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        <author>Anónimo (Bento Morganti)</author>
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        <edition>Moralische Wochenschriften</edition>
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          <orgName ref="http://romanistik.uni-graz.at/">Institut für Romanistik,
                        Universität Graz</orgName>
        </publisher>
        <publisher>
          <orgName ref="http://informationsmodellierung.uni-graz.at">Zentrum für
                        Informationsmodellierung, Universität Graz</orgName>
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        <pubPlace>Graz</pubPlace>
        <date when="2018-10-04">04.10.2018</date>
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        <bibl>Anónimo (Morganti, Bento): Terceira Collecçam dos Papeis Anonymos. Lisboa:
                    Pedro Ferreira, 1754, 21-28 </bibl>
        <bibl type="Einzelausgabe" xml:id="OAn">
          <title level="j">O Anonymo. Repartido pelas
                        semanas, para divertimento e utilidade do publico</title>
          <biblScope unit="volume">3</biblScope>
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          <date>1754</date>
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<p rend="EU"><milestone unit="E1" xml:id="FR.1"></milestone></p>
<div1><head>N.°.3</head>
<div2><head><hi rend="italic">Da Sabedoria</hi>. </head>
<p rend="SO"><milestone unit="E2" xml:id="FR.2"></milestone><hi rend="smallcaps"> Huma</hi> das couzas que mais provoca ao rizo, e ao mesmo tempo inspira a reflexaõ, he ver, e observar certos genios, que inchados pela sua vaidade, e pela força da sua propria imaginaçaõ se querem sempre distinguir como sabios, e ser escutados como oraculos, porque se persuadem que cada <pb n="22"></pb> palavra que proferem he huma sentença, e que cada discurso que fazem he huma quinta essencia do mais solido, e mais dilatado raciocinio. Algumas vezes que me encontro com hum destes espiritos, assim que aparece nunca o perco de vista, para examinar com attensam, atè donde chegam os effeitos da sua vaidosa prezumpçaõ e quasi sempre reparo em que comprimenta poucos, fala só com alguns, e quasi sobre posse, e immediatamente busca o melhor lugar, que de ordinario he entre as Damas, que como mais credulas lhe formam hum vistozo auditorio, e logo principia a espalhar entre aquella agradavel tropa de parciaes, hum numero infinito de Decizoens, repartindo como por favor o ouro das suas palavras. Hum destes genios bem pode ser rico, bem instruido; e cheyo daquellas prendas que adquiridas pelo estudo, e pelo exercicio fazem hum homem civil, mas de ordinario se acham nelle tam arruinados estes principios da boa educaçaõ pela vaidade que concebe da sua grande sabedoria, que parecem mortos em hum corpo vivo, ou que sòmente os contempla a imaginaçaõ como  passados no immovel simulacro da vaidade, e he pena que entendo acompanha hum destes, naõ ter existido no tempo de Paganismo, porque cuido faria toda a boa deligencia para que construindo-se algum Templo, fosse a sua Estatua ainda que tenue, e breve, a quem se dedicassem os cultos excessivos, e agigantados. Isto que repetidas vezes observo, me faz lembrar dizer alguma couza sobre o argumento da sabedoria, para dezenganar o vulgo ignorante, mostrando que naõ ha no mundo quem inteiramente a pessua, e que he fatuidade reprehensivel haver quem imagine, e se desvaneça que tem este dom completo. <pb n="23"></pb> Mas por donde darey principio a este asumpto da sabedoria? Se quero principiar pela consideraçaõ do seu nome, como ordinariamente fazem os Filosofos, acho que o toma (assim Divina como he) das couzas sensiveis, a materiaes. E S. Bernardo especificou que o gosto, e os sabores, saõ os primitivos authores da sua denominaçaõ. Se quero deixar este principio, e discorrer pelo da sua difiniçaõ, esta nos naõ pode instruir melhor, porque della ainda se naõ tem concordado qual he o verdadeiro Sabio que ella deve, ou pòde formar. A sabedoria, <milestone unit="EX" xml:id="FR.3"></milestone> como diz o Orador Romano no primeiro livro das obrigaçoens da vida, he a ciencia naõ sómente das couzas Divinas, e humanas, mas tambem de todas as cauzas de que ellas dependem; sejame licito