Tancredo Caldeira do Casal Ribeiro an Hugo Schuchardt (01553)

von Tancredo Caldeira do Casal Ribeiro

an Hugo Schuchardt

Dili

Unbekannt

language Portugiesisch

Schlagwörter: language Tetum Timor

Zitiervorschlag: Tancredo Caldeira do Casal Ribeiro an Hugo Schuchardt (01553). Dili. Hrsg. von Hugo Cardoso (2016). In: Bernhard Hurch (Hrsg.): Hugo Schuchardt Archiv. Online unter https://gams.uni-graz.at/o:hsa.letter.2960, abgerufen am 29. 01. 2023. Handle: hdl.handle.net/ 11471/518.10.1.2960.


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Ex.mo Sr.
Dilly 30 de Junho
1882

Recebi a amavel carta de V. E.a, e longe de pedir indulgencia como V. E.a diz, era de meu stricto dever procurar dar o meu auxilio, ainda que insignificantissimo, para um estudo tão valioso, sendo de mais a mais um estrangeiro que a elle se dedicava. Infelizmente o Sr. Meyrelles de Távora, confiando e com boa razão na minha boa vontade, enganou-se bastante quanto á minha capacidade para estudos linguisticos, aos quaes nem de longe me dediquei. Tenho o curso de agronomo e é nesse cargo que me acho em Timor e V. E.a bem vê que nenhuma paridade existe entre a sciencia agronomica e os estudos linguisticos. Portanto limitar-me-hei a assentar os factos, e se alguma vez collocando-me debaixo de um ponto de vista falso apresentar alguma reflexão menos exacta V. E.a a corrigirá. Como eu estou aqui há apenas um anno, não tendo portanto a practica necessária, pedi a um dos missionarios que me coadjuvasse, e espero poder enviar a V. E.a alguma cousa do que deseja.

Em Timor não se formou nenhum dialecto especial, mas sim uma corrupção do portuguez empregada em Dilly entre a pequena população indigena que não sóbe a mais de 4:000 almas. No interior da ilha são raros os indigenas que falam |2| o portuguez, a não ser os regulos e seus principaes (especie de nobreza).

N’este portuguez corrupto que aqui chamam lingua da praça, não fazem mais que dar ao portuguez a construcção da lingua indigena, usando dos verbos ou no infinito ou na terceira pessoa do singular do tempo presente, acrescentando o adverbio para indicar o preterito, e ha de para o futuro. Explo.

Eu já fala – Eu falei Eu já compra – Eu comprei

Eu ha de fala – Eu falarei Nós há de compra – Nos compraremos

Convem notar que raras vezes empregam o verbo dizer, substituindo-o pelo verbo falar. Sobre o verbo dizer occorre-me outra singularidade, e é que traduzem o nosso dizem, (que corresponde ao francez on dit), por gente já fala.

O verbo estar é algumas vezes substituído pelo verbo ter, ex. o:

Fulano tem em casa? – F. está em casa?

A particula a é empregada algumas vezes em vez de com, ex.:

Eu compra com F. – Eu compro a F.

Elles já compra com F. – Elles compraram a F.

Como se vê n’estes exemplos, o pronome varia, mas o verbo não é conjugado, o que exactamente acontece nas linguas indigenas.

Na maioria das locuções os artigos são supprimidos, e as regras de concordancia não são respeitadas.

Há algumas palavras portuguezas que os Timores empregam na sua lingua, porque não tem n’ellas expressão correspondente, e se pela lingua |3| se pode conhecer o caracter dos povos chegamos a conclusões engraçadas embora verdadeiras.

As phrases – é preciso – e – obrigado – não tem correspondente nas linguas de Timor, e portanto tomaram as palavras portuguezas. Na realidade elles não tem uma ideia nitida de necessidade e precisão, e quanto a sentimentos de gratidão desconhecem-os completamente. Lembro-me agora de uma phrase, na qual o não é substituído por nunca, e que fere desagradávelmente os ouvidos portuguezes

Nunca sabe – Não sei

Eu nunca tem – Eu não tenho [ich weiss es gar nicht der Italiener1]

O malaio não é a lingua de Timor, e é um facto curioso como em uma ilha tão pequena se formaram mais de 25 linguas, das quaes se algumas não passam de dialectos, outras são perfeitamente dissemelhantes, e mesmo entre as que se assemelham há variações notaveis. Eu vivo habitualmente no interior, e para leste de Dilly, e portanto tomo para exemplo as tres linguas que se falam nas proximidades do local que habito, e que são o této, o uáimá e o macassai.

TétoUáimáMacassai
Água – vé - uai - ira
Faca - turri - turri - suti
Fogo - áhi - dháhá - ata
Cavallo - cuda – cuda – cuda
Búfalo - carau - carabau - carabau

Convem notar que o h é bastante aspirado.

Com respeito ás canções que V. E.a me pede não as posso enviar agora, porque careço de tempo para as |4| as collecionar. Incluso remmetto a V. E.a uma carta que me enviou o regulo de Laleia, desculpando-se de não ter vindo encontrar-se commigo em Dilly, e prommettendo vir.

Desculpe-me V. E.a estas reflexões ao correr da penna, porque a mala está a partir, e nós aqui só uma vez por mez é que temos vapor.

Dentro em poucos dias parto para fazer a exploração completa da ilha, o que levará 5 a 6 mezes, e depois disso é que poderei colher alguns dados uteis para V. E.a, pedindo desde já que não extranhe a demora em mandar os esclarecimentos que deseja. Sou com a maior consideração

De V. E.a

Attº venor e creado obgmo

Tancredo C. do Casal Ribeiro

P. S. Desculpe V. E.a as raspaduras porque não tenho tempo de copiar a limpo esta carta.


1 Marginalia von Hugo Schuchardt.

Faksimiles: Universitätsbibliothek Graz Abteilung für Sondersammlungen, Creative commons CC BY-NC https://creativecommons.org/licenses/by-nc/4.0/ (Sig. (01553))