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        <title>Num.° 8</title>
        <author>Anónimo (Bento Morganti)</author>
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          <orgName ref="http://informationsmodellierung.uni-graz.at">Zentrum für
                        Informationsmodellierung, Universität Graz</orgName>
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        <bibl>Anónimo (Morganti, Bento): Terceira Collecçam dos Papeis Anonymos. Lisboa:
                    Pedro Ferreira, 1754, 61-72 </bibl>
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          <title level="j">O Anonymo. Repartido pelas
                        semanas, para divertimento e utilidade do publico</title>
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          <date>1754</date>
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<p rend="EU"><milestone unit="E1" xml:id="FR.1"></milestone></p>
<div1><head>N.°. 8</head>
<div2><head><hi rend="italic">Dos Baylles Publicos, e de Mascaras. </hi></head>
<p rend="SO"><hi rend="smallcaps"><milestone unit="E2" xml:id="FR.2"></milestone> Ne</hi>nhuma couza no tempo prezente fas parecer hum homem enfadonho, como he o nam falar a geito, e conforme a vontade, e Inclinaçaõ dos circunstantes que o estam ouvindo. Para se dar hum inteiro sentido ao quese (sic) fala, he precizo que o discurso que se faz nam reprove nada do que se pratica, e que convenha sem discrepancia no que se uza, ou no de que se abuza. Hum homem que nam sabe lizongear, e tem por costume falar sincero, muitas vezes se acha bastantemente mortificado quando se encontra com alguma occaziaõ em que o discurso da practica he sobre certo erro commum; porque se o impugna, logo he impertinente, tem mao genio, era incapaz de ser cazado, e a modestia faz com que lhe nam chamam rustico, e que ignora os principios da boa educaçaõ; e aqui temos desconcertados os genios, e estabelicido hum mào conceito. Se nam dis couza alguma, o se <pb n="62"></pb> poem indiferente temos mais hum voto contra a justiça da cauzam, e hum tacito sequaz de algum abuzo; pois tam parcial he o que abertamente se declara por algum partido, como aquelle que calandose o naõ impugna. Tudo he mào, tanto falar como emmudecer: e como o meyo que fica entre dous extremos he o melhor, revolvome a escrever, porque isto nem he falar, nem tam pouco deixar de falar, e he hum bom modo para nam ser impertinente, nem taciturno; porque quem me nam quizer ouvir, escuza de ler estes papeis; e quem quizer muito por seu gosto ter esta mortificaçaõ, conversa comigo ás horas que lhe parece, e eu lhe naõ vou embaraçar o tempo, que pode ser tenha destinado para outra couza mais importante, e desta sorte todos ficamos bem. </p>
<p>Mas que hade ser! <milestone unit="AE" xml:id="FR.3"></milestone> Com a noticia de que agora no entrudo havia certos ajuntamentos, ou assembleas publicas, aonde vay quem quer pelo seu dinheiro, ou tambem pelo alheyo, e aonde concorrem confuzadamente ambos os sexos, e tam confundidos que se nam podem distinguir nem pelo vestido porque vay trocado, nem pelo rosto, porque vai coberto, a que dam o titulo de Bailles de Mascaras, já se nam ouvia falar nas companhias em outra couza senaõ no Baille. As que esperavaõ ir a este divertimento, estavam muito alegres, e contentes, fazendo misterio do trage, e voltando para suas cazas gastavaõ muita parte do tempo, que poderiam aproveitar melhor, na sua vistoza compoziçaõ. As que nam hiam a elle, ficavam tristes, e malencolicas, ralhando a impertinencia, e jacobisse das pessoas de quem dependiaõ q̃ recuzavaõ ou levalas, ou deixalas levar a este divertimento, e se achavam em huma tal descodçolaçaõ interior, que parece perdiaõ hũa grande parte sa dua fortuna, se lhe escapava mais esta occaziaõ de se divertir, e tam agradavelmente, como o tem concebido no seu conceito. Achase em tam grande auge, e tam predominante em quasi todos estes espiritos da moda a paxaõ por estes Bailles, que dizer huma só palavra contra <pb n="63"></pb> elles, he reputado como huma fatuidade de manifesta, e deixar cahir como zon bando, hum documento que pode dizer respeito á boa educaçam real, e verdadeira, se concebe como huma heresia da razam, ou huma contradiçaõ da boa civilidade. </p>
<p>Estes diversos effeitos que via produzir o gosto, ou a displicencia; o ir, ou naõ ir a semelhantes ajuntamentos publicos, que para o ser basta fazerse venavel a entrada, excitaram em mim a curiosidade para ir ahum delles examinar com cuidado o que bastasse para assentar qual dos dous partidos tinha razam. Fui, vi, e meudamente observei; mas quando me recolhi para minha caza fiz logo juizo, de que nenhum delles a tinha; porque as que tinham ficado em caza, nam tinhaõ razam alguma de se lastimarem, e resmungarem do discreto, e prudente acordo de seus mayores, que lhe naõ facultaram esta licença; e as que hiam, que tambem a naõ tinhaõ em solicitarem com tanto disvello concorrer em hum ajuntamento taõ publico, estando sogeitas a praticar, e a sofrer algum homor indiscreto, e impertinente que toda a noute as acompanha, e nam larga, muitas vezes sem ellas quererem, como observei na occaziaõ em que occularmente me fui instruir no que eram estes tam celebrados divertimentos. Muito boa concluzam acabo de tirar, para se proferir entre a respeitavel tropa das pessoas apaxonadas pelas Mascaras! Mas se me fora licito escrever tudo quanto he precizo para o seu dezengano total, eu lhe mostrara se muita dificuldade, e com bastante convencimento, as muitas circunstancias que a favorecem; e vendo claramente algumas das mesmas pessoas com quem falo, o muito que acerto, reflectindo naõ no seu proprio gosto, mas sim na razam, haviaõ de concordar comigo, e naõ tomariaõ tanto a mal a minha contradiçam. </p>