referir pelas suas proprias palavras a authoridade deste grande orador, porque pode ser que estes papeis vaõ parar por a cazo as maõs, de quem entende muito bem a lingoa em que elle fallou; <milestone unit="ZM" xml:id="FR.4"></milestone> <hi rend="italic">Sapientia estrerum divinarum, humanarum, causarumque, quibus he (sic) res continentur scientia. <milestone rend="closer" unit="ZM"></milestone> <milestone rend="closer" unit="EX"></milestone></hi> E quem he o que póde ter esta perfeita luz, das couzas divinas, e humanas, com o conhecimento das cauzas que as produzem? E aonde se acharà hum espirito, que se possa com razaõ desvanecer de poder penetrar até donde he precizo chegar, para estabelecer sobre taes fundamentos esta pertendida ciencia? Certamente só possue huma conhecida vaidade, e presumpçaõ quem pertende mostrar que a chega a possuir. O Sabio dos Estoicos he disto huma prova manifesta, como descreve. Horacio: </p>
<p rend="MO"><hi rend="italic"><milestone unit="ZM" xml:id="FR.5"></milestone> Si dives qui sapiens est, Et sutor bonus, solus formosus, e est Rex. <milestone rend="closer" unit="ZM"></milestone></hi></p>
<p rend="SO"><pb n="24"></pb> He isto huma fantasma taõ medonha, e taõ grotesca, que a imaginaçaõ mais fina, e mais apurada a naõ pode deixar de conceber como huma extravagancia qualificada; porque naõ possue sómente as boas qualidades que acabo de referir nos sobreditos termos latinos, mas ainda seria mais perfeito que todos os Deozes que admittia a sua Religiaõ, exceptuando Jupiter, e tambem o excederia nisto, em que Jupiter tinha por sua propria natureza todas as ventagens com que se considerava, e elle as tinha adquirido por sua propria industria, sem ser inferior em couza alguma (excepto na immortalidade) a este Deos supremo do gentilismo, a quem tinhaõ obrigaçaõ de reconhecer. Mas naõ foraõ só os Estoicos, que cahiraõ neste prodigizio delirio, ainda que elles foraõ sim os que os levaraõ mais lonje, que todos os outros Filosofos Paganos, Porque <milestone unit="EX" xml:id="FR.6"></milestone> Antistenes, fundador da feita cynica, sustenta como os outros em Diogones Laercio, que todos os bens que os mais homens possuem pertencem de direito ao que he sabio, <milestone unit="ZM" xml:id="FR.7"></milestone> <hi rend="italic">Sapientis esse quae caeterorum sunt omnia. <milestone rend="closer" unit="ZM"></milestone> <milestone rend="closer" unit="EX"></milestone></hi> O outro Diogenes da mesma familia, e a quem a sua pipa fez tam celebre no mundo, quer que o seu sabio reconheça sómente as couzas dignas de serem amadas, alem de o fazer de tal forte impecavel, que segundo o seu conceito, ainda o mesmo sacrilegio se lhe naõ deve imputar como crime. Suposto que esta invectiva naõ deixa de entrar na classe das muitas irregulares que nos deixou escriptas, e concorda muito com a outra de Theodoro chamado o Atheo, que se acha escripta em Hesychio Illustrio, a qual por ser alguma couza indecente julgo naõ ser conveniente expola ao vulgo, e ao commum, em quem de ordinario falta <pb n="25"></pb> o bom senso, ainda que a refere hum Author grave, e de boa nota, só direy em summa, que aquelle Filosofo entendia que a prohibiçaõ de muitas couzas dependia mais da oppiniaõ popular, do que da sua propria natureza, e para os que endendem latim refiro as suas proprias palavras: <milestone unit="ZM" xml:id="FR.8"></milestone> <hi rend="italic">Sapiens furto, adulterio, sacrilegioque deditus erit, ex uso temporis, horum enim nihil natura turpe, si tollas popularem de his oppinoem, quae ad continendum in officio vulgus hominum recepta est. <milestone rend="closer" unit="ZM"></milestone></hi> </p>
