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        <title>Num.°.3</title>
        <author>Anónimo (Bento Morganti)</author>
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        <edition>Moralische Wochenschriften</edition>
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          <name>Klaus-Dieter Ertler</name>
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                        Universität Graz</orgName>
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          <orgName ref="http://informationsmodellierung.uni-graz.at">Zentrum für
                        Informationsmodellierung, Universität Graz</orgName>
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        <bibl>Anónimo (Morganti, Bento): Segunda Collecçam dos Papeis Anonymos. Lisboa:
                    Pedro Ferreira, 1753, 17-24 </bibl>
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          <title level="j">O Anonymo. Repartido pelas
                        semanas, para divertimento e utilidade do publico</title>
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          <date>1753</date>
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<p rend="EU"><milestone unit="E1" xml:id="FR.1"></milestone></p>
<div1><head>N.°.3</head>
<div2><head><hi rend="italic">Sobre a Escultura, ou Estatuaria. </hi></head>
<p rend="SO"><hi rend="smallcaps"><milestone unit="E2" xml:id="FR.2"></milestone> Ja</hi> que principiei a falar das bellas Artes intimando ao publico a sua utilidade, a sua necessidade, e a estimaçaõ, e amor que a ellas devemos ter, he justo que acabe esta materia, que me parece naõ deixa de ser recomendavel na memoria dos homens. Faley da Arquitectura, e da Pintura, e cuido q̃ mostrei, se naõ tudo, ao menos o q̃ bastava a respeito destas duas Artes, rezervando para agora tratar da sua irman, ou companheira a Esculptura, por ser igualmente necessaria para o adorno do mundo politico. Nam faltará quem diga, q̃ pouca, ou nenhua utilidade póde rezultar de hum discurso desta natureza, mas será porque ou ignoram a utilidade desta illustre Arte, ou porque se naõ querem instruir no conhecimento do util, e só lhe <pb n="18"></pb> agrada o que superficialmente os diverte sem reflectir em qual deve ser a justa, e prudente diversam de hum espirito polido. Estas instrucçoens naõ tam para provocar o rizo, sam sim para excitar a reflexam; sam para introduzir a substancia, e naõ para dar lugar aos accidentes. Se á mais tempo tivesse o publico o socorro destes discursos, e os fizesse familiares, talvez que o commum da Naçam se achasse mais bem instruido em tudo o que póde dizer respeito à vida civil, porque esta liçam naõ deixa certamente de ser util a todo o genero de pessoas, exceptuando os doutos porque estes a nam necessitam; e como se pódem animar os genios para com fervor se aplicarem a ser excellentes em qualquer arte se ignoram as conveniencias, e a grande estimaçaõ que ellas lhe podem comunicar? o dezejo da gloria he quasi innato em todas as creaturas racionaes, e como o commum ignora os principios, e meyos proporcionados para a adquirir em suas respectivas qualidades, e juntamente quaes sejam as ventagens de huma arte, nam se podem applicar a ella com fervor nam tendo este conhecimento antecipado. Assim diga cada hum o que quizer, que destas censuras naõ faço cazo, satisfaço-me sim que os homens doutos, e inteligentes aprovem este trabalho porque só estes sam para mim os veneraveis censores que me devem animar, ou dezanimar. </p>
<p>He tam recomendavel, e excellente a Arte de Esculptura, que bem se lhe póde dar o nome da immortal, e he quasi impossivel mostrar com palavras qual seja a sua utilidade. Esta he aquella Arte, que faz tam dilatada, e permanente a nossa breve, a caduca vida, que os homens pelo beneficio das Estatuas nam sómente renacem a huma nova vida, mas de certo modo resucitam para viver eternamente: utilidade que já Tertuliano reconheceu no seu tempo dizendo, que todos aquelles a quem se dedicavam Estatuas conseguiam huma duraçam eterna, e que de alguma sorte se revocavaõ para a vida. </p>
