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        <title>Num.° 2</title>
        <author>Anónimo (Bento Morganti)</author>
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        <edition>Moralische Wochenschriften</edition>
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      Informationsmodellierung, Universität Graz</orgName>
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        <pubPlace>Graz</pubPlace>
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        <bibl>Anónimo (Morganti, Bento): Segunda Collecçam dos Papeis Anonymos. Lisboa: Pedro Ferreira,
     1753, 9-16 </bibl>
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          <title level="j">O Anonymo. Repartido pelas semanas,
      para divertimento e utilidade do publico</title>
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          <date>1753</date>
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<p rend="EU"><milestone unit="E1" xml:id="FR.1"></milestone></p>
<div1><head>N.°.2</head>
<div2><head><hi rend="italic"> Sobre as boas Artes da Arquitetura, e Pintura. </hi></head>
<p><hi rend="smallcaps"><milestone unit="E2" xml:id="FR.2"></milestone> Mu</hi>itas vezes a variedade das iguarias desterra o fastio, e excita o apetite para o nutrimento; principalmente quando a natureza adquire pela continuaçaõ tedio ao alimento continuado. Vejo que o commum se enfastia com tam continuada Moral, e para isto naõ foi precizo muito tempo, porque desde os primeiros discursos tem concebido este enojo, que julgo ser influencia do clima, ou paixam do costume, sem que sirva de remedio o cuidado desta nova introduçaõ. Para ver se esta acha melhor entrada, quero mudar de intento, e deixando por hum pouco descançar a Filozofia moral, ainda que esta na verdade he a mais util para os homens, pois por ella se reformam os costumes, e se civilizaõ as naturezas; vamos por outro caminho buscar melhor fortuna. Hade ser hoje o discurso sobre a utilidade que os homens podem tirar das bellas Artes, as quaes naõ sómente servem para o material adorno da Republica, e conveniencia dos povos, mas tambem para instruir o espirito, e pulir o engenho, servindo de igual estudo como os Livros reconhecendo-se nellas huma grande <pb n="10"></pb> utilidade, e naõ menor necessidade para o Mũdo civil. </p>
<p>Para bem se conhecer a utilidade de huma cousa seria quasi necessario que esta se naõ possuisse; porque a privaçaõ he aquella que nos faz julgar por util quãto nos falta; e a familiaridade de o possuir nos faz parecer menos raro, e por isso mais vil, e menos util tudo quanto temos: pelo que para se poder melhor reflectir sobre o quanto sam uteis as bellas Artes, seria precizo desterralas, como jà em outro tempo o fizeraõ <milestone unit="EX" xml:id="FR.3"></milestone> os Ermotibos, e Celesirios ambos Povos do Egypto, como refere Plutarco; <milestone rend="closer" unit="EX"></milestone> porque desta privaçam muito bem se podia argumentar depois a sua utilidade, e a sua necessidade, mas jà que naõ posso fazer esta extinçaõ, para depois convencer com a falta deste soccorro a necessidade, e a utilidade que pòde communicar a sua existencia; permanecendo como tudo tanto no mundo, na sua mesma conversaçam pertendo mostrar o grande amor, que às bellas Artes devem ter os homens, pelos principios de sua mesma conveniencia. </p>
<p>Sem considerarmos as bellas Artes em confuzo, e dentro dos limites de hum só lugar, que utilidades destintamente de cada huma dellas naõ reconhece o Mundo civil? Se descorremos na Arquitectura; esta nos separa das feras com os recintos das Cidades; nos defende do rigor das Estaçoens com a segurança dos edificios; nos repara da molestia da chuva com o beneficio de espaçozos porticos; e nos assegura das traições dos inimigos com a construcçaõ de torres magnificas. Todas as Nações em seus respectivos tempos se constituiram devedoras a Arquitectura. <milestone unit="EX" xml:id="FR.4"></milestone> Que lhe naõ deveo o Egypto, quando Cambises, tendo já principiado a destruir com o fogo o Palacio do seu inimigo, vendo nelle o celebre obelisco em cuja fabrica se empregaraõ vinte mil