<p>Os Mesmos Estoicos foraõ tambem favorecidos por Epicuro no atributo que davaõ ao seu sabio, de que naõ podia deixar de o ser, depois de ter huma vez adquirido a sabedoria; <milestone unit="EX" xml:id="FR.9"></milestone> assim o refere o texto do que lhe escreveo a vida: <milestone unit="ZM" xml:id="FR.10"></milestone> <hi rend="italic">Eum qui simel (sic) fuerit sapiens, in contrarium habitum transire non posse. <milestone rend="closer" unit="ZM"></milestone></hi> Mas sem particulariar (sic) mais todas as qualidades de hum sabio fantastico, nada me parece mais absurdo, que a razaõ em que se fundaõ para sustentar que nisto naõ entra nada de Chimerico, e que o Mundo nunca esteve se hum sabio tal, como elles o reprezentaõ, porque o bem deste universo quis que a idea que tenhaõ se realizavasse em alguma de suas partes. <milestone rend="closer" unit="EX"></milestone> <milestone unit="EX" xml:id="FR.11"></milestone> Seneca assim o defendeo, como Estoico, em diversos lugares, e especialmente no setimo, e ultimo capitulo do livro da constancia do sabio, intitulado por alguns o segundo livro da tranquilidade da alma. <milestone rend="closer" unit="EX"></milestone> Mas ainda que este grande Filosofo diga, que a condiçaõ da nossa humana naturezam, e o bem deste mundo requeiraõ que se ache sempre hum homem taõ Etereoclito como o sabio que elle pertende, posso contra elle argumentar por tudo o que se ve no mundo, e por tudo o que experimentamos, e comprehendemos <pb n="26"></pb> da nossa fraca natureza, que ella nunca produzio, nem poderá produzir em tempo algum nada que iguale as perfeiçoens de que elle reveste este simulacro da virtude. Que couza ha no mundo mais tenue, e mais fraca que o homem por qualquer principio que se considere? <milestone unit="EX" xml:id="FR.12"></milestone> He a nossa vida, segundo a reprezenta Democrito a Hypocrates, huma enfermidade continuada, e complicada a respeito das duas partes que cõstituem o nosso todo, por cauza da sua estreita, e intima uniaõ. <milestone rend="closer" unit="EX"></milestone> E naõ se podendo duvidar de que isto assim he, de que Elementos se pode dizer se compoem aquelle sabio inalteravel, e que couza se pode conservar sempre firme sobre o cubo em q̃ se achar hũa vez colocada? Certamente descubro hum grande vacuo em todas as razões que pertendem estabelecer o contrario, este fosse necessario insistir mais contra ellas, ainda se pode achar muito mayor contradiçaõ. Mas ainda q̃ cuido naõ ha muita necessidade de insistir nisto para o convencimento da verdade, vamos adiantando mais o discurso ainda q̃ naõ seja se naõ para encher a folha, e acabe adonde acabar. Os mesmos Estoicos difiniraõ em infinitos lugares, o seu sabio por hum homem de todas as horas. Estabeleceraõ muitas vezes por axioma constante, que naõ havia quem fosse prudente, e avizado em todas occasioens: <milestone unit="EX" xml:id="FR.13"></milestone> <milestone unit="ZM" xml:id="FR.14"></milestone> <hi rend="italic">nemo omnibus horis sapit, <milestone rend="closer" unit="ZM"></milestone></hi> como disse, Plinio. <milestone rend="closer" unit="EX"></milestone> Assim sem dificuldade resulta que aquelle homem de todas as horas se naõ póde realizar como pertendem, e que naõ póde ser concebido se naõ como huma fantasma da imaginaçaõ, ou como huma cruz rozada de que quiz abuzar a credalidade dos mais simples. E na verdade naõ ha mais que a verdadeira Religiaõ que nos possa sufficientemente informar no que consiste, ou <pb n="27"></pb> deve consistir toda a nossa sabedoria, e instruir, e ensinar até donde ella em fim se deve encaminhar; <milestone unit="EX" xml:id="FR.15"></milestone> porque Job instruido muito bem nesta escola, ensina que sómente a crença de Deos he que a communica apartando-nos do vicio. <milestone unit="ZM" xml:id="FR.16"></milestone> <hi rend="italic">Timor Domini ipsa est sapientia, et recedere à malo intelligentia.</hi> <milestone rend="closer" unit="ZM"></milestone> <milestone rend="closer" unit="EX"></milestone> <milestone unit="EX" xml:id="FR.17"></milestone> David o confirma, chamando a esta crença, a porta, ou o principio de toda a sabedoria: <milestone unit="ZM" xml:id="FR.18"></milestone> <hi rend="italic">initium sapientiae timor Domini. <milestone rend="closer" unit="ZM"></milestone> <milestone rend="closer" unit="EX"></milestone></hi> <milestone unit="EX" xml:id="FR.19"></milestone> E seu filho Salomaõ nos representa em o seu Ecclesiastico homens velhos, coroados com huma siencia unida à crença de Deos; <milestone unit="ZM" xml:id="FR.20"></milestone> <hi rend="italic">Corona senum multa peritia, gloria illorum timor Dei. <milestone rend="closer" unit="ZM"></milestone> <milestone rend="closer" unit="EX"></milestone></hi> Esta sem duvida deve ser a razaõ porque o Ecclesiastes profere livremente, que a verdadeira sabedoria nunca entra em hũa alma perversa, nem naquelles a quem tem