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        <title>Num.° 6</title>
        <author>Anónimo (Bento Morganti)</author>
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        <edition>Moralische Wochenschriften</edition>
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          <name>Gunter Vasold</name>
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                        Universität Graz</orgName>
        </publisher>
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          <orgName ref="http://informationsmodellierung.uni-graz.at">Zentrum für
                        Informationsmodellierung, Universität Graz</orgName>
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        <date when="2018-10-04">04.10.2018</date>
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        <bibl>Anónimo (Morganti, Bento): Terceira Collecçam dos Papeis Anonymos. Lisboa:
                    Pedro Ferreira, 1754, 45-52 </bibl>
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          <title level="j">O Anonymo. Repartido pelas
                        semanas, para divertimento e utilidade do publico</title>
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          <date>1754</date>
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<p rend="EU"><milestone unit="E1" xml:id="FR.1"></milestone></p>
<div1><head>N.°. 6</head>
<div2><head><hi rend="italic">Da Sobriedade, e Temperança. </hi></head>
<p rend="SO"><milestone unit="E2" xml:id="FR.2"></milestone><hi rend="smallcaps"> Co</hi>mo na folha antecedente, parece que de alguma sorte defendi as demazias, e excessos que se practicam no tempo prezente, me pareceo justo mostrar aos meus leitores, que nem por isto perco de vista sobriedade, e temperança; e que assim como emalguma (sic) occaziaõ se podem patrocinar certas irregularidades, em nenhum tempo se deve deixar de recomendar serem os homens sobrios, e temperados, para cumprirem as obrigaçoens da natureza, e as da sociedade civil. Se o tempo pelo abuzo, e corrupçaõ faz nacer algumas dezordens, todo o tempo he proprio para se aconselhar a emmenda. Passe por graça o passado, porque agora pertendo falar de veras, mostrando a razaõ porque devemos evitar todos os excessos, e practicar a sobriedade, e temperança, aplicando nos ao exercicio, e pratica desta virtude, em que consiste huma boa parte das felicidades da vida. </p>
<p><pb n="46"></pb> Naõ ha coiza mais propria para inspirar esta virtude, como he a vista das indecentes dezordens que produz a intemperança. <milestone unit="EX" xml:id="FR.3"></milestone> Para mover os animos dos mancebos Lacedemonios, para a pratica da sobriedade, e temperança, se lhe offereciam aos olhos alguns Escravos, que muito de prepozito, e expressamente mandavam embebedar, para com este espectaculo lhe reprezentarem, como em hum quadro, muito ao vivo, e fielmente o injuriozo desprezo de que he sempre acompanhada a demazia de beber, e isto cauzava ordinariamente huma impressam muito forte nos espiritos daquelles mancebos, produzindo nelles hum horror a vicio, e huma reformaçaõ neste costume. <milestone rend="closer" unit="EX"></milestone> Mas a desgraça he que no seculo prezente ha muito pouca necessidade desta industrioza maxima, porque nam he precizo mandar embebedar nem os escravos, nem os domesticos para se darem aos filhos estas boas liçoens da temperança, porque muitas pessoas do nosso conhecimento de todos os estados, tomam de muito boa vontade sobre sy este ministerio dos escravos de Esparta, e com tanta efficacia, que muitas vezes aquelles mesmos, que de menham ocupaõ algum lugar distinto, e que talvez clamem contra a intemperança depois de tarde nos offerecem huma clara prova dos excessos que della nacem; e se para ensinar a temperança nam he precizo do que naõ se practicar, ha prezentemente hum grande numero de mestres que ensinam huma taõ boa virtude. Mas depois de se observarem os effeitos irregulares que cauzam no espirito dos homens as demazias das mezas, naõ he necessario mais, para quem emprega a reflexaõ, para detestar a intemperança, e ao mesmo tempo desprezar os intemperantes. Nam me quero valer de retratos, nem empregar os diversos nomes de que muitos uzaõ, porque de algumas circumstancia ainda que genericas, se nam adiante a malicia em dizer que falo com alguma contracçaõ, excedendo a indiferença generica de que empre uzo. </p>