oficiaes, mandou logo, que se apagassem as chamas, naõ vencido de outra alguma <pb n="11"></pb> couza mais, q̃ do respeito de tam magestozo edificio, como refere Plinio? <milestone rend="closer" unit="EX"></milestone> <milestone unit="EX" xml:id="FR.5"></milestone>Que naõ deveo a Persia aos Arquitectos de Xerses, quando fabricando hũa só ponte a dilatada Azia com a Europa? <milestone rend="closer" unit="EX"></milestone> <milestone unit="EX" xml:id="FR.6"></milestone> Que naõ deveo ao Arquiteto a sitiada Siracusa, quando pela sua industrioza maquina destruio a armada de Marcello? <milestone rend="closer" unit="EX"></milestone> Por tam avultadas conveniencias recebeo para com os antigos tanta estimaçaõ a Arquitectura, <milestone unit="EX" xml:id="FR.7"></milestone> que a Dedalo Arquitecto de Athenas, como se fosse um Heroe, <milestone rend="closer" unit="EX"></milestone> ou <milestone unit="EX" xml:id="FR.8"></milestone> a hum Nume publicamente aquelles povos lhe consagraram hum Templo, do qual, escreve Diodoro, que ainda existiam em huma Ilha junto a Memphis os seus vestigios. <milestone rend="closer" unit="EX"></milestone> </p>
<p>A Arquitectura naõ deixa tambem de nos offerecer a grande utilidade de considerarmos, e condoernos da nossa mizeravel condiçam, porque tendo esta grande Arte occupada toda a terra, nos poem diante dos olhos <milestone unit="EX" xml:id="FR.9"></milestone> os Mausoleos da Caria; <milestone rend="closer" unit="EX"></milestone> <milestone unit="EX" xml:id="FR.10"></milestone> as Torres no Faro; <milestone rend="closer" unit="EX"></milestone> <milestone unit="EX" xml:id="FR.11"></milestone> no Egypto as immensas, e pompozas Piramides, <milestone rend="closer" unit="EX"></milestone> e deixando tantas das suas maravilhas humas no Occidente, outras no Oriente, he tam tenue, e tam mizeravel a condiçam humana, que naõ tem havido hum só homem que se podesse desvanecer que de ter chegado ao perto para examinar todas as maravilhas desta Arte. Mas para que nada faltasse aos homens, destinou a Providencia que houvesse outra Arte, ou mãy, ou companheira da Arquitectura, para lhes restituir tudo quanto lhe tirou a adversidade de dos tempos, a immensidade do caminho, e a infeliz condiçam do viver commum. </p>
<p>He esta a Pintura; porque recolhendo das espalhadas Historias todas as circunstancias, e as proporçoens das maravilhozas estructuras da Antiguidade, <milestone unit="EX" xml:id="FR.12"></milestone> nos mostra aquelle grande Templo de Diana Ephesina, para cuja fabrica cansou engenhoza a Asia pelo <pb n="12"></pb> espaço de vinte annos continuados mais de trezentos, e sessenta mil artifices. <milestone rend="closer" unit="EX"></milestone> A Pintura com as suas cores expressando sobre huma só parede <milestone unit="EX" xml:id="FR.13"></milestone> os prodigiozos muros de Babylonia, faz que ainda hoje se veja passear sobre elles a Rainha Semiramis cõ seis grãdes coches emparelhados, e dãdo sobre elles espaçosa volta, mostra q̃ naõ eraõ muros, mas sim praças, ou campos; <milestone rend="closer" unit="EX"></milestone> e vẽdo cõ os nossos olhos pintadas entre as cem portas de Metal as proporções e seu immeso recinto, principiamos a dar credito ao q̃ conta <milestone unit="EX" xml:id="FR.14"></milestone> Aristoteles nas suas Politicas, q̃ com tam vastas idèas fabricou a Arquitectura os soberbos bairros dos Babilonios, que tomando os inimigos por assalto a Cidade, tres ezes se poz o Sol, e outras tantas renaceo antes que chegasse tam funesta noticiaaos moradores que rezidiam na parte opposta ao lugar do assalto, o que tambem concorda com o que diz a Escriptura Sagrada, dando a esta Cidade o titulo de tam grande que occupava tres dias inteiros de caminho. <milestone rend="closer" unit="EX"></milestone> </p>