subjugado o vicio: <milestone unit="ZM" xml:id="FR.21"></milestone> <hi rend="italic">in malevolam animam non intrabit sapientia, nec habitabit in corpore subdito peccatis. <milestone rend="closer" unit="ZM"></milestone></hi> <milestone unit="EX" xml:id="FR.22"></milestone> E na verdade, he a sabedoria hum Dom do Ceo, com que gratifica, e premea aquelles a quem quer encher de felicidade, mas verdadeiramente poucos a recebem, como Salomaõ, dormindo; <milestone rend="closer" unit="EX"></milestone> ou para melhor dizer foi o unico a quem se concedeo por este modo, porque vemos do mesmo lugar em que se acha escripto este milagre, que nem antes, nem depois delle se vio no mundo outro semelhante, antes, <milestone unit="ZM" xml:id="FR.23"></milestone> <hi rend="italic">nec post eum similis non surrexit.</hi> <milestone rend="closer" unit="ZM"></milestone> E assim acabo, porque tambem já o papel esta no fim, aplicando para aquelles espiritos cheyos de vaidade, e prezumpçam que entendem se acham possuindo huma sabedoria incontrastavel, com o documento que o mesmo sabio Rey Salomam nos deixou escripto em seus proverbios, que nam basta conhecer a sabedoria, porque isto naõ he mais que saber simplesmente a sua primeira parte <pb n="28"></pb> mas que devemos ao mesmo tempo fazer toda a deligencia para esta se possuir com todas as suas qualidades inseparaveis, sem desvanecimento, sem presumpçaõ: <milestone unit="ZM" xml:id="FR.24"></milestone> <hi rend="italic">principium sapientiae posside sapientiam, in omni possessine tua acquire prudentiam.</hi> <milestone rend="closer" unit="ZM"></milestone></p>
<p>O certo he que a prudencia he hum grande final diagnostico para se conhecer a sabedoria, pois estas duas couzas ordinariamente passam como synonymas, tanto no uzo commum de falar, como em muitos lugares da sagrada Escriptura; e assim devemos confessar que naõ he o mesmo ser rico, que sabio; antes o contrario produzem as riquezas como diz hum proverbio Latino: </p>
<p rend="MO"><hi rend="italic"><milestone unit="ZM" xml:id="FR.25"></milestone> Fortuna quem nimium fovet stultum facit. <milestone rend="closer" unit="ZM"></milestone></hi></p>
<p rend="SO">E que sem a prudencia nem ha sabedoria, nem valem nada as riquezas; e para dezengano destos ricos presumptuozos, e ignorantes, porque lhe falta a prudencia, lhe offereço estes quatro versinhos, que bem expressam o caracter que merecem no mundo civil: </p>
<p rend="MO"><hi rend="italic"><milestone unit="ZM" xml:id="FR.26"></milestone> Sint tibi divite, sit larga, munda suppellex <lb></lb>Esse tamen vel sic bestia magna potes. <lb></lb>Nam quidquid fueris, nisi sit prudentia tecum, <lb></lb>Magna quidem dico bestiam semper eris. <milestone rend="closer" unit="ZM"></milestone> <milestone rend="closer" unit="E2"></milestone></hi></p>
<p rend="SO"><hi rend="smallcaps">Lisboa:</hi></p>
<p rend="SO">Na Officina de Pedro Ferreira, Impressor da Augustissima Rainha Nossa Senhora. <milestone rend="closer" unit="E1"></milestone></p>
<p></p></div2></div1></body>
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        <seg type="U1">N.°.3</seg>
                <seg type="U2">Da Sabedoria. </seg>
                <seg synch="#FR.2" type="E2"> Huma das couzas que mais provoca ao
                                    rizo, e ao mesmo tempo inspira a reflexaõ, he ver, e observar
                                    certos genios, que inchados pela sua vaidade, e pela força da
                                    sua propria imaginaçaõ se querem sempre distinguir como sabios,
                                    e ser escutados como oraculos, porque se persuadem que cada <pb n="22"></pb> palavra que proferem he huma sentença, e que cada
                                    discurso que fazem he huma quinta essencia do mais solido, e
                                    mais dilatado raciocinio. Algumas vezes que me encontro com hum
                                    destes espiritos, assim que aparece nunca o perco de vista, para
                                    examinar com attensam, atè donde chegam os effeitos da sua
                                    vaidosa prezumpçaõ e quasi sempre reparo em que comprimenta
                                    poucos, fala só com alguns, e quasi sobre posse, e
