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        <title>Num.° 11</title>
        <author>Anónimo (Bento Morganti)</author>
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        <edition>Moralische Wochenschriften</edition>
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          <name>Klaus-Dieter Ertler</name>
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          <name>Hans Fernández</name>
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          <name>Gerlinde Schneider</name>
          <name>Martina Scholger</name>
          <name>Johannes Stigler</name>
          <name>Gunter Vasold</name>
          <resp>Datenmodellierung</resp>
          <resp>Applikationsentwicklung</resp>
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      <publicationStmt>
        <publisher>
          <orgName ref="http://romanistik.uni-graz.at/">Institut für Romanistik,
                        Universität Graz</orgName>
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        <publisher>
          <orgName ref="http://informationsmodellierung.uni-graz.at">Zentrum für
                        Informationsmodellierung, Universität Graz</orgName>
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        <bibl>Anónimo (Morganti, Bento): Terceira Collecçam dos Papeis Anonymos. Lisboa:
                    Pedro Ferreira, 1754, 89-96 </bibl>
        <bibl type="Einzelausgabe" xml:id="OAn">
          <title level="j">O Anonymo. Repartido pelas
                        semanas, para divertimento e utilidade do publico</title>
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          <date>1754</date>
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   <term xml:lang="de">Erziehung und Bildung</term>
            <term xml:lang="it">Educazione e Formazione</term>
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                            Formation</term>
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<p rend="EU"><milestone unit="E1" xml:id="FR.1"></milestone></p>
<div1><head>N.°. 11</head>
<div2><head><hi rend="italic">Discripçam Allegorica do Estado; do Homem no mundo. </hi></head>
<p rend="SO"><hi rend="smallcaps"><milestone unit="E2" xml:id="FR.2"></milestone> <milestone unit="MT" xml:id="FR.3"></milestone> En</hi>ntre (sic) as figuras que compoem a excellente arte da Rhetorica, a melhor, e a mais agradavel pode ser a allegoria, porque com ella se explicam sem muito enfado as coizas verdadeiras debaxo do veo de alguma idea extravagante; e tambem porque sem o beneficio desta figura fica muitas vezes dificultoza a mesma explicaçam, e escuro o conhecimento do qu se quer persuadir. Della para este effeito se serviram os melhores authores da antiga latinidade, e ainda della se servem os <pb n="90"></pb> modernos; os melhores oradores de todos os seculos; com ella se reprezentam mais medonhos os vicios, e se mostram mais amaveis as virtudes: e finalmente debaxo desta figura se mostraõ mais claramente, e com mais liberdade as couzas, e as pessoas como na verdade sam. Como o estado do homem neste mundo se naõ pode meudamente explicar com todas as circunstancias inseparaveis da sua existencia, da sua natureza, e da sua sociedade, determino ao menos dar esta idea em forma allegorica que possa divertir o leitor, por ser esta a menos enfadonha, e a mais certa: as reflexoens sore o que disser, fiquem da sua parte, que naõ saõ demaziadamente difficultozas, e lhe podem ser bastantemente uteis. <milestone rend="closer" unit="MT"></milestone></p>
