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        <author>Anónimo (Bento Morganti)</author>
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        <edition>Moralische Wochenschriften</edition>
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          <name>Gunter Vasold</name>
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                        Universität Graz</orgName>
        </publisher>
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          <orgName ref="http://informationsmodellierung.uni-graz.at">Zentrum für
                        Informationsmodellierung, Universität Graz</orgName>
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        <pubPlace>Graz</pubPlace>
        <date when="2018-10-04">04.10.2018</date>
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        <bibl>Anónimo (Morganti, Bento): Segunda Collecçam dos Papeis Anonymos. Lisboa:
                    Pedro Ferreira, 1753, 97-104 </bibl>
        <bibl type="Einzelausgabe" xml:id="OAn">
          <title level="j">O Anonymo. Repartido pelas
                        semanas, para divertimento e utilidade do publico</title>
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          <date>1753</date>
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<p rend="EU"><milestone unit="E1" xml:id="FR.1"></milestone></p>
<div1><head>N.° 13.</head>
<div2><head><hi rend="italic">Inteligencia de huma Inscripçaõ Antiga </hi></head>
<p rend="SO"><hi rend="smallcaps"><milestone unit="E2" xml:id="FR.2"></milestone> <milestone unit="MT" xml:id="FR.3"></milestone> No</hi> ultimo discurso que sahio, insinuei ao publico a noticia de huma inscripçaõ sepulchral que se achou nesta Cidade, expressando juntamente o quanto se devia conservar, e estimar huma tal memoria, nam só para credito da antiguidade, mas tambem pela raridade com que estava escripta. Disse tambem aonde estava a duvida da sua verdadeira inteligencia, e que tinha recorrido a varias pessoas que julgava intelligentes, e com alguma noticia maes distinta da erudiçam antiga para ouvir seus pareceres; comuni-<pb n="98"></pb>calos ao publico, concluindo delles alguma cousa com que podesse estabelecer huma razam ao menos de verosimilidade. Nada disto consegui, até que por ultimo expuz geralmente aos olhos de todos a mesma inscripçam, e a duvida, sem querer resolver, porque como toda a a modestia, e comedimento tratei de esperar que houvesse algum curiozo que particularmente me mandasse algum parecer sobre isto para delle me aproveitar, e depois fazer á republica das letras este beneficio, que em outra qualquer parte do mundo naõ deixaria de se estimar, quando nesta conheço que he o de que se faz menos cazo; porque ha muita gente que entende ser muito inferior a utilidade de pulir o juizo, e o engenho, à outra de accumular ambiciozamente lucros de alguma occupaçaõ rendoza; o que entende ser incompativel a aplicaçaõ à historia antiga ou Ecclesiastica, ou Profana com outro qualquer estudo. Mas como para estes me nam canso, só pertendo falar com os que sabem ouvir; e assim já que me metti em dar a referida noticia, pareceme que tenho tambem a obrigaçaõ de dizer o meu sentimento a todo o risco; naõ temo a censura porque sou o primeiro poderaõ os criticos, malevolos dizer que naõ he de seu gosto a inteligencia que offereço, mas lembrem-se que dous mezes, me <pb n="96"></pb> naõ cõmunicaraõ socorro algum para outra melhor, com o que fica sendo sempre superior o meu trabalho á sua malidicencia: os Doutos benignamente me ham de tratar, conhecendo a utilidade deste trabalho, e que nestas materias quando se naõ dê huma razam verdadeira, porque muitas vezes se naõ póde achar na historia a narraçaõ de hum facto particular de hum Questor de huma Provincia tam remota da cabeça do Imperio Romano, como tudo muito bem se satisfazem quando se explica qualquer couza deste genero, de alguma sorte que possa ser provavel, e verosimel, estabelecida com alguma razam forte, e bem fundada em cauzas naturaes, ou comprovada com algum exemplo deduzido da historia, por donde se insira huma boa razam de semelhança. <milestone rend="closer" unit="MT"></milestone> </p>