                                    immediatamente busca o melhor lugar, que de ordinario he entre
                                    as Damas, que como mais credulas lhe formam hum vistozo
                                    auditorio, e logo principia a espalhar entre aquella agradavel
                                    tropa de parciaes, hum numero infinito de Decizoens, repartindo
                                    como por favor o ouro das suas palavras. Hum destes genios bem
                                    pode ser rico, bem instruido; e cheyo daquellas prendas que
                                    adquiridas pelo estudo, e pelo exercicio fazem hum homem civil,
                                    mas de ordinario se acham nelle tam arruinados estes principios
                                    da boa educaçaõ pela vaidade que concebe da sua grande
                                    sabedoria, que parecem mortos em hum corpo vivo, ou que sòmente
                                    os contempla a imaginaçaõ como passados no immovel simulacro da
                                    vaidade, e he pena que entendo acompanha hum destes, naõ ter
                                    existido no tempo de Paganismo, porque cuido faria toda a boa
                                    deligencia para que construindo-se algum Templo, fosse a sua
                                    Estatua ainda que tenue, e breve, a quem se dedicassem os cultos
                                    excessivos, e agigantados. Isto que repetidas vezes observo, me
                                    faz lembrar dizer alguma couza sobre o argumento da sabedoria,
                                    para dezenganar o vulgo ignorante, mostrando que naõ ha no mundo
                                    quem inteiramente a pessua, e que he fatuidade reprehensivel
                                    haver quem imagine, e se desvaneça que tem este dom completo.             
                           <pb n="23"></pb> Mas por donde darey principio a este asumpto da
                                    sabedoria? Se quero principiar pela consideraçaõ do seu nome,
                                    como ordinariamente fazem os Filosofos, acho que o toma (assim
                                    Divina como he) das couzas sensiveis, a materiaes. E S. Bernardo
                                    especificou que o gosto, e os sabores, saõ os primitivos
                                    authores da sua denominaçaõ. Se quero deixar este principio, e
                                    discorrer pelo da sua difiniçaõ, esta nos naõ pode instruir
                                    melhor, porque della ainda se naõ tem concordado qual he o
                                    verdadeiro Sabio que ella deve, ou pòde formar. A sabedoria,
                                        <seg synch="#FR.3" type="EX"> como diz o Orador Romano no
                                        primeiro livro das obrigaçoens da vida, he a ciencia naõ
                                        sómente das couzas Divinas, e humanas, mas tambem de todas
                                        as cauzas de que ellas dependem; sejame licito referir pelas
                                        suas proprias palavras a authoridade deste grande orador,           
                             porque pode ser que estes papeis vaõ parar por a cazo as
                                        maõs, de quem entende muito bem a lingoa em que elle fallou;
                                            <seg synch="#FR.4" type="ZM"> Sapientia estrerum
                                            divinarum, humanarum, causarumque, quibus he (sic) res
                                            continentur scientia. </seg>

                  </seg> E quem he o que póde ter esta perfeita luz, das couzas
                                    divinas, e humanas, com o conhecimento das cauzas que as
                                    produzem? E aonde se acharà hum espirito, que se possa com razaõ
                                    desvanecer de poder penetrar até donde he precizo chegar, para
                                    estabelecer sobre taes fundamentos esta pertendida ciencia?
