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        <author>Anónimo (Bento Morganti)</author>
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        <edition>Moralische Wochenschriften</edition>
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                        Universität Graz</orgName>
        </publisher>
        <publisher>
          <orgName ref="http://informationsmodellierung.uni-graz.at">Zentrum für
                        Informationsmodellierung, Universität Graz</orgName>
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        <date when="2018-10-04">04.10.2018</date>
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        <bibl>Anónimo (Morganti, Bento): Terceira Collecçam dos Papeis Anonymos. Lisboa:
                    Pedro Ferreira, 1754, 97-103 </bibl>
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          <title level="j">O Anonymo. Repartido pelas
                        semanas, para divertimento e utilidade do publico</title>
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          <date>1754</date>
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<div1><head>N.°. 12</head>
<div2><head><hi rend="italic">Contra a Impudencia. </hi></head>
<p rend="SO"><milestone unit="E2" xml:id="FR.2"></milestone> <milestone unit="MT" xml:id="FR.3"></milestone> Todos sabem a difficuldade que ha para agradar a todos, e ainda he mais impossivel que dificultozo, que todos uniformemente gostem do mesmo Com o papel antecedente que falava nos Bailles de Mascaras, sei que naó ficaraõ muitas pessoas satisfeitas, porque lhe naõ falei a seu gosto, ao mesmo tempo que ma-<pb n="98"></pb>yor numero de outras acharaõ que falou a razaõ contra a liberdade, e contra o abuzo. Entre as primeiras naõ faltou huma que disse, que naõ era aquelle ponto tam criminozo que merecesse huma taõ ampla censura, porque podendo ser de sua natureza indiferente, se devia conceber pela melhor parte; porque havia outros mais escandalozos que podiaõ muito bem servir de argumento, e que por serem mais frequentes eraõ mais reprehensiveis, e de quem era totalmente alhea a indifferença. Isto dito assim secamente, confesso que me deo hum pouco de cuidado, ao menos para discorrer aonde se encaminhava esta idea; mas passados alguns dias, topei com o motivo desta advertencia; e o certo he que teve muita razaõ em dizer esta tal pessoa que havia couza mais escandaloza contra quem justamente se pode declamar. <milestone rend="closer" unit="MT"></milestone></p>
<p><milestone unit="AE" xml:id="FR.4"></milestone> Foi o cazo; recolhendome para minha casa na tarde de hum Domingo desta Quaresma, e devendo fazer caminho por huma rua em que està cituada huma antiga Paroquia, <milestone unit="FP" xml:id="FR.5"></milestone> vi hum tal tumulto de homens, que entrei no susto do que seria taõ tumultuozo ajuntamento; mas chegando para mais perto, vim a conhecer, que era hũa turba indigna de gente ocioza, e pouco timorata, que depois de practicar no Templo todo o genero de imprudencia, em quanto o Ministro Evangelico intimou a palavra de Deos neste Santo tempo para a reformaçaõ ainda dos costumes, depois quizeraõ dar o ultimo complemento à sua irreverencia, e irreligiaõ, pondo-se desfronce da porta da Igreja em huma comprida ala a tres, e a quatro e fundo, para encherem de pejo, e enfado as pessoas honestas, e devotas que sahiaõ da Igreja, que por conta de lhe ser precizo decer alguns degraos, se achavaõ expostas involuntariamente a alguma lee descompustura, que talvez nem isso fosse se naõ cahisse de-<pb n="99"></pb>baxo da vista daquelles ociozos, e inconsiderados admiradores. <milestone rend="closer" unit="FP"></milestone> <milestone rend="closer" unit="AE"></milestone></p>
<p>Confesso que foi tal o horror que concebi a este indigno espectaculo, que toda a noite naõ dormi socegado, conciderando como seria possivel que em huma Corte adonde florece a devoçaõ, se pratique, ou deixe practicar taõ impunemente hum abuzo contra a boa, e recta intençaõ da Igreja, porque manifestamente se está vendo, que o grande concurso que se encontra nos Templos, naõ ha dezejo de aproveitar a doutrina Evangelica, mas sim de encher as horas de tempo, sacrificando a paciencia ao gosto, para no fim dezafogar a sensualidade ao menos nas exteriores direcçoens a que nunca se deve empregar a vista; mas depois me capacitei sem violencia, que este mào costume naõ era, nem podia ser voluntariamente permettido, mas só tollerado, por naõ chegar nem aos ouvidos, nem aos olhos de quem Pastoralmente o pòde com facilidade emmendar, e extinguir; pois estou muito bem certo, que se os Parrochos respectivamente punissem pela aniquiliçaõ de hum taõ escandalozo abuzo, reprezentariaõ o seu zelo, e se lhe naõ havia negar a conveniente providencia, pois a falta de noticia faz com que muitas vezes, e por muito tempo estejaõ em socego os criminozos. </p>
