O Anonymo. Repartido pelas semanas, para divertimento e utilidade do publico: Num. 13
Permalink: https://gams.uni-graz.at/o:mws.6993
Niveau 1
N.°.13
Da Hyporcesia (sic), e os meyos para se conhecer cada hum a si mesmoNiveau 2
Récit général
Cansado de ouvir disparates em
huma grande conversasam de ignorantes, em que por dezastre
me achei, ainda que muitos entendem que nesta qualidade nam
deixo de fazer avultar o seu partido, busquei outro rumo, e
andei de porta em porta espreitando aonde me poderia
introduzir, que achasse algum alivio ao meu fatigado
espirito. Corri boa parte das ruas principaes, algumas
travessas mais proximas a ellas, e alguns lugares mais
publicos, e nem pelo rasto dei com parte
aonde se fizesse alguma Assemblea donde se discoresse sobre
couza util, e que servisse de alguma instrucçam para a vida
civil. Tudo era contar factos sucedidos, que mais se deviam
encomendar ao esquecimento, do que à memoria; principalmente
quando dizem respeito ao credito, e reputaçaõ do proximo:
referir patranhas sem pés, nem cabeça; levantar testemunhos
falços mais pezados que as mós de huma fabrica da polvora, e
outras couzas de similhante natureza, em que se perdia o
tempo, e nada se lucrava. Mas por ultimo lá fui dar em huma
pequena rua de poucos moradores, e como nam ouvi muita
falacia, antes tudo estava em pacifico socego, logo disse
com os meus botoens; se naõ engano neste citio de que se faz
tam pouco cazo alguma cousa heide descobrir que sirva ao meu
intento; porque gente que fala tam pouco nam deixa de se
empregar em utilidade do commum; mas como estam estes homens
parte aonde muitos os vejam, nem podem lembrar porque os nam
conhecem, ou se os conhecem algum rayo de inveja tomou a
direcçam para este citio, e entendo que nunca levantaràm
cabeça, que he o que de ordinario sucede. Parece que me
adivinhava o coraçam, porque achei o o mesmo que esperava.
Entrei assim como quem vinha fugindo, por huma caza, que
estava aberta, topei com hum pobre homem sentado ao seu
bofete (ou tambem nam sei se era banca) cercado de livros
pequenos, e bem vi, que nam eram alfarrabios, e
com elle estavam mais tres vizinhos seus, praticando, mas
como entrei de repente nam pude perceber em que falavam:
levantàram-se todos, receberamme com semblante alegre, e sem
enfado, e logo me perguntàram o que queria. Expuslhe o
motivo desta liberdade com o modo mais proprio, que me
servisse de desculpa, e senteime tambem fazendo rancho.
Depois de huma breve pauza, me disse o dono da caza: Como se
hia fazendo tarde, e eu tinha que ir lonje, nam me pude
dilatar mais para ouvir alguma cousa sobre esta materia, mas
hum dos bons amigos vendo que eu me apartava desgostozo, me
disse: Senhor, jà que V.m. quer ter a bondade de nos fazer
companhia, venha à manham mais cedo, que protesto nam dizer
cousa alguma sem V.m. chegar; com este seguro me despedi
mais contente, e veremos à manham o que se diz.
Dialogue
Senhor: Todos dizem, que o tempo
he a cousa mais precioza, que os homens pòdem ter, mas
adimirame a prodigalidade com que se esperdiça; a mayor
parte delle tenho achado, que se consome inutilmente, e
como eu, e estes meus vizinhos famos muito poupados,
porque nam he muito o nosso cabedal para fazermos
grandezas, de cousa que tam pouco se estima, aqui nos
ajuntamos todas as tardes, e depois de nos consolarmos
muito huns com outros sobre a nossa infelicidade,
entramos a discorrer sobre varias materias, de que
sempre desterramos tudo o que he murmuraçam, e que pòde
resultar em prejuizo do proximo; a agora justamente
quando V.m. entrou estavamos conversando sobre huma
cousa bem importante, e que he muito frequente no mundo,
ainda que jà fez melhor fortuna do que a que vai
experimentando. Pois Senhor meu (lhe disse entam) nam
vai a perturbar, continuem V.MS. a sua pratica, porque
eu nam venho a outra cousa mais do que a aproveitar este
bocado de tarde na boa companhia de V.ms. Pois amigo,
iremos continuando sem ceremonia. A
Hipocrisia nos Palacios, e nas partes junto a elles, he
muito diferente daquella que se pratica em commum. O
hypocrita da moda procura mostrar-se peor do que he; e o
hypocrita commum deseja passar nos olhos de todos por
mais virtuoso do que na verdade he. O primeiro parece,
que teme tudo o que tem alguma apparencia de Religiam, e
teria grande gosto se todos entendessem, que estava
influido em muitas cousas más, ainda que na verdade naõ
fosse assim: e o ultimo se reveste de hum exterior
devoto, e esconde huma quantidade de vicios debaxo das
excelentes apparencias da virtude. Mas ainda ha outra
sorte de hypocrisia muito differente destas duas, e he a
de que estamos falando; quero dizer, esta hypocrisia,
que obriga hum homem nam sómente a impor defeitos, e
faltas sobre os outros, mas tambem a enganar-se a si
mesmo. Esta hypocrisia, que lhe faz dobrado o seu
proprio coraçam, que o persuade a que tem mais virtude,
do que realmente tem, que o obriga a seguir os seus
vicios, e reputalos com virtudes. Se os impios de
profissam merecem, q̃ os Escritores da Moral empreguem
todos os seus esforços para os separar do vicio, e do
desprezo da virtude, que cuidado, e que compaxam nam
devem esperar, que delles se tenha os que caminham pelos
passos da morte, e que imaginam estar na estrada da
virtude? Este he o motivo porque determino dar algumas
regras, q̃ possam concorrer para se descobrirem estes
vicios, que se occultam entre os refolhos do coraçam, e
para mostrar meyos pelos quaes se pòde chegar a hum verdadeiro conhecimento de sy mesmo. Os que
ordinariamente se acham escritos, sam examinar os
Preceitos, e Maximas do Evangelho, que devem servir para
regularmos os nossos passos, e de compararmos a nossa
vida com a de Jesu Christo, modelo da perfeiçam, guia, e
mestre dos que recebem a sua Doutrina. Sobre estes dous
artigos nam he precizo insistir muito; porque muitos
doutos tem tratado delles com bastante energia, e
efficacia, pelo serà superfluo tudo o que a seu respeito
disser: e sómente proporei os meyos seguintes, para
aquelles que quizerem conhecer os seus defeitos ocultos,
e que se nam quizerem estimar em mais do que valem. I.