<p>Para huma couza que se impugna, ou reprova se achar legitimamente sogeita á força com que se reprova, nam só deve concorrer ser intrinsicamente mà, e que conserve <pb n="64"></pb> na substancia o erro, mas basta que as circunstancias, e os accidentes que a revestem, a possam reduzir, se nam a illicita, e absolutamente condennavel, ao menos pouco digna, e pouco justa para ser practicada, principalmente por pessoas graves, e mais distintas, cujas prerrogativas se contrahem para o sexo femenino em commum, e tambem para aquella parte que forma o todo, que se deve mostrar maes sensivel à razam, à prudencia, a estimaçaõm, e conciencia propria. </p>
<p>Esta unica razam se acha tam qualificada, que ainda que os Authores naõ condennaõ directamente os Bailles publicos, porque em seu genero nam sam peccado, com tudo tambem nenhum delles absolutamente os aprova; porque meudamente explicam, e mostram as circunstancias, e accidentes que em si involvem, ou podem involver, de sorte que sempre os julgam por hum costume abuzivo, e perigozo, recomendando com toda a efficacia a sua aniquilaçaõ, e extinçaõ. E sendo esta doutrina tam certa, como recebida a respeito dos Bailles publicos, e sem Mascaras, ainda he muito maes certa, e melhor estabelecida a respeito das Mascaras. <milestone unit="EX" xml:id="FR.4"></milestone> Bem sey que me podem instar, mostrando que David os praticou, como se lé no segundo livro dos Reys; <milestone rend="closer" unit="EX"></milestone> e que tambem voltando <milestone unit="EX" xml:id="FR.5"></milestone> Jephte para Maspha, o veyo esperar ao caminho sua filha unigenita com David dançou publicamente, e com toda a sua força, foi sómente diante da arca do Testamento, entendendo ser vontade de Deos esta sincera demostraçam da sua alegria, <milestone rend="closer" unit="EX"></milestone> e ainda assi nam deixou de haver quem o censurasse, desprezando-o dentro de seu coraçaõ, como <milestone unit="EX" xml:id="FR.6"></milestone> foi Michol filha do Rey Saul. <milestone rend="closer" unit="EX"></milestone> <milestone unit="EX" xml:id="FR.7"></milestone> E se a filha unigenita de Japhte mostrou bailando publicamente a sua interior allegria, foi por occaziam da vitoria que aquelle valerozo Juiz, e Capitaõ alcançou dos Ammonitas inimigos declarados do Povo de Deos; <milestone rend="closer" unit="EX"></milestone> e nunca destes, e de semelhantes exemplos se segue, nem pode seguir que seja justo cançar, e fatigar as forças <pb n="65"></pb> nos Bailles que nam tem por objecto a Arca do Testamento, ou gloria do Senhor; e que seja licito concorrer aelles todas as occazioens que pedir a vontada, ou facilitar a comodide do tempo. </p>
<p>Se os Bailles publicos sem Mascaras, podem ainda ter a seu favor alguma defeza, os de Mascaras certamente naõ podem ter nenhuma nem ligitima nem aparente, se discorrermos sobre este artigo com reflexam seria, prudente, e racional. Confesso que o uzo das Mascaras <hi rend="italic">secundum</hi> si nam he peccaminozo, e reprehensivel de sua naturezam, porque me quero conformar nisto com a oppiniam commua; mas os fins accidentaes, e que de ordinario sam sempre concomitantes deste uzo, bastam para o preverter, fazendo-o indigno de se praticar com publicidade, dando lugar a huma inevitavel confuzam de individuos, e adonde se acham tam irregularmente tambem confuzos os Estados, e as condiçoens das pessoas. Estas Mascaras tam aplaudidas, certamente involvem ou maes, ou menos fins que naõ podem, nem devem ser desculpaveis, para os considerarmos inteiramente puros, e livres de toda a censura, como do contrario me querem persuadir, e só conviera nisto se naõ tivera abertos ao mesmo tempo os olhos do corpo, e os do entendimento, ou raciocinio. Ja me nam quero lembrar religiozamente de outro principio se naõ daquelle que se derige a facilitar aquellas pessoas graves de ambos os sexos, e que se adornam com hum caracter que deve inspirar hum bom exemplo pela jerarquia a que pertencem, as quaes sem incidencia de peccado grave, nam podem gozar deste chamado divertimento; mas como levam o rosto coberto, cuidaõ que assim como escondem ao mundo a sua propria injuria, tambem podem fazer desconhecido para com Deos, por meyo do seu disfarçe, o seu peccado. Este sô principio ainda que accidental, basta para se considerar inteiramente, a respeito do mais, pervertido o uzo, e practica deste chamado divertimento Nam me explico mais a este respeito, porque cuido que muito bem me entendem <milestone unit="ZM" xml:id="FR.8"></milestone> <hi rend="italic">Sapienti pauca.</hi> <milestone rend="closer" unit="ZM"></milestone> </p>
<p><pb n="66"></pb> Muitas vezes me tem pertendido rebater a minha oppiniaõ, dizendo que as couzas nam sam màs, se nam con fórme as concebe a imaginaçaõ, ou a oppiniam que dellas se tem; e que o auge da malicia em que o Mundo se acha he que faz parecer peores as couzas màs, e màs as indiferentes. Com esta invectiva dos Patronos, vem acompanhadas outras da mesma natureza, e de igual substancia. A isto quasi nunca respondo, riome sim; porque examinando com reflexam este principio, lhe naõ acho por donde destrua, qualquer conceito que se fórme contra semelhante abuzo, antes he huma legitima prova contra os mesmos que a produzem. O Mundo nem foi nem he nem hade ser outro, se naõ o mesmo que foi, he, e hade ser atè a ultima consumaçam dos seculos; os homens sim he que foram, sam, seràm sempre diversos, mas em todas esta continuada, e infinita produçam de individuos racionaes, foram, sam e seràm perpetuamente quasi sempre os costumes os mesmos. E se assim como o mundo continuamente está vendo os hommens que passaraõ, que passam, e que hamde passar, se podessem estes ver huns aos outros, sem a interpolaçaõ do tempo, chegariam a confessar com verdade, que em respeito à humana natureza, nunca houve mudança no mundo. As mesmas circunstancias contrarias ao uzo dos Bailles publicos de Mascaras, e ainda sem Mascaras acharám os Authores que escreveram ha dous, ou tres seculos; e se no conceito dos apaxonados, só porque no mundo tem crecido a malicia, e com isto se tem feito peor do que era, he que se pretende reprovar este tam sincero, e innocente divertimento, se ha dous seculos era máo quando os Doutores escreveram que será agora tendo mais idade a malicia, porque esta ainda que crece nos annos nunca perde com a velhisse o seu adquirido vigor? Certamente hade ser muito peor, porque augmentando-se tudo com o tempo (sem embargo do exemplo que tras a gramatica) esta mesma malicia do mundo exaltada a mayor grao, deve ser mais attendida, para melhor se realizarem as oppinoens dos antigos. </p>