<p>Naõ me admiro que este máo costume se practique nas sociedades profanas, porque <milestone unit="EX" xml:id="FR.6"></milestone> jà Homero se queixou delle no seu tempo, dizendo na Illiada I.V. 225. que certo homem tinha os olhos taõ descarados, e taõ pouco compostos como os de hum caõ, como se le no original Grego<hi rend="italic">- <milestone unit="ZM" xml:id="FR.7"></milestone> Kinos ommat’ e Kons</hi> <milestone rend="closer" unit="ZM"></milestone> mas o que me cauza admiraçaõ he ver que a perverçaõ do seculo o reduza, pelos arbitrios da malicia, a se exercitar nos Templos, e nas Assembleas devotas, influindo hum pessimo exemplo ao Cristinismo, occazionando mais <pb n="100"></pb> este argumento contra a boa pratica da verdadeira Religiaõ, e pureza das maximas que deve seguir hum bom Catholico. <milestone rend="closer" unit="EX"></milestone></p>
<p>Ha muito tempo que conservo no espirito a correçam da impudencia, e expor algumas queixas contras os ociozos namoradores dos Templos, e cazas de Oraçaõ; e na qualidade de observador bem posso dizer que este crime he hum dos que mais directamente me pertencem, porque quazi sempre se comette pelos olhos, e contra muitas pessoas, a quem talvez que os criminozos, naõ tenhaõ outra occaziaõ de offender se naõ desta maneira. </p>
<p>Naõ creyo que o publico aprovasse em tempo algum qualquer sogeito, que logo naõ tivesse hum numero infinito de imitadores degenerados. Se por acazo apareceo hum que tudo observava unindo à sua especulaçaõ tudo o que era justo, immediatamente se produziraõ outros de diferente qualidade. aparecendo no grande theatro do mundo com o titulo commum de namorantes; os quaes sem terem respeitoso ao tempo, ao lugar, e à modestia, inquietaõ huma Igreja inteira, com a indigna impudencia de seus olhos. Bem podiaõ advertir, que assim como concorre muita gente para assistir aos divertimentos publicos dos bonecos, dos bailles, das festividades seculares, &amp;c (naõ me lembrando voluntariamente das Procissoens, porque cuido que este ponto hade ter seu lugar proprio) tambem nas Igrejas se achaõ assistentes attentos, e devotos, e que suplicaõ a Deos com muita humildade, e compustura interior, e exterior. E fazendo-se Religiozamente este conceito, he couza indigna, e escandaloza que esta tropa de irreverentes monstruozos, vaõ para as Igrejas interromper muitas destas pessoas no mesmo acto em que estaõ cumprindo com muita attençaõ, e regularidade, a obrigaçaõ de Catholicas, ou seja na assistencia do Santo Sacra-<pb n="101"></pb>ficio da Missa, ou ouvindo attentamente a palavra de Deos. </p>
<p>Naõ sey se he mais para chorar, do que para rir ver como estes ociozos buscaõ nas Igrejas os lugares mais convenientes, aonde tambem se offende a decencia dos Sagrados Altares encostando-se a elles, servindo-lhe de commodidade para o crime, quando só se deviam valer delles para expiarem os seus erros, e melhorando quanto podem de sitio, naõ ficaõ satisfeitos sem ganharem hum bom lugar de donde possaõ commodamente descobrir todas as pessoas em quem empregaõ, ou podem empregar os tiros da sua malignidade, sem lhe occorrer que quanto melhor he o lugar, mais expostos ficaõ á censura de todo o mundo que os admira com horror. Persuadome que as almas devotas se acham demaziadamente mortificadas, vendo-se a mayor parte dellas precizadas a cobrir-se de pejo, e vergonha, refletindo em que sendo a malicia muita e o discurso livre, se achem innocentes, e cumpleces em algum juizo, sem que nem por sombras convenhaõ nos importunos gostos daquelles impudentes, occazionando-lhe muitas vezes huma quazi impossibilidade para estarem attentas aos Sacraficios, à Oroçaõ (sic), e aos Sermoens. </p>