Em primeiro lugar, eu os exorto a que façam huma boa
reflexam sobre o caracter, que conservam para como seus
inimigos.
II. III. Em terceiro lugar, para nam nos enganarmos
sobre hum artigo de tam grande importancia, Hum zelo ardente, e a paxam em favor de huma
Parcialidade, ou de huma opiniam, ainda que se entendam
dignos de louvor por certos espiritos fracos, nam deixam
de expor o Genero humano a hum numero
infinito de calamidades: a saõ huns principios em si
mesmo bastantemente pèssimos.
Confesso, que nunca vi hum Partido, ou huma Parcialidade
tam justa, e tam racionavel, que hum homem o possa
seguir como todo o ardor de seu zelo, e conservar ao
mesmo mo tempo a sua innocencia. IV. Devemos desconfiar
daquelles acções, que procedem do temperamento das
paixoens que mais nos predominam; de huma educaçam
particular, ou de tudo o que concorda com os nossos
interesses mundanos. A respeito de todos estes cazos, e
semelhantes, he muito facil de se perverter o juizo do
homem, e se acha embaraçado com hum grande pezo, que o
oprime. Estas sam as ocultas syrtes do esperito em que
naufraga em hum milham de erros, e quebram outros tantos
prejuizos sem se acautelarem, ou advertirem. Nam ha cousa alguma,
que nos seja de mayor importancia, como he fondar os
nossos pensamentos, revolver os nossos coraçoens, se
quizermos ornar as nossas almas de
huma virtude solida, e capaz de nos servir no ultimo
dia, quando houverem de experimentar a força de huma
sabedoria, e de huma justiça infinita.
Hétéroportrait
Sucede muitas
vezes, que os nossos mesmos amigos nos lizongeam, e
que nos temperam tudo da mesma sorte, que faz o amor
proprio: nam olham para os nossos defeitos, ou
escondem, ou extenuam aos nossos olhos de huma
fórma, que os consideramos muito leyes para
cuidarmos nelles, e remedialos. Os nossos inimigos
obram muito pelo contrario, porque estes espiam
todos os nossos passos, e descobrem atè as minimas
imperfeiçoens que temos; e ainda que a sua malicia
os obriga muitas vezes a agravalas, quasi sempre se
funda em alguma cousa verdadeira. Hum amigo augmenta
as virtudes que muitas vezes nam ha, e hum inimigo
exagera os vicios. Hum homem sabio, e prudente deve
atender ao que ambos dizem, para se animar a praticar humas, e fugir dos outros.
Exemple
Plutarco escreveu hum
Exame sobre os bons officios, que se pòdem receber
dos inimigos, e diz que huma destas utilidades
consiste em que as suas murmurações nos mostram pela
parte mais fea, e que nos descobrem muitos defeitos,
que nam poderiamos ter observado sem o socorro
destes malignos censores.
Autoportrait
Em segundo lugar, para
chegarmos ao nosso proprio conhecimento, he precizo
examinar atè que ponto merecemos os elogios, que nos
fazem; se as acçoens a que elles se encaminham
procedem de hum bom principio; e se possuimos as
virtudes pelas quaes nos fazem estes aplausos. Este
exame he de huma absoluta necessidade sendo os
homens muitos dispostos a se estimarem, ou condenar
segundo a opiniam dos outros, e a sacrificar os
testemunhos do seu coraçam ao juizo do publico.
Autoportrait
nam devemos ter huma idèa
muito de certas virtudes que possuimos, e que sam
hum pouco sospeitas; porque ha muitas pessoas tam
doutas, e de hum juizo tam claro como o nosso, as
quaes forma outra idèa muito differente. Devemos
sempre proceder com muita cautella em certos cazos,
em que nam he impossivel que deixemos de errar.
Hétéroportrait
E com tudo nam faltam pessoas de huma
piedade exemplar, que nutrem estes monstros em seu
peito, e que os julgam como virtudes!
Hétéroportrait
Hum homem sabio deve ter
por sospeitos todos os caminhos, que se lhe
offerecem por outro qualquer principio, que nam for
o da razam; e hade sempre temer algum mal oculto em
qualquer designio que for de huma natureza equivoca,
quando for conforme ao seu temperamento, à sua
idade, e ao seu modo de viver, e que favoreça a sua
paxam, ou seu interesse.