<p><pb n="67"></pb> Os inconvenientes em summa que podem rezultar deste tam dezejado divertimento, dos quaes se podem argumentar infinitos, se acham recopilados no Exodo, <milestone unit="EX" xml:id="FR.9"></milestone> quando Moyses decendo do Monte achou o povo muito allegre formando publicamente hum Baille por obsequio ao novo Bezerro de euro, com cuja vista cheyo de furor, e santo zelo, largou das mãos as taboas da Ley, e as quebrou, mostrando que pouco respeito se poderia ter a Ley, a donde sómente se davam cultos à idolatria. e que era quasi impossivel observar puramente os preceitos Divinos, aonde debaxo do ouro que a muitos parecia puro, se achavaõ as fezes que o faziam abominavel, <milestone rend="closer" unit="EX"></milestone> e <milestone unit="EX" xml:id="FR.10"></milestone> no livro dos Juizes quando a Tribu de Benjamin se instaurou com quatrocentas Donzellas que se rezervaram dos habitadores de Jab, e Gaalad, e com duzentos coros das de Siloe, quando andavam no seu divertimento de baillar publicamente, os quaes se compunham de ambos os estados. <milestone rend="closer" unit="EX"></milestone> Ponhamos o texto em latim que nam faltarà quem o explique a quem o nam entender; do qual muito bem se póde argumentar o fim maes perniciozo a que podem dar occaziam semelhantes divertimentos: <milestone unit="ZM" xml:id="FR.11"></milestone> <hi rend="italic">Cumque videritis filiás Silo ad ducendos choros ex more procedere, exite repente de vineis rapite ex eis singuli uxores singulas, pergite in terram Benjamin. <milestone rend="closer" unit="ZM"></milestone></hi> </p>
<p>Passemos agora a huma consideraçaõ mais clara, e mais convincente para quem se aplica mais às couzas do mundo do que as Leys da razam. Parece-me que estou ouvindo dizer, que naõ hà pessoa alguma sendo sensivel à sua estimaçaõ, ao seu conceito, e à sua gravidade, que consinta de bom animo que alguem da sua familia fale, practique, e passeye com quem se naõ conhece, ou que naõ seja de seu gosto; pois se isto assim he, ou pelo menos assim deve ser, como serà justo, e racional, que se levem, ou deixem levar quaesquer pessoas da nossa obrigaçam muito por nossa vontade a huma parte publica, aonde podem falar, conversar, dançar, a asociarse huma noute inteira, <pb n="68"></pb> sem que se conheça (ao menos pelo dono, ou dona da caza) a pessoa com quem se fala, conversa, e passeya. Nam he invectiva voluntaria, mas sim noticia certa que adquiri com a minha especulaçaõ occular, pois vi huma noute inteira andar o Pay por huma parte, e as filhas por outra cada hũa conduzida por quem lhe naõ era nem de agoa nem do fal (como se diz.) E reparey que todas as Damas que queriam mostrar huma innocente paxaõ por este divertimento, tiraraõ as Mascaras para mostrar que se naõ queriaõ confundir, e que com a cara descoberta queriam firmar a sua boa conducta; as molheres sem os maridos, e finalmente huma tam estranha separaçaõ como se se estivessem degradados huns dos outros empartes remottissimas, o que certamente assim nam soccederia se naõ houvesse o refugio das Mascaras, porque ao menos o pejo, e a sensibilidade á razam, faria com que nenhuma destas pessoas descaradamente pervertesse o uzo de huma boa educaçaõ, e jà naõ na facilidade com que se deixam levar, e conduzir as familias, entendendo-se que nos poucos annos tem a razam do sangue renunciado os estimulos da natureza, e que huma idade fresca póde seguramente admittir para a preferencia os dictames da sua obrigaçam, deixando pestergados os arbitrios da vontade. He fiar muito das idades, e querer que absulutamente combattendo a voluptuozidade das occazioens. A isto lá responda cada hum a si mesmo o que quizer, porque eu que estou livre deste susto só digo o mesmo que Lucano disse, que pelo que tenho ouvido a muitas pessoas, entendo que estam muito bem satisfeitas, e se consideraõ muito felices com a cõtinua do seu erro. </p>
<p rend="MO"><hi rend="italic"><milestone unit="ZM" xml:id="FR.12"></milestone> Felices errores suo. <milestone rend="closer" unit="ZM"></milestone></hi></p>
<p rend="SO">Ainda que nam posso deixar de lembrar a todos que o estando da innocencia acabou ha muito tempo, e durou muito pouco; que o mundo foi, he, e serà sempre o mesmo; que os exemplos os naõ devem convencer, e que segundo o que <pb n="69"></pb> dicta a boa criaçam, o bom nacimento, e o bom raciocinio, se deve estar pela oppiniam dos mesmos estrangeiros de quem temos adoptado o exemplo na sinceridade, e innocencia destes divertimentos, <milestone unit="EX" xml:id="FR.13"></milestone> principalmente de hum que escreveo no anno de 1552 dizendo a respeito dos Bailles sem mascaras: <milestone unit="ZM" xml:id="FR.14"></milestone> <hi rend="italic">Sed si moneantur ut caveant a tali consuetudine, tanquam a ré periculosa, non video imprudenter aliquid factum, immo bonum esset si bae chorcae modernorum temporum possent anihilari = E arespeito (sic) dos de Mascaras falando com mais clareza: Credo bonum esse eis non uti, quia homines maxime eis utendo dissolvuntur, praecipue faeminis prohibendum esset, ne vagandi eis occasio praestaretur, consequenter in peccatum ruendi, ad quod proneaevalde sunt. </hi><milestone rend="closer" unit="ZM"></milestone> <milestone rend="closer" unit="EX"></milestone> Muito Escrupulo para tudo o que importa menos, e nenhum neste particular que naõ deixa de importar muito maes; e isto me fas lembrar <milestone unit="EX" xml:id="FR.15"></milestone> o que Juvenal escreveo ainda que a diverso intento: </p>