<p>A entrada do homem neste mundo, a que commumente se chama <hi rend="italic">Nascimento</hi>, naõ he outra coiza mais, que a sahida de hum paiz muito desconhecido, para entrar depois em outro igualmente ignorado, e de todo estranho. Nelle quando chegamos naõ conhecemos pessoa alguma, e rezidimos sempre sem que tambem nos conheçamos. Passados alguns annos depois da nossa chegada a esta terra, ou por necessidade, ou muitas vezes por temor, e desconfiança, nos associamos huns com os outros, mas sempre sem conhecermos pessoa alguma, e quazi ordinariamente sem <pb n="91"></pb> hum amor reciproco. Isto naõ obstante com o tempo nos familiarizamos com todos os homens, e no fim sahimos deste mesmo paiz quazi sempre sem nos conhecermos. </p>
<p>Depois desta nossa entrada nesta terra, duas pessoas que tiveraõ a imcumbencia de nos conduzir para ella, estaõ igualmente encarregadas nos instruir. As pessoas se chamaõ Pays, e a instrucçam que nos devem dar <hi rend="italic">educaçaõ</hi>. </p>
<p>Esta educaçaõ propriamente falando, naõ he outra coiza mais que a inspiraçaõ dos sentimentos, dos modos, e das qualidades destas duas pessoas: e esta inspiraçaõ se faz com o socorro do amor proprio. Todas differentes, e ao mesmo tempo commuas entre si: mas sempre tem, diga cada hum o que quizer, o amor proprio por fundamento; e este mesmo amor proprio toma diversas formas segundo os homens, que o empregaõ. Com o tempo parece, que certos homens se desfazem da sua educaçaõ; mas isto naõ he senaõ para agradar a hum amor proprio prevertido. </p>
<p>Nossos Pays tem, ou devem ter todo o cuidado de nos dar huma idéa de hum ser, que elles conhecem pouco, e que governa huma dilatada extençaõ de paiz, de que o nosso faz tambem parte. A este grande paiz se chama Universo, e este ser se chama DEOS; a este servem os ho- <pb n="92"></pb>mens de differentes modos, mas na verdade naõ ha mais que hum culto que seja verdadeiro, e que lhe agrade ao qual se chama a <hi rend="italic">Religiaõ Catholica, e Apostolica Romana</hi>. </p>
<p>Na Religiaõ em genero, cada hum tem seus Deozes subalternos, e viziveis (porque o Soberano he invisivel) e estes Deozes tem differentes nomes; e facilmente os mudaõ segundo os projectos que delles se fazem. </p>
<p>Depois de termos habitado por alguns annos o mundo, se unem ao amor proprio outras duas guias differentes; huma he a <hi rend="italic">oppiniaõ</hi>, e a outra o <hi rend="italic">interesse</hi>, as quaes nunca nos deixaõ. </p>
<p>Hum dos principaes Deozes subalternos he a <hi rend="italic">fortuna</hi>, fantasma enganadora, que com muita brevidade aparece, e tambem dezaparece. Todos della falaõ, cada hum a busca, e ninguem a vê: e por isso della naõ podemos dizer coiza mais certa, senaõ que he huma verdadeira fantasma: e com tudo esta mesma fantasma he cruel, e injusta; porque incrivelmente nos atromenta, e muitas vezes nos tira os sentimentos da Religiam, e da verdadeira virtude. Ella se introduz em nòs pelo <hi rend="italic">espirito</hi>, e deste se adianta muito mais buscando outra rezidencia, de donde naõ sahe senaõ violentamente, e com grande força, que he o <hi rend="italic">coraçaõ</hi>. </p>
<p>Agora vejamos os diversos tormentos com <pb n="93"></pb> que a fortuna afflige os homens. Esta se conforma com o amor proprio, e nos entrega a <hi rend="italic">aparencia</hi>. A aparencia ordinariamente naõ persuade aos homens outra couza mais senaõ que elles se podem servir della com muito mais comodidade do que da virtdude. Illucina a nossa imaginaçaõ, e e desconcerta com chimeras agradaveis, e ao mesmo tempo horrorozas. Bem se podem estas chimeras pintar como mininos com azas, e com dous rostos; mas falemos de hum modo mais claro, e mais natural; estes objectos chimericos, saõ as riquezas, e os cuidados. Tem azas, porque voaõ sem parar, e deixaõ naquelles que as possuiraõ hũa impressaõ da sua companhia, que se chama cobiça: Chamaõ-se mininos, e os cuidados constituiçaõ sempre muito fraca, e muito ardente. </p>