<p><pb n="19"></pb> <milestone unit="EX" xml:id="FR.3"></milestone> O Grande Filosofo Diogenes nam menos divertido que sabio achou huma estranha utilidade nos marmores esculpidos; pelo que ordinariamente se achava nos sumptuozos Porticos de Athenas fazendo petiçoens, e conservando com as Estatuas q̃ nelles estavam; alguns lhe perguntavam que esperava tirar daquellas frias, e mudas pedras, como quem se fazia sem familiar, mas engenhozamente respondia, tiro a utilidade de me acostumar a sofrer quando pede me acostumar a sofrer quando peço alguma couza a alguem, e me nam responde, ou nada me concede do que peço. <milestone rend="closer" unit="EX"></milestone> Ainda que esta reposta he hum grande documento para a moral, pelo muito que ella nos instrue para o sofrimento, ainda ha outra que melhor nos instrue para a emulaçaõ da gloria, ainda que nacida do mesmo principio. <milestone unit="EX" xml:id="FR.4"></milestone> Passava Julio Cesar Questor para Espanha, e chegando a Cadiz vio no Tempolo de Ercules a Estatua de Alexandre, e voltando-se para aquelle mudo marmore se poz com elle e falar mais com os suspiros, que com as palavras, e perguntando pela razam respondeo naõ como Diogenes, mas sim como Augusto, que se afligia da sua demaziada froxidam, por nam ter feito couza digna de memoria até a idade emque aquelle grande Eroe jà tinha subjugado huma grande parte do mundo. Foi aquella pedra capas de lançar vigorozas faiscas, que acenderam no coraçam do generozo Cesar multiplicadas lavaredas de honra, e com a espada nam sómente igualou mas com dizem muitos, que excedeo ao mesmo Alexandre. <milestone rend="closer" unit="EX"></milestone> </p>
<p>Nem só Cesar se vio este effeito, mas <milestone unit="EX" xml:id="FR.5"></milestone> Salustio refere que o mesmo sucedeu a Q. Maximo, e P. Scipiam; pelo que nam sam mudas, e inuteis, como se persuade o vulgo, as Estatuas dos Enep: assim o disse Ovidio: </p>
<p rend="MO"><hi rend="italic"><milestone unit="ZM" xml:id="FR.6"></milestone> Crede mihi plus est, quam quod videatur Imago. <milestone rend="closer" unit="ZM"></milestone> <milestone rend="closer" unit="EX"></milestone></hi></p>
<p rend="SO">Tem voz, e falam tambem os simulacros; e para e ouvir a voz de hum marmore basta que hum animo nobre, e ge-<pb n="20"></pb>nerozo olhe para elle com reffexam. Muitos entendem que Roma deveu principalmente à Arte da Esculptura toda a gloria dos seus mais invictos, e mais celebres Cidadãos; porque <milestone unit="EX" xml:id="FR.7"></milestone> se Mucio Suvola conservou no meyo das chamas immovel o seu generoso braço: <milestone rend="closer" unit="EX"></milestone> <milestone unit="EX" xml:id="FR.8"></milestone> se Curcio montado no seu cavalo se percipitou intrepido nas profundidades de hum volcano para livrar a sua Patria; <milestone rend="closer" unit="EX"></milestone> <milestone unit="EX" xml:id="FR.9"></milestone> se Oracio sobre huma ponte se oppoz a hum exercito, e formou do seu peito escudo a toda huma Cidade; <milestone rend="closer" unit="EX"></milestone> a gloria, e a utilidade de tam grandes emprezas se deveu á Arte da Esculptura; pois só a ambiçam da honra daquella Estatua que o Senado erigia aos homens valerosos, e illustres bastou para dezafiar taõ valerosamente a morte, Curcio no precipicio, Murcio no fogo, e Oracio no rio, como escreve hum historiador antigo. </p>
<p>A imitaçaõ das armas reconhecem tambem as letras, das Estatuas o seu augmento. Animaram-se para o estudo, e para a virtude os Romanos, vendo que nam só aos seus Cidadãos, mas ainda so Estrangeiro Ermodoro interprete das leys, erigio o Senado Estatuas: <milestone unit="EX" xml:id="FR.10"></milestone> afervorou os immortaes sequazes das Muzas a consideraçaõ de que Arcadio, e Onorio Imperadores mandaram levantar no meyo da Praça o simulacro de Claudiano; afoitaram-se os Oradores com a reflexam de que o povo Romano expoz ao publico huma illustre Estatua a hum celebre Orador de Athenas com esta tam nobre, como gloriosa inscripçaõ: <milestone unit="ZM" xml:id="FR.11"></milestone> <hi rend="italic">Proeresio Regi eloquentiae</hi> <milestone rend="closer" unit="ZM"></milestone> R. R. R. P. que quer dizer: Roma Rainha das cousas mandou colocar esta estatua a Proerefio Rey da eloquencia. <milestone rend="closer" unit="EX"></milestone> </p>