                                    Certamente só possue huma conhecida vaidade, e presumpçaõ quem
                                    pertende mostrar que a chega a possuir. O Sabio dos Estoicos he
                                    disto huma prova manifesta, como descreve. Horacio: <seg synch="#FR.5" type="ZM"> Si dives qui sapiens est, Et sutor
                                        bonus, solus formosus, e est Rex. </seg>
                  <pb n="24"></pb> He isto huma fantasma taõ medonha, e taõ grotesca,
                                    que a imaginaçaõ mais fina, e mais apurada a naõ pode deixar de
                                    conceber como huma extravagancia qualificada; porque naõ possue
                                    sómente as boas qualidades que acabo de referir nos sobreditos
                                    termos latinos, mas ainda seria mais perfeito que todos os
                                    Deozes que admittia a sua Religiaõ, exceptuando Jupiter, e
                                    tambem o excederia nisto, em que Jupiter tinha por sua propria
                                    natureza todas as ventagens com que se considerava, e elle as
                                    tinha adquirido por sua propria industria, sem ser inferior em
                                    couza alguma (excepto na immortalidade) a este Deos supremo do
                                    gentilismo, a quem tinhaõ obrigaçaõ de reconhecer. Mas naõ foraõ
                                    só os Estoicos, que cahiraõ neste prodigizio delirio, ainda que
                                    elles foraõ sim os que os levaraõ mais lonje, que todos os           
                         outros Filosofos Paganos, Porque <seg synch="#FR.6" type="EX">
                                        Antistenes, fundador da feita cynica, sustenta como os
                                        outros em Diogones Laercio, que todos os bens que os mais
                                        homens possuem pertencem de direito ao que he sabio, <seg synch="#FR.7" type="ZM"> Sapientis esse quae caeterorum
                                            sunt omnia. </seg>

                  </seg> O outro Diogenes da mesma familia, e a quem a sua pipa
                                    fez tam celebre no mundo, quer que o seu sabio reconheça sómente
                                    as couzas dignas de serem amadas, alem de o fazer de tal forte
                                    impecavel, que segundo o seu conceito, ainda o mesmo sacrilegio
                                    se lhe naõ deve imputar como crime. Suposto que esta invectiva                           
         naõ deixa de entrar na classe das muitas irregulares que nos
                                    deixou escriptas, e concorda muito com a outra de Theodoro
                                    chamado o Atheo, que se acha escripta em Hesychio Illustrio, a
                                    qual por ser alguma couza indecente julgo naõ ser conveniente
                                    expola ao vulgo, e ao commum, em quem de ordinario falta <pb n="25"></pb> o bom senso, ainda que a refere hum Author grave, e
                                    de boa nota, só direy em summa, que aquelle Filosofo entendia
                                    que a prohibiçaõ de muitas couzas dependia mais da oppiniaõ
                                    popular, do que da sua propria natureza, e para os que endendem
                                    latim refiro as suas proprias palavras: <seg synch="#FR.8" type="ZM"> Sapiens furto, adulterio, sacrilegioque deditus
                                        erit, ex uso temporis, horum enim nihil natura turpe, si
                                        tollas popularem de his oppinoem, quae ad continendum in
                                        officio vulgus hominum recepta est. </seg> Os Mesmos
                                    Estoicos foraõ tambem favorecidos por Epicuro no atributo que
                                    davaõ ao seu sabio, de que naõ podia deixar de o ser, depois de
                                    ter huma vez adquirido a sabedoria; <seg synch="#FR.9" type="EX"> assim o refere o texto do que lhe escreveo a vida: <seg synch="#FR.10" type="ZM"> Eum qui simel (sic) fuerit
                                            sapiens, in contrarium habitum transire non posse.