<p rend="MO"><milestone unit="ZM" xml:id="FR.16"></milestone><hi rend="italic"> Dat veniam corvis, vexat censura columbas. </hi><milestone rend="closer" unit="ZM"></milestone> <milestone rend="closer" unit="EX"></milestone></p>
<p rend="SO"><milestone unit="EX" xml:id="FR.17"></milestone> Neste lugar me occorre referir hum facto que succedeo em Inglaterra naõ ha muitos annos, e me deo noticia delle pessoa fidedigna, e a quem eu dou hum inteiro credito. Havia em Londres hum Mylord, que ficando veuvo, tinha todo o cuidado, e vigilancia em hũa filha unica que lhe ficou por morte de sua molher. Como esta ficou menina, e era dotada de huma boa indole, occultamente abraçou a Religiaõ Catholica, e só no exterior practicava a reformada. Com a força dos bons conselhos, e a practica de muitas virtudes, se deliberou a ser Religioza; mas via que lhe era impossivel pôrem practica seus fervorozos dezejos, porque seu Pay naõ havia de consentir nelles pela contrariedade da Religiaõ, e muito maes pela grande desconfiança que jà nelle conhecia, quasi como percebendo as internas moçoens do espirito, que de cada vez mais respi-<pb n="70"></pb>ravam em sua querida filha; o que o obrigava a naõ largala hum só instante da vista, ordenando em sua caza todas as cautellas, e prevençoens necessarias para se opporem a alguma repentina determinaçaõ. Crecia o dezejo da filha, à medida que se augmentava a rezistencia do Pay, e entrou o fervor da devoçaõ a discorrer sobre os meyos que poderiam facilitar o estreito de huma tam santa obra: até que chegando-se o tempo de entrudo, em que sam maes frequentes os bailles de Mascaras, dispos com as pessoas suas confidentes tratarse a sua entrada em hum dos Conventos de França, e valendose da occaziam, mostrou ao pay hum grande gosto de ir a hum destes bailles, e ao mesmo tempo estava justo para a mesma noute hum coche de posta, para partir com deligencia para o Douvre: a dificuldade estava no modo como se havia de livrar do poder do Pay, porque ainda que fosse a este divertimento, a naõ perderia nunca de vista. Nesta affliçam lhe occorreo hum meyo facil, e seguro, e que sem se advirtir poderia effeituar o seu dezejo. Buscou esta illustre Senhora huma pessoa da sua estatura, e do seu talhe, a quem mandou fazer hum vestido de Mascara em tudo igual ao que ella havia de levar, e pagandolhe muito bem o segredo, lhe recomendou que fosse a tantas horas, e que se puzesse em parte certa da grande fala do baille, aonde ella a hiria procurar. Isto assim determinado com todas as prevençoens necessarias, chegandose o dia do divertimento se preparou a Dama, e foi na companhia de seu Pay para a Assamblea, mas como em toda a parte o acompanha tambem a desconfiança, se a naõ trazia pelo braço, era por se naõ fazer reparavel tanta cautella, mas para qualquer parte que a filha se abastasse, sempre hia em seu seguimento o cuidado, e a vista do Pay. Com tudo quando foram as horas determinadas, se achou no seu lugar, a outra figura, e como naquella confuzam com a primeira vista se naõ comprehende bem a semelhança, ou a differença das Mascaras, fez a Dama caminho por <pb n="71"></pb> aquella parte, e deu final á outra que se adiantasse para donde vinha o Pay, e se fizesse na volta de outro citio para elle a acompanhar, ficando assim na sua inteira liberdade. Assim succedeo como se premeditou, porque a boa filha deceo para baxo, e introduzindose no coche, se foy preparar a caza das pessoas suas confidentes, e na mesma noute partio para o Douvre, e passando logo a Calais, se recolheo no Convento de França aonde estava justa. O bom Pay continuando na sua grande vigilancia, e tomando como realidade a aparencia, acompanhou fielmente toda a noute a mascara, mas naõ a filha, até que sendo de madrugada parecendolhe horas, lhe disse que se queria recolher, e que fosse para caza; ao que a suposta filha respondeo, que tendo ella vindo só, bem podia voltar sem companhia, e que assim a naõ importunase que ella hiria quando lhe parecesse. Admirado, e confuzo instava, mas a mascara para o dezenganar, se lhe mostrou, e reconhecendo que naõ era sua filha, ainda agora suponho que a anda buscando, ao mesmo tempo que já tinha corrido hum bom par de legoas. <milestone rend="closer" unit="EX"></milestone> Ora se isto pode facilitar hum destes divertimentos, aonde foi sômente arbitra a devoçam, que se naõ pode esperar excite a malicia com huma comodidade tam opportuna? O Argumento da semelhança he bastantemente forte: se elle tem alguma razam de differença, eu a naõ sei, e por isso a naõ dou, outros filozofos haverá que lha descubram, mas serà segundo a Filozofia do vicio, e nam conforme a logica da virtude. </p>
<p>Finalmente tambem quero algum bocado a geito, com o que acabo de ser impertinente; digo que sam, e seram muito bons estes Bailles de Mascaras, mas sô para quem naõ tiver nelles couza que lhe pertença por algum principio, ou para quem quizer fexar os olhos ao discurso, ou tambem nam querendo ser possuidor de má fe, que tudo vem a dar no mesmo: e se muitos apaxonados por estas, e semelhantes introducçoens, dizem abertamente que a Na-<pb n="72"></pb>çaõ Portugueza tem jà abertos os olhos, eu digo com sinceridade, que nunca os teve mais fexados do que agora; ou se os tem na realidade abertos, he alternativamente; isto he abrindo hum, e fexando o outro, de sorte que nunca o que se abre he para o util, para a aplicaçam, para o pulimanto interior do espirito, para as legitimas, e regulares obrigaçoens da vida civil, e em huma palavra para o que he justo, racional, e irreprehensivel. <milestone rend="closer" unit="AE"></milestone> <milestone rend="closer" unit="E2"></milestone> </p>
<p rend="SO">Na Officina de Pedro Ferreira, Impressor da Augustissima Rainha Nossa Senhora. <milestone rend="closer" unit="E1"></milestone></p>
<p></p></div2></div1></body>
      </text>
      <text ana="framings">
        <body>
          <div>
            <ab>
              <seg synch="#FR.1" type="E1">
                <seg type="U1">N.°. 8</seg> Dos Baylles Publicos, e de Mascaras.