<p>Mas deixando de parte os leterados, e os Heroes; ainda dos mesmos marmores, por beneficio desta Arte da Esculptura, se pòde considerar a favor dos Monarcas huma mayor utilidade. Ordinariamente vivem quasi todos os povos muito satisfeitos debaixo do dominio de algum <pb n="21"></pb> Soberano; mas a huns, e outros sempre molesta e desconçola hum certo pezar; os subditos cheyos de amor se afligem, porque tendo dado o imperio sobre si mesmos nam tem mais que offerecer ao seu amado Principe: o Principe porque colocado no auge de toda a grandeza, tem a infelicidade, de que lhe naõ resta mais que esperar: mas a Esculptura entre as suas utilidades achou o excellente modo de desterrar toda esta afliçam aos Monarcas, ou fundindo-se nos bronzes, ou ao vivo, ou ao defunto Principe huma immortal Estatua de honra, acham-se os subditos depois da inteira dadiva de si mesmos, no estado de augmentar a mesma dadiva; com o que fica tambem ao Principe ainda a esperança. álem da sua sublime condiçaõ a eternidade da gloria. <milestone unit="EX" xml:id="FR.12"></milestone> Assim remediou o Povo Romano o seu pezar para com o seu optimo Principe Marco Aurelio Antonio a quem erigio aquella famoza Estatua Equestre, eterno monumento da sua gloria. Com tam illustres utilidades da Estatuaria, a beneficio de cujas excellentes obras despertaõ as letras, e as Armas, e por quem vivem contentes da sua sorte os Povos, e os Reys, naõ pòde causar admiraçaõ se Grecia sómente em huma de suas Cidades contava mais de setecentas Estatuas; e Roma para se fazer mais gloriosa erigio tantas, que diz Frigelio, que quasi se nam podiaõ contar, o que deu motivo para certo Author deixar escrito, que Roma tinha dous povos hum de homens, outro de Estatuas. <milestone rend="closer" unit="EX"></milestone> </p>
<p>Por todas estas utilidades naõ pòdem deixar os homens de confessar muito que saõ devedores a estas utilissimas artes; e muito mais lhe devem à porporçaõ do muito, que saõ necessarias; pois sem ellas ou viviriam como brutos, ou de nenhum modo poderiam viver no conceito de Tullio: <milestone unit="ZM" xml:id="FR.13"></milestone> <hi rend="italic">Artes fine quibus vita omnino nulla esse potuisset. <milestone rend="closer" unit="ZM"></milestone></hi> E na verdade parece que he; porque se con-<pb n="22"></pb>siderarmos, que depois que o nosso primeiro Pay perdeu com a innocencia a morada do Paraizo terrestre, expostos os homens à inclemencia das Estaçoens da mesma sorte, que as Arvores no meyo dos campos, naõ foi sómente util, mas ainda necessario o soccorro, e uso de taõ bellas Artes. Nam tendo o homem outro tecto mais, que o Ceo, para se reparar das infestas nuvens, que se desfaziaõ em chuva, e dos intensos ardores do Sol, recorreu o humano engenho a huma provida Arquitectura, principiando com os ramos das Arvores, e com o lodo a fabricar hũ retiro servindolhe de modelo o industrioso ninho das Andorinhas; depois para melhor comodo das suas familias, pouco a pouco principiou a unir huma cabana com outra, servindolhe de exemplo os favos das engenhozas abelhas; atè q̃ considerando nas entranhas dos montes, materia mais permamente, principiàraõ a valer-se das pedras; e multiplicaram os edificios; unindo-se os edificios, pela necessidade, que huns temos dos outros, se veyo a formar a vezinhança de habitaçoens, e de habitadores a que se chamàraõ Cidades. Continou a industrioza necessidade da Arquitectura pela necessaria defeza das mesmas Cidades, formando-se os baluartes, e as Torres: pela necessidade do commercio se edificáraõ sobre os rios muitas pontes; e muito mais necessariamente para que a terra tivesse melhor communicaçaõ com o Ceo se levantáram os Templos. Finalmente aparecendo no Theatro do Mundo as outras duas Artes, ou