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        <author>Anónimo (Bento Morganti)</author>
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                        Universität Graz</orgName>
        </publisher>
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          <orgName ref="http://informationsmodellierung.uni-graz.at">Zentrum für
                        Informationsmodellierung, Universität Graz</orgName>
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        <pubPlace>Graz</pubPlace>
        <date when="2018-10-04">04.10.2018</date>
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        <bibl>Anónimo (Morganti, Bento): Primeira Collecçam dos Papeis Anonymos. Lisboa:
                    Pedro Ferreira, 1752, 97-104 </bibl>
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          <title level="j">O Anonymo. Repartido pelas
                        semanas, para divertimento e utilidade do publico</title>
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          <date>1752</date>
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<p rend="EU"><milestone unit="E1" xml:id="FR.1"></milestone></p>
<div1><head>N.°.13</head>
<div2><head><hi rend="italic">Da Hyporcesia (sic), e os meyos para se conhecer cada hum a si mesmo </hi></head>
<p rend="SO"><hi rend="smallcaps"><milestone unit="E2" xml:id="FR.2"></milestone> <milestone unit="AE" xml:id="FR.3"></milestone> Ca</hi>nsado de ouvir disparates em huma grande conversasam de ignorantes, em que por dezastre me achei, ainda que muitos entendem que nesta qualidade nam deixo de fazer avultar o seu partido, busquei outro rumo, e andei de porta em porta espreitando aonde me poderia introduzir, que achasse algum alivio ao meu fatigado espirito. Corri boa parte das ruas principaes, algumas travessas mais proximas a ellas, e alguns lugares mais publi-<pb n="98"></pb>cos, e nem pelo rasto dei com parte aonde se fizesse alguma Assemblea donde se discoresse sobre couza util, e que servisse de alguma instrucçam para a vida civil. Tudo era contar factos sucedidos, que mais se deviam encomendar ao esquecimento, do que à memoria; principalmente quando dizem respeito ao credito, e reputaçaõ do proximo: referir patranhas sem pés, nem cabeça; levantar testemunhos falços mais pezados que as mós de huma fabrica da polvora, e outras couzas de similhante natureza, em que se perdia o tempo, e nada se lucrava. Mas por ultimo lá fui dar em huma pequena rua de poucos moradores, e como nam ouvi muita falacia, antes tudo estava em pacifico socego, logo disse com os meus botoens; se naõ engano neste citio de que se faz tam pouco cazo alguma cousa heide descobrir que sirva ao meu intento; porque gente que fala tam pouco nam deixa de se empregar em utilidade do commum; mas como estam estes homens parte aonde muitos os vejam, nem podem lembrar porque os nam conhecem, ou se os conhecem algum rayo de inveja tomou a direcçam para este citio, e entendo que nunca levantaràm cabeça, que he o que de ordinario sucede. Parece que me adivinhava o coraçam, porque achei o o mesmo que esperava. Entrei assim como quem vinha fugindo, por huma caza, que estava aberta, topei com hum pobre homem sentado ao seu bofete (ou tambem nam sei se era banca) cercado de livros pequenos, e bem vi, que nam e-<pb n="99"></pb>ram alfarrabios, e com elle estavam mais tres vizinhos seus, praticando, mas como entrei de repente nam pude perceber em que falavam: levantàram-se todos, receberamme com semblante alegre, e sem enfado, e logo me perguntàram o que queria. Expuslhe o motivo desta liberdade com o modo mais proprio, que me servisse de desculpa, e senteime tambem fazendo rancho. Depois de huma breve pauza, me disse o dono da caza: <milestone unit="D" xml:id="FR.4"></milestone> Senhor: Todos dizem, que o tempo he a cousa mais precioza, que os homens