<p>Nam pòde deixar de conseguir no juizo dos homens huma grande estimaçaõ a belessima Arte da Arquitectura, porque a beneficio das suas excellentes obras, quasi faz perder a fé aos Annaes: e esta mesma igual estimaçaõ devemos dar à Pintura,  porque por meyo das suas cores faz comprehender com a vista, o que naõ poderia crer o pensamento; <milestone unit="EX" xml:id="FR.15"></milestone> e sem ser precizo descorrer o Nilo, ou navegar o Eufrates <milestone rend="closer" unit="EX"></milestone> nos poem debaixo dos olhos unidas todas as maravilhas do mundo, intactas ainda depois das suas ruinas, sem mais trabalho, nem mais discomodo senaõ com o de contemplar, e sem outras penozas viagens, mais que o tenue, e facil movimento dos olhos. </p>
<p>He taõ util a Pintura, que nos ensina nam sómente a vista, mas tambem o animo com a preferença daquellas cousas, que em algum tempo existiraõ; alimenta a fantezia com a prospectiva daquellas cousas, que <pb n="13"></pb> pòde haver para o futuro: diverte com a cassa, e com os bosques sem temor das féras; e conduz pelos mares sem perigo das tempestades. </p>
<p>Depois de tudo isto, que diremos da utilidade das Imagens; pela qual os Amigos distantes se gozaõ como presentes; e os extintos como vivos, e falando? Galantes modos de zombar do destino nos offerece com as suas cores esta excellente Arte, pondo na nossa companhia os que vivem em partes remotissimas; e grande ventagem por meyo della recebe a nossa mortalidade, quando aquelles, que sepultados feixa hum funesto monumento, tornam por beneficio do Pincel a allegrar a nossa vista. Por esse meyo se consolava a enganada Dido, quando ainda que distante dos portos de Cartago, estava vendo a imagem do seu fugit ivo Eneas, como diz Silo Italico. </p>
<p rend="MO"><hi rend="italic"><milestone unit="ZM" xml:id="FR.16"></milestone> —— Et nunc lyderam Julique, tuamque <lb></lb>Effigiem fovet amplexu, nunc tota repente <lb></lb>Ad vultus conversa tuos sub imaginependet. <milestone rend="closer" unit="ZM"></milestone></hi></p>
<p rend="SO">E assim tambem se consolava aquelle aflicto Pay, a quem a Parca cruel roubou hum filho unica esperança da sua posteridade. </p>
<p rend="MO"><hi rend="italic"><milestone unit="ZM" xml:id="FR.17"></milestone> Dum furit, raptum quaerit per singula natum <lb></lb>Depicta maestum solatur imagine vultum. <milestone rend="closer" unit="ZM"></milestone></hi></p>
<p rend="SO">Quem poderà deixar de conceber huma gloriosa estimaçaõ a esta nobilissima Arte, quando cõsiderar q̃ ella serve de inveja, e de soccorro à natureza? porque nam sómente faz viver sobre os panos os mortos, mas por ella se tornaõ novamente a produzir à semelhança dos Avós os generozosos Netos; porque se a côr das varas imprimio naturalmente nos partos das ovelhas a tintura do que viam, que naõ fará nos racionaes a artificiosa imagem assim do semblante, como do animo daquelles cujo mesmo sangue se transfunde, vegeta, e vive? A Pintura naõ sómente influe de Avó em Neto a semelhança do rosto, mas muitas vezes tam-<pb n="14"></pb>bem as semelhanças de seus gloriosos costumes. <milestone unit="EX" xml:id="FR.18"></milestone> Plutarco escreve, que sahindo Marco Bruto por virtude de hum retrato antigo, muito parecido no semblante com seu Avò, bem mostrou ao Tibre, que tambem sahira muito semelhante a elle no valor, quando no meyo do Senado valerosamente tirou a vida a Cesar; e se hum primeiro bruto naceu para libertar Roma da violencia dos Reys, este segundo Bruto por virtude de huma imagem com quem era muito parecido no rosto, e no coraçaõ a tornou a fazer livre da tirania de hum Cidadão <milestone rend="closer" unit="EX"></milestone>. Mas quando ainda faltasse aos mancebos a generosa virtude de seus mayores, e nam contassem entre elles hum homem sabio, ou forte para lhe imitarem com o semblante o valor, naõ deixaõ de produzir a mesma utilidade como diz Plinio as Imagens dos outros, e dos Heroes estrangeiros, e distantes; porque servem de huma continuada reprehensaõ ao ocio, e à vileza do animo de quem os naõ pertende igualar. </p>