companheiras, ou irmans dentor, e fóra dos Templos se puzeraõ as imagens pintadas, e esculpidas; naõ só pelas referidas utilidades, e para excitar mais facilmente os affectos dos coraçoen; mas tambem pela necessidade mais distinta de tantos surdos, de tantos mudos, e de tantos ignorantes, que nunca chegariaõ a perceber os Mysterios da Religiaõ, e a necessaria historia das cousas palladas se a Pintura, e a Escultura com as suas obras assim <pb n="23"></pb> nas cazas; como nos Templos naõ tivessem doutrinado a memoria, e àvista; porque as Pinturas, e as Estatuas naõ sam outra cousa mais, que tantos livros summamente necessarios para o infinito numero dos que naõ sabem ler. </p>
<p>Com tudo isto naõ faltou quem dissesse q̃ todas estas artes foraõ introduzidas ou por hum divertimẽto inutil, ou pela vaidade de hũ dispendio superfluo; <milestone unit="EX" xml:id="FR.14"></milestone> mas o grande Botero, q̃ buscou muito as raizes da razaõ do Estado, diz quanto aos magnificos, e sumptuosos edificios, q̃ às Respublicas, e aos Monarcas he muitas vezes necessario, ainda que á custa de grande dispendio, emprender obras magnificas, e sumptuosas, à imitaçaõ do Propileo de Pericles, e do Faro do Ptolomeu, quando naõ seja por outro principio mais, que para empregar, e alimentar, como ensina Plataõ, o povo ociozo, e a plebe faminta, evitando com isto algumas funestas consequencias a que estaõ sugeitos os homens, q̃ jazem  sepultados entre o ocio, e a necessidade. <milestone rend="closer" unit="EX"></milestone> </p>
<p>Em todos os seculos tanto modernos, como antigos se conheceu naõ só o gosto, mas tambem a utilidade, e necessidade destas bellas Artes; e por isso todos os Povos, todas as Republicas, todo os Principes, e todos os Monarcas as estimam sempre como dignas do seu patronicio. <milestone unit="EX" xml:id="FR.15"></milestone> Os Indios dividos em sette Tribus, affináraõ para as Artes liberaes o quarto lugar, e naõ sómẽte as fizeraõ izentas do tributo, como diz Diodoro, mas tembem as elevaraõ às mayores honras. <milestone rend="closer" unit="EX"></milestone> <milestone unit="EX" xml:id="FR.16"></milestone> Amaso Rey dos Egypcios, naõ sómente promoveo ao seu conselho estas bellas Artes, mas obrigou tambem toda a mocidade do Egypto a que aprendesse alguma dellas debaxo de rigoroza pena da morte; <milestone rend="closer" unit="EX"></milestone> ley que reconhecendo se naõ ser cruel, mas sim util, a publicou tambem <milestone unit="EX" xml:id="FR.17"></milestone> Solon em beneficio dos seus Athenienses, e em pouco tempo se vio Athenas glorioso Palacio em que rezidiam todas as illustres ciencias, e nobres Artes; e se os <pb n="24"></pb> nossos Nacionaes naõ com o rigor da ley, mas com o amor da virtude quizer voluntariamente imitar aquelle povo, bem pòdem esperar que delles se diga o mesmo, que dos Athanienses se acha escrito, que nenhuma virtude era taõ bella em si mesmo, que com os seus estudos, e com a sua aplicaçam às boas Artes a nam fizessem brilhar muito mais os Cidadãos de Athenas. <milestone rend="closer" unit="EX"></milestone> <milestone rend="closer" unit="E2"></milestone></p>
<p><hi rend="smallcaps">Lisboa</hi>:</p>
<p rend="SO">Na Officina de <hi rend="smallcaps">Pedro Ferreira</hi>, Impressor da Augustissima Rainha Nossa Senhora, </p>
<p>Anno do Senhor 1753 <milestone rend="closer" unit="E1"></milestone></p>
<p></p></div2></div1></body>
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                                    Artes intimando ao publico a sua utilidade, a sua necessidade, e
                                    a estimaçaõ, e amor que a ellas devemos ter, he justo que acabe
                                    esta materia, que me parece naõ deixa de ser recomendavel na
                                    memoria dos homens. Faley da Arquitectura, e da Pintura, e cuido
                                    q̃ mostrei, se naõ tudo, ao menos o q̃ bastava a respeito destas
                                    duas Artes, rezervando para agora tratar da sua irman, ou