pòdem ter, mas adimirame a prodigalidade com que se esperdiça; a mayor parte delle tenho achado, que se consome inutilmente, e como eu, e estes meus vizinhos famos muito poupados, porque nam he muito o nosso cabedal para fazermos grandezas, de cousa que tam pouco se estima, aqui nos ajuntamos todas as tardes, e depois de nos consolarmos muito huns com outros sobre a nossa infelicidade, entramos a discorrer sobre varias materias, de que sempre desterramos tudo o que he murmuraçam, e que pòde resultar em prejuizo do proximo; a agora justamente quando V.m. entrou estavamos conversando sobre huma cousa bem importante, e que he muito frequente no mundo, ainda que jà fez melhor fortuna do que a que vai experimentando. Pois Senhor meu (lhe disse entam) nam vai a perturbar, continuem V.MS. a sua pratica, porque eu nam venho a outra cousa mais do que a aproveitar este bocado de tarde na boa companhia de V.ms. Pois amigo, iremos continuando sem ceremonia. </p>
<p rend="SO"><pb n="100"></pb> A Hipocrisia nos Palacios, e nas partes junto a elles, he muito diferente daquella que se pratica em commum. O hypocrita da moda procura mostrar-se peor do que he; e o hypocrita commum deseja passar nos olhos de todos por mais virtuoso do que na verdade he. O primeiro parece, que teme tudo o que tem alguma apparencia de Religiam, e teria grande gosto se todos entendessem, que estava influido em muitas cousas más, ainda que na verdade naõ fosse assim: e o ultimo se reveste de hum exterior devoto, e esconde huma quantidade de vicios debaxo das excelentes apparencias da virtude. </p>
<p>Mas ainda ha outra sorte de hypocrisia muito differente destas duas, e he a de que estamos falando; quero dizer, esta hypocrisia, que obriga hum homem nam sómente a impor defeitos, e faltas sobre os outros, mas tambem a enganar-se a si mesmo. Esta hypocrisia, que lhe faz dobrado o seu proprio coraçam, que o persuade a que tem mais virtude, do que realmente tem, que o obriga a seguir os seus vicios, e reputalos com virtudes. </p>
<p>Se os impios de profissam merecem, q̃ os Escritores da Moral empreguem todos os seus esforços para os separar do vicio, e do desprezo da virtude, que cuidado, e que compaxam nam devem esperar, que delles se tenha os que caminham pelos passos da morte, e que imaginam estar na estrada da virtude? Este he o motivo porque determino dar algumas regras, q̃ possam concorrer para se descobrirem estes vicios, que se occultam entre os refolhos do coraçam, e para mostrar meyos pelos quaes se pòde che-<pb n="101"></pb>gar a hum verdadeiro conhecimento de sy mesmo. Os que ordinariamente se acham escritos, sam examinar os Preceitos, e Maximas do Evangelho, que devem servir para regularmos os nossos passos, e de compararmos a nossa vida com a de Jesu Christo, modelo da perfeiçam, guia, e mestre dos que recebem a sua Doutrina. Sobre estes dous artigos nam he precizo insistir muito; porque muitos doutos tem tratado delles com bastante energia, e efficacia, pelo serà superfluo tudo o que a seu respeito disser: e sómente proporei os meyos seguintes, para aquelles que quizerem conhecer os seus defeitos ocultos, e que se nam quizerem estimar em mais do que valem. </p>
<p>I. Em primeiro lugar, eu os exorto a que façam huma boa reflexam sobre o caracter, que conservam para como seus inimigos. <milestone unit="FP" xml:id="FR.5"></milestone> Sucede muitas vezes, que os nossos mesmos amigos nos lizongeam, e que nos temperam tudo da mesma sorte, que faz o amor proprio: nam olham para os nossos defeitos, ou escondem, ou extenuam aos nossos olhos de huma fórma, que os consideramos muito leyes para cuidarmos nelles, e remedialos. Os nossos inimigos obram muito pelo contrario, porque estes espiam todos os nossos passos, e descobrem atè as minimas imperfeiçoens que temos; e ainda que a sua malicia os obriga muitas vezes a agravalas, quasi