchardts an Ribeiro im Santiagokreol und von Kommentaren Ribeiros zu seiner Version der Parabel vom verlorenen Sohn im Santiagokreol, die Ribeiros siebten und letzten Brief an Schuchardt vom 07.01.1883 begleitete. Aus diesem Grund werden diese Materialien an dieser Stelle als Briefbeilagen mit veröffentlicht. Die Seitenumbrüche werden fortlaufend zum Brief kenntlich gemacht.

2 Ab hier beantwortet Ribeiro Fragen Schuchardts zu seiner kreolischen Fassung des Gleichnisses vom verlorenenen Sohn.

3 An dieser Stelle fehlt eine Zeile, die nicht lesbar ist, da das Papier an dieser Stelle gefaltet wurde.

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