<p>Continuamente se offerecem victimas á fortuna, sem que com taõ repetidas oblaçoens se possa vencer o seu furor. Estas victimas saõ de todas as idades, de todas as condiçoens, e de todas as especies: como saõ <hi rend="italic">os parentes, os amigos, os estranhos, os tolos</hi>, e <hi rend="italic">os mal procedidos</hi>: mas de todas estas victimas as dos <hi rend="italic">amigos</hi> saõ as que se sacrificaõ com mais frequencia, e com menos remorso, e mais liberdade. </p>
<p><pb n="94"></pb> Naõ ha razaõ para se chamar á fortuna inconstante, porque ella nunca se muda, he sim malicioza, e gosta muito de perseguir os seus devotos. A mais cruel das suas perseguiçoens he aprezentar-lhes com hũa luz falça, e em certa distancia objectos admiraveis, mas nenhum delles solido: e os mais espertos, e mais cubiçozos saõ os primeiros que se enganaõ. Por certas regras da optica, e da prospectiva dispoem de tal sorte estes objectos, nos Templos aonde concorem em grande numero os seus adoradores, que os rayos da luz lhos reprezentaõ à vista como coisas de hum preço inestimavel, correm para esta luz, e quando a ella chegaõ jà naõ vem coiza alguma: e naõ achaõ senaõ huma nuvem grossa, e hum espeço fumo.</p>
<p>Tem tambem a fortuna ainda outros meios de perseguir os homens, que todos tem a mesma efficacia; e o que tem melhor effeito, he o de arruinar huns com os outros, e algumas vezes a huns, e a outros tudo junto. </p>
<p>He o mundo hum paiz de exercicio; e as profissoens que nelle se exercitaõ saõ como carreiras, as quaes tem diversos nomes, e differentes uzos. Ha huns por donde se corre sem fim aparente, e parece que he só por correr: mas quasi todas tem seu fim vizivel. As nossas guias nos dirigem para <pb n="95"></pb> alguma destas carreiras; por ellas algumas vezes se chega ao meyo do caminho sem se poder acabar, e se se chega ao fim, a fortuna vai dilatando, e estendendo o mesmo fim a que parece tinham os chegado: e esta naõ he a menor, e menos violenta das suas persiguiçoens. Encontram-se muitas vezes outros que correm mais exercitados, mais vivos, e mais subtis, e entaõ com armas se disputa o terreno, as quaes saõ as <hi rend="italic">subtilezas</hi>, e os enganos; e alguns dos espectadores neutros lhe daõ hum nome equivoco chamando-lhe <hi rend="italic">vivezas de espirito</hi>, e <hi rend="italic">golpes de habilidade</hi>; e o que perde he reputado por pouco esperro, e delle se naõ fala mais. O que vence continúa para diante em querer chegar ao fim, mas com que adversarios lhe naõ he ainda percizo contender antes que de todo se faça senhor do campo? Vé aparecer em alguma distancia dous inimigos destes bem exercitados, e sendo ambos igualmente perigozos, e caprichozos, ambos cuidaõ em lhe prejudicar. Hum delles o suscitaõ as nossas mesmas guias o <hi rend="italic">amor proprio</hi>, <hi rend="italic">o interesse, e a oppiniam</hi>, e com tudo naõ parece taõ terrivel, antes pelo contrario tem hum ar rizonho, e honesto, parece fraco, e minino, mas he esperto, e subtil, ainda que as suas armas sejaõ sômente hum medo delicado de persuadir tudo quanto quer: he agil, e toma diversas fórmas, e <pb n="96"></pb> falta de huma para outra carreira com huma ligeireza admiravel. Agarra sempre alguem, e o leva por caminhos desviados, de dificultozos de que se achaõ cercadas as carreiras, e entaõ he que o abondona, e dezempara, depois de o ter enganado muito bem. </p>
<p>Neste desvio, toda a consolaçaõ que fica ao que corre he conhecer o seu contrario, de o reconhecer diante de si debaxo de outra fórma, e que ordinariamente o naõ pòde largar, que taõ agradavel o acha! Desta sorte he que o fim aparece, e dezaparece alternativamente pelos agradaveis aspectos do erro. Neste embaraço invencivel aparace o outro contrario austero, e inexoravel, acomete o que corre, atira com elle fóra do caminho, e fica sem esperenças de recuperar o mesmo sitio. </p>