<p><pb n="47"></pb> Se os excessos, e demazias sam muito contra as leys da Policia, e da practica da boa civilidade, ainda saõ muito mais contra as leys da natureza, e da razaõ; porque a obrigaçaõ de ser sobrios he fundada sobre a que nos impoem, e determina a ley natural de conservarmos a vida. O danno que a intemperança poda cauzar á saude, nam deve fazer com que se conceba a ley que determina a sobriedade, como huma simples ley de regimen indifferente para os costumes. Nenhuma couza que ordena a ley natural pode ser nella indifferente, e por isso me quero persuadir, em que esta ley faz hum preceito expresso, para vermos melhor em que consiste o erro commum dos omens. A natureza tem determinado a quantidade de alimentos que devemos tomar segundo os graos de calor, e a capacidade do nosso estomago, e tambem a sua qualidade, naõ sómente pelo gosto, ou dezagrado que excitam no paladar, mas tambem pelos bons, ou máos effeitos que podem produzir a respeito da nossa saude. </p>
<p>A saude he a constituiçam do corpo, em que o ventro da vita que a anima obra com huma grande enirgia; e assim alterar a saude, he o mesmo que diminuir a vida. Hum homem vive menos quando vive mal, e morre desde que a sua saude se acha totalmente destruida, e arruinada. A mesma ley que nos prohibe abreviar a nossa vida, nos prohibe tambem damnificar voluntariamente a nossa saude- Chamese a este respeito, se quizerem, ley de regimen, porque importa pouco que se lhe dê este nome, com tanto que se concorde em que este regimen he muito conforme com esta Ley indispensavel. </p>
<p>Deste principio se segue que de qualquer sorte que se arruine a saude, quando voluntariamente se obra, he sempre quebrantar, e infringir a ley natural, que manda, e prescreve a sua consercaçaõ. A sobriedade, assim como outra qualquer virtude, he hum meyo entre dous extremos oppostos. Destruir o temperamento com abstinencias <pb n="48"></pb> indiscretas naõ he hum excesso menos reprehensivel, do que abreviar os dias com a superfluidade, de demazia de alimentos; pois nam he menor homicida de sy mesmo o que toma huma peçonha branda, que lentamente produz o seu effeito, do que aquelle que rezoluto se mata com hum punhal; mas se sem dificuldade, e hesitaçaõ se condena hum, para que hade desculpar, e compadecer o outro? </p>
<p>Se alguem duvidar que he contra a lei da natureza, procurar cada hum, por qualquer principio que seja, abreviar a sua vida, nam será precizo muito trabalho para se provar. Esta ley nam manda que tratemos os outros melhor do que a nós mesmos: e concordando geralmente em que ella prohibe tirar a vida aos nossos semelhantes, ao menos or authoridade privada, com muito mayor razam prohibe tirarmola a nos mesmos. Agora, he que reparo que insensivelmente me fui afastando de huns excessos para outros, porque a idèa me advirtio por hum occulto movimento, a reconhecer que nam sómente os excessos da meza sam os que conduzem os homens a hum estado desploravel, mas ainda ha outros igualmente reprehensiveis, e que se devem evitar, como contrarios à practica da virtude da temperança e sobriedade, a qual tem huma extençaõ muito mais ampla, nobre, e generoza. </p>
<p>Deixemos de parte o como cada hum que se entrega ás demazias, e excessos da gula, obra contra a lei da natureza, diminuindo a sua vida com arruinar a sua saude, e passemos aos que se entregaõ ao excesso de se matar por outro qualquer principio. A este respeito me parece que estou ouvindo dizer, que quando a vida nos he mais trabalhoza, e importuna, do que gostoza, e feliz, dictando o mesmo instinto natural, que devemos fazer tudo quanto podermos para conseguir alguma felicidade, porque razaõ naõ poderemos conseguir esta, cortando, e diminuindo o curso de huma penoza vida, quando no parecer do Poeta Lacano, a morte he o ultimo trabalho della, e que por isso a devem receber intrepidamente os homens? </p>
<p rend="MO"><pb n="49"></pb><hi rend="italic"> <milestone unit="ZM" xml:id="FR.4"></milestone> Mors ultima pena est <lb></lb>Nec metuenda viris. <milestone rend="closer" unit="ZM"></milestone></hi></p>