sempre se funda em alguma cousa verdadeira. Hum amigo augmenta as virtudes que muitas vezes nam ha, e hum inimigo exagera os vicios. Hum homem sabio, e prudente deve atender ao que ambos dizem, para se animar a pra-<pb n="102"></pb>ticar humas, e fugir dos outros. <milestone rend="closer" unit="FP"></milestone> <milestone unit="EX" xml:id="FR.6"></milestone> Plutarco escreveu hum Exame sobre os bons officios, que se pòdem receber dos inimigos, e diz que huma destas utilidades consiste em que as suas murmurações nos mostram pela parte mais fea, e que nos descobrem muitos defeitos, que nam poderiamos ter observado sem o socorro destes malignos censores. <milestone rend="closer" unit="EX"></milestone> </p>
<p>II. <milestone unit="SP" xml:id="FR.7"></milestone> Em segundo lugar, para chegarmos ao nosso proprio conhecimento, he precizo examinar atè que ponto merecemos os elogios, que nos fazem; se as acçoens a que elles se encaminham procedem de hum bom principio; e se possuimos as virtudes pelas quaes nos fazem estes aplausos. Este exame he de huma absoluta necessidade sendo os homens muitos dispostos a se estimarem, ou condenar segundo a opiniam dos outros, e a sacrificar os testemunhos do seu coraçam ao juizo do publico. <milestone rend="closer" unit="SP"></milestone> </p>
<p>III. Em terceiro lugar, para nam nos enganarmos sobre hum artigo de tam grande importancia, <milestone unit="SP" xml:id="FR.8"></milestone> nam devemos ter huma idèa muito de certas virtudes que possuimos, e que sam hum pouco sospeitas; porque ha muitas pessoas tam doutas, e de hum juizo tam claro como o nosso, as quaes forma outra idèa muito differente. Devemos sempre proceder com muita cautella em certos cazos, em que nam he impossivel que deixemos de errar. <milestone rend="closer" unit="SP"></milestone> Hum zelo ardente, e a paxam em favor de huma Parcialidade, ou de huma opiniam, ainda que se entendam dignos de louvor por certos espiritos fracos, nam deixam <pb n="103"></pb> de expor o Genero humano a hum numero infinito de calamidades: a saõ huns principios em si mesmo bastantemente pèssimos. <milestone unit="FP" xml:id="FR.9"></milestone> E com tudo nam faltam pessoas de huma piedade exemplar, que nutrem estes monstros em seu peito, e que os julgam como virtudes! <milestone rend="closer" unit="FP"></milestone> Confesso, que nunca vi hum Partido, ou huma Parcialidade tam justa, e tam racionavel, que hum homem o possa seguir como todo o ardor de seu zelo, e conservar ao mesmo mo tempo a sua innocencia. </p>
<p>IV. Devemos desconfiar daquelles acções, que procedem do temperamento das paixoens que mais nos predominam; de huma educaçam particular, ou de tudo o que concorda com os nossos interesses mundanos. A respeito de todos estes cazos, e semelhantes, he muito facil de se perverter o juizo do homem, e se acha embaraçado com hum grande pezo, que o oprime. Estas sam as ocultas syrtes do esperito em que naufraga em hum milham de erros, e quebram outros tantos prejuizos sem se acautelarem, ou advertirem. <milestone unit="FP" xml:id="FR.10"></milestone> Hum homem sabio deve ter por sospeitos todos os caminhos, que se lhe offerecem por outro qualquer principio, que nam for o da razam; e hade sempre temer algum mal oculto em qualquer designio que for de huma natureza equivoca, quando for conforme ao seu temperamento, à sua idade, e ao seu modo de viver, e que favoreça a sua paxam, ou seu interesse. <milestone rend="closer" unit="FP"></milestone> </p>
<p>Nam ha cousa alguma, que nos seja de mayor importancia, como he fondar os nossos pensamentos, revolver os nossos coraçoens, se qui-<pb n="104"></pb>zermos ornar as nossas almas de huma virtude solida, e capaz de nos servir no ultimo dia, quando houverem de experimentar a força de huma sabedoria, e de huma justiça infinita. <milestone rend="closer" unit="D"></milestone> </p>