<p>Isto que muitas vezes tenho observado, e actualmente se està vendo, me persuade a dizer, que naõ ha couza alguma que mais agrave huma offença, como he cometer-se em hum lugar, cuja santidade se emprega para azilo do mesmo que o profana; e hum semelhante procedimento bem merece hum reparo particular, e huma censura universal, ainda que só o primeiro seria util, e efficaz, porque o segundo cuido naõ pode produzir effeito, pois semelhantes Namorantes ordinariamente nunca cedem ás razoens que nacem da natureza das couzas. A isto acrece que hum homem que tem <pb n="102"></pb> valor para fixar indecencia os olhos em hum grande ajuntamento de pessoas honestas, renunciando o pejo, a vergonha, e a propria estimaçaõ, soportando immovel a vista de todo o mundo, naõ tem facil correcçaõ por meyo de exhortaçoens. </p>
<p>Em quanto se lhe naõ aplica algum opportuno remedio a que naõ possa rezistir a conciencia, e o respeito, bem se lhe podia applicar hum interino, subsidiario, e facil, espalhando-se por entre elles algumas pessoas timoratas que pondo-se respectivamente diante de cada hum, naõ tirem delle os olhos para ver se assim o impede a naõ interromper as pessoas do sexo femenino que estaõ attentas às obrigaçoens de Catholicas; e alem disso seria precizo industriar aquellas pessoas destinadas para este effeito, nas regras mais exactas da optica, para se porem em huma fórma, que possa sempre encontrar os olhos do seu antagonista em qualquer movimento que delles faça; e cuido que todas as vezes que se encontrarem mutuamente os rayos visuaes dos dous contrarios, ou aquellas pessoas pelas quaes entra o impudente a ser lince, lhe derigem alguma vista favoravel, esperando disto algum feliz successo, hade conceber alguma vergonha, ou pejo, experimentando hum pouco daquelle embaraço em que se achaõ muitas vezes os mais de seu officio. </p>
<p>Hum destes homens adquire hum certo genero de inutilidade taõ universal, que parece tambem huma especie de proscripto pelas Leys da boa civilidade, e como tal nem o publico, nem o particular deve tomar por sua conta deffendelo, ou patrocinalo, e por isso livremente se pode tratar com desprezo. Com tudo aquelles impudentes dissimulados parece podem ser mais sofriveis do que certos estafermos, que sem consideraçaõ alguma se gavaõ muitas vezes do que naõ he <pb n="103"></pb> imaginando que com hum defeito alheyo, podem encobrir huma das mayores faltas do mundo como he serem attrevidos, e descarados; mas devem lembrar-se de que isto naõ pode durar muito, e que todo o homem que se acha convencido de hum semelhante defeito, naõ póde esperar tirar delle utilidade alguma; pelo que deve trabalhar quanto poder em lançalo fora, como quem arroja de si o que lhe faz muito pezo, porque os fins podem ser muitas vezes sinistros, como tem mostrado a experiencia. </p>
<p>E quanto aos indiscretos espectadores dos Adros das Igrejas, tambem no entanto podiaõ ter hum remedio providencial, que era, recolhelos por modo que naõ escapasse nenhum, em huma parte segura, e separar os que sem prejuizo irreparavel naõ fizessem falta, às suas familias, e remettellos para parte aonde se reduzisse o Ocio a utilidade, e por huma chimica politica se tirasse alguma serventia, poupando se ao menos as despezas das levas, e o trabalho dos Ministros, porque neste tempo, principalmente nas Igrejas de mayor concurso, se acharà (como dizem) o comer feito, e com pouco custo, e assim ficaria a sociedade civil livre de muita gente que naõ faz nada, e o exercicio da Religiaõ sem tantos membros inuteis que escandalozamente o pertubam, e infamaõ. <milestone rend="closer" unit="E2"></milestone> <milestone rend="closer" unit="E1"></milestone> </p>
<p></p></div2></div1></body>
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       para agradar a todos, e ainda he mais impossivel que
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                                            involuntariamente a alguma lee descompustura, que talvez
                                            nem isso fosse se naõ cahisse de-<pb n="99"></pb>baxo da
                                            vista daquelles ociozos, e inconsiderados admiradores.              
                          </seg>

                  </seg> Confesso que foi tal o horror que concebi a este indigno
                                    espectaculo, que toda a noite naõ dormi socegado, conciderando