                                    <seg synch="#FR.2" type="E2"> Nenhuma couza no tempo prezente
                                    fas parecer hum homem enfadonho, como he o nam falar a geito, e
                                    conforme a vontade, e Inclinaçaõ dos circunstantes que o estam 
                                   ouvindo. Para se dar hum inteiro sentido ao quese (sic) fala, he
                                    precizo que o discurso que se faz nam reprove nada do que se
                                    pratica, e que convenha sem discrepancia no que se uza, ou no de
                                    que se abuza. Hum homem que nam sabe lizongear, e tem por
                                    costume falar sincero, muitas vezes se acha bastantemente
                                    mortificado quando se encontra com alguma occaziaõ em que o
                                    discurso da practica he sobre certo erro commum; porque se o
                                    impugna, logo he impertinente, tem mao genio, era incapaz de ser
                                    cazado, e a modestia faz com que lhe nam chamam rustico, e que
                                    ignora os principios da boa educaçaõ; e aqui temos
                                    desconcertados os genios, e estabelicido hum mào conceito. Se
                                    nam dis couza alguma, o se <pb n="62"></pb> poem indiferente temos
                                    mais hum voto contra a justiça da cauzam, e hum tacito sequaz de
                                    algum abuzo; pois tam parcial he o que abertamente se declara
                                    por algum partido, como aquelle que calandose o naõ impugna.
                                    Tudo he mào, tanto falar como emmudecer: e como o meyo que fica
                                    entre dous extremos he o melhor, revolvome a escrever, porque
                                    isto nem he falar, nem tam pouco deixar de falar, e he hum bom
                                    modo para nam ser impertinente, nem taciturno; porque quem me
                                    nam quizer ouvir, escuza de ler estes papeis; e quem quizer
                                    muito por seu gosto ter esta mortificaçaõ, conversa comigo ás
                                    horas que lhe parece, e eu lhe naõ vou embaraçar o tempo, que
                                    pode ser tenha destinado para outra couza mais importante, e
                                    desta sorte todos ficamos bem. Mas que hade ser! <seg synch="#FR.3" type="AE"> Com a noticia de que agora no
                                        entrudo havia certos ajuntamentos, ou assembleas publicas,
                                        aonde vay quem quer pelo seu dinheiro, ou tambem pelo
                                        alheyo, e aonde concorrem confuzadamente ambos os sexos, e
                                        tam confundidos que se nam podem distinguir nem pelo vestido
                                        porque vay trocado, nem pelo rosto, porque vai coberto, a
                                        que dam o titulo de Bailles de Mascaras, já se nam ouvia
                                        falar nas companhias em outra couza senaõ no Baille. As que
                                        esperavaõ ir a este divertimento, estavam muito alegres, e
                                        contentes, fazendo misterio do trage, e voltando para suas
                                        cazas gastavaõ muita parte do tempo, que poderiam aproveitar
                                        melhor, na sua vistoza compoziçaõ. As que nam hiam a elle,
                                        ficavam tristes, e malencolicas, ralhando a impertinencia, e
                                        jacobisse das pessoas de quem dependiaõ q̃ recuzavaõ ou
                                        levalas, ou deixalas levar a este divertimento, e se achavam
                                        em huma tal descodçolaçaõ interior, que parece perdiaõ hũa
                                        grande parte sa dua fortuna, se lhe escapava mais esta
                                        occaziaõ de se divertir, e tam agradavelmente, como o tem                            
            concebido no seu conceito. Achase em tam grande auge, e tam
                                        predominante em quasi todos estes espiritos da moda a paxaõ
                                        por estes Bailles, que dizer huma só palavra contra <pb n="63"></pb> elles, he reputado como huma fatuidade de
                                        manifesta, e deixar cahir como zon bando, hum documento que
                                        pode dizer respeito á boa educaçam real, e verdadeira, se
                                        concebe como huma heresia da razam, ou huma contradiçaõ da
                                        boa civilidade. Estes diversos effeitos que via produzir o
                                        gosto, ou a displicencia; o ir, ou naõ ir a semelhantes
                                        ajuntamentos publicos, que para o ser basta fazerse venavel
                                        a entrada, excitaram em mim a curiosidade para ir ahum
                                        delles examinar com cuidado o que bastasse para assentar
                                        qual dos dous partidos tinha razam. Fui, vi, e meudamente
                                        observei; mas quando me recolhi para minha caza fiz logo
                                        juizo, de que nenhum delles a tinha; porque as que tinham
                                        ficado em caza, nam tinhaõ razam alguma de se lastimarem, e
                                        resmungarem do discreto, e prudente acordo de seus mayores,
                                        que lhe naõ facultaram esta licença; e as que hiam, que
                                        tambem a naõ tinhaõ em solicitarem com tanto disvello
                                        concorrer em hum ajuntamento taõ publico, estando sogeitas a
                                        praticar, e a sofrer algum homor indiscreto, e impertinente
                                        que toda a noute as acompanha, e nam larga, muitas vezes sem
                                        ellas quererem, como observei na occaziaõ em que
                                        occularmente me fui instruir no que eram estes tam
                                        celebrados divertimentos. Muito boa concluzam acabo de
                                        tirar, para se proferir entre a respeitavel tropa das
                                        pessoas apaxonadas pelas Mascaras! Mas se me fora licito
                                        escrever tudo quanto he precizo para o seu dezengano total,
                                        eu lhe mostrara se muita dificuldade, e com bastante
                                        convencimento, as muitas circunstancias que a favorecem; e      
                                  vendo claramente algumas das mesmas pessoas com quem falo, o
                                        muito que acerto, reflectindo naõ no seu proprio gosto, mas
                                        sim na razam, haviaõ de concordar comigo, e naõ tomariaõ
                                        tanto a mal a minha contradiçam. Para huma couza que se
                                        impugna, ou reprova se achar legitimamente sogeita á força
                                        com que se reprova, nam só deve concorrer ser
                                        intrinsicamente mà, e que conserve <pb n="64"></pb> na
                                        substancia o erro, mas basta que as circunstancias, e os             
                           accidentes que a revestem, a possam reduzir, se nam a
                                        illicita, e absolutamente condennavel, ao menos pouco digna,
                                        e pouco justa para ser practicada, principalmente por
                                        pessoas graves, e mais distintas, cujas prerrogativas se
                                        contrahem para o sexo femenino em commum, e tambem para
                                        aquella parte que forma o todo, que se deve mostrar maes
                                        sensivel à razam, à prudencia, a estimaçaõm, e conciencia
                                        propria. Esta unica razam se acha tam qualificada, que ainda
                                        que os Authores naõ condennaõ directamente os Bailles
                                        publicos, porque em seu genero nam sam peccado, com tudo
                                        tambem nenhum delles absolutamente os aprova; porque
                                        meudamente explicam, e mostram as circunstancias, e