<p>Este ultimo contrario he a morte, inimiga declarada de todos os nossos projectos Ao sahir declarada desta carreira entaõ he que nos achamos em outro paiz extraordinario, hum dia eterno o illumina, e he tambem cercado de espessas trevas. Nelle vamos certamente habitar ou nas trevas, ou na luz segundo o procedimento que cada hum teve neste mundo, e he o ultimo fim do homem, estando em seu arbitrio elleger qualquer destas habitaçoens, sabendo que qualquer que seja sempre hade ser eterna <milestone rend="closer" unit="E2"></milestone> <milestone rend="closer" unit="E1"></milestone>. </p>
<p></p></div2></div1></body>
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                <seg type="U1">N.°. 11</seg> Discripçam Allegorica do Estado; do
                                Homem no mundo. <seg synch="#FR.2" type="E2">
                  <seg synch="#FR.3" type="MT"> Enntre (sic) as figuras que
                                        compoem a excellente arte da Rhetorica, a melhor, e a mais
                                        agradavel pode ser a allegoria, porque com ella se explicam
                                        sem muito enfado as coizas verdadeiras debaxo do veo de             
                           alguma idea extravagante; e tambem porque sem o beneficio
                                        desta figura fica muitas vezes dificultoza a mesma
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                                        Della para este effeito se serviram os melhores authores da
                                        antiga latinidade, e ainda della se servem os <pb n="90"></pb>             
                           modernos; os melhores oradores de todos os seculos; com ella
                                        se reprezentam mais medonhos os vicios, e se mostram mais
                                        amaveis as virtudes: e finalmente debaxo desta figura se
                                        mostraõ mais claramente, e com mais liberdade as couzas, e
                                        as pessoas como na verdade sam. Como o estado do homem neste
                                        mundo se naõ pode meudamente explicar com todas as
                                        circunstancias inseparaveis da sua existencia, da sua
                                        natureza, e da sua sociedade, determino ao menos dar esta
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                                        ser esta a menos enfadonha, e a mais certa: as reflexoens
                                        sore o que disser, fiquem da sua parte, que naõ saõ
                                        demaziadamente difficultozas, e lhe podem ser bastantemente
                                        uteis. </seg> A entrada do homem neste mundo, a que
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                                    outro igualmente ignorado, e de todo estranho. Nelle quando
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                                    que tambem nos conheçamos. Passados alguns annos depois da nossa
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                                    temor, e desconfiança, nos associamos huns com os outros, mas
                                    sempre sem conhecermos pessoa alguma, e quazi ordinariamente sem
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                                    deste mesmo paiz quazi sempre sem nos conhecermos. Depois desta
                                    nossa entrada nesta terra, duas pessoas que tiveraõ a
                                    imcumbencia de nos conduzir para ella, estaõ igualmente
                                    encarregadas nos instruir. As pessoas se chamaõ Pays, e a
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                                    pessoas: e esta inspiraçaõ se faz com o socorro do amor proprio.