<p>Deixo de referir algumas explicaçoens, que familiarmente falando, deram algumas pessoas que no commum conceito passam por bem instruidas, porque sam de huma ordem tam humilde que me naõ atrevo a publicalas; mas fique isto de parte porque eu só quero aproveitar o tempo com o util. Volteime para os Estrangeiros, porque sei que as suas Naçoens sam inclinadas ao estudo da antiguidade, e cada hum em sua respectiva prosissam cuida em saber maes do que o que sómente diz <pb n="100"></pb> respeito a ella, e assim <milestone unit="AE" xml:id="FR.4"></milestone> tive a occaziaõ de preguntar a hum engenhozo Estrangeiro muito amante das bellas letras, e ainda que isto foi tambem conversando familiarmente, elle me deo huma razam tam boa, que entendi obraria com injustiça se a naõ manifestasse, ou se aquizesse adoptar como minha; e se naõ tivesse descoberto à custa do meu trabalho outra que se estabelece com hum lugar da historia antiga, certamente com ella me havia de acomodar muito bem, e o publico entendo naõ deixaria de ficar satisfeito. Disse pois este estudiozo sugeito: <milestone unit="D" xml:id="FR.5"></milestone> Que primeiro de tudo se devia saber, que os antigos, principalmente no tempo do Paganismo, tudo atribuiaõ ao fado, porque criam verdadeiramente que todas as disposiçoens ou de felicidade, ou de desgraça, eraõ filhas só do acazo, e nam da providencia. Que tinham tambem por costume no tempo do inverno acender certos brazeiros com carvam de sobro, e que estes para melhor rescadarem o ar que estava nas cazas, os suspendiam no tecto dellas por huma cadea; pelo que podia muito bem ser, que succedendo a este Questor ficar maes tempo aplicado a algum negocio, sem advertir que o fogo consumindo, ou ratificando o ambiente de sorte que o ar subtil naõ podesse servir para respiraçaõ, se achou na caza morto, por esta urgencia <pb n="101"></pb> do fado, que sempre se sepunha concorresse para a cazualidade do descuido que teve, e q̃ a chando o seus pays assim sem vida, mandaraõ gravar na lapide sepulchral que fizeraõ à sua memoria a origem que tinha tido a sua morte, e que por este motivo se lia na Inscripçaõ <milestone unit="ZM" xml:id="FR.6"></milestone> <hi rend="italic">Urgente fato pruna in pensili positi ipse sanum necavit</hi> <milestone rend="closer" unit="ZM"></milestone> se porque tambem esta expressaõ de tomar a morte pelas propias mãos era uzual entre os antigos, com relaçaõ sempre as disposiçoens do fado. Fizica, e historicamente quanto a mim estava satisfeita a duvida: mas passemos agora á minha inteligencia, que sem desprezar a antecedente, me parece naõ ser menos bem estabelecida. </p>
<p>Devemos tambem primeiramente advertir q̃ os antigos se costumavam justificar para com os Deozes, de qualquer delicto de que eraõ acuzados injustamente, testeficando por meyo do fogo, e do incenso a sua innocencia; e ainda que deste modo de justificaçaõ naõ haja muitas provas, <milestone unit="EX" xml:id="FR.7"></milestone> ha como tudo a que se encontra em Spartiano referido por Diam Callio escrevendo do Imperador Hadriano; porque mandando este tirar a vida a Severiano na idade de noventa annos, por queixas que delle injustamente se fizeram, antes de receber a morte disse: uzemos das palavras do mesmo Diaõ: <milestone unit="ZM" xml:id="FR.8"></milestone> <hi rend="italic">sed Severianus, prinsquam jugularetur, ignem</hi> <pb n="102"></pb> <hi rend="italic">poscit, atque incenso thure, vos, inquit, o Dii testor, inoxium me esse. <milestone rend="closer" unit="ZM"></milestone></hi> Segundo este costume me parece que assim succedeo na morte deste nosso Questor; <milestone rend="closer" unit="EX"></milestone> <milestone unit="EX" xml:id="FR.9"></milestone> ou porque o Imperador, ou Senado Romano lhe mandaria tirar a vida, ou porque elle sabendo as acuzaçoens serem injustas, naõ quiz esperar o Decreto fatal de perder a vida nas maõs alheas, testificando aos Deozes pelo incenso, e pelo fogo a sua innocencia elle mesmo se matou, tomando generozamente por suas proprias mãos a morte, assim como de Catam Uticense refere Horacio Catonis <milestone unit="ZM" xml:id="FR.10"></milestone> <hi rend="italic">nobile lethum, <milestone rend="closer" unit="ZM"></milestone></hi> sem nos afastarmos de que sempre quizeraõ mostrar que nisto concorreo a urgencia do fado, ou do destino, que tinhaõ por cauza proxima de todos os seus acontecimentos. <milestone rend="closer" unit="EX"></milestone> </p>
<p>Que naõ fosse brazeiro de comodidade, mas sim Turibulo, ou outro instromento proprio do ministerio de invocar os Deozes se colhe da palavra <hi rend="italic">pensile</hi> a que os Gregos chamam <hi rend="italic">demiaterion</hi> que he o mesmo que Turibulo, suspensorio, ou vaso proprio para o fogo, e incenso dos sacraficios. E assim concluo que me parece, que occupando este homem hum emprego publico, como era o de receber as rendas que em suas respectivas Provincias pertenciaõ aos Romanos, sendo mancebo, vigorozo, e cheyo de honra quiz antes sofrer a morte voluntario, do que sogeitarse a ella por <pb n="103"></pb> meyo de algum Decreto extrahido por informaçoens sinistras; e que acendendo o Turibulo, suspensorio, ou vazo dedicado ao serviço dos Deozes, justificando para com elles a sua innocencia, recebeo por suas proprias mãos a morte. </p>