<p>Como se hia fazendo tarde, e eu tinha que ir lonje, nam me pude dilatar mais para ouvir alguma cousa sobre esta materia, mas hum dos bons amigos vendo que eu me apartava desgostozo, me disse: Senhor, jà que V.m. quer ter a bondade de nos fazer companhia, venha à manham mais cedo, que protesto nam dizer cousa alguma sem V.m. chegar; com este seguro me despedi mais contente, e veremos à manham o que se diz. <milestone rend="closer" unit="AE"></milestone> <milestone rend="closer" unit="E2"></milestone> </p>
<p><hi rend="smallcaps">Lisboa</hi>. </p>
<p rend="SO">Na officina de Pedro Ferreira, Impressor da Augustissima Rainha Nossa Senhora. <milestone rend="closer" unit="E1"></milestone></p>
<p></p></div2></div1></body>
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                                        me achei, ainda que muitos entendem que nesta qualidade nam
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                                        andei de porta em porta espreitando aonde me poderia
                                        introduzir, que achasse algum alivio ao meu fatigado
                                        espirito. Corri boa parte das ruas principaes, algumas
                                        travessas mais proximas a ellas, e alguns lugares mais
                                            publi-<pb n="98"></pb>cos, e nem pelo rasto dei com parte
                                        aonde se fizesse alguma Assemblea donde se discoresse sobre
                                        couza util, e que servisse de alguma instrucçam para a vida
                                        civil. Tudo era contar factos sucedidos, que mais se deviam
                                        encomendar ao esquecimento, do que à memoria; principalmente
                                        quando dizem respeito ao credito, e reputaçaõ do proximo:
                                        referir patranhas sem pés, nem cabeça; levantar testemunhos
                                        falços mais pezados que as mós de huma fabrica da polvora, e
                                        outras couzas de similhante natureza, em que se perdia o
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                                        pequena rua de poucos moradores, e como nam ouvi muita
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                                        tam pouco cazo alguma cousa heide descobrir que sirva ao meu
                                        intento; porque gente que fala tam pouco nam deixa de se
                                        empregar em utilidade do commum; mas como estam estes homens
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                                        adivinhava o coraçam, porque achei o o mesmo que esperava.
                                        Entrei assim como quem vinha fugindo, por huma caza, que                                        
estava aberta, topei com hum pobre homem sentado ao seu             
                           bofete (ou tambem nam sei se era banca) cercado de livros
                                        pequenos, e bem vi, que nam e-<pb n="99"></pb>ram alfarrabios, e
                                        com elle estavam mais tres vizinhos seus, praticando, mas
                                        como entrei de repente nam pude perceber em que falavam:
                                        levantàram-se todos, receberamme com semblante alegre, e sem
                                        enfado, e logo me perguntàram o que queria. Expuslhe o
                                        motivo desta liberdade com o modo mais proprio, que me
                                        servisse de desculpa, e senteime tambem fazendo rancho.
