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        <title>Num.° 10</title>
        <author>Anónimo (Bento Morganti)</author>
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        <edition>Moralische Wochenschriften</edition>
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          <name>Klaus-Dieter Ertler</name>
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          <name>Hans Fernández</name>
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          <name>Sarah Lang</name>
          <name>Gerlinde Schneider</name>
          <name>Martina Scholger</name>
          <name>Johannes Stigler</name>
          <name>Gunter Vasold</name>
          <resp>Datenmodellierung</resp>
          <resp>Applikationsentwicklung</resp>
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      <publicationStmt>
        <publisher>
          <orgName ref="http://romanistik.uni-graz.at/">Institut für Romanistik,
                        Universität Graz</orgName>
        </publisher>
        <publisher>
          <orgName ref="http://informationsmodellierung.uni-graz.at">Zentrum für
                        Informationsmodellierung, Universität Graz</orgName>
        </publisher>
        <pubPlace>Graz</pubPlace>
        <date when="2018-10-04">04.10.2018</date>
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        <bibl>Anónimo (Morganti, Bento): Terceira Collecçam dos Papeis Anonymos. Lisboa:
                    Pedro Ferreira, 1754, 81-88 </bibl>
        <bibl type="Einzelausgabe" xml:id="OAn">
          <title level="j">O Anonymo. Repartido pelas
                        semanas, para divertimento e utilidade do publico</title>
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          <date>1754</date>
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<p rend="EU"><milestone unit="E1" xml:id="FR.1"></milestone></p>
<div1><head>N.°. 10</head>
<div2><head><hi rend="italic">Dos homens em geral. </hi></head>
<p rend="SO"><hi rend="smallcaps"><milestone unit="E2" xml:id="FR.2"></milestone> Na</hi> verdade que naõ ha couza que possa servir de milhor instrucçaõ para a vida civil, e Politica, como he a liçaõ dos caracteres dos homens, e as reflexoens, que sobre elles se fazem, ou podem fazer; o verdadeiro fim a que se terminam os primeiros he a introduzir hum quasi verdadeiro conhecimento das pessoas, e servem de suavizar o serio das segundas, que pode ser que enfaltiem se forem muito continuadas, e sem interrupçam. He bem verdade que o caracter anima a Reflexaõ he propriamente a explicaçam do Caracter, mas esta deve ser justa, pouco ex-<pb n="82"></pb>tensa, e preciza, e ao mesmo tempo clara, como tambem o caracter vivo, puro, e agradvel, sem admittir couza alguma que puxe para a bufoneria. <milestone unit="MT" xml:id="FR.3"></milestone> Mas disgraça he que se prezentemente as obras naõ carregam para esta parte já se chamaõ insipidas, frias, e quasi indignas de se lhe porem os olhos, porque se nam cuida no louvavel fim da instrucçam, satisfazendo-se a maior parte da gente com ter hum leve divertimento com alguma pueridade jocoza, ou jocoseria, do que empregar alguma hora de liçam no que pode servir para lhe polir o engenho, e fazelo mais prompto para o raciocinio claro, e pausivel. Eu pasmo de ver a indiscreta aplicaçaõ com que se buscam com gosto os papeis que intitulando-se por critica, vem acabar em satira, confundindo o fim, e a destinaçam de cada huma destas duas coizas, e regulam por mà critica se naõ he huma rafinada satyra. Deixam ordinariamente as materias, e buscam os Authores; ordem os sojeitos, e quasi passam em claro pelas obras, e finalmente se os papeis sam deste genero todos os querem ler, mas se ha outros que contem materias mais importantes para a reformaçaõ dos costumes depravados, e para a doutrina da vida civil, nem para elles se olha, e se reputam por coizas inuteis em que se emprega mal o tempo, por que naõ provocam a soltarem-se quatro rizadas. Bem conheço, que tambem e os <pb n="83"></pb> caracteres, e as reflexoens podem incluir em si algum leve ar de satyra, mas como naõ he directa, nem encaminhada a sojeitos determinados, nam devem os Leitores fazer applicaçoens injuriozas, e quando algum as faça, naõ deve ser culpado, o que escreve com hum animo livre, e indiferente, porque sómente escreve para instruir, e naõ para offender. Protesto desde logo, e ja desde o principio o tenho feito contra estas aplicaçoens, porque sendo as reflexoens fundadas sobre os defeitos dos homens em geral, naõ pode cauzar admiraçaõ que se encontrem algumas que descubram o caracter de alguma pessoa de nosso conhecimento. Bem sei que isto basta a certos espiritos, para fazerem diversas aplicaçoens a seu gosto, e segundo a parcialidade, ou inclinaçaõ do seu genio, mas será injustiça grande, atribuir estas aplicaçoens voluntarias ao que escreve sem objecto determinado a que ellas se encaminhem. <milestone rend="closer" unit="MT"></milestone></p>