<p>Que esta Inscripçaõ sepulchral he rara, naõ ha duvida alguma, pois com semelhante expressam em toda a historia antiga, e em todos os authores, que cuidadozamente procuraraõ ajuntar todas as Incripçoens lapidares, se naõ encontra maes do que huma semelhante à nossa de que tratamos, a qual <milestone unit="EX" xml:id="FR.11"></milestone> descobrio em Parma Andrè Naugerio no anno de 1524. e se achou copiada nas memorias de Pedro Bembo, da qual depois fez tambem mençaõ Erico Puteano em huma carta que escreveo ao Pedro Cantonio Juris consulto da Cidade de Milaõ, no anno 1599. e naõ sei que haja outras; pelo que fazendo-se esta rara, devia ser conservada com toda a estimaçam. <milestone rend="closer" unit="EX"></milestone> </p>
<p rend="SO">Segundo o que fica dito me parece se deve entender a Inscripçaõ no fórma seguinte. </p>
<p><hi rend="italic"><milestone unit="EX" xml:id="FR.12"></milestone> Diis Manibus</hi> (este era o titulo que ordinariamente mandavaõ gravar nas memorias sepulcraes que faziam os Romanos, invocando para tudo os Deozes) <hi rend="italic">Lucio Varram, e Fulvia Elia mandaram fabricar este monumento para si e para memoria de seu filho Marco Varram Questor, que </hi><pb n="104"></pb> <hi rend="italic">na idade</hi> <hi rend="italic">de trinta e tres annos, pela urgencia do fado, justificando-se para com os Deozes enchendo o Turibulo de brazas, com o fogo, e com o incenso, estando em perfeita saude, se matou por suas proprias mãos</hi>. <milestone rend="closer" unit="EX"></milestone></p>
<p>As sobrediras inteligencias sam as que acho maes naturaes, e verosimeis, e com que entendo podem ficar satisfeitos os leitores; a quem naõ agradarem façaõ outras melhores; e eu serei o primeiro que lhe agradeça este beneficio, porque estimo muito maes o alheyo quando he bom, do q̃ o meu ainda quando me pareça melhor, e naõ sou dos que se persuadem que só o que elles dizem he certo, e incontrastavel: o que naõ espero he critica severa, pois sempre cuidei em naõ exceder os termos da modestia, cujo excesso nos escriptos entre os Doutos foi sempre abominavel, e se algumas vezes acha lugar, he nos ignorantes, ou em animos malevolos, e mal dizentes, que attacam indeferentemente as obras, e os sogeitos, sem mais cauza que a irregularidade de seus proprios genios. <milestone rend="closer" unit="D"></milestone> <milestone rend="closer" unit="AE"></milestone> <milestone rend="closer" unit="E2"></milestone></p>
<p>Na Officina de Pedro Ferreira, Impressor da Augustissima Rainha Nossa Senhora. <milestone rend="closer" unit="E1"></milestone></p>
<p></p></div2></div1></body>
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                <seg type="U1">N.° 13.</seg> Inteligencia de huma Inscripçaõ Antiga             
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                  <seg synch="#FR.3" type="MT"> No ultimo discurso que sahio,
                                        insinuei ao publico a noticia de huma inscripçaõ sepulchral
                                        que se achou nesta Cidade, expressando juntamente o quanto
                                        se devia conservar, e estimar huma tal memoria, nam só para                                      
  credito da antiguidade, mas tambem pela raridade com que
                                        estava escripta. Disse tambem aonde estava a duvida da sua
                                        verdadeira inteligencia, e que tinha recorrido a varias
                                        pessoas que julgava intelligentes, e com alguma noticia maes
                                        distinta da erudiçam antiga para ouvir seus pareceres;
                                            comuni-<pb n="98"></pb>calos ao publico, concluindo delles
                                        alguma cousa com que podesse estabelecer huma razam ao menos
                                        de verosimilidade. Nada disto consegui, até que por ultimo
                                        expuz geralmente aos olhos de todos a mesma inscripçam, e a
                                        duvida, sem querer resolver, porque como toda a a modestia,
                                        e comedimento tratei de esperar que houvesse algum curiozo
                                        que particularmente me mandasse algum parecer sobre isto
                                        para delle me aproveitar, e depois fazer á republica das