                                        Depois de huma breve pauza, me disse o dono da caza: <seg synch="#FR.4" type="D"> Senhor: Todos dizem, que o tempo
                                            he a cousa mais precioza, que os homens pòdem ter, mas
                                            adimirame a prodigalidade com que se esperdiça; a mayor
                                            parte delle tenho achado, que se consome inutilmente, e
                                            como eu, e estes meus vizinhos famos muito poupados,
                                            porque nam he muito o nosso cabedal para fazermos
                                            grandezas, de cousa que tam pouco se estima, aqui nos
                                            ajuntamos todas as tardes, e depois de nos consolarmos
                                            muito huns com outros sobre a nossa infelicidade,
                                            entramos a discorrer sobre varias materias, de que
                                            sempre desterramos tudo o que he murmuraçam, e que pòde
                                            resultar em prejuizo do proximo; a agora justamente
                                            quando V.m. entrou estavamos conversando sobre huma
                                            cousa bem importante, e que he muito frequente no mundo,
                                            ainda que jà fez melhor fortuna do que a que vai
                                            experimentando. Pois Senhor meu (lhe disse entam) nam
                                            vai a perturbar, continuem V.MS. a sua pratica, porque
                                            eu nam venho a outra cousa mais do que a aproveitar este
                                            bocado de tarde na boa companhia de V.ms. Pois amigo,
                                            iremos continuando sem ceremonia. <pb n="100"></pb> A
                                            Hipocrisia nos Palacios, e nas partes junto a elles, he
                                            muito diferente daquella que se pratica em commum. O
                                            hypocrita da moda procura mostrar-se peor do que he; e o
                                            hypocrita commum deseja passar nos olhos de todos por
                                            mais virtuoso do que na verdade he. O primeiro parece,
                                            que teme tudo o que tem alguma apparencia de Religiam, e
                                            teria grande gosto se todos entendessem, que estava             
                               influido em muitas cousas más, ainda que na verdade naõ
                                            fosse assim: e o ultimo se reveste de hum exterior
                                            devoto, e esconde huma quantidade de vicios debaxo das
                                            excelentes apparencias da virtude. Mas ainda ha outra
                                            sorte de hypocrisia muito differente destas duas, e he a
                                            de que estamos falando; quero dizer, esta hypocrisia,    
                                        que obriga hum homem nam sómente a impor defeitos, e
                                            faltas sobre os outros, mas tambem a enganar-se a si
                                            mesmo. Esta hypocrisia, que lhe faz dobrado o seu
                                            proprio coraçam, que o persuade a que tem mais virtude,
                                            do que realmente tem, que o obriga a seguir os seus
                                            vicios, e reputalos com virtudes. Se os impios de
                                            profissam merecem, q̃ os Escritores da Moral empreguem
                                            todos os seus esforços para os separar do vicio, e do
                                            desprezo da virtude, que cuidado, e que compaxam nam
                                            devem esperar, que delles se tenha os que caminham pelos
                                            passos da morte, e que imaginam estar na estrada da
                                            virtude? Este he o motivo porque determino dar algumas
                                            regras, q̃ possam concorrer para se descobrirem estes
                                            vicios, que se occultam entre os refolhos do coraçam, e
                                            para mostrar meyos pelos quaes se pòde che-<pb n="101"></pb>gar a hum verdadeiro conhecimento de sy mesmo. Os que
                                            ordinariamente se acham escritos, sam examinar os
                                            Preceitos, e Maximas do Evangelho, que devem servir para
                                            regularmos os nossos passos, e de compararmos a nossa
                                            vida com a de Jesu Christo, modelo da perfeiçam, guia, e
                                            mestre dos que recebem a sua Doutrina. Sobre estes dous
                                            artigos nam he precizo insistir muito; porque muitos
                                            doutos tem tratado delles com bastante energia, e
                                            efficacia, pelo serà superfluo tudo o que a seu respeito
                                            disser: e sómente proporei os meyos seguintes, para
                                            aquelles que quizerem conhecer os seus defeitos ocultos,
                                            e que se nam quizerem estimar em mais do que valem. I.