<p>Hum dos principaes caracteres que devemos examinar para nossa instrucçam, he o do homem em geral. He o homem huma das coizas bem equivocas, e atê o prezente ninguem teve delle todo o conhecimento completo para bem o diffinir. Tudo quanto delle se pode dizer sem engano he que recebeo a razam, mas que ao mesmo tempo abuza della. Em todos os seculos passados se trabalhou no seu conhecimento, e nelle se naõ pode <pb n="84"></pb> descobrir mais que hum amor proprio, que martirizando a razam, lhe arma ao mesmo tempo as mais crueis traiçoens: huma inclinaçaõ, ou propençaõ quasi invencivel para se enganar na busca da verdade, e para enganar os outros pela falta delles; hũa deligencia continuada do bem, e hum caminhar perpetuamente para o mal. Os mais sabios Filozofos tem trabalhado incansavelmente em descobrir os motivos que obrigam o homem neste modo de obrar, e se alguns os tem encontrado he somente por casualidade, e naõ por estudo; naõ sendo os seus systemas proporcionados á extençam da corrupçam do homem, nem podendo o seu espirito seguirlhes o coraçam em todos os seus giros. </p>
<p>Vivamos hum seculo, ou dez seculos, e discorramos, se podermos, todo o Universo, veremos sempre os mesmos homens, as mesmas paxoens, e os mesmos designios. Caminhemos sempre, e nesta dilatada viagem parece que nos adiantamos, e que no fim achamos o que queriamos, mas o contrario he que ordinariamente succede. Vemos sim sempre homens, mas ainda que passemos por hum numero infinito delles, a penas (sic) podemos conhecer hum só que mereça dignamente este nome. </p>
<p>Os homens dependem, ou estaõ para melhor (...), dependientes do seu humor; hoje os vemos (...) ptos, e capazes de emprender as maiores ac-<pb n="85"></pb>çoens: no outro dia os achamos socegados, e negligentes. O calor do sangue, e a força dos espiritos vitaes saõ os instrumentos que movem as suas inclinaçoens, e delles procede a sua baxeza, ou a sua grandeza; a sua sabedoria, ou a sua loucoura. </p>
<p>Alguma sombra da Filozofia nos dirá, que os nam desprezemos tanto, porque sendo cada hum de nós membro do genero humano, se o homem he viciozo, cada hum o pode tambem ser por consequencia; e temos conveniencia, e interesse em sofrer os que tambem nos sofrem, naõ podendo justamente dizer dos outros couza alguma, de que tambem nos naõ acahamos inficionados; e parece muito mal queremos parecere demaziadamente sabiso, com aquelles que entendem ter o mesmo direito. Sejamos menos criticos, porque para hum homem chegar a parecer honesto, e prudente naõ he necessario sensurar os outros. Caminhamos para a virtude sem offender ninguem e todo outro qualquer modo como que queiramos adiantarnos para ella he indigno de hũ homē sabio. </p>
<p>Esta reflexam bem poderia deter a pena de muitos; mas a sua paixaõ interior os obriga a continuar no seu exercicio; e seja ou por malignidade, seja por artificio, e ou fiualmente seja por charidade, nenhum pinta para si, sem ao mesmo tempo pintar tambem para os outros, e muitas vezes naõ podem pintar sem despintar on insultar os mais. </p>
<p><pb n="86"></pb> Naõ peço para mim favor algum aos meus Leitores, porque sou tambem homem, e reconheço que tenho os defeitos dos homens, e por isso muitas vezes me tenho achado no que tenho dito, e acharei outras tantas no que disser. </p>
<p>Achase no homem a força, e a fraqueza, e algumas vaidades na sabedoria que atiraõ com elle para a loucura. Ama a verdade, segue-a, entende que a tem segura, sogelhe, e cahe na mentira: e estando certo de se perder na sua mesma curiozidade, quem se atreverá a prometterlhe hum conhecimento certo. Necessita divertirse, està aflito quando se acha ociozo; e quando està ocupado recebe hũa grande inquietaçaõ de naõ poder adiantarse com mais presteza. O caminho por donde anda está semeado de espinhos, e com tudo anda por elle com confiança, porque lhe parece que està alcatifado de flores. A isto se deve seguir descançar dos seus trabalhos: mas com tudo vai sempre caminhando sem querer que ninguem o guie; dirige sempre os passos para donde espera a sua felicidade, quando ella de cada vez mais lhe foje; chega finalmente a huma escuridaõ sem limites, e só nella he que tem fim os seus designios, a sua grandeza, e o seu espirito. </p>