                                        letras este beneficio, que em outra qualquer parte do mundo
                                        naõ deixaria de se estimar, quando nesta conheço que he o de
                                        que se faz menos cazo; porque ha muita gente que entende ser
                                        muito inferior a utilidade de pulir o juizo, e o engenho, à
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                                        historia antiga ou Ecclesiastica, ou Profana com outro
                                        qualquer estudo. Mas como para estes me nam canso, só
                                        pertendo falar com os que sabem ouvir; e assim já que me
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                                        de huma Provincia tam remota da cabeça do Imperio Romano,
                                        como tudo muito bem se satisfazem quando se explica qualquer                                        
couza deste genero, de alguma sorte que possa ser provavel,
                                        e verosimel, estabelecida com alguma razam forte, e bem             
                           fundada em cauzas naturaes, ou comprovada com algum exemplo
                                        deduzido da historia, por donde se insira huma boa razam de
                                        semelhança. </seg> Deixo de referir algumas explicaçoens,
                                    que familiarmente falando, deram algumas pessoas que no commum
                                    conceito passam por bem instruidas, porque sam de huma ordem tam
                                    humilde que me naõ atrevo a publicalas; mas fique isto de parte
                                    porque eu só quero aproveitar o tempo com o util. Volteime para
                                    os Estrangeiros, porque sei que as suas Naçoens sam inclinadas
                                    ao estudo da antiguidade, e cada hum em sua respectiva prosissam
                                    cuida em saber maes do que o que sómente diz <pb n="100"></pb>
                                    respeito a ella, e assim <seg synch="#FR.4" type="AE"> tive a
                                        occaziaõ de preguntar a hum engenhozo Estrangeiro muito
                                        amante das bellas letras, e ainda que isto foi tambem
                                        conversando familiarmente, elle me deo huma razam tam boa,
                                        que entendi obraria com injustiça se a naõ manifestasse, ou
                                        se aquizesse adoptar como minha; e se naõ tivesse descoberto
                                        à custa do meu trabalho outra que se estabelece com hum
                                        lugar da historia antiga, certamente com ella me havia de
                                        acomodar muito bem, e o publico entendo naõ deixaria de
                                        ficar satisfeito. Disse pois este estudiozo sugeito: <seg synch="#FR.5" type="D"> Que primeiro de tudo se devia
                                            saber, que os antigos, principalmente no tempo do
                                            Paganismo, tudo atribuiaõ ao fado, porque criam
                                            verdadeiramente que todas as disposiçoens ou de
                                            felicidade, ou de desgraça, eraõ filhas só do acazo, e
                                            nam da providencia. Que tinham tambem por costume no
                                            tempo do inverno acender certos brazeiros com carvam de
                                            sobro, e que estes para melhor rescadarem o ar que
                                            estava nas cazas, os suspendiam no tecto dellas por huma
                                            cadea; pelo que podia muito bem ser, que succedendo a
                                            este Questor ficar maes tempo aplicado a algum negocio,
                                            sem advertir que o fogo consumindo, ou ratificando o
                                            ambiente de sorte que o ar subtil naõ podesse servir
                                            para respiraçaõ, se achou na caza morto, por esta
                                            urgencia <pb n="101"></pb> do fado, que sempre se sepunha     
                                       concorresse para a cazualidade do descuido que teve, e