                                    como seria possivel que em huma Corte adonde florece a devoçaõ,                 
                   se pratique, ou deixe practicar taõ impunemente hum abuzo contra
                                    a boa, e recta intençaõ da Igreja, porque manifestamente se está
                                    vendo, que o grande concurso que se encontra nos Templos, naõ ha
                                    dezejo de aproveitar a doutrina Evangelica, mas sim de encher as
                                    horas de tempo, sacrificando a paciencia ao gosto, para no fim
                                    dezafogar a sensualidade ao menos nas exteriores direcçoens a
                                    que nunca se deve empregar a vista; mas depois me capacitei sem
                                    violencia, que este mào costume naõ era, nem podia ser
                                    voluntariamente permettido, mas só tollerado, por naõ chegar nem
                                    aos ouvidos, nem aos olhos de quem Pastoralmente o pòde com
                                    facilidade emmendar, e extinguir; pois estou muito bem certo,
                                    que se os Parrochos respectivamente punissem pela aniquiliçaõ de
                                    hum taõ escandalozo abuzo, reprezentariaõ o seu zelo, e se lhe
                                    naõ havia negar a conveniente providencia, pois a falta de
                                    noticia faz com que muitas vezes, e por muito tempo estejaõ em
                                    socego os criminozos. Naõ me admiro que este máo costume se
                                    practique nas sociedades profanas, porque <seg synch="#FR.6" type="EX"> jà Homero se queixou delle no seu tempo, dizendo
                                        na Illiada I.V. 225. que certo homem tinha os olhos taõ
                                        descarados, e taõ pouco compostos como os de hum caõ, como
                                        se le no original Grego- <seg synch="#FR.7" type="ZM"> Kinos
                                            ommat’ e Kons </seg> mas o que me cauza admiraçaõ he ver
                                        que a perverçaõ do seculo o reduza, pelos arbitrios da
                                        malicia, a se exercitar nos Templos, e nas Assembleas
                                        devotas, influindo hum pessimo exemplo ao Cristinismo,
                                        occazionando mais <pb n="100"></pb> este argumento contra a boa
                                        pratica da verdadeira Religiaõ, e pureza das maximas que
                                        deve seguir hum bom Catholico. </seg> Ha muito tempo que
                                    conservo no espirito a correçam da impudencia, e expor algumas
                                    queixas contras os ociozos namoradores dos Templos, e cazas de
                                    Oraçaõ; e na qualidade de observador bem posso dizer que este
                                    crime he hum dos que mais directamente me pertencem, porque
                                    quazi sempre se comette pelos olhos, e contra muitas pessoas, a             
                       quem talvez que os criminozos, naõ tenhaõ outra occaziaõ de
                                    offender se naõ desta maneira. Naõ creyo que o publico aprovasse
                                    em tempo algum qualquer sogeito, que logo naõ tivesse hum numero
                                    infinito de imitadores degenerados. Se por acazo apareceo hum
                                    que tudo observava unindo à sua especulaçaõ tudo o que era
                                    justo, immediatamente se produziraõ outros de diferente
                                    qualidade. aparecendo no grande theatro do mundo com o titulo
                                    commum de namorantes; os quaes sem terem respeitoso ao tempo, ao
                                    lugar, e à modestia, inquietaõ huma Igreja inteira, com a                                
    indigna impudencia de seus olhos. Bem podiaõ advertir, que assim