                                    companheira a Esculptura, por ser igualmente necessaria para o
                                    adorno do mundo politico. Nam faltará quem diga, q̃ pouca, ou
                                    nenhua utilidade póde rezultar de hum discurso desta natureza,
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                                        <pb n="18"></pb> agrada o que superficialmente os diverte sem
                                    reflectir em qual deve ser a justa, e prudente diversam de hum
                                    espirito polido. Estas instrucçoens naõ tam para provocar o
                                    rizo, sam sim para excitar a reflexam; sam para introduzir a
                                    substancia, e naõ para dar lugar aos accidentes. Se á mais tempo
                                    tivesse o publico o socorro destes discursos, e os fizesse
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                                    como se pódem animar os genios para com fervor se aplicarem a
                                    ser excellentes em qualquer arte se ignoram as conveniencias, e
                                    a grande estimaçaõ que ellas lhe podem comunicar? o dezejo da
                                    gloria he quasi innato em todas as creaturas racionaes, e como o
                                    commum ignora os principios, e meyos proporcionados para a
                                    adquirir em suas respectivas qualidades, e juntamente quaes
                                    sejam as ventagens de huma arte, nam se podem applicar a ella
                                    com fervor nam tendo este conhecimento antecipado. Assim diga
                                    cada hum o que quizer, que destas censuras naõ faço cazo,
                                    satisfaço-me sim que os homens doutos, e inteligentes aprovem
                                    este trabalho porque só estes sam para mim os veneraveis
                                    censores que me devem animar, ou dezanimar. He tam recomendavel,
                                    e excellente a Arte de Esculptura, que bem se lhe póde dar o
                                    nome da immortal, e he quasi impossivel mostrar com palavras
                                    qual seja a sua utilidade. Esta he aquella Arte, que faz tam
                                    dilatada, e permanente a nossa breve, a caduca vida, que os
                                    homens pelo beneficio das Estatuas nam sómente renacem a huma
                                    nova vida, mas de certo modo resucitam para viver eternamente:
                                    utilidade que já Tertuliano reconheceu no seu tempo dizendo, que
                                    todos aquelles a quem se dedicavam Estatuas conseguiam huma
                                    duraçam eterna, e que de alguma sorte se revocavaõ para a vida.
                                        <pb n="19"></pb>
                  <seg synch="#FR.3" type="EX"> O Grande Filosofo Diogenes nam
                                        menos divertido que sabio achou huma estranha utilidade nos
                                        marmores esculpidos; pelo que ordinariamente se achava nos
                                        sumptuozos Porticos de Athenas fazendo petiçoens, e             
                           conservando com as Estatuas q̃ nelles estavam; alguns lhe
                                        perguntavam que esperava tirar daquellas frias, e mudas
                                        pedras, como quem se fazia sem familiar, mas engenhozamente
                                        respondia, tiro a utilidade de me acostumar a sofrer quando
                                        pede me acostumar a sofrer quando peço alguma couza a
                                        alguem, e me nam responde, ou nada me concede do que peço.