<p>Ainda esta naõ he a mayor utilidade, que cõmunica a Pintura, porque he muito mayor a que se tira das Imagẽs sagradas para a reformaçaõ no nosso Mundo Catholico. Todos o sabem, e todos o experimentão. Bate sobre os nossos coraçoens com a mesma pedra hum S. Jeronimo pintado: convida com as suas lagrimas as nossas huma arrependida Magdalena; e despertam os nossos ardores com os seus as inflamadas chamas de hum animoso Lourenço. Isto naõ he negar q̃ tambem á Historia se deva grande parte deste beneficio, e que lendo-se nellas os belos costumes das candidas Virgens, e o animo invicto dos fortes Martyres, deixemos de sentir o pensamento occupado de tam santos dezejos, mas naõ devemos negar à utilidade da Pintura esta mayor gloria; que a donde a historia por meyo de hũ tenue pensamẽto apenas disperta o coraçaõ, a Pintura por meyo dos olhos nos leva a occupa-<pb n="15"></pb>lo inteiramente, e pòde com huma suave cadea ligar, e unir para aquelle objecto todos os nossos affectos. </p>
<p>Se consideramos que a historia se pòde fazer senhora absoluta dos nossos affectos pelo que nos conta, devemos por outra parte confessar, q̃ sempre deve ceder à Pintura pelo que esta nos mostra; porque o mais que por si mesmo nos pòde prometter a historia he mostrar as cousas ao entendimento como se fossem pintadas; mas a Pintura principiando adonde a outra acaba, pinta as cousas à vista, e de tal forte as reprezenta, que as vemos como se fossem vivas, e verdadeiras. <milestone unit="EX" xml:id="FR.19"></milestone> De S. Gregorio Nisseno se escreve que vendo uma pintura de Abraham com a espada desembainhada em acto de sacrificar seu unico filho naõ pode conter aquellas lagrimas, que lendo muitas vezes a mesma historia naõ chegou a derramar. <milestone rend="closer" unit="EX"></milestone> <milestone unit="EX" xml:id="FR.20"></milestone> E S. Basilio falando em certa occasiaõ de hum Santo Martyr, disse com grande humildade, que muito melhor, que as suas palavras o expressava engenhozamente a Pintura, a quem de boa vontade cedia a palma; <milestone rend="closer" unit="EX"></milestone> pareceme, que naõ he precizo referir estas duas grandes authoridades, porque os doutos as sabem muito bem. </p>
<p><milestone unit="MT" xml:id="FR.21"></milestone> Naõ sei, que certo escrupulo me acompanha, de que entenderàm os meus Leitores, que a efficacia com que discorro sobre a utilidade, e excellencias desta arte procede da inata inclinaçaõ, que a ella tenha, e que a paixaõ predominante he a que me obriga a intimar a sua grande serventia, e a formarlhe este pequeno elogio: mas devo satisfazer esta consideração, podendo aliàs ser muito bem fundada, com os exemplos, que possam desterrar toda a suspeita da minha parcialidade; lembrando aos meus Leytores, que ainda entre as sombras do Gentilismo conheceram os antigos esta grande dignidade da Pintura; <milestone rend="closer" unit="MT"></milestone> porq̃ tanto a estimarão os Romanos particularmente pela singular utilidade, que cõmunica quando serve de mais facil, e <pb n="16"></pb> mais cõmum instrumento de se conhecerem os favores de Ceo, <milestone unit="EX" xml:id="FR.22"></milestone> q̃ Quinto Fabio o mais illustre Cavalheiro, que no seu tempo contava a antiga Roma, reputou pela mayor de todas as suas felicidades, poder pintar com a sua propria mam todas as paredes do Templo da saude, subservando-as com o seu proprio nome; <milestone rend="closer" unit="EX"></milestone> <milestone unit="EX" xml:id="FR.23"></milestone> <hi rend="italic">Fabius Pictor</hi>, assim o deixou escrito Rutilio na vida deste illustre Consul, entenendo, que deixava mayor gloria para a sua posteridade em ser celebre Pintor de cousas sagradas, que o grande explendor, que communicou à sua illustre decendencia com tantas emprezas profanas seu Avô Alcides. <milestone rend="closer" unit="EX"></milestone> <milestone unit="EX" xml:id="FR.24"></milestone> Isto mesmo praticáram depois Lucio Scipião, e Maximo Consusules; Octaviano Augusto, Tiberio, e Nero Cesares. Andriano, Marco Antonio, Alexandre Severo, Valentiniano, e Constantino Imperadores Romanos: e primeiro delles tinha entre os Gregos conciliado tanta estimaçam a Pintura, que para huma Arte tam nobre, e tam util não ser profanada por mam servil, e plebea, se publicou por toda a Grecia hum Edito, que nenhuma pessoa exercitasse esta Arte se naõ fosse nobre, e livre; assim o refere Plinio, <milestone rend="closer" unit="EX"></milestone> e disto he que tomou a Pintura primeiramente o titulo de Arte liberal, que ao depois se communicou ás suas companheiras fazendo-se commum para todas. </p>