<p>Desta sorte se cega o homem; e tudo o conduz para o erro se naõ tiver em si grande cuidado. As coizas ainda melhores, e mais excellentes se cor-<pb n="87"></pb>rompem no seu espirito quando he mal disposto. A mesma Religiaõ (se me he licito falar nella) lhe cauza entaõ males perigozissimos. Se cre em Deos, naõ deixa com tudo de fazer hum ser à sua vontade, elle o dilata, elle o mede, elle o diminue; e o reprezenta forte, ou fraco, justo, ou injusto, e muitas vezes tudo ao mesmo tempo. Elle o conserva, elle o deixa, segundo imagina que o seu Deos lhe pode servir. E depois de se ter apartado taõ socegadamente do verdadeiro Deos, quando chega a hora de partir deste mundo, entende que basta fazer com elle as pazes, adquirindo outra vez a sua amizade por alguns breves momentos de verdadeira fogeiçaõ; tudo pode ser porque tem bom fundamento na sua muita mizericordia, mas naõ deixa de ser difficultozo; porque ordinariamente pelo mao habito se aumentaõ indispoziçoens do coraçaõ. Regeita toda a divindade, e olha para si como quem vai outra vez para o nada de que sahio no fim de hma vida dilatada. Idea na verdade pessima, e em que certamente se naõ pode encontrar utilidade alguma, vindo a valer depois muito menos que qualquer outro animal, sem embargo de ter reinado algum tempo sobre elles! </p>
<p>Este idolo figurado, este nada real saõ o que determinaõ quasi sempre as nossas acçoens;e seguindo-se hũa vez este partido difficultozamente se deixa. Naõ he precizo mais que ver hum ho-<pb n="88"></pb>mem no estado de morrer, e tornalo a ver restituido à sua saude; na tristeza, e na allegria, no perigo, ou fora delle. Se na adversidade parece que abandona, e despreza a sua fantasma para adorar hum Deos realmente verdadeiro he quasi sempre por acazo, e sem intento de hũa constante perseverança, porque em mudando de condiçaõ, torna facilmente ao passado, e se tambem por entaõ renuncia a idea do nada, pode ser que seja por hum instinto muito semelhante ao dos brutos. </p>
<p>O estudo de si mesmo fundado sobre as verdades Divinas, he que sómente nos pode conduzir ao conhecimento do homem, e fortificarnos contra o erro. A razam humana he taõ sogeita ás paixoens, que bem se podia considerar como hum Piloto bastantemente perigozo, que naõ fica por fiador nem do naufragio, nem dos perigos. Isto he o que em summa sepòde (sic) saber do homem em comum, e até donde póde chegar o seu conhecimento em geral. <milestone rend="closer" unit="E2"></milestone> <milestone rend="closer" unit="E1"></milestone></p>
<p></p></div2></div1></body>
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                <seg type="U1">N.°. 10</seg> Dos homens em geral. <seg synch="#FR.2" type="E2"> Na verdade que naõ ha couza que possa servir de
                                    milhor instrucçaõ para a vida civil, e Politica, como he a liçaõ
                                    dos caracteres dos homens, e as reflexoens, que sobre elles se
                                    fazem, ou podem fazer; o verdadeiro fim a que se terminam os
                                    primeiros he a introduzir hum quasi verdadeiro conhecimento das
                                    pessoas, e servem de suavizar o serio das segundas, que pode ser
                                    que enfaltiem se forem muito continuadas, e sem interrupçam. He
                                    bem verdade que o caracter anima a Reflexaõ he propriamente a                     
               explicaçam do Caracter, mas esta deve ser justa, pouco ex-<pb n="82"></pb>tensa, e preciza, e ao mesmo tempo clara, como
                                    tambem o caracter vivo, puro, e agradvel, sem admittir couza
                                    alguma que puxe para a bufoneria. <seg synch="#FR.3" type="MT">
                                        Mas disgraça he que se prezentemente as obras naõ carregam
                                        para esta parte já se chamaõ insipidas, frias, e quasi
                                        indignas de se lhe porem os olhos, porque se nam cuida no
                                        louvavel fim da instrucçam, satisfazendo-se a maior parte da
                                        gente com ter hum leve divertimento com alguma pueridade
                                        jocoza, ou jocoseria, do que empregar alguma hora de liçam