<p rend="SO">A isto respondo, que este excesso ainda he muito mais reprehensivel do que outro qualquer; porque pertencendo a Deos, de quem recebemos todo o nosso ser, a nossa vida, nam devemos dispor della sem seu consentimento. Acrecentemos mais a isto, o pouco conhecimento que temos das nossas verdadeiras convenciencias, principalmente quando nos cega alguma paixaõ violenta, para podermos julgar com segurança, ainda das circunstancias mais funestas, e penozas, que a vida nos he mais pezada do que conveniente: mas o certo he que ainda nestas mesmas trabalhozas circunstancias, sempre nos he util a vida, quando naõ seja para o prezente, ao menos para o futuro; porque he sem duvida que nam vivemos senaõ porque Deos quer que vivamos; e como Deos nam quer nada a nosso respeito, se naõ o que nos pode fazer felices, sendo este o unico objecto que teve quando nos creou, serà desprezar, e ainda regeitar a felicidade que nos espera se fizermos das nossas proprias mãos instrumentos para perdermos a nossa vida. E ainda supondo que esta nos serve de grande pezo, nem por isso teremos rezam para a regeitar, ou roubara nós mesmos, da mesma sorte que nos nam he licito, nem permettido tirala a outro qualquer que prejudique os nossos interesses, porque tanto direito temos a nossa vida, como á dos outros. </p>
<p>Fundados em huma maxima sempre falça, quando naõ he modificada de que huma acçaõ he grande, e generoza, à proporçaõ que custa mayor trabalho, e esforço, alguns homens famozos refere a historia, que matando-se a sy mesmos, imaginaram poder merecer os Elogios da Posteridade, e com effeito acharam alguns Panegyristas nos faculos seguintes. Mas por enterrar hum punhar no peito de hum Pae, custaria sem duvida ao cruel parricida hum grande trabalho, e combates violentos, primeiro que <pb n="50"></pb> chegasse a pôr silencio na voz da natureza. E por ventura todos estes combates, e todos estes esforços violentos, poderiam fazer de hum crime tam horrorozo huma acçam meritoria? Certamente naõ; porque luctar contra os proprios sentimentos nam he virtude, se nam quando saõ viciozos estes mesmos sentimentos. Receber intrepidamente a morte he valor; dala cada huma sy mesmo he fraqueza. Ninguem a toma por suas proprias maõs se naõ para fugir de hum trabalho que se considera insoportavel, e por se achar jà cançado de sofrer: a violencia do remedio a que se rezolve hum homem que sofre, quando se naõ trata de conservar a vida, prova melhor o excesso da sua impaciencia, do que a grandeza do seu valor. </p>
<p>Satisfeitos com estas prudentes maximas fundadas sobre a recta razam, e sobre a humanidade, nunca os trabalhos maes honrrozos, poderam fazer com que os homens se rezolvam a tirar com suas proprias mãos a sua vida. <milestone unit="EX" xml:id="FR.5"></milestone> Inutilmente fes o Persiano Usbeck a seu amigo Ibbeno a apologia da morte que tomou por sua vontade; porque os seus sofismas se nam podem conceber se nam como frivolos paliativos do furor maes cego. E persuadidos de que tirar cada hum a sy proprio a vida, nam deixa de ser hum crime, he sem duvida que o conservala he huma virtude. <milestone rend="closer" unit="EX"></milestone> Para a practica desta virtude, nam ha couza que contribua maes como he a sobriedade. </p>
<p>Ha dous generos da sobriedade; huma que consiste no uzo moderado dos alimentos, a na recta maxima de conservar a vida, e isto he o de que atè agora se tratou: a outra consiste no dezinterece, e bom uzo das riquezas. Esta pertence à alma, assim como a outra pertence ao corpo; de huma depende a saude, e a vida, da outra a virtude. </p>
<p><milestone unit="FP" xml:id="FR.6"></milestone> Das differentes classes que ha de ricos, os maes racionaes sam aquelles que de Pays em filhos viveram sempre na opulencia, e que apenas sabem se hà pessoa a quem falta o necessario. Na verdade estes sam ordinariamente insensi-<pb n="51"></pb>veis à mizeria alhea; e a naõ ser isto, nam teriamos de que os arguir, porque ser rico naõ he crime. Aquelles a quem as riquezas corrompem, e pervertem maes, saõ estes Cressos de baxa extracçam, e de huma riqueza muito fresca, que parece trazem escripto na testa a importancia de seus cabedaes, augmentando-se à medida que se enche o seu thezouro, a fereza do seu semblante, a sua arrogancia, a sua soberba, e sua elevaçaõ. O q̃ deve consolar hum homē honesto, que se acha exposto aus seus insultos he a concideraçaõ de que estas fortunas enormes, acumuladas em pouco tempo, tam rapidamente se adquirem, como se perdem. </p>