                                            q̃ a chando o seus pays assim sem vida, mandaraõ gravar
                                            na lapide sepulchral que fizeraõ à sua memoria a origem
                                            que tinha tido a sua morte, e que por este motivo se lia
                                            na Inscripçaõ <seg synch="#FR.6" type="ZM"> Urgente fato
                                                pruna in pensili positi ipse sanum necavit </seg> se
                                            porque tambem esta expressaõ de tomar a morte pelas             
                               propias mãos era uzual entre os antigos, com relaçaõ
                                            sempre as disposiçoens do fado. Fizica, e historicamente
                                            quanto a mim estava satisfeita a duvida: mas passemos
                                            agora á minha inteligencia, que sem desprezar a
                                            antecedente, me parece naõ ser menos bem estabelecida.
                                            Devemos tambem primeiramente advertir q̃ os antigos se
                                            costumavam justificar para com os Deozes, de qualquer
                                            delicto de que eraõ acuzados injustamente, testeficando
                                            por meyo do fogo, e do incenso a sua innocencia; e ainda
                                            que deste modo de justificaçaõ naõ haja muitas provas,
                                                <seg synch="#FR.7" type="EX"> ha como tudo a que se
                                                encontra em Spartiano referido por Diam Callio
                                                escrevendo do Imperador Hadriano; porque mandando
                                                este tirar a vida a Severiano na idade de noventa
                                                annos, por queixas que delle injustamente se
                                                fizeram, antes de receber a morte disse: uzemos das
                                                palavras do mesmo Diaõ: <seg synch="#FR.8" type="ZM"> sed Severianus, prinsquam jugularetur, ignem <pb n="102"></pb> poscit, atque incenso thure, vos,
                                                  inquit, o Dii testor, inoxium me esse. </seg>
                                                Segundo este costume me parece que assim succedeo na
                                                morte deste nosso Questor; </seg>
                      <seg synch="#FR.9" type="EX"> ou porque o Imperador, ou
                                                Senado Romano lhe mandaria tirar a vida, ou porque
                                                elle sabendo as acuzaçoens serem injustas, naõ quiz
                                                esperar o Decreto fatal de perder a vida nas maõs
                                                alheas, testificando aos Deozes pelo incenso, e pelo
                                                fogo a sua innocencia elle mesmo se matou, tomando
                                                generozamente por suas proprias mãos a morte, assim
                                                como de Catam Uticense refere Horacio Catonis <seg synch="#FR.10" type="ZM"> nobile lethum, </seg>
                                                sem nos afastarmos de que sempre quizeraõ mostrar
                                                que nisto concorreo a urgencia do fado, ou do
                                                destino, que tinhaõ por cauza proxima de todos os                                    
            seus acontecimentos. </seg> Que naõ fosse brazeiro
                                            de comodidade, mas sim Turibulo, ou outro instromento
                                            proprio do ministerio de invocar os Deozes se colhe da
                                            palavra pensile a que os Gregos chamam demiaterion que
                                            he o mesmo que Turibulo, suspensorio, ou vaso proprio  
                                          para o fogo, e incenso dos sacraficios. E assim concluo
                                            que me parece, que occupando este homem hum emprego
                                            publico, como era o de receber as rendas que em suas
                                            respectivas Provincias pertenciaõ aos Romanos, sendo
