Francisco Meireles do Canto an Hugo Schuchardt (01-07310)

von Francisco Meireles do Canto

an Hugo Schuchardt

Lissabon

11. 11. 1882

language Portugiesisch

Schlagwörter: Konsulatswesen Konsulate und Botschaften Asiatic Society Sprachvergleich Sprachen in Mosambiklanguage Portugiesisch (Mosambik)language Konkanilanguage Portugiesischbasierte Kreolsprache (Sri Lanka/Ceylon)

Zitiervorschlag: Francisco Meireles do Canto an Hugo Schuchardt (01-07310). Lissabon, 11. 11. 1882. Hrsg. von Silvio Moreira de Sousa (2013). In: Bernhard Hurch (Hrsg.): Hugo Schuchardt Archiv. Online unter https://gams.uni-graz.at/o:hsa.letter.1385, abgerufen am 25. 02. 2024. Handle: hdl.handle.net/11471/518.10.1.1385.


|1|

Lisboa 11 de Novembro de 1882

Ex.mo Sr.

Os preparativos para uma longa viagem e occupações officiaes, que me deixam pouquissimo tempo teem-me impedido, com grande pezar meu, de responder, tão depressa como desejava, à amabilissima carta de V.Ex.a de 15 do mêz findo.1 Espero que V.Ex.a se dignará relevar-me de tão grande falta e que não tomará à conta de pouco cuidado, o que resultou de motivo tão differente. De ha muito que, por tradição, conheço a V.Ex.a Por mais de uma vêz tenho lido as cartas de V.Ex.a a meu Pai, e por ellas vejo quão importantes são os trabalhos de linguistica |2|ao quaes, com grande proveito da sciencia, V.Ex.a se dedica.

Eu, por mim, a não serem os elementos de linguistica, que toda a gente conhece, sou, em taes capitulos, de uma sciencia muito menos de mediocre. Não quer dizer isto que me não interesse altamente por tudo o que possa servir de auxiliar a essa ou outra sciencia; pelo contrario teria grande gloria em poder acarretar, ainda que para alheio edificio, o mais insignificamente material.

No meu ponto consular offereço-me a V.Ex.a para tudo quanto possa servir-lhe, não só em relação ao genero de estudos que enceta |3|mas para qualquer outra especie de informação ou serviço.

Com relação à carta de V.Ex.a, que tenho presente responderei:

1.° Estive, ainda que por curtos lapsos de tempo, diversas vezes em Bombaim. O portuguêz fallado pelos indios-christãos (que em todo o Hindustão2 se dizem Portuguezes) nada tem de especial a não serem a conservação de alguns modos de dizer antiquados, e as incorrecções, que resultam sempre de degeneração de um idioma, q.do3 transportado a diversa região d’aquella onde nasceu e se desenvolveu.

Não me parece, pois, que |4|que o portuguêz fallado pelos nativos de Gõa, e pelos indios portuguezes ou christãos de Bombaim, chegue a poder ser considerado como uma lingua creoula, como succede com o portuguêz fallado em colonias nossas como S. Thomé etc. e até em Ceylão,4 que já nos não pertence. Tive uma vêz occasião de ver em Bombaim na livraria da “Asiatic Society”5 uma grammatica do portuguez de Ceylão.6 Julgo que é livro raro. Seria precioso para os estudos de V.Ex.a Se em Bombaim lhe poder alcançar algum exemplar enviar-lh'-o-hei. |5|O que os nativos de Gõa e os soi-disant Portuguezes da India fallam é o concani, horrivel mistura de maratha, hindustani, português e inglêz. É uma especie de dialecto que os naturaes de Gõa, que teem grande tendencia para a emigração) semeam um pouco por tudo o Hindustão. Não me será difficil enviar a V.Ex.a vocabularios impressos dessa curiosa lingua (que se escreve com os nossos caracteres).

Também já estive na costa oriental d'Africa e posso dar a V.Ex.a a informação que me pede àcerca de Moçambique. Não se falla |6|nesta Provincia um verdadeiro creoulo. Os mulatos do paiz (funcionarios inferiores, proprietarios etc) fallam um portuguez ligeiramente adulterado. O indigena falla a lingua cafreal correspondente às diversas regiões d'aquelle extensissimo territorio. Em Moçambique (cidade capital) a lingua indigena é a Makua, onde pouquissimas palavras Portuguezas teem penetrado, e unicamente para designar objectos que não teem nome na lingua cafreal. V. g.7 sacartairo, por secretario etc.

Ao norte (Ho etc.) a lingua ja é outra. Mais ao sul falla-se o Kafir, o zulu etc. No interior da Zambezia ha as chamadas linguas |7|de Sena, de Tete, de Zumbo etc. (villas Portuguezas).

Por agora respondi summariamente às duas perguntas contidas na amável carta de V.Ex.a Continuo sempre ao seu dispôr para quaesquer esclarecimentos, que possa fornecer-lhe, sendo como é, altamente agradável para o meu patriotismo communicar em lingua Portugueza, com um sabio extrangeiro, que tanto preza os interesses da sciencia.

Aproveito com regozijo esta occasião para me assignar

De V.Ex.a

M.to Att.o Ven. do e Am.do [O]bg.mo

F. Meyrelles do Canto


1 Gemeint ist Oktober.

2 Gemeint ist vermutlich Indien.

3 Abkürzung für quando.

4 Gemeint ist Sri Lanka.

5 Die Asiatic Society wurde von u. a. William Jones gegrundet.

6 Es liegen bis jetzt keine Informationen über dieses Buch vor.

7 Abkürzung für verbi gratia.

Faksimiles: Universitätsbibliothek Graz Abteilung für Sondersammlungen, Creative commons CC BY-NC https://creativecommons.org/licenses/by-nc/4.0/ (Sig. 07310)