<p>Para acumular riquezas immensas, e dissipalas, ordinariamente nam he precizo maes do que duas geraçoens. O pay ajunta, e o filho gasta; hum enriquesse, e outro se arruina: este he o curso ordinario das coizas, e isto he o que facilita o comercio da vida, sem o que os cabedaes de huma familia nam poderiam circular. A este respeito se podem referir muitos exemplos, e bem modernos, de que me nam quero valer; porque ja disse que nem por sombras quero exemplificar o que digo, para impedir a malicia dos leitores, idear alguma contracçam, em que verdadeiramente nam podia eu ser culpado, mas sim as suas sinistras, e malignas aplicaçoens. </p>
<p>Ordinariamente se entende ser hum prudente economico aquelle que se sabe conservar immediatamente, sem chegar à classe dos prodigos; e que nam cuida em fazer escrupulo de algumas despezas, com tanto que nellas nam gaste maes do que o que tem de renda sem bulir no capital: consolar os infelices parece que nam he obrigaçaõ, mas ninguem ignora que isto pode servir de grande gosto. Nam sei porque fatilidade sucede, que os que sam maes favorecidos dos bens da fortuna, se acham menos dispostos a consolar, e socorrer os que se acham despidos delles. Os pobres sam melhor soccorridos pelas pessoas quasi tam pobres como elles, do que pelos ricos, e oppulentos. Parece <pb n="52"></pb> que naõ ha compaxaõ senaõ para os males que se experimentam em parte: porque hum homem opprimido com os trabalhos, e afliçoens lança sobre sy mesmo, toda a sua sensibilidade e o excesso da desgraça fas os homens tam incapazes de commiseraçaõ, como o excesso da opulencia. Quero-me tambem lembrar de outra couza que nam he menos reparavel, a qual, he que entre as pessoas insensiveis a miserias alheas, nam deixaõ de ter o primeiro lugar aquellas que por seu estado saõ destinadas para nos intimarem a caridade; mas póde ser que estes se imaginem dispensados da obrigaçaõ as assistir, e occorrer às mizerias do proximo, ficando compensada com o cuidado que tem, ou devem ter de nos exhortar para a pratica desta virtude; ou porque entendem que fazem bastante a respeito do seu proximo, intercedendo por nós. Convenho em que isto he huma grande caridade, mas nem por isso, podendo, deixaõ de ter a mesma obrigaçaõ de acudir, e socorrer o seu proximo necessitado, e de serem sensiveis às miserias alheas. <milestone rend="closer" unit="FP"></milestone></p>
<p>Ordinariamente se chama no mundo <hi rend="italic">fazer se hum homem honrra com o seu cabedal</hi>; quando tem huma meza esplendida, assistindo em humas cazas grandes adornadas com moveis, e alfayas excellentes, quando occupa muitos criados, e tem varias carruagens, e tudo o maes que pertence a huma boa equipage, e finalmente viver entre o luxo quanto a mim, nam convenho neste termo tam especiozo, debaxo de circunstancias tam abuzivas; e aquelle a quem com justiça se pode aplicar, aquelle vlugar elogio, he a hum homem sabio, e prudente, e sobre tudo àquelle que despende parte dos seus cabedaes, sem detrimento da sua fortuna, em fazer bem aos outros, e servir com elles de alivio aos mizeraveis, que dependem do seu favor: porque se homem sabio, e prudente pode descobrir, e achar alguma utilidade, e ventagem nas riquezas, he em quanto ellas lhe procuram a agradavel satisfaçaõ, de fazer os outros felices. <milestone rend="closer" unit="E2"></milestone> <milestone rend="closer" unit="E1"></milestone></p>
<p></p></div2></div1></body>
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                <seg type="U1">N.°. 6</seg> Da Sobriedade, e Temperança. <seg synch="#FR.2" type="E2"> Como na folha antecedente, parece que
                                    de alguma sorte defendi as demazias, e excessos que se practicam       
                             no tempo prezente, me pareceo justo mostrar aos meus leitores,
                                    que nem por isto perco de vista sobriedade, e temperança; e que
                                    assim como emalguma (sic) occaziaõ se podem patrocinar certas
                                    irregularidades, em nenhum tempo se deve deixar de recomendar
                                    serem os homens sobrios, e temperados, para cumprirem as