                                            mancebo, vigorozo, e cheyo de honra quiz antes sofrer a
                                            morte voluntario, do que sogeitarse a ella por <pb n="103"></pb> meyo de algum Decreto extrahido por
                                            informaçoens sinistras; e que acendendo o Turibulo,
                                            suspensorio, ou vazo dedicado ao serviço dos Deozes,
                                            justificando para com elles a sua innocencia, recebeo      
                                      por suas proprias mãos a morte. Que esta Inscripçaõ
                                            sepulchral he rara, naõ ha duvida alguma, pois com
                                            semelhante expressam em toda a historia antiga, e em
                                            todos os authores, que cuidadozamente procuraraõ ajuntar
                                            todas as Incripçoens lapidares, se naõ encontra maes do
                                            que huma semelhante à nossa de que tratamos, a qual <seg synch="#FR.11" type="EX"> descobrio em Parma Andrè
                                                Naugerio no anno de 1524. e se achou copiada nas
                                                memorias de Pedro Bembo, da qual depois fez tambem
                                                mençaõ Erico Puteano em huma carta que escreveo ao
                                                Pedro Cantonio Juris consulto da Cidade de Milaõ, no
                                                anno 1599. e naõ sei que haja outras; pelo que
                                                fazendo-se esta rara, devia ser conservada com toda
                                                a estimaçam. </seg> Segundo o que fica dito me
                                            parece se deve entender a Inscripçaõ no fórma seguinte.
                                                <seg synch="#FR.12" type="EX"> Diis Manibus (este
                                                era o titulo que ordinariamente mandavaõ gravar nas
                                                memorias sepulcraes que faziam os Romanos, invocando
                                                para tudo os Deozes) Lucio Varram, e Fulvia Elia
                                                mandaram fabricar este monumento para si e para
                                                memoria de seu filho Marco Varram Questor, que <pb n="104"></pb> na idade de trinta e tres annos, pela
                                                urgencia do fado, justificando-se para com os Deozes
                                                enchendo o Turibulo de brazas, com o fogo, e com o
                                                incenso, estando em perfeita saude, se matou por
                                                suas proprias mãos. </seg> As sobrediras
                                            inteligencias sam as que acho maes naturaes, e
                                            verosimeis, e com que entendo podem ficar satisfeitos os
                                            leitores; a quem naõ agradarem façaõ outras melhores; e
                                            eu serei o primeiro que lhe agradeça este beneficio,
                                            porque estimo muito maes o alheyo quando he bom, do q̃ o
                                            meu ainda quando me pareça melhor, e naõ sou dos que se            
                                persuadem que só o que elles dizem he certo, e
                                            incontrastavel: o que naõ espero he critica severa, pois
                                            sempre cuidei em naõ exceder os termos da modestia, cujo
                                            excesso nos escriptos entre os Doutos foi sempre
                                            abominavel, e se algumas vezes acha lugar, he nos
                                            ignorantes, ou em animos malevolos, e mal dizentes, que             
                               attacam indeferentemente as obras, e os sogeitos, sem
                                            mais cauza que a irregularidade de seus proprios genios.
                                        </seg>
                  </seg>
                </seg> Na Officina de Pedro Ferreira, Impressor da Augustissima
                                Rainha Nossa Senhora. </seg>
            </ab>
          </div>
        </body>
      </text>
    </group>
  </text>
</TEI>