                                        </seg> Mas sem particulariar (sic) mais todas as qualidades
                                        de hum sabio fantastico, nada me parece mais absurdo, que a
                                        razaõ em que se fundaõ para sustentar que nisto naõ entra
                                        nada de Chimerico, e que o Mundo nunca esteve se hum sabio
                                        tal, como elles o reprezentaõ, porque o bem deste universo
                                        quis que a idea que tenhaõ se realizavasse em alguma de suas
                                        partes. </seg>
                  <seg synch="#FR.11" type="EX"> Seneca assim o defendeo, como
                                        Estoico, em diversos lugares, e especialmente no setimo, e
                                        ultimo capitulo do livro da constancia do sabio, intitulado
                                        por alguns o segundo livro da tranquilidade da alma. </seg>
                                    Mas ainda que este grande Filosofo diga, que a condiçaõ da nossa                        
            humana naturezam, e o bem deste mundo requeiraõ que se ache
                                    sempre hum homem taõ Etereoclito como o sabio que elle pertende,
                                    posso contra elle argumentar por tudo o que se ve no mundo, e
                                    por tudo o que experimentamos, e comprehendemos <pb n="26"></pb> da
                                    nossa fraca natureza, que ella nunca produzio, nem poderá
                                    produzir em tempo algum nada que iguale as perfeiçoens de que
                                    elle reveste este simulacro da virtude. Que couza ha no mundo
                                    mais tenue, e mais fraca que o homem por qualquer principio que
                                    se considere? <seg synch="#FR.12" type="EX"> He a nossa vida,
                                        segundo a reprezenta Democrito a Hypocrates, huma
                                        enfermidade continuada, e complicada a respeito das duas
                                        partes que cõstituem o nosso todo, por cauza da sua                                    
    estreita, e intima uniaõ. </seg> E naõ se podendo duvidar de
                                    que isto assim he, de que Elementos se pode dizer se compoem
                                    aquelle sabio inalteravel, e que couza se pode conservar sempre
                                    firme sobre o cubo em q̃ se achar hũa vez colocada? Certamente
                                    descubro hum grande vacuo em todas as razões que pertendem   
                                 estabelecer o contrario, este fosse necessario insistir mais
                                    contra ellas, ainda se pode achar muito mayor contradiçaõ. Mas
                                    ainda q̃ cuido naõ ha muita necessidade de insistir nisto para o
                                    convencimento da verdade, vamos adiantando mais o discurso ainda
                                    q̃ naõ seja se naõ para encher a folha, e acabe adonde acabar.
                                    Os mesmos Estoicos difiniraõ em infinitos lugares, o seu sabio
                                    por hum homem de todas as horas. Estabeleceraõ muitas vezes por
                                    axioma constante, que naõ havia quem fosse prudente, e avizado
                                    em todas occasioens: <seg synch="#FR.13" type="EX">
                    <seg synch="#FR.14" type="ZM"> nemo omnibus horis sapit,
                                        </seg> como disse, Plinio. </seg> Assim sem dificuldade
                                    resulta que aquelle homem de todas as horas se naõ póde realizar
                                    como pertendem, e que naõ póde ser concebido se naõ como huma
                                    fantasma da imaginaçaõ, ou como huma cruz rozada de que quiz
                                    abuzar a credalidade dos mais simples. E na verdade naõ ha mais
                                    que a verdadeira Religiaõ que nos possa sufficientemente
                                    informar no que consiste, ou <pb n="27"></pb> deve consistir toda a
                                    nossa sabedoria, e instruir, e ensinar até donde ella em fim se
                                    deve encaminhar; <seg synch="#FR.15" type="EX"> porque Job
                                        instruido muito bem nesta escola, ensina que sómente a
                                        crença de Deos he que a communica apartando-nos do vicio.