                                    obrigaçoens da natureza, e as da sociedade civil. Se o tempo
                                    pelo abuzo, e corrupçaõ faz nacer algumas dezordens, todo o
                                    tempo he proprio para se aconselhar a emmenda. Passe por graça o
                                    passado, porque agora pertendo falar de veras, mostrando a razaõ
                                    porque devemos evitar todos os excessos, e practicar a
                                    sobriedade, e temperança, aplicando nos ao exercicio, e pratica
                                    desta virtude, em que consiste huma boa parte das felicidades da
                                    vida. <pb n="46"></pb> Naõ ha coiza mais propria para inspirar esta
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                                        dos mancebos Lacedemonios, para a pratica da sobriedade, e
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                                        muito de prepozito, e expressamente mandavam embebedar, para
                                        com este espectaculo lhe reprezentarem, como em hum quadro,
                                        muito ao vivo, e fielmente o injuriozo desprezo de que he
                                        sempre acompanhada a demazia de beber, e isto cauzava
                                        ordinariamente huma impressam muito forte nos espiritos
                                        daquelles mancebos, produzindo nelles hum horror a vicio, e
                                        huma reformaçaõ neste costume. </seg> Mas a desgraça he que
                                    no seculo prezente ha muito pouca necessidade desta industrioza
                                    maxima, porque nam he precizo mandar embebedar nem os escravos,
                                    nem os domesticos para se darem aos filhos estas boas liçoens da
                                    temperança, porque muitas pessoas do nosso conhecimento de todos
                                    os estados, tomam de muito boa vontade sobre sy este ministerio
                                    dos escravos de Esparta, e com tanta efficacia, que muitas vezes
                                    aquelles mesmos, que de menham ocupaõ algum lugar distinto, e
                                    que talvez clamem contra a intemperança depois de tarde nos
                                    offerecem huma clara prova dos excessos que della nacem; e se    
                                para ensinar a temperança nam he precizo do que naõ se
                                    practicar, ha prezentemente hum grande numero de mestres que
                                    ensinam huma taõ boa virtude. Mas depois de se observarem os
                                    effeitos irregulares que cauzam no espirito dos homens as             
                       demazias das mezas, naõ he necessario mais, para quem emprega a
                                    reflexaõ, para detestar a intemperança, e ao mesmo tempo
                                    desprezar os intemperantes. Nam me quero valer de retratos, nem
                                    empregar os diversos nomes de que muitos uzaõ, porque de algumas
                                    circumstancia ainda que genericas, se nam adiante a malicia em
                                    dizer que falo com alguma contracçaõ, excedendo a indiferença
                                    generica de que empre uzo. <pb n="47"></pb> Se os excessos, e
                                    demazias sam muito contra as leys da Policia, e da practica da
                                    boa civilidade, ainda saõ muito mais contra as leys da natureza,
                                    e da razaõ; porque a obrigaçaõ de ser sobrios he fundada sobre a
                                    que nos impoem, e determina a ley natural de conservarmos a
                                    vida. O danno que a intemperança poda cauzar á saude, nam deve
                                    fazer com que se conceba a ley que determina a sobriedade, como
                                    huma simples ley de regimen indifferente para os costumes.