                                        no que pode servir para lhe polir o engenho, e fazelo mais
                                        prompto para o raciocinio claro, e pausivel. Eu pasmo de ver
                                        a indiscreta aplicaçaõ com que se buscam com gosto os papeis
                                        que intitulando-se por critica, vem acabar em satira,
                                        confundindo o fim, e a destinaçam de cada huma destas duas
                                        coizas, e regulam por mà critica se naõ he huma rafinada
                                        satyra. Deixam ordinariamente as materias, e buscam os
                                        Authores; ordem os sojeitos, e quasi passam em claro pelas
                                        obras, e finalmente se os papeis sam deste genero todos os
                                        querem ler, mas se ha outros que contem materias mais
                                        importantes para a reformaçaõ dos costumes depravados, e
                                        para a doutrina da vida civil, nem para elles se olha, e se
                                        reputam por coizas inuteis em que se emprega mal o tempo,
                                        por que naõ provocam a soltarem-se quatro rizadas. Bem
                                        conheço, que tambem e os <pb n="83"></pb> caracteres, e as
                                        reflexoens podem incluir em si algum leve ar de satyra, mas
                                        como naõ he directa, nem encaminhada a sojeitos
                                        determinados, nam devem os Leitores fazer applicaçoens
                                        injuriozas, e quando algum as faça, naõ deve ser culpado, o
                                        que escreve com hum animo livre, e indiferente, porque
                                        sómente escreve para instruir, e naõ para offender. Protesto
                                        desde logo, e ja desde o principio o tenho feito contra
                                        estas aplicaçoens, porque sendo as reflexoens fundadas sobre
                                        os defeitos dos homens em geral, naõ pode cauzar admiraçaõ
                                        que se encontrem algumas que descubram o caracter de alguma
                                        pessoa de nosso conhecimento. Bem sei que isto basta a
                                        certos espiritos, para fazerem diversas aplicaçoens a seu             
                           gosto, e segundo a parcialidade, ou inclinaçaõ do seu genio,
                                        mas será injustiça grande, atribuir estas aplicaçoens
                                        voluntarias ao que escreve sem objecto determinado a que
                                        ellas se encaminhem. </seg> Hum dos principaes caracteres
                                    que devemos examinar para nossa instrucçam, he o do homem em
                                    geral. He o homem huma das coizas bem equivocas, e atê o
                                    prezente ninguem teve delle todo o conhecimento completo para
                                    bem o diffinir. Tudo quanto delle se pode dizer sem engano he
                                    que recebeo a razam, mas que ao mesmo tempo abuza della. Em
                                    todos os seculos passados se trabalhou no seu conhecimento, e
                                    nelle se naõ pode <pb n="84"></pb> descobrir mais que hum amor
                                    proprio, que martirizando a razam, lhe arma ao mesmo tempo as
                                    mais crueis traiçoens: huma inclinaçaõ, ou propençaõ quasi
                                    invencivel para se enganar na busca da verdade, e para enganar
                                    os outros pela falta delles; hũa deligencia continuada do bem, e
                                    hum caminhar perpetuamente para o mal. Os mais sabios Filozofos
                                    tem trabalhado incansavelmente em descobrir os motivos que
                                    obrigam o homem neste modo de obrar, e se alguns os tem
                                    encontrado he somente por casualidade, e naõ por estudo; naõ