                                        accidentes que em si involvem, ou podem involver, de sorte
                                        que sempre os julgam por hum costume abuzivo, e perigozo,
                                        recomendando com toda a efficacia a sua aniquilaçaõ, e
                                        extinçaõ. E sendo esta doutrina tam certa, como recebida a
                                        respeito dos Bailles publicos, e sem Mascaras, ainda he
                                        muito maes certa, e melhor estabelecida a respeito das
                                        Mascaras. <seg synch="#FR.4" type="EX"> Bem sey que me podem
                                            instar, mostrando que David os praticou, como se lé no
                                            segundo livro dos Reys; </seg> e que tambem voltando
                                            <seg synch="#FR.5" type="EX"> Jephte para Maspha, o veyo
                                            esperar ao caminho sua filha unigenita com David dançou
                                            publicamente, e com toda a sua força, foi sómente diante
                                            da arca do Testamento, entendendo ser vontade de Deos
                                            esta sincera demostraçam da sua alegria, </seg> e ainda
                                        assi nam deixou de haver quem o censurasse, desprezando-o
                                        dentro de seu coraçaõ, como <seg synch="#FR.6" type="EX">
                                            foi Michol filha do Rey Saul. </seg>
                    <seg synch="#FR.7" type="EX"> E se a filha unigenita de
                                            Japhte mostrou bailando publicamente a sua interior
                                            allegria, foi por occaziam da vitoria que aquelle
                                            valerozo Juiz, e Capitaõ alcançou dos Ammonitas inimigos    
                                        declarados do Povo de Deos; </seg> e nunca destes, e de
                                        semelhantes exemplos se segue, nem pode seguir que seja
                                        justo cançar, e fatigar as forças <pb n="65"></pb> nos Bailles
                                        que nam tem por objecto a Arca do Testamento, ou gloria do                                  
      Senhor; e que seja licito concorrer aelles todas as
                                        occazioens que pedir a vontada, ou facilitar a comodide do
                                        tempo. Se os Bailles publicos sem Mascaras, podem ainda ter
                                        a seu favor alguma defeza, os de Mascaras certamente naõ
                                        podem ter nenhuma nem ligitima nem aparente, se discorrermos
                                        sobre este artigo com reflexam seria, prudente, e racional.
                                        Confesso que o uzo das Mascaras secundum si nam he
                                        peccaminozo, e reprehensivel de sua naturezam, porque me
                                        quero conformar nisto com a oppiniam commua; mas os fins
                                        accidentaes, e que de ordinario sam sempre concomitantes                         
               deste uzo, bastam para o preverter, fazendo-o indigno de se
                                        praticar com publicidade, dando lugar a huma inevitavel
                                        confuzam de individuos, e adonde se acham tam irregularmente
                                        tambem confuzos os Estados, e as condiçoens das pessoas.
                                        Estas Mascaras tam aplaudidas, certamente involvem ou maes,
                                        ou menos fins que naõ podem, nem devem ser desculpaveis,
                                        para os considerarmos inteiramente puros, e livres de toda a
                                        censura, como do contrario me querem persuadir, e só
                                        conviera nisto se naõ tivera abertos ao mesmo tempo os olhos
                                        do corpo, e os do entendimento, ou raciocinio. Ja me nam
                                        quero lembrar religiozamente de outro principio se naõ
                                        daquelle que se derige a facilitar aquellas pessoas graves
                                        de ambos os sexos, e que se adornam com hum caracter que
                                        deve inspirar hum bom exemplo pela jerarquia a que
                                        pertencem, as quaes sem incidencia de peccado grave, nam
                                        podem gozar deste chamado divertimento; mas como levam o
                                        rosto coberto, cuidaõ que assim como escondem ao mundo a sua
                                        propria injuria, tambem podem fazer desconhecido para com
                                        Deos, por meyo do seu disfarçe, o seu peccado. Este sô
                                        principio ainda que accidental, basta para se considerar
                                        inteiramente, a respeito do mais, pervertido o uzo, e
                                        practica deste chamado divertimento Nam me explico mais a
                                        este respeito, porque cuido que muito bem me entendem <seg synch="#FR.8" type="ZM"> Sapienti pauca. </seg>
                    <pb n="66"></pb> Muitas vezes me tem pertendido rebater a minha
                                        oppiniaõ, dizendo que as couzas nam sam màs, se nam con
                                        fórme as concebe a imaginaçaõ, ou a oppiniam que dellas se
                                        tem; e que o auge da malicia em que o Mundo se acha he que      
                                  faz parecer peores as couzas màs, e màs as indiferentes. Com
                                        esta invectiva dos Patronos, vem acompanhadas outras da
                                        mesma natureza, e de igual substancia. A isto quasi nunca
                                        respondo, riome sim; porque examinando com reflexam este
                                        principio, lhe naõ acho por donde destrua, qualquer conceito
                                        que se fórme contra semelhante abuzo, antes he huma legitima
                                        prova contra os mesmos que a produzem. O Mundo nem foi nem
                                        he nem hade ser outro, se naõ o mesmo que foi, he, e hade
                                        ser atè a ultima consumaçam dos seculos; os homens sim he
                                        que foram, sam, seràm sempre diversos, mas em todas esta             
                           continuada, e infinita produçam de individuos racionaes,
                                        foram, sam e seràm perpetuamente quasi sempre os costumes os
                                        mesmos. E se assim como o mundo continuamente está vendo os
                                        hommens que passaraõ, que passam, e que hamde passar, se
                                        podessem estes ver huns aos outros, sem a interpolaçaõ do
                                        tempo, chegariam a confessar com verdade, que em respeito à
                                        humana natureza, nunca houve mudança no mundo. As mesmas
                                        circunstancias contrarias ao uzo dos Bailles publicos de
                                        Mascaras, e ainda sem Mascaras acharám os Authores que
                                        escreveram ha dous, ou tres seculos; e se no conceito dos
                                        apaxonados, só porque no mundo tem crecido a malicia, e com
                                        isto se tem feito peor do que era, he que se pretende
                                        reprovar este tam sincero, e innocente divertimento, se ha
                                        dous seculos era máo quando os Doutores escreveram que será
                                        agora tendo mais idade a malicia, porque esta ainda que
                                        crece nos annos nunca perde com a velhisse o seu adquirido
                                        vigor? Certamente hade ser muito peor, porque augmentando-se
                                        tudo com o tempo (sem embargo do exemplo que tras a
                                        gramatica) esta mesma malicia do mundo exaltada a mayor
                                        grao, deve ser mais attendida, para melhor se realizarem as
                                        oppinoens dos antigos. <pb n="67"></pb> Os inconvenientes em
                                        summa que podem rezultar deste tam dezejado divertimento,