                                    Nenhuma couza que ordena a ley natural pode ser nella
                                    indifferente, e por isso me quero persuadir, em que esta ley faz
                                    hum preceito expresso, para vermos melhor em que consiste o erro
                                    commum dos omens. A natureza tem determinado a quantidade de
                                    alimentos que devemos tomar segundo os graos de calor, e a
                                    capacidade do nosso estomago, e tambem a sua qualidade, naõ
                                    sómente pelo gosto, ou dezagrado que excitam no paladar, mas
                                    tambem pelos bons, ou máos effeitos que podem produzir a
                                    respeito da nossa saude. A saude he a constituiçam do corpo, em
                                    que o ventro da vita que a anima obra com huma grande enirgia; e
                                    assim alterar a saude, he o mesmo que diminuir a vida. Hum homem
                                    vive menos quando vive mal, e morre desde que a sua saude se
                                    acha totalmente destruida, e arruinada. A mesma ley que nos
                                    prohibe abreviar a nossa vida, nos prohibe tambem damnificar
                                    voluntariamente a nossa saude- Chamese a este respeito, se
                                    quizerem, ley de regimen, porque importa pouco que se lhe dê
                                    este nome, com tanto que se concorde em que este regimen he
                                    muito conforme com esta Ley indispensavel. Deste principio se
                                    segue que de qualquer sorte que se arruine a saude, quando
                                    voluntariamente se obra, he sempre quebrantar, e infringir a ley
                                    natural, que manda, e prescreve a sua consercaçaõ. A sobriedade,
                                    assim como outra qualquer virtude, he hum meyo entre dous
                                    extremos oppostos. Destruir o temperamento com abstinencias <pb n="48"></pb> indiscretas naõ he hum excesso menos reprehensivel,     
                               do que abreviar os dias com a superfluidade, de demazia de
                                    alimentos; pois nam he menor homicida de sy mesmo o que toma
                                    huma peçonha branda, que lentamente produz o seu effeito, do que
                                    aquelle que rezoluto se mata com hum punhal; mas se sem                             
       dificuldade, e hesitaçaõ se condena hum, para que hade
                                    desculpar, e compadecer o outro? Se alguem duvidar que he contra
                                    a lei da natureza, procurar cada hum, por qualquer principio que
                                    seja, abreviar a sua vida, nam será precizo muito trabalho para
                                    se provar. Esta ley nam manda que tratemos os outros melhor do
                                    que a nós mesmos: e concordando geralmente em que ella prohibe
                                    tirar a vida aos nossos semelhantes, ao menos or authoridade
                                    privada, com muito mayor razam prohibe tirarmola a nos mesmos.
                                    Agora, he que reparo que insensivelmente me fui afastando de
                                    huns excessos para outros, porque a idèa me advirtio por hum
                                    occulto movimento, a reconhecer que nam sómente os excessos da
                                    meza sam os que conduzem os homens a hum estado desploravel, mas
                                    ainda ha outros igualmente reprehensiveis, e que se devem
                                    evitar, como contrarios à practica da virtude da temperança e
                                    sobriedade, a qual tem huma extençaõ muito mais ampla, nobre, e
                                    generoza. Deixemos de parte o como cada hum que se entrega ás
                                    demazias, e excessos da gula, obra contra a lei da natureza,
                                    diminuindo a sua vida com arruinar a sua saude, e passemos aos
                                    que se entregaõ ao excesso de se matar por outro qualquer
                                    principio. A este respeito me parece que estou ouvindo dizer,
                                    que quando a vida nos he mais trabalhoza, e importuna, do que
                                    gostoza, e feliz, dictando o mesmo instinto natural, que devemos
                                    fazer tudo quanto podermos para conseguir alguma felicidade,
                                    porque razaõ naõ poderemos conseguir esta, cortando, e
                                    diminuindo o curso de huma penoza vida, quando no parecer do
                                    Poeta Lacano, a morte he o ultimo trabalho della, e que por isso
                                    a devem receber intrepidamente os homens? <seg type="MO">
                    <pb n="49"></pb>
                    <seg synch="#FR.4" type="ZM"> Mors ultima pena est <lb></lb>Nec
                                            metuenda viris. </seg>

                  </seg> A isto respondo, que este
                                    excesso ainda he muito mais reprehensivel do que outro qualquer;
                                    porque pertencendo a Deos, de quem recebemos todo o nosso ser, a
                                    nossa vida, nam devemos dispor della sem seu consentimento.