<p>De tudo o que fica dito me parece, que muito bem se colhe a grande utilidade que os homens pòdem conseguir das boas Artes, e que naõ sómente ellas sam em si mesmo uteis, mas ainda necessarias para a boa armonia do Mundo civil; pelo que bem posso dizer aos nossos Naturaes o mesmo que Ouvidio disse aos Mancebos de Roma. </p>
<p rend="MO"><hi rend="italic"><milestone unit="ZM" xml:id="FR.25"></milestone> Disces bonas artes, moneo Romana Juventus. <milestone rend="closer" unit="ZM"></milestone> <milestone rend="closer" unit="E2"></milestone> <milestone rend="closer" unit="E1"></milestone></hi></p>
<p></p></div2></div1></body>
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                <seg type="U1">N.°.2</seg> Sobre as boas Artes da Arquitetura, e Pintura. <seg synch="#FR.2" type="E2"> Muitas vezes a variedade das iguarias desterra o fastio, e excita o apetite para
         o nutrimento; principalmente quando a natureza adquire pela continuaçaõ tedio ao alimento
         continuado. Vejo que o commum se enfastia com tam continuada Moral, e para isto naõ foi
         precizo muito tempo, porque desde os primeiros discursos tem concebido este enojo, que
         julgo ser influencia do clima, ou paixam do costume, sem que sirva de remedio o cuidado
         desta nova introduçaõ. Para ver se esta acha melhor entrada, quero mudar de intento, e
         deixando por hum pouco descançar a Filozofia moral, ainda que esta na verdade he a mais
         util para os homens, pois por ella se reformam os costumes, e se civilizaõ as naturezas;
         vamos por outro caminho buscar melhor fortuna. Hade ser hoje o discurso sobre a utilidade
         que os homens podem tirar das bellas Artes, as quaes naõ sómente servem para o material
         adorno da Republica, e conveniencia dos povos, mas tambem para instruir o espirito, e pulir
         o engenho, servindo de igual estudo como os Livros reconhecendo-se nellas huma grande <pb n="10"></pb> utilidade, e naõ menor necessidade para o Mũdo civil. Para bem se conhecer a
         utilidade de huma cousa seria quasi necessario que esta se naõ possuisse; porque a privaçaõ
         he aquella que nos faz julgar por util quãto nos falta; e a familiaridade de o possuir nos
         faz parecer menos raro, e por isso mais vil, e menos util tudo quanto temos: pelo que para
         se poder melhor reflectir sobre o quanto sam uteis as bellas Artes, seria precizo
         desterralas, como jà em outro tempo o fizeraõ <seg synch="#FR.3" type="EX"> os Ermotibos, e
          Celesirios ambos Povos do Egypto, como refere Plutarco; </seg> porque desta privaçam muito
         bem se podia argumentar depois a sua utilidade, e a sua necessidade, mas jà que naõ posso
         fazer esta extinçaõ, para depois convencer com a falta deste soccorro a necessidade, e a
         utilidade que pòde communicar a sua existencia; permanecendo como tudo tanto no mundo, na
         sua mesma conversaçam pertendo mostrar o grande amor, que às bellas Artes devem ter os
         homens, pelos principios de sua mesma conveniencia. Sem considerarmos as bellas Artes em
         confuzo, e dentro dos limites de hum só lugar, que utilidades destintamente de cada huma
         dellas naõ reconhece o Mundo civil? Se descorremos na Arquitectura; esta nos separa das
         feras com os recintos das Cidades; nos defende do rigor das Estaçoens com a segurança dos
         edificios; nos repara da molestia da chuva com o beneficio de espaçozos porticos; e nos
         assegura das traições dos inimigos com a construcçaõ de torres magnificas. Todas as Nações
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          refere Plinio? </seg>
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         conveniencias recebeo para com os antigos tanta estimaçaõ a Arquitectura, <seg synch="#FR.7" type="EX"> que a Dedalo Arquitecto de Athenas, como se fosse um Heroe,
         </seg> ou <seg synch="#FR.8" type="EX"> a hum Nume publicamente aquelles povos lhe
          consagraram hum Templo, do qual, escreve Diodoro, que ainda existiam em huma Ilha junto a