                                            Em primeiro lugar, eu os exorto a que façam huma boa
                                            reflexam sobre o caracter, que conservam para como seus
                                            inimigos. <seg synch="#FR.5" type="FP"> Sucede muitas
                                                vezes, que os nossos mesmos amigos nos lizongeam, e
                                                que nos temperam tudo da mesma sorte, que faz o amor
                                                proprio: nam olham para os nossos defeitos, ou
                                                escondem, ou extenuam aos nossos olhos de huma
                                                fórma, que os consideramos muito leyes para
                                                cuidarmos nelles, e remedialos. Os nossos inimigos
                                                obram muito pelo contrario, porque estes espiam
                                                todos os nossos passos, e descobrem atè as minimas
                                                imperfeiçoens que temos; e ainda que a sua malicia
                                                os obriga muitas vezes a agravalas, quasi sempre se                          
                      funda em alguma cousa verdadeira. Hum amigo augmenta
                                                as virtudes que muitas vezes nam ha, e hum inimigo
                                                exagera os vicios. Hum homem sabio, e prudente deve
                                                atender ao que ambos dizem, para se animar a pra-<pb n="102"></pb>ticar humas, e fugir dos outros. </seg>
                      <seg synch="#FR.6" type="EX"> Plutarco escreveu hum
                                                Exame sobre os bons officios, que se pòdem receber
                                                dos inimigos, e diz que huma destas utilidades
                                                consiste em que as suas murmurações nos mostram pela
                                                parte mais fea, e que nos descobrem muitos defeitos,
                                                que nam poderiamos ter observado sem o socorro
                                                destes malignos censores. </seg> II. <seg synch="#FR.7" type="SP"> Em segundo lugar, para
                                                chegarmos ao nosso proprio conhecimento, he precizo
                                                examinar atè que ponto merecemos os elogios, que nos
                                                fazem; se as acçoens a que elles se encaminham
                                                procedem de hum bom principio; e se possuimos as
                                                virtudes pelas quaes nos fazem estes aplausos. Este
                                                exame he de huma absoluta necessidade sendo os
                                                homens muitos dispostos a se estimarem, ou condenar
                                                segundo a opiniam dos outros, e a sacrificar os
                                                testemunhos do seu coraçam ao juizo do publico.
                                            </seg> III. Em terceiro lugar, para nam nos enganarmos
                                            sobre hum artigo de tam grande importancia, <seg synch="#FR.8" type="SP"> nam devemos ter huma idèa
                                                muito de certas virtudes que possuimos, e que sam
                                                hum pouco sospeitas; porque ha muitas pessoas tam
                                                doutas, e de hum juizo tam claro como o nosso, as
                                                quaes forma outra idèa muito differente. Devemos
                                                sempre proceder com muita cautella em certos cazos,
                                                em que nam he impossivel que deixemos de errar.
                                            </seg> Hum zelo ardente, e a paxam em favor de huma
                                            Parcialidade, ou de huma opiniam, ainda que se entendam
                                            dignos de louvor por certos espiritos fracos, nam deixam
                                                <pb n="103"></pb> de expor o Genero humano a hum numero
                                            infinito de calamidades: a saõ huns principios em si
                                            mesmo bastantemente pèssimos. <seg synch="#FR.9" type="FP"> E com tudo nam faltam pessoas de huma
                                                piedade exemplar, que nutrem estes monstros em seu
                                                peito, e que os julgam como virtudes! </seg>
                                            Confesso, que nunca vi hum Partido, ou huma Parcialidade
                                            tam justa, e tam racionavel, que hum homem o possa                                           
 seguir como todo o ardor de seu zelo, e conservar ao
                                            mesmo mo tempo a sua innocencia. IV. Devemos desconfiar
                                            daquelles acções, que procedem do temperamento das
                                            paixoens que mais nos predominam; de huma educaçam
                                            particular, ou de tudo o que concorda com os nossos
                                            interesses mundanos. A respeito de todos estes cazos, e
                                            semelhantes, he muito facil de se perverter o juizo do
                                            homem, e se acha embaraçado com hum grande pezo, que o
                                            oprime. Estas sam as ocultas syrtes do esperito em que                
                            naufraga em hum milham de erros, e quebram outros tantos
                                            prejuizos sem se acautelarem, ou advertirem. <seg synch="#FR.10" type="FP"> Hum homem sabio deve ter
                                                por sospeitos todos os caminhos, que se lhe
                                                offerecem por outro qualquer principio, que nam for
                                                o da razam; e hade sempre temer algum mal oculto em
                                                qualquer designio que for de huma natureza equivoca,
                                                quando for conforme ao seu temperamento