                                    Todas differentes, e ao mesmo tempo commuas entre si: mas sempre
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                                    desfazem da sua educaçaõ; mas isto naõ he senaõ para agradar a
                                    hum amor proprio prevertido. Nossos Pays tem, ou devem ter todo
                                    o cuidado de nos dar huma idéa de hum ser, que elles conhecem
                                    pouco, e que governa huma dilatada extençaõ de paiz, de que o
                                    nosso faz tambem parte. A este grande paiz se chama Universo, e
                                    este ser se chama DEOS; a este servem os ho- <pb n="92"></pb>mens de                        
            differentes modos, mas na verdade naõ ha mais que hum culto que             
                       seja verdadeiro, e que lhe agrade ao qual se chama a Religiaõ
                                    Catholica, e Apostolica Romana. Na Religiaõ em genero, cada hum
                                    tem seus Deozes subalternos, e viziveis (porque o Soberano he
                                    invisivel) e estes Deozes tem differentes nomes; e facilmente os
                                    mudaõ segundo os projectos que delles se fazem. Depois de termos
                                    habitado por alguns annos o mundo, se unem ao amor proprio
                                    outras duas guias differentes; huma he a oppiniaõ, e a outra o
                                    interesse, as quaes nunca nos deixaõ. Hum dos principaes Deozes
                                    subalternos he a fortuna, fantasma enganadora, que com muita
                                    brevidade aparece, e tambem dezaparece. Todos della falaõ, cada
                                    hum a busca, e ninguem a vê: e por isso della naõ podemos dizer
                                    coiza mais certa, senaõ que he huma verdadeira fantasma: e com
                                    tudo esta mesma fantasma he cruel, e injusta; porque
                                    incrivelmente nos atromenta, e muitas vezes nos tira os
                                    sentimentos da Religiam, e da verdadeira virtude. Ella se
                                    introduz em nòs pelo espirito, e deste se adianta muito mais
                                    buscando outra rezidencia, de donde naõ sahe senaõ
                                    violentamente, e com grande força, que he o coraçaõ. Agora
                                    vejamos os diversos tormentos com <pb n="93"></pb> que a fortuna
                                    afflige os homens. Esta se conforma com o amor proprio, e nos
                                    entrega a aparencia. A aparencia ordinariamente naõ persuade aos
                                    homens outra couza mais senaõ que elles se podem servir della
                                    com muito mais comodidade do que da virtdude. Illucina a nossa
                                    imaginaçaõ, e e desconcerta com chimeras agradaveis, e ao mesmo
                                    tempo horrorozas. Bem se podem estas chimeras pintar como
                                    mininos com azas, e com dous rostos; mas falemos de hum modo
                                    mais claro, e mais natural; estes objectos chimericos, saõ as
                                    riquezas, e os cuidados. Tem azas, porque voaõ sem parar, e
                                    deixaõ naquelles que as possuiraõ hũa impressaõ da sua
                                    companhia, que se chama cobiça: Chamaõ-se mininos, e os cuidados
                                    constituiçaõ sempre muito fraca, e muito ardente. Continuamente
                                    se offerecem victimas á fortuna, sem que com taõ repetidas
                                    oblaçoens se possa vencer o seu furor. Estas victimas saõ de
                                    todas as idades, de todas as condiçoens, e de todas as especies:
                                    como saõ os parentes, os amigos, os estranhos, os tolos, e os
                                    mal procedidos: mas de todas estas victimas as dos amigos saõ as
                                    que se sacrificaõ com mais frequencia, e com menos remorso, e
                                    mais liberdade. <pb n="94"></pb> Naõ ha razaõ para se chamar á
                                    fortuna inconstante, porque ella nunca se muda, he sim
                                    malicioza, e gosta muito de perseguir os seus devotos. A mais
                                    cruel das suas perseguiçoens he aprezentar-lhes com hũa luz
                                    falça, e em certa distancia objectos admiraveis, mas nenhum             
                       delles solido: e os mais espertos, e mais cubiçozos saõ os
                                    primeiros que se enganaõ. Por certas regras da optica, e da
                                    prospectiva dispoem de tal sorte estes objectos, nos Templos
                                    aonde concorem em grande numero os seus adoradores, que os rayos