                                    </seg> Ainda que esta reposta he hum grande documento para a
                                    moral, pelo muito que ella nos instrue para o sofrimento, ainda
                                    ha outra que melhor nos instrue para a emulaçaõ da gloria, ainda
                                    que nacida do mesmo principio. <seg synch="#FR.4" type="EX">
                                        Passava Julio Cesar Questor para Espanha, e chegando a Cadiz
                                        vio no Tempolo de Ercules a Estatua de Alexandre, e
                                        voltando-se para aquelle mudo marmore se poz com elle e
                                        falar mais com os suspiros, que com as palavras, e
                                        perguntando pela razam respondeo naõ como Diogenes, mas sim
                                        como Augusto, que se afligia da sua demaziada froxidam, por
                                        nam ter feito couza digna de memoria até a idade emque
                                        aquelle grande Eroe jà tinha subjugado huma grande parte do
                                        mundo. Foi aquella pedra capas de lançar vigorozas faiscas,
                                        que acenderam no coraçam do generozo Cesar multiplicadas
                                        lavaredas de honra, e com a espada nam sómente igualou mas
                                        com dizem muitos, que excedeo ao mesmo Alexandre. </seg> Nem
                                    só Cesar se vio este effeito, mas <seg synch="#FR.5" type="EX">
                                        Salustio refere que o mesmo sucedeu a Q. Maximo, e P.
                                        Scipiam; pelo que nam sam mudas, e inuteis, como se persuade
                                        o vulgo, as Estatuas dos Enep: assim o disse Ovidio: <seg synch="#FR.6" type="ZM"> Crede mihi plus est, quam quod
                                            videatur Imago. </seg>

                  </seg> Tem voz, e falam tambem os simulacros; e para e ouvir a
                                    voz de hum marmore basta que hum animo nobre, e ge-<pb n="20"></pb>nerozo olhe para elle com reffexam. Muitos entendem que Roma
                                    deveu principalmente à Arte da Esculptura toda a gloria dos seus
                                    mais invictos, e mais celebres Cidadãos; porque <seg synch="#FR.7" type="EX"> se Mucio Suvola conservou no meyo
                                        das chamas immovel o seu generoso braço: </seg>     
             <seg synch="#FR.8" type="EX"> se Curcio montado no seu cavalo se
                                        percipitou intrepido nas profundidades de hum volcano para
                                        livrar a sua Patria; </seg>
                  <seg synch="#FR.9" type="EX"> se Oracio sobre huma ponte se
                                        oppoz a hum exercito, e formou do seu peito escudo a toda                  
                      huma Cidade; </seg> a gloria, e a utilidade de tam grandes
                                    emprezas se deveu á Arte da Esculptura; pois só a ambiçam da
                                    honra daquella Estatua que o Senado erigia aos homens valerosos,
                                    e illustres bastou para dezafiar taõ valerosamente a morte,
                                    Curcio no precipicio, Murcio no fogo, e Oracio no rio, como
                                    escreve hum historiador antigo. A imitaçaõ das armas reconhecem
                                    tambem as letras, das Estatuas o seu augmento. Animaram-se para
                                    o estudo, e para a virtude os Romanos, vendo que nam só aos seus
                                    Cidadãos, mas ainda so Estrangeiro Ermodoro interprete das leys,
                                    erigio o Senado Estatuas: <seg synch="#FR.10" type="EX">
                                        afervorou os immortaes sequazes das Muzas a consideraçaõ de
                                        que Arcadio, e Onorio Imperadores mandaram levantar no meyo
                                        da Praça o simulacro de Claudiano; afoitaram-se os Oradores
                                        com a reflexam de que o povo Romano expoz ao publico huma
                                        illustre Estatua a hum celebre Orador de Athenas com esta
                                        tam nobre, como gloriosa inscripçaõ: <seg synch="#FR.11" type="ZM"> Proeresio Regi eloquentiae </seg> R. R. R. P.