          Memphis os seus vestigios. </seg> A Arquitectura naõ deixa tambem de nos offerecer a
         grande utilidade de considerarmos, e condoernos da nossa mizeravel condiçam, porque tendo
         esta grande Arte occupada toda a terra, nos poem diante dos olhos <seg synch="#FR.9" type="EX"> os Mausoleos da Caria; </seg>
                  <seg synch="#FR.10" type="EX"> as Torres no Faro; </seg>
                  <seg synch="#FR.11" type="EX"> no Egypto as immensas, e pompozas Piramides, </seg> e
         deixando tantas das suas maravilhas humas no Occidente, outras no Oriente, he tam tenue, e
         tam mizeravel a condiçam humana, que naõ tem havido hum só homem que se podesse desvanecer
         que de ter chegado ao perto para examinar todas as maravilhas desta Arte. Mas para que nada
         faltasse aos homens, destinou a Providencia que houvesse outra Arte, ou mãy, ou companheira
         da Arquitectura, para lhes restituir tudo quanto lhe tirou a adversidade de dos tempos, a
         immensidade do caminho, e a infeliz condiçam do viver commum. He esta a Pintura; porque
         recolhendo das espalhadas Historias todas as circunstancias, e as proporçoens das
         maravilhozas estructuras da Antiguidade, <seg synch="#FR.12" type="EX"> nos mostra aquelle
          grande Templo de Diana Ephesina, para cuja fabrica cansou engenhoza a Asia pelo <pb n="12"></pb> espaço de vinte annos continuados mais de trezentos, e sessenta mil artifices. </seg> A
         Pintura com as suas cores expressando sobre huma só parede <seg synch="#FR.13" type="EX">
          os prodigiozos muros de Babylonia, faz que ainda hoje se veja passear sobre elles a Rainha
          Semiramis cõ seis grãdes coches emparelhados, e dãdo sobre elles espaçosa volta, mostra q̃
          naõ eraõ muros, mas sim praças, ou campos; </seg> e vẽdo cõ os nossos olhos pintadas entre
         as cem portas de Metal as proporções e seu immeso recinto, principiamos a dar credito ao q̃
         conta <seg synch="#FR.14" type="EX"> Aristoteles nas suas Politicas, q̃ com tam vastas
          idèas fabricou a Arquitectura os soberbos bairros dos Babilonios, que tomando os inimigos
          por assalto a Cidade, tres ezes se poz o Sol, e outras tantas renaceo antes que chegasse
          tam funesta noticiaaos moradores que rezidiam na parte opposta ao lugar do assalto, o que
          tambem concorda com o que diz a Escriptura Sagrada, dando a esta Cidade o titulo de tam
          grande que occupava tres dias inteiros de caminho. </seg> Nam pòde deixar de conseguir no
         juizo dos homens huma grande estimaçaõ a belessima Arte da Arquitectura, porque a beneficio
         das suas excellentes obras, quasi faz perder a fé aos Annaes: e esta mesma igual estimaçaõ
         devemos dar à Pintura, porque por meyo das suas cores faz comprehender com a vista, o que
         naõ poderia crer o pensamento; <seg synch="#FR.15" type="EX"> e sem ser precizo descorrer o
          Nilo, ou navegar o Eufrates </seg> nos poem debaixo dos olhos unidas todas as maravilhas
         do mundo, intactas ainda depois das suas ruinas, sem mais trabalho, nem mais discomodo
         senaõ com o de contemplar, e sem outras penozas viagens, mais que o tenue, e facil
         movimento dos olhos. He taõ util a Pintura, que nos ensina nam sómente a vista, mas tambem
         o animo com a preferença daquellas cousas, que em algum tempo existiraõ; alimenta a
         fantezia com a prospectiva daquellas cousas, que <pb n="13"></pb> pòde haver para o futuro:      
   diverte com a cassa, e com os bosques sem temor das féras; e conduz pelos mares sem perigo
         das tempestades. Depois de tudo isto, que diremos da utilidade das Imagens; pela qual os
         Amigos distantes se gozaõ como presentes; e os extintos como vivos, e falando? Galantes
         modos de zombar do destino nos offerece com as suas cores esta excellente Arte, pondo na
         nossa companhia os que vivem em partes remotissimas; e grande ventagem por meyo della