                                    como concorre muita gente para assistir aos divertimentos
                                    publicos dos bonecos, dos bailles, das festividades seculares,
                                    &amp;c (naõ me lembrando voluntariamente das Procissoens, porque
                                    cuido que este ponto hade ter seu lugar proprio) tambem nas
                                    Igrejas se achaõ assistentes attentos, e devotos, e que suplicaõ
                                    a Deos com muita humildade, e compustura interior, e exterior. E
                                    fazendo-se Religiozamente este conceito, he couza indigna, e
                                    escandaloza que esta tropa de irreverentes monstruozos, vaõ para
                                    as Igrejas interromper muitas destas pessoas no mesmo acto em
                                    que estaõ cumprindo com muita attençaõ, e regularidade, a
                                    obrigaçaõ de Catholicas, ou seja na assistencia do Santo
                                        Sacra-<pb n="101"></pb>ficio da Missa, ou ouvindo attentamente a
                                    palavra de Deos. Naõ sey se he mais para chorar, do que para rir
                                    ver como estes ociozos buscaõ nas Igrejas os lugares mais
                                    convenientes, aonde tambem se offende a decencia dos Sagrados
                                    Altares encostando-se a elles, servindo-lhe de commodidade para
                                    o crime, quando só se deviam valer delles para expiarem os seus
                                    erros, e melhorando quanto podem de sitio, naõ ficaõ satisfeitos
                                    sem ganharem hum bom lugar de donde possaõ commodamente
                                    descobrir todas as pessoas em quem empregaõ, ou podem empregar
                                    os tiros da sua malignidade, sem lhe occorrer que quanto melhor
                                    he o lugar, mais expostos ficaõ á censura de todo o mundo que os
                                    admira com horror. Persuadome que as almas devotas se acham
                                    demaziadamente mortificadas, vendo-se a mayor parte dellas
                                    precizadas a cobrir-se de pejo, e vergonha, refletindo em que
                                    sendo a malicia muita e o discurso livre, se achem innocentes, e
                                    cumpleces em algum juizo, sem que nem por sombras convenhaõ nos
                                    importunos gostos daquelles impudentes, occazionando-lhe muitas
                                    vezes huma quazi impossibilidade para estarem attentas aos
                                    Sacraficios, à Oroçaõ (sic), e aos Sermoens. Isto que muitas
                                    vezes tenho observado, e actualmente se està vendo, me persuade
                                    a dizer, que naõ ha couza alguma que mais agrave huma offença,
                                    como he cometer-se em hum lugar, cuja santidade se emprega para
                                    azilo do mesmo que o profana; e hum semelhante procedimento bem
                                    merece hum reparo particular, e huma censura universal, ainda
                                    que só o primeiro seria util, e efficaz, porque o segundo cuido    
                                naõ pode produzir effeito, pois semelhantes Namorantes
                                    ordinariamente nunca cedem ás razoens que nacem da natureza das
                                    couzas. A isto acrece que hum homem que tem <pb n="102"></pb> valor
                                    para fixar indecencia os olhos em hum grande ajuntamento de
                                    pessoas honestas, renunciando o pejo, a vergonha, e a propria
                                    estimaçaõ, soportando immovel a vista de todo o mundo, naõ tem
                                    facil correcçaõ por meyo de exhortaçoens. Em quanto se lhe naõ
                                    aplica algum opportuno remedio a que naõ possa rezistir a