                                        dos quaes se podem argumentar infinitos, se acham
                                        recopilados no Exodo, <seg synch="#FR.9" type="EX"> quando
                                            Moyses decendo do Monte achou o povo muito allegre
                                            formando publicamente hum Baille por obsequio ao novo
                                            Bezerro de euro, com cuja vista cheyo de furor, e santo
                                            zelo, largou das mãos as taboas da Ley, e as quebrou,
                                            mostrando que pouco respeito se poderia ter a Ley, a
                                            donde sómente se davam cultos à idolatria. e que era
                                            quasi impossivel observar puramente os preceitos             
                               Divinos, aonde debaxo do ouro que a muitos parecia puro,
                                            se achavaõ as fezes que o faziam abominavel, </seg> e
                                            <seg synch="#FR.10" type="EX"> no livro dos Juizes
                                            quando a Tribu de Benjamin se instaurou com quatrocentas                                      
      Donzellas que se rezervaram dos habitadores de Jab, e
                                            Gaalad, e com duzentos coros das de Siloe, quando
                                            andavam no seu divertimento de baillar publicamente, os
                                            quaes se compunham de ambos os estados. </seg> Ponhamos
                                        o texto em latim que nam faltarà quem o explique a quem o
                                        nam entender; do qual muito bem se póde argumentar o fim
                                        maes perniciozo a que podem dar occaziam semelhantes             
                           divertimentos: <seg synch="#FR.11" type="ZM"> Cumque
                                            videritis filiás Silo ad ducendos choros ex more
                                            procedere, exite repente de vineis rapite ex eis singuli
                                            uxores singulas, pergite in terram Benjamin. </seg>
                                        Passemos agora a huma consideraçaõ mais clara, e mais
                                        convincente para quem se aplica mais às couzas do mundo do
                                        que as Leys da razam. Parece-me que estou ouvindo dizer, que
                                        naõ hà pessoa alguma sendo sensivel à sua estimaçaõ, ao seu
                                        conceito, e à sua gravidade, que consinta de bom animo que
                                        alguem da sua familia fale, practique, e passeye com quem se
                                        naõ conhece, ou que naõ seja de seu gosto; pois se isto
                                        assim he, ou pelo menos assim deve ser, como serà justo, e
                                        racional, que se levem, ou deixem levar quaesquer pessoas da
                                        nossa obrigaçam muito por nossa vontade a huma parte
                                        publica, aonde podem falar, conversar, dançar, a asociarse
                                        huma noute inteira, <pb n="68"></pb> sem que se conheça (ao
                                        menos pelo dono, ou dona da caza) a pessoa com quem se fala,
                                        conversa, e passeya. Nam he invectiva voluntaria, mas sim
                                        noticia certa que adquiri com a minha especulaçaõ occular,
                                        pois vi huma noute inteira andar o Pay por huma parte, e as
                                        filhas por outra cada hũa conduzida por quem lhe naõ era nem
                                        de agoa nem do fal (como se diz.) E reparey que todas as
                                        Damas que queriam mostrar huma innocente paxaõ por este
                                        divertimento, tiraraõ as Mascaras para mostrar que se naõ
                                        queriaõ confundir, e que com a cara descoberta queriam
                                        firmar a sua boa conducta; as molheres sem os maridos, e
                                        finalmente huma tam estranha separaçaõ como se se estivessem
                                        degradados huns dos outros empartes remottissimas, o que
                                        certamente assim nam soccederia se naõ houvesse o refugio
                                        das Mascaras, porque ao menos o pejo, e a sensibilidade á     
                                   razam, faria com que nenhuma destas pessoas descaradamente
                                        pervertesse o uzo de huma boa educaçaõ, e jà naõ na
                                        facilidade com que se deixam levar, e conduzir as familias,
                                        entendendo-se que nos poucos annos tem a razam do sangue
                                        renunciado os estimulos da natureza, e que huma idade fresca
                                        póde seguramente admittir para a preferencia os dictames da
                                        sua obrigaçam, deixando pestergados os arbitrios da vontade.
                                        He fiar muito das idades, e querer que absulutamente
                                        combattendo a voluptuozidade das occazioens. A isto lá
                                        responda cada hum a si mesmo o que quizer, porque eu que
                                        estou livre deste susto só digo o mesmo que Lucano disse,
                                        que pelo que tenho ouvido a muitas pessoas, entendo que      
                                  estam muito bem satisfeitas, e se consideraõ muito felices
                                        com a cõtinua do seu erro. <seg synch="#FR.12" type="ZM">
                                            Felices errores suo. </seg> Ainda que nam posso deixar
                                        de lembrar a todos que o estando da innocencia acabou ha
                                        muito tempo, e durou muito pouco; que o mundo foi, he, e
                                        serà sempre o mesmo; que os exemplos os naõ devem convencer,
                                        e que segundo o que <pb n="69"></pb> dicta a boa criaçam, o bom
                                        nacimento, e o bom raciocinio, se deve estar pela oppiniam
                                        dos mesmos estrangeiros de quem temos adoptado o exemplo na
                                        sinceridade, e innocencia destes divertimentos, <seg synch="#FR.13" type="EX"> principalmente de hum que
                                            escreveo no anno de 1552 dizendo a respeito dos Bailles
                                            sem mascaras: <seg synch="#FR.14" type="ZM"> Sed si
                                                moneantur ut caveant a tali consuetudine, tanquam a
                                                ré periculosa, non video imprudenter aliquid factum,
                                                immo bonum esset si bae chorcae modernorum temporum
                                                possent anihilari = E arespeito (sic) dos de
                                                Mascaras falando com mais clareza: Credo bonum esse
                                                eis non uti, quia homines maxime eis utendo
                                                dissolvuntur, praecipue faeminis prohibendum esset,
                                                ne vagandi eis occasio praestaretur, consequenter in
                                                peccatum ruendi, ad quod proneaevalde sunt. </seg>

                    </seg> Muito Escrupulo para tudo o que importa menos, e
                                        nenhum neste particular que naõ deixa de importar muito
                                        maes; e isto me fas lembrar <seg synch="#FR.15" type="EX"> o
                                            que Juvenal escreveo ainda que a diverso intento: <seg type="MO">
                        <seg synch="#FR.16" type="ZM"> Dat veniam
                                                  corvis, vexat censura columbas. </seg>
                      </seg>
                    </seg>
                    <seg synch="#FR.17" type="EX"> Neste lugar me occorre
                                            referir hum facto que succedeo em Inglaterra naõ ha
                                            muitos annos, e me deo noticia delle pessoa fidedigna, e
                                            a quem eu dou hum inteiro credito. Havia em Londres hum