                                        que quer dizer: Roma Rainha das cousas mandou colocar esta
                                        estatua a Proerefio Rey da eloquencia. </seg> Mas deixando
                                    de parte os leterados, e os Heroes; ainda dos mesmos marmores,
                                    por beneficio desta Arte da Esculptura, se pòde considerar a
                                    favor dos Monarcas huma mayor utilidade. Ordinariamente vivem
                                    quasi todos os povos muito satisfeitos debaixo do dominio de
                                    algum <pb n="21"></pb> Soberano; mas a huns, e outros sempre molesta
                                    e desconçola hum certo pezar; os subditos cheyos de amor se
                                    afligem, porque tendo dado o imperio sobre si mesmos nam tem
                                    mais que offerecer ao seu amado Principe: o Principe porque
                                    colocado no auge de toda a grandeza, tem a infelicidade, de que
                                    lhe naõ resta mais que esperar: mas a Esculptura entre as suas
                                    utilidades achou o excellente modo de desterrar toda esta
                                    afliçam aos Monarcas, ou fundindo-se nos bronzes, ou ao vivo, ou
                                    ao defunto Principe huma immortal Estatua de honra, acham-se os
                                    subditos depois da inteira dadiva de si mesmos, no estado de
                                    augmentar a mesma dadiva; com o que fica tambem ao Principe
                                    ainda a esperança. álem da sua sublime condiçaõ a eternidade da
                                    gloria. <seg synch="#FR.12" type="EX"> Assim remediou o Povo 
                                       Romano o seu pezar para com o seu optimo Principe Marco
                                        Aurelio Antonio a quem erigio aquella famoza Estatua
                                        Equestre, eterno monumento da sua gloria. Com tam illustres
                                        utilidades da Estatuaria, a beneficio de cujas excellentes
                                        obras despertaõ as letras, e as Armas, e por quem vivem
                                        contentes da sua sorte os Povos, e os Reys, naõ pòde causar
                                        admiraçaõ se Grecia sómente em huma de suas Cidades contava
                                        mais de setecentas Estatuas; e Roma para se fazer mais
                                        gloriosa erigio tantas, que diz Frigelio, que quasi se nam
                                        podiaõ contar, o que deu motivo para certo Author deixar
                                        escrito, que Roma tinha dous povos hum de homens, outro de
                                        Estatuas. </seg> Por todas estas utilidades naõ pòdem deixar
                                    os homens de confessar muito que saõ devedores a estas
                                    utilissimas artes; e muito mais lhe devem à porporçaõ do muito,
                                    que saõ necessarias; pois sem ellas ou viviriam como brutos, ou                 
                   de nenhum modo poderiam viver no conceito de Tullio: <seg synch="#FR.13" type="ZM"> Artes fine quibus vita omnino
                                        nulla esse potuisset. </seg> E na verdade parece que he;
                                    porque se con-<pb n="22"></pb>siderarmos, que depois que o nosso
                                    primeiro Pay perdeu com a innocencia a morada do Paraizo
                                    terrestre, expostos os homens à inclemencia das Estaçoens da
                                    mesma sorte, que as Arvores no meyo dos campos, naõ foi sómente
                                    util, mas ainda necessario o soccorro, e uso de taõ bellas
                                    Artes. Nam tendo o homem outro tecto mais, que o Ceo, para se
                                    reparar das infestas nuvens, que se desfaziaõ em chuva, e dos
                                    intensos ardores do Sol, recorreu o humano engenho a huma
                                    provida Arquitectura, principiando com os ramos das Arvores, e
                                    com o lodo a fabricar hũ retiro servindolhe de modelo o
                                    industrioso ninho das Andorinhas; depois para melhor comodo das
                                    suas familias, pouco a pouco principiou a unir huma cabana com
                                    outra, servindolhe de exemplo os favos das engenhozas abelhas;
                                    atè q̃ considerando nas entranhas dos montes, materia mais
                                    permamente, principiàraõ a valer-se das pedras; e multiplicaram
                                    os edificios; unindo-se os edificios, pela necessidade, que huns
                                    temos dos outros, se veyo a formar a vezinhança de habitaçoens,
                                    e de habitadores a que se chamàraõ Cidades. Continou a
                                    industrioza necessidade da Arquitectura pela necessaria defeza
                                    das mesmas Cidades, formando-se os baluartes, e as Torres: pela
                                    necessidade do commercio se edificáraõ sobre os rios muitas
                                    pontes; e muito mais necessariamente para que a terra tivesse
                                    melhor communicaçaõ com o Ceo se levantáram os Templos.