                                    sendo os seus systemas proporcionados á extençam da corrupçam do
                                    homem, nem podendo o seu espirito seguirlhes o coraçam em todos
                                    os seus giros. Vivamos hum seculo, ou dez seculos, e
                                    discorramos, se podermos, todo o Universo, veremos sempre os
                                    mesmos homens, as mesmas paxoens, e os mesmos designios.
                                    Caminhemos sempre, e nesta dilatada viagem parece que nos
                                    adiantamos, e que no fim achamos o que queriamos, mas o
                                    contrario he que ordinariamente succede. Vemos sim sempre
                                    homens, mas ainda que passemos por hum numero infinito delles, a
                                    penas (sic) podemos conhecer hum só que mereça dignamente este
                                    nome. Os homens dependem, ou estaõ para melhor (...),
                                    dependientes do seu humor; hoje os vemos (...) ptos, e capazes
                                    de emprender as maiores ac-<pb n="85"></pb>çoens: no outro dia os
                                    achamos socegados, e negligentes. O calor do sangue, e a força
                                    dos espiritos vitaes saõ os instrumentos que movem as suas
                                    inclinaçoens, e delles procede a sua baxeza, ou a sua grandeza;
                                    a sua sabedoria, ou a sua loucoura. Alguma sombra da Filozofia
                                    nos dirá, que os nam desprezemos tanto, porque sendo cada hum de
                                    nós membro do genero humano, se o homem he viciozo, cada hum o
                                    pode tambem ser por consequencia; e temos conveniencia, e
                                    interesse em sofrer os que tambem nos sofrem, naõ podendo
                                    justamente dizer dos outros couza alguma, de que tambem nos naõ
                                    acahamos inficionados; e parece muito mal queremos parecere         
                           demaziadamente sabiso, com aquelles que entendem ter o mesmo
                                    direito. Sejamos menos criticos, porque para hum homem chegar a
                                    parecer honesto, e prudente naõ he necessario sensurar os         
                           outros. Caminhamos para a virtude sem offender ninguem e todo
                                    outro qualquer modo como que queiramos adiantarnos para ella he
                                    indigno de hũ homē sabio. Esta reflexam bem poderia deter a pena
                                    de muitos; mas a sua paixaõ interior os obriga a continuar no
                                    seu exercicio; e seja ou por malignidade, seja por artificio, e
                                    ou fiualmente seja por charidade, nenhum pinta para si, sem ao
                                    mesmo tempo pintar tambem para os outros, e muitas vezes naõ
                                    podem pintar sem despintar on insultar os mais. <pb n="86"></pb> Naõ
                                    peço para mim favor algum aos meus Leitores, porque sou tambem
                                    homem, e reconheço que tenho os defeitos dos homens, e por isso
                                    muitas vezes me tenho achado no que tenho dito, e acharei outras
                                    tantas no que disser. Achase no homem a força, e a fraqueza, e
                                    algumas vaidades na sabedoria que atiraõ com elle para a
                                    loucura. Ama a verdade, segue-a, entende que a tem segura,
                                    sogelhe, e cahe na mentira: e estando certo de se perder na sua
                                    mesma curiozidade, quem se atreverá a prometterlhe hum
                                    conhecimento certo. Necessita divertirse, està aflito quando se
                                    acha ociozo; e quando està ocupado recebe hũa grande inquietaçaõ
                                    de naõ poder adiantarse com mais presteza. O caminho por donde
                                    anda está semeado de espinhos, e com tudo anda por elle com