         recebe a nossa mortalidade, quando aquelles, que sepultados feixa hum funesto monumento,
         tornam por beneficio do Pincel a allegrar a nossa vista. Por esse meyo se consolava a
         enganada Dido, quando ainda que distante dos portos de Cartago, estava vendo a imagem do
         seu fugit ivo Eneas, como diz Silo Italico. <seg synch="#FR.16" type="ZM"> —— Et nunc
          lyderam Julique, tuamque <lb></lb>Effigiem fovet amplexu, nunc tota repente <lb></lb>Ad vultus
          conversa tuos sub imaginependet. </seg> E assim tambem se consolava aquelle aflicto Pay, a
         quem a Parca cruel roubou hum filho unica esperança da sua posteridade. <seg synch="#FR.17" type="ZM"> Dum furit, raptum quaerit per singula natum <lb></lb>Depicta maestum solatur
          imagine vultum. </seg> Quem poderà deixar de conceber huma gloriosa estimaçaõ a esta
         nobilissima Arte, quando cõsiderar q̃ ella serve de inveja, e de soccorro à natureza?
         porque nam sómente faz viver sobre os panos os mortos, mas por ella se tornaõ novamente a
         produzir à semelhança dos Avós os generozosos Netos; porque se a côr das varas imprimio
         naturalmente nos partos das ovelhas a tintura do que viam, que naõ fará nos racionaes a
         artificiosa imagem assim do semblante, como do animo daquelles cujo mesmo sangue se
         transfunde, vegeta, e vive? A Pintura naõ sómente influe de Avó em Neto a semelhança do
         rosto, mas muitas vezes tam-<pb n="14"></pb>bem as semelhanças de seus gloriosos costumes. <seg synch="#FR.18" type="EX"> Plutarco escreve, que sahindo Marco Bruto por virtude de hum
          retrato antigo, muito parecido no semblante com seu Avò, bem mostrou ao Tibre, que tambem
          sahira muito semelhante a elle no valor, quando no meyo do Senado valerosamente tirou a
          vida a Cesar; e se hum primeiro bruto naceu para libertar Roma da violencia dos Reys, este
          segundo Bruto por virtude de huma imagem com quem era muito parecido no rosto, e no
          coraçaõ a tornou a fazer livre da tirania de hum Cidadão </seg>. Mas quando ainda faltasse
         aos mancebos a generosa virtude de seus mayores, e nam contassem entre elles hum homem
         sabio, ou forte para lhe imitarem com o semblante o valor, naõ deixaõ de produzir a mesma
         utilidade como diz Plinio as Imagens dos outros, e dos Heroes estrangeiros, e distantes;
         porque servem de huma continuada reprehensaõ ao ocio, e à vileza do animo de quem os naõ
         pertende igualar. Ainda esta naõ he a mayor utilidade, que cõmunica a Pintura, porque he
         muito mayor a que se tira das Imagẽs sagradas para a reformaçaõ no nosso Mundo Catholico.
         Todos o sabem, e todos o experimentão. Bate sobre os nossos coraçoens com a mesma pedra hum
         S. Jeronimo pintado: convida com as suas lagrimas as nossas huma arrependida Magdalena; e
         despertam os nossos ardores com os seus as inflamadas chamas de hum animoso Lourenço. Isto
         naõ he negar q̃ tambem á Historia se deva grande parte deste beneficio, e que lendo-se
         nellas os belos costumes das candidas Virgens, e o animo invicto dos fortes Martyres,
         deixemos de sentir o pensamento occupado de tam santos dezejos, mas naõ devemos negar à
         utilidade da Pintura esta mayor gloria; que a donde a historia por meyo de hũ tenue
         pensamẽto apenas disperta o coraçaõ, a Pintura por meyo dos olhos nos leva a occupa-<pb n="15"></pb>lo inteiramente, e pòde com huma suave cadea ligar, e unir para aquelle objecto
         todos os nossos affectos. Se consideramos que a historia se pòde fazer senhora absoluta dos
         nossos affectos pelo que nos conta, devemos por outra parte confessar, q̃ sempre deve ceder
         à Pintura pelo que esta nos mostra; porque o mais que por si mesmo nos pòde prometter a
         historia he mostrar as cousas ao entendimento como se fossem pintadas; mas a Pintura
         principiando adonde a outra acaba, pinta as cousas à vista, e de tal forte as reprezenta,
         que as vemos como se fossem vivas, e verdadeiras. <seg synch="#FR.19" type="EX"> De S.