                                    Finalmente aparecendo no Theatro do Mundo as outras duas Artes,             
                       ou companheiras, ou irmans dentor, e fóra dos Templos se puzeraõ
                                    as imagens pintadas, e esculpidas; naõ só pelas referidas
                                    utilidades, e para excitar mais facilmente os affectos dos
                                    coraçoen; mas tambem pela necessidade mais distinta de tantos
                                    surdos, de tantos mudos, e de tantos ignorantes, que nunca
                                    chegariaõ a perceber os Mysterios da Religiaõ, e a necessaria
                                    historia das cousas palladas se a Pintura, e a Escultura com as
                                    suas obras assim <pb n="23"></pb> nas cazas; como nos Templos naõ
                                    tivessem doutrinado a memoria, e àvista; porque as Pinturas, e
                                    as Estatuas naõ sam outra cousa mais, que tantos livros
                                    summamente necessarios para o infinito numero dos que naõ sabem         
                           ler. Com tudo isto naõ faltou quem dissesse q̃ todas estas artes
                                    foraõ introduzidas ou por hum divertimẽto inutil, ou pela
                                    vaidade de hũ dispendio superfluo; <seg synch="#FR.14" type="EX"> mas o grande Botero, q̃ buscou muito as raizes da razaõ do
                                        Estado, diz quanto aos magnificos, e sumptuosos edificios,
                                        q̃ às Respublicas, e aos Monarcas he muitas vezes
                                        necessario, ainda que á custa de grande dispendio, emprender
                                        obras magnificas, e sumptuosas, à imitaçaõ do Propileo de
                                        Pericles, e do Faro do Ptolomeu, quando naõ seja por outro
                                        principio mais, que para empregar, e alimentar, como ensina
                                        Plataõ, o povo ociozo, e a plebe faminta, evitando com isto
                                        algumas funestas consequencias a que estaõ sugeitos os
                                        homens, q̃ jazem sepultados entre o ocio, e a necessidade.
                                    </seg> Em todos os seculos tanto modernos, como antigos se
                                    conheceu naõ só o gosto, mas tambem a utilidade, e necessidade
                                    destas bellas Artes; e por isso todos os Povos, todas as
                                    Republicas, todo os Principes, e todos os Monarcas as estimam
                                    sempre como dignas do seu patronicio. <seg synch="#FR.15" type="EX"> Os Indios dividos em sette Tribus, affináraõ para
                                        as Artes liberaes o quarto lugar, e naõ sómẽte as fizeraõ
                                        izentas do tributo, como diz Diodoro, mas tembem as elevaraõ
                                        às mayores honras. </seg>
                  <seg synch="#FR.16" type="EX"> Amaso Rey dos Egypcios, naõ
                                        sómente promoveo ao seu conselho estas bellas Artes, mas
                                        obrigou tambem toda a mocidade do Egypto a que aprendesse
                                        alguma dellas debaxo de rigoroza pena da morte; </seg> ley
                                    que reconhecendo se naõ ser cruel, mas sim util, a publicou
                                    tambem <seg synch="#FR.17" type="EX"> Solon em beneficio dos
                                        seus Athenienses, e em pouco tempo se vio Athenas glorioso
                                        Palacio em que rezidiam todas as illustres ciencias, e
                                        nobres Artes; e se os <pb n="24"></pb> nossos Nacionaes naõ com 
                                       o rigor da ley, mas com o amor da virtude quizer
                                        voluntariamente imitar aquelle povo, bem pòdem esperar que
                                        delles se diga o mesmo, que dos Athanienses se acha escrito,
                                        que nenhuma virtude era taõ bella em si mesmo, que com os
                                        seus estudos, e com a sua aplicaçam às boas Artes a nam
                                        fizessem brilhar muito mais os Cidadãos de Athenas. </seg>
                </seg> Lisboa: Na Officina de Pedro Ferreira, Impressor da
                                Augustissima Rainha Nossa Senhora, Anno do Senhor 1753 </seg>
            </ab>
          </div>
        </body>
      </text>
    </group>
  </text>
</TEI>