                                    confiança, porque lhe parece que està alcatifado de flores. A
                                    isto se deve seguir descançar dos seus trabalhos: mas com tudo
                                    vai sempre caminhando sem querer que ninguem o guie; dirige
                                    sempre os passos para donde espera a sua felicidade, quando ella
                                    de cada vez mais lhe foje; chega finalmente a huma escuridaõ sem
                                    limites, e só nella he que tem fim os seus designios, a sua
                                    grandeza, e o seu espirito. Desta sorte se cega o homem; e tudo
                                    o conduz para o erro se naõ tiver em si grande cuidado. As
                                    coizas ainda melhores, e mais excellentes se cor-<pb n="87"></pb>rompem no seu espirito quando he mal disposto. A mesma
                                    Religiaõ (se me he licito falar nella) lhe cauza entaõ males
                                    perigozissimos. Se cre em Deos, naõ deixa com tudo de fazer hum
                                    ser à sua vontade, elle o dilata, elle o mede, elle o diminue; e
                                    o reprezenta forte, ou fraco, justo, ou injusto, e muitas vezes
                                    tudo ao mesmo tempo. Elle o conserva, elle o deixa, segundo
                                    imagina que o seu Deos lhe pode servir. E depois de se ter
                                    apartado taõ socegadamente do verdadeiro Deos, quando chega a
                                    hora de partir deste mundo, entende que basta fazer com elle as
                                    pazes, adquirindo outra vez a sua amizade por alguns breves
                                    momentos de verdadeira fogeiçaõ; tudo pode ser porque tem bom
                                    fundamento na sua muita mizericordia, mas naõ deixa de ser
                                    difficultozo; porque ordinariamente pelo mao habito se aumentaõ             
                       indispoziçoens do coraçaõ. Regeita toda a divindade, e olha para
                                    si como quem vai outra vez para o nada de que sahio no fim de
                                    hma vida dilatada. Idea na verdade pessima, e em que certamente
                                    se naõ pode encontrar utilidade alguma, vindo a valer depois
                                    muito menos que qualquer outro animal, sem embargo de ter
                                    reinado algum tempo sobre elles! Este idolo figurado, este nada
                                    real saõ o que determinaõ quasi sempre as nossas acçoens;e
                                    seguindo-se hũa vez este partido difficultozamente se deixa. Naõ
                                    he precizo mais que ver hum ho-<pb n="88"></pb>mem no estado de
                                    morrer, e tornalo a ver restituido à sua saude; na tristeza, e
                                    na allegria, no perigo, ou fora delle. Se na adversidade parece
                                    que abandona, e despreza a sua fantasma para adorar hum Deos
                                    realmente verdadeiro he quasi sempre por acazo, e sem intento de
                                    hũa constante perseverança, porque em mudando de condiçaõ, torna
                                    facilmente ao passado, e se tambem por entaõ renuncia a idea do
                                    nada, pode ser que seja por hum instinto muito semelhante ao dos
                                    brutos. O estudo de si mesmo fundado sobre as verdades Divinas,
                                    he que sómente nos pode conduzir ao conhecimento do homem, e
                                    fortificarnos contra o erro. A razam humana he taõ sogeita ás
                                    paixoens, que bem se podia considerar como hum Piloto
                                    bastantemente perigozo, que naõ fica por fiador nem do
                                    naufragio, nem dos perigos. Isto he o que em summa sepòde (sic)
                                    saber do homem em comum, e até donde póde chegar o seu
                                    conhecimento em geral. </seg>
              </seg>
            </ab>
          </div>
        </body>
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