                                    da luz lhos reprezentaõ à vista como coisas de hum preço
                                    inestimavel, correm para esta luz, e quando a ella chegaõ jà naõ
                                    vem coiza alguma: e naõ achaõ senaõ huma nuvem grossa, e hum
                                    espeço fumo. Tem tambem a fortuna ainda outros meios de
                                    perseguir os homens, que todos tem a mesma efficacia; e o que
                                    tem melhor effeito, he o de arruinar huns com os outros, e
                                    algumas vezes a huns, e a outros tudo junto. He o mundo hum paiz
                                    de exercicio; e as profissoens que nelle se exercitaõ saõ como
                                    carreiras, as quaes tem diversos nomes, e differentes uzos. Ha
                                    huns por donde se corre sem fim aparente, e parece que he só por
                                    correr: mas quasi todas tem seu fim vizivel. As nossas guias nos
                                    dirigem para <pb n="95"></pb> alguma destas carreiras; por ellas
                                    algumas vezes se chega ao meyo do caminho sem se poder acabar, e
                                    se se chega ao fim, a fortuna vai dilatando, e estendendo o
                                    mesmo fim a que parece tinham os chegado: e esta naõ he a menor,
                                    e menos violenta das suas persiguiçoens. Encontram-se muitas
                                    vezes outros que correm mais exercitados, mais vivos, e mais
                                    subtis, e entaõ com armas se disputa o terreno, as quaes saõ as
                                    subtilezas, e os enganos; e alguns dos espectadores neutros lhe
                                    daõ hum nome equivoco chamando-lhe vivezas de espirito, e golpes
                                    de habilidade; e o que perde he reputado por pouco esperro, e
                                    delle se naõ fala mais. O que vence continúa para diante em
                                    querer chegar ao fim, mas com que adversarios lhe naõ he ainda
                                    percizo contender antes que de todo se faça senhor do campo? Vé
                                    aparecer em alguma distancia dous inimigos destes bem
                                    exercitados, e sendo ambos igualmente perigozos, e caprichozos,
                                    ambos cuidaõ em lhe prejudicar. Hum delles o suscitaõ as nossas
                                    mesmas guias o amor proprio, o interesse, e a oppiniam, e com
                                    tudo naõ parece taõ terrivel, antes pelo contrario tem hum ar
                                    rizonho, e honesto, parece fraco, e minino, mas he esperto, e
                                    subtil, ainda que as suas armas sejaõ sômente hum medo delicado
                                    de persuadir tudo quanto quer: he agil, e toma diversas fórmas,
                                    e <pb n="96"></pb> falta de huma para outra carreira com huma
                                    ligeireza admiravel. Agarra sempre alguem, e o leva por caminhos
                                    desviados, de dificultozos de que se achaõ cercadas as
                                    carreiras, e entaõ he que o abondona, e dezempara, depois de o
                                    ter enganado muito bem. Neste desvio, toda a consolaçaõ que fica
                                    ao que corre he conhecer o seu contrario, de o reconhecer diante    
                                de si debaxo de outra fórma, e que ordinariamente o naõ pòde
                                    largar, que taõ agradavel o acha! Desta sorte he que o fim
                                    aparece, e dezaparece alternativamente pelos agradaveis aspectos
                                    do erro. Neste embaraço invencivel aparace o outro contrario
                                    austero, e inexoravel, acomete o que corre, atira com elle fóra
                                    do caminho, e fica sem esperenças de recuperar o mesmo sitio.
                                    Este ultimo contrario he a morte, inimiga declarada de todos os
                                    nossos projectos Ao sahir declarada desta carreira entaõ he que
                                    nos achamos em outro paiz extraordinario, hum dia eterno o
                                    illumina, e he tambem cercado de espessas trevas. Nelle vamos
                                    certamente habitar ou nas trevas, ou na luz segundo o
                                    procedimento que cada hum teve neste mundo, e he o ultimo fim do
                                    homem, estando em seu arbitrio elleger qualquer destas
                                    habitaçoens, sabendo que qualquer que seja sempre hade ser
                                    eterna </seg>
              </seg>. </ab>
          </div>
        </body>
      </text>
    </group>
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</TEI>