          Gregorio Nisseno se escreve que vendo uma pintura de Abraham com a espada desembainhada em
          acto de sacrificar seu unico filho naõ pode conter aquellas lagrimas, que lendo muitas
          vezes a mesma historia naõ chegou a derramar. </seg>
                  <seg synch="#FR.20" type="EX"> E S. Basilio falando em certa occasiaõ de hum Santo Martyr,
          disse com grande humildade, que muito melhor, que as suas palavras o expressava
          engenhozamente a Pintura, a quem de boa vontade cedia a palma; </seg> pareceme, que naõ he
         precizo referir estas duas grandes authoridades, porque os doutos as sabem muito bem. <seg synch="#FR.21" type="MT"> Naõ sei, que certo escrupulo me acompanha, de que entenderàm os
          meus Leitores, que a efficacia com que discorro sobre a utilidade, e excellencias desta
          arte procede da inata inclinaçaõ, que a ella tenha, e que a paixaõ predominante he a que
          me obriga a intimar a sua grande serventia, e a formarlhe este pequeno elogio: mas devo
          satisfazer esta consideração, podendo aliàs ser muito bem fundada, com os exemplos, que
          possam desterrar toda a suspeita da minha parcialidade; lembrando aos meus Leytores, que
          ainda entre as sombras do Gentilismo conheceram os antigos esta grande dignidade da
          Pintura; </seg> porq̃ tanto a estimarão os Romanos particularmente pela singular
         utilidade, que cõmunica quando serve de mais facil, e <pb n="16"></pb> mais cõmum instrumento
         de se conhecerem os favores de Ceo, <seg synch="#FR.22" type="EX"> q̃ Quinto Fabio o mais
          illustre Cavalheiro, que no seu tempo contava a antiga Roma, reputou pela mayor de todas
          as suas felicidades, poder pintar com a sua propria mam todas as paredes do Templo da
          saude, subservando-as com o seu proprio nome; </seg>
                  <seg synch="#FR.23" type="EX"> Fabius Pictor, assim o deixou escrito Rutilio na vida deste
          illustre Consul, entenendo, que deixava mayor gloria para a sua posteridade em ser celebre
          Pintor de cousas sagradas, que o grande explendor, que communicou à sua illustre
          decendencia com tantas emprezas profanas seu Avô Alcides. </seg>
                  <seg synch="#FR.24" type="EX"> Isto mesmo praticáram depois Lucio Scipião, e Maximo
          Consusules; Octaviano Augusto, Tiberio, e Nero Cesares. Andriano, Marco Antonio, Alexandre
          Severo, Valentiniano, e Constantino Imperadores Romanos: e primeiro delles tinha entre os
          Gregos conciliado tanta estimaçam a Pintura, que para huma Arte tam nobre, e tam util não
          ser profanada por mam servil, e plebea, se publicou por toda a Grecia hum Edito, que
          nenhuma pessoa exercitasse esta Arte se naõ fosse nobre, e livre; assim o refere Plinio,
         </seg> e disto he que tomou a Pintura primeiramente o titulo de Arte liberal, que ao depois
         se communicou ás suas companheiras fazendo-se commum para todas. De tudo o que fica dito me
         parece, que muito bem se colhe a grande utilidade que os homens pòdem conseguir das boas
         Artes, e que naõ sómente ellas sam em si mesmo uteis, mas ainda necessarias para a boa
         armonia do Mundo civil; pelo que bem posso dizer aos nossos Naturaes o mesmo que Ouvidio
         disse aos Mancebos de Roma. <seg synch="#FR.25" type="ZM"> Disces bonas artes, moneo Romana
          Juventus. </seg>
                </seg>     
         </seg>
            </ab>
          </div>
        </body>
      </text>
    </group>
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</TEI>