                                            <seg synch="#FR.16" type="ZM"> Timor Domini ipsa est
                                            sapientia, et recedere à malo intelligentia. </seg>
                  </seg>
                  <seg synch="#FR.17" type="EX"> David o confirma, chamando a esta
                                        crença, a porta, ou o principio de toda a sabedoria: <seg synch="#FR.18" type="ZM"> initium sapientiae timor
                                            Domini. </seg>
                  </seg>
                  <seg synch="#FR.19" type="EX"> E seu filho Salomaõ nos                                   
     representa em o seu Ecclesiastico homens velhos, coroados
                                        com huma siencia unida à crença de Deos; <seg synch="#FR.20" type="ZM"> Corona senum multa peritia, gloria illorum
                                            timor Dei. </seg>

                  </seg> Esta sem duvida deve ser a razaõ porque o Ecclesiastes
                                    profere livremente, que a verdadeira sabedoria nunca entra em
                                    hũa alma perversa, nem naquelles a quem tem subjugado o vicio:
                                        <seg synch="#FR.21" type="ZM"> in malevolam animam non
                                        intrabit sapientia, nec habitabit in corpore subdito
                                        peccatis. </seg>
                  <seg synch="#FR.22" type="EX"> E na verdade, he a sabedoria hum
                                        Dom do Ceo, com que gratifica, e premea aquelles a quem quer
                                        encher de felicidade, mas verdadeiramente poucos a recebem,
                                        como Salomaõ, dormindo; </seg> ou para melhor dizer foi o
                                    unico a quem se concedeo por este modo, porque vemos do mesmo
                                    lugar em que se acha escripto este milagre, que nem antes, nem
                                    depois delle se vio no mundo outro semelhante, antes, <seg synch="#FR.23" type="ZM"> nec post eum similis non surrexit.
                                    </seg> E assim acabo, porque tambem já o papel esta no fim,
                                    aplicando para aquelles espiritos cheyos de vaidade, e
                                    prezumpçam que entendem se acham possuindo huma sabedoria
                                    incontrastavel, com o documento que o mesmo sabio Rey Salomam
                                    nos deixou escripto em seus proverbios, que nam basta conhecer a
                                    sabedoria, porque isto naõ he mais que saber simplesmente a sua
                                    primeira parte <pb n="28"></pb> mas que devemos ao mesmo tempo fazer
                                    toda a deligencia para esta se possuir com todas as suas
                                    qualidades inseparaveis, sem desvanecimento, sem presumpçaõ:
                                        <seg synch="#FR.24" type="ZM"> principium sapientiae posside
                                        sapientiam, in omni possessine tua acquire prudentiam.
                                    </seg> O certo he que a prudencia he hum grande final
                                    diagnostico para se conhecer a sabedoria, pois estas duas couzas
                                    ordinariamente passam como synonymas, tanto no uzo commum de
                                    falar, como em muitos lugares da sagrada Escriptura; e assim
                                    devemos confessar que naõ he o mesmo ser rico, que sabio; antes
                                    o contrario produzem as riquezas como diz hum proverbio Latino:
                                        <seg synch="#FR.25" type="ZM"> Fortuna quem nimium fovet
                                        stultum facit. </seg> E que sem a prudencia nem ha
                                    sabedoria, nem valem nada as riquezas; e para dezengano destos
                                    ricos presumptuozos, e ignorantes, porque lhe falta a prudencia,
                                    lhe offereço estes quatro versinhos, que bem expressam o
                                    caracter que merecem no mundo civil: <seg synch="#FR.26" type="ZM"> Sint tibi divite, sit larga, munda suppellex
                                        <lb></lb>Esse tamen vel sic bestia magna potes. <lb></lb>Nam
                                        quidquid fueris, nisi sit prudentia tecum, <lb></lb>Magna quidem
                                        dico bestiam semper eris. </seg>
                </seg> Lisboa: Na Officina de Pedro Ferreira, Impressor da
                                Augustissima Rainha Nossa Senhora. </seg>
            </ab>
          </div>
        </body>
      </text>
    </group>
  </text>
</TEI>