                                    Acrecentemos mais a isto, o pouco conhecimento que temos das
                                    nossas verdadeiras convenciencias, principalmente quando nos
                                    cega alguma paixaõ violenta, para podermos julgar com segurança,
                                    ainda das circunstancias mais funestas, e penozas, que a vida
                                    nos he mais pezada do que conveniente: mas o certo he que ainda
                                    nestas mesmas trabalhozas circunstancias, sempre nos he util a
                                    vida, quando naõ seja para o prezente, ao menos para o futuro;
                                    porque he sem duvida que nam vivemos senaõ porque Deos quer que
                                    vivamos; e como Deos nam quer nada a nosso respeito, se naõ o
                                    que nos pode fazer felices, sendo este o unico objecto que teve     
                               quando nos creou, serà desprezar, e ainda regeitar a felicidade
                                    que nos espera se fizermos das nossas proprias mãos instrumentos
                                    para perdermos a nossa vida. E ainda supondo que esta nos serve
                                    de grande pezo, nem por isso teremos rezam para a regeitar, ou                   
                 roubara nós mesmos, da mesma sorte que nos nam he licito, nem
                                    permettido tirala a outro qualquer que prejudique os nossos
                                    interesses, porque tanto direito temos a nossa vida, como á dos
                                    outros. Fundados em huma maxima sempre falça, quando naõ he
                                    modificada de que huma acçaõ he grande, e generoza, à proporçaõ
                                    que custa mayor trabalho, e esforço, alguns homens famozos
                                    refere a historia, que matando-se a sy mesmos, imaginaram poder
                                    merecer os Elogios da Posteridade, e com effeito acharam alguns
                                    Panegyristas nos faculos seguintes. Mas por enterrar hum punhar
                                    no peito de hum Pae, custaria sem duvida ao cruel parricida hum
                                    grande trabalho, e combates violentos, primeiro que <pb n="50"></pb>
                                    chegasse a pôr silencio na voz da natureza. E por ventura todos
                                    estes combates, e todos estes esforços violentos, poderiam fazer
                                    de hum crime tam horrorozo huma acçam meritoria? Certamente naõ;
                                    porque luctar contra os proprios sentimentos nam he virtude, se
                                    nam quando saõ viciozos estes mesmos sentimentos. Receber
                                    intrepidamente a morte he valor; dala cada huma sy mesmo he
                                    fraqueza. Ninguem a toma por suas proprias maõs se naõ para
                                    fugir de hum trabalho que se considera insoportavel, e por se
                                    achar jà cançado de sofrer: a violencia do remedio a que se
                                    rezolve hum homem que sofre, quando se naõ trata de conservar a
                                    vida, prova melhor o excesso da sua impaciencia, do que a
                                    grandeza do seu valor. Satisfeitos com estas prudentes maximas
                                    fundadas sobre a recta razam, e sobre a humanidade, nunca os
                                    trabalhos maes honrrozos, poderam fazer com que os homens se
                                    rezolvam a tirar com suas proprias mãos a sua vida. <seg synch="#FR.5" type="EX"> Inutilmente fes o Persiano Usbeck a
                                        seu amigo Ibbeno a apologia da morte que tomou por sua
                                        vontade; porque os seus sofismas se nam podem conceber se
                                        nam como frivolos paliativos do furor maes cego. E
                                        persuadidos de que tirar cada hum a sy proprio a vida, nam
                                        deixa de ser hum crime, he sem duvida que o conservala he
                                        huma virtude. </seg> Para a practica desta virtude, nam ha      
                              couza que contribua maes como he a sobriedade. Ha dous generos
                                    da sobriedade; huma que consiste no uzo moderado dos alimentos,
                                    a na recta maxima de conservar a vida, e isto he o de que atè
                                    agora se tratou: a outra consiste no dezinterece, e bom uzo das
                                    riquezas. Esta pertence à alma, assim como a outra pertence ao
                                    corpo; de huma depende a saude, e a vida, da outra a virtude.
                                        <seg synch="#FR.6" type="FP"> Das differentes classes que ha
                                        de ricos, os maes racionaes sam aquelles que de Pays em
                                        filhos viveram sempre na opulencia, e que apenas sabem se hà                              
          pessoa a quem falta o necessario. Na verdade estes sam
                                        ordinariamente insensi-<pb n="51"></pb>veis à mizeria alhea; e a
                                        naõ ser isto, nam teriamos de que os arguir, porque ser rico
                                        naõ he crime. Aquelles a quem as riquezas corrompem, e
                                        pervertem maes, saõ estes Cressos de baxa extracçam, e de
                                        huma riqueza muito fresca, que parece trazem escripto na
                                        testa a importancia de seus cabedaes, augmentando-se à
                                        medida que se enche o seu thezouro, a fereza do seu
                                        semblante, a sua arrogancia, a sua soberba, e sua elevaçaõ.