                                            Mylord, que ficando veuvo, tinha todo o cuidado, e
                                            vigilancia em hũa filha unica que lhe ficou por morte de
                                            sua molher. Como esta ficou menina, e era dotada de huma
                                            boa indole, occultamente abraçou a Religiaõ Catholica, e
                                            só no exterior practicava a reformada. Com a força dos
                                            bons conselhos, e a practica de muitas virtudes, se
                                            deliberou a ser Religioza; mas via que lhe era
                                            impossivel pôrem practica seus fervorozos dezejos,
                                            porque seu Pay naõ havia de consentir nelles pela
                                            contrariedade da Religiaõ, e muito maes pela grande                                 
           desconfiança que jà nelle conhecia, quasi como
                                            percebendo as internas moçoens do espirito, que de cada
                                            vez mais respi-<pb n="70"></pb>ravam em sua querida filha; o
                                            que o obrigava a naõ largala hum só instante da vista,
                                            ordenando em sua caza todas as cautellas, e prevençoens
                                            necessarias para se opporem a alguma repentina
                                            determinaçaõ. Crecia o dezejo da filha, à medida que se
                                            augmentava a rezistencia do Pay, e entrou o fervor da
                                            devoçaõ a discorrer sobre os meyos que poderiam
                                            facilitar o estreito de huma tam santa obra: até que
                                            chegando-se o tempo de entrudo, em que sam maes
                                            frequentes os bailles de Mascaras, dispos com as pessoas
                                            suas confidentes tratarse a sua entrada em hum dos
                                            Conventos de França, e valendose da occaziam, mostrou ao
                                            pay hum grande gosto de ir a hum destes bailles, e ao
                                            mesmo tempo estava justo para a mesma noute hum coche de
                                            posta, para partir com deligencia para o Douvre: a
                                            dificuldade estava no modo como se havia de livrar do
                                            poder do Pay, porque ainda que fosse a este
                                            divertimento, a naõ perderia nunca de vista. Nesta
                                            affliçam lhe occorreo hum meyo facil, e seguro, e que
                                            sem se advirtir poderia effeituar o seu dezejo. Buscou
                                            esta illustre Senhora huma pessoa da sua estatura, e do
                                            seu talhe, a quem mandou fazer hum vestido de Mascara em
                                            tudo igual ao que ella havia de levar, e pagandolhe
                                            muito bem o segredo, lhe recomendou que fosse a tantas
                                            horas, e que se puzesse em parte certa da grande fala do
                                            baille, aonde ella a hiria procurar. Isto assim             
                               determinado com todas as prevençoens necessarias,
                                            chegandose o dia do divertimento se preparou a Dama, e
                                            foi na companhia de seu Pay para a Assamblea, mas como
                                            em toda a parte o acompanha tambem a desconfiança, se a
                                            naõ trazia pelo braço, era por se naõ fazer reparavel
                                            tanta cautella, mas para qualquer parte que a filha se
                                            abastasse, sempre hia em seu seguimento o cuidado, e a
                                            vista do Pay. Com tudo quando foram as horas
                                            determinadas, se achou no seu lugar, a outra figura, e
                                            como naquella confuzam com a primeira vista se naõ
                                            comprehende bem a semelhança, ou a differença das
                                            Mascaras, fez a Dama caminho por <pb n="71"></pb> aquella
                                            parte, e deu final á outra que se adiantasse para donde
                                            vinha o Pay, e se fizesse na volta de outro citio para                                        
    elle a acompanhar, ficando assim na sua inteira
                                            liberdade. Assim succedeo como se premeditou, porque a
                                            boa filha deceo para baxo, e introduzindose no coche, se
                                            foy preparar a caza das pessoas suas confidentes, e na
                                            mesma noute partio para o Douvre, e passando logo a            
                                Calais, se recolheo no Convento de França aonde estava
                                            justa. O bom Pay continuando na sua grande vigilancia, e
                                            tomando como realidade a aparencia, acompanhou fielmente
                                            toda a noute a mascara, mas naõ a filha, até que sendo
                                            de madrugada parecendolhe horas, lhe disse que se queria
                                            recolher, e que fosse para caza; ao que a suposta filha
                                            respondeo, que tendo ella vindo só, bem podia voltar sem
                                            companhia, e que assim a naõ importunase que ella hiria
                                            quando lhe parecesse. Admirado, e confuzo instava, mas a
                                            mascara para o dezenganar, se lhe mostrou, e
                                            reconhecendo que naõ era sua filha, ainda agora suponho
                                            que a anda buscando, ao mesmo tempo que já tinha corrido
                                            hum bom par de legoas. </seg> Ora se isto pode facilitar
                                        hum destes divertimentos, aonde foi sômente arbitra a
                                        devoçam, que se naõ pode esperar excite a malicia com huma
                                        comodidade tam opportuna? O Argumento da semelhança he
                                        bastantemente forte: se elle tem alguma razam de differença,
                                        eu a naõ sei, e por isso a naõ dou, outros filozofos haverá
                                        que lha descubram, mas serà segundo a Filozofia do vicio, e
                                        nam conforme a logica da virtude. Finalmente tambem quero
                                        algum bocado a geito, com o que acabo de ser impertinente;
                                        digo que sam, e seram muito bons estes Bailles de Mascaras,
                                        mas sô para quem naõ tiver nelles couza que lhe pertença por
                                        algum principio, ou para quem quizer fexar os olhos ao
                                        discurso, ou tambem nam querendo ser possuidor de má fe, que
                                        tudo vem a dar no mesmo: e se muitos apaxonados por estas, e
                                        semelhantes introducçoens, dizem abertamente que a Na-<pb n="72"></pb>çaõ Portugueza tem jà abertos os olhos, eu digo
                                        com sinceridade, que nunca os teve mais fexados do que
                                        agora; ou se os tem na realidade abertos, he
                                        alternativamente; isto he abrindo hum, e fexando o outro, de
                                        sorte que nunca o que se abre he para o util, para a
                                        aplicaçam, para o pulimanto interior do espirito, para as
                                        legitimas, e regulares obrigaçoens da vida civil, e em huma
                                        palavra para o que he justo, racional, e irreprehensivel.
                                    </seg>
                </seg> Na Officina de Pedro Ferreira, Impressor da Augustissima
                                Rainha Nossa Senhora. </seg>
            </ab>
          </div>
        </body>
      </text>
    </group>
  </text>
</TEI>