                                    conciencia, e o respeito, bem se lhe podia applicar hum
                                    interino, subsidiario, e facil, espalhando-se por entre elles
                                    algumas pessoas timoratas que pondo-se respectivamente diante de
                                    cada hum, naõ tirem delle os olhos para ver se assim o impede a
                                    naõ interromper as pessoas do sexo femenino que estaõ attentas
                                    às obrigaçoens de Catholicas; e alem disso seria precizo
                                    industriar aquellas pessoas destinadas para este effeito, nas
                                    regras mais exactas da optica, para se porem em huma fórma, que
                                    possa sempre encontrar os olhos do seu antagonista em qualquer
                                    movimento que delles faça; e cuido que todas as vezes que se
                                    encontrarem mutuamente os rayos visuaes dos dous contrarios, ou
                                    aquellas pessoas pelas quaes entra o impudente a ser lince, lhe
                                    derigem alguma vista favoravel, esperando disto algum feliz
                                    successo, hade conceber alguma vergonha, ou pejo, experimentando
                                    hum pouco daquelle embaraço em que se achaõ muitas vezes os mais
                                    de seu officio. Hum destes homens adquire hum certo genero de
                                    inutilidade taõ universal, que parece tambem huma especie de
                                    proscripto pelas Leys da boa civilidade, e como tal nem o
                                    publico, nem o particular deve tomar por sua conta deffendelo,
                                    ou patrocinalo, e por isso livremente se pode tratar com
                                    desprezo. Com tudo aquelles impudentes dissimulados parece podem
                                    ser mais sofriveis do que certos estafermos, que sem
                                    consideraçaõ alguma se gavaõ muitas vezes do que naõ he <pb n="103"></pb> imaginando que com hum defeito alheyo, podem
                                    encobrir huma das mayores faltas do mundo como he serem
                                    attrevidos, e descarados; mas devem lembrar-se de que isto naõ
                                    pode durar muito, e que todo o homem que se acha convencido de
                                    hum semelhante defeito, naõ póde esperar tirar delle utilidade
                                    alguma; pelo que deve trabalhar quanto poder em lançalo fora,
                                    como quem arroja de si o que lhe faz muito pezo, porque os fins 
                                   podem ser muitas vezes sinistros, como tem mostrado a
                                    experiencia. E quanto aos indiscretos espectadores dos Adros das
                                    Igrejas, tambem no entanto podiaõ ter hum remedio providencial,
                                    que era, recolhelos por modo que naõ escapasse nenhum, em huma
                                    parte segura, e separar os que sem prejuizo irreparavel naõ
                                    fizessem falta, às suas familias, e remettellos para parte aonde
                                    se reduzisse o Ocio a utilidade, e por huma chimica politica se
                                    tirasse alguma serventia, poupando se ao menos as despezas das
                                    levas, e o trabalho dos Ministros, porque neste tempo,                                
    principalmente nas Igrejas de mayor concurso, se acharà (como
                                    dizem) o comer feito, e com pouco custo, e assim ficaria a
                                    sociedade civil livre de muita gente que naõ faz nada, e o
                                    exercicio da Religiaõ sem tantos membros inuteis que
                                    escandalozamente o pertubam, e infamaõ. </seg>
              </seg>
            </ab>
          </div>
        </body>
      </text>
    </group>
  </text>
</TEI>