                                        O q̃ deve consolar hum homē honesto, que se acha exposto aus
                                        seus insultos he a concideraçaõ de que estas fortunas
                                        enormes, acumuladas em pouco tempo, tam rapidamente se
                                        adquirem, como se perdem. Para acumular riquezas immensas, e
                                        dissipalas, ordinariamente nam he precizo maes do que duas
                                        geraçoens. O pay ajunta, e o filho gasta; hum enriquesse, e
                                        outro se arruina: este he o curso ordinario das coizas, e
                                        isto he o que facilita o comercio da vida, sem o que os
                                        cabedaes de huma familia nam poderiam circular. A este
                                        respeito se podem referir muitos exemplos, e bem modernos,
                                        de que me nam quero valer; porque ja disse que nem por
                                        sombras quero exemplificar o que digo, para impedir a
                                        malicia dos leitores, idear alguma contracçam, em que
                                        verdadeiramente nam podia eu ser culpado, mas sim as suas
                                        sinistras, e malignas aplicaçoens. Ordinariamente se entende
                                        ser hum prudente economico aquelle que se sabe conservar
                                        immediatamente, sem chegar à classe dos prodigos; e que nam
                                        cuida em fazer escrupulo de algumas despezas, com tanto que
                                        nellas nam gaste maes do que o que tem de renda sem bulir no
                                        capital: consolar os infelices parece que nam he obrigaçaõ,
                                        mas ninguem ignora que isto pode servir de grande gosto. Nam
                                        sei porque fatilidade sucede, que os que sam maes
                                        favorecidos dos bens da fortuna, se acham menos dispostos a             
                           consolar, e socorrer os que se acham despidos delles. Os
                                        pobres sam melhor soccorridos pelas pessoas quasi tam pobres
                                        como elles, do que pelos ricos, e oppulentos. Parece <pb n="52"></pb> que naõ ha compaxaõ senaõ para os males que se
                                        experimentam em parte: porque hum homem opprimido com os                     
                   trabalhos, e afliçoens lança sobre sy mesmo, toda a sua     
                                   sensibilidade e o excesso da desgraça fas os homens tam
                                        incapazes de commiseraçaõ, como o excesso da opulencia.
                                        Quero-me tambem lembrar de outra couza que nam he menos
                                        reparavel, a qual, he que entre as pessoas insensiveis a
                                        miserias alheas, nam deixaõ de ter o primeiro lugar aquellas
                                        que por seu estado saõ destinadas para nos intimarem a
                                        caridade; mas póde ser que estes se imaginem dispensados da
                                        obrigaçaõ as assistir, e occorrer às mizerias do proximo,
                                        ficando compensada com o cuidado que tem, ou devem ter de
                                        nos exhortar para a pratica desta virtude; ou porque
                                        entendem que fazem bastante a respeito do seu proximo,
                                        intercedendo por nós. Convenho em que isto he huma grande
                                        caridade, mas nem por isso, podendo, deixaõ de ter a mesma
                                        obrigaçaõ de acudir, e socorrer o seu proximo necessitado, e
                                        de serem sensiveis às miserias alheas. </seg> Ordinariamente
                                    se chama no mundo fazer se hum homem honrra com o seu cabedal;
                                    quando tem huma meza esplendida, assistindo em humas cazas
                                    grandes adornadas com moveis, e alfayas excellentes, quando
                                    occupa muitos criados, e tem varias carruagens, e tudo o maes
                                    que pertence a huma boa equipage, e finalmente viver entre o
                                    luxo quanto a mim, nam convenho neste termo tam especiozo,
                                    debaxo de circunstancias tam abuzivas; e aquelle a quem com
                                    justiça se pode aplicar, aquelle vlugar elogio, he a hum homem
                                    sabio, e prudente, e sobre tudo àquelle que despende parte dos
                                    seus cabedaes, sem detrimento da sua fortuna, em fazer bem aos
                                    outros, e servir com elles de alivio aos mizeraveis, que
                                    dependem do seu favor: porque se homem sabio, e prudente pode
                                    descobrir, e achar alguma utilidade, e ventagem nas riquezas, he
                                    em quanto ellas lhe procuram a agradavel satisfaçaõ, de fazer os
                                    outros felices. </seg>
              </seg>
            </ab>
          </div>
        </body>
      </text>
    </group>
  </text>
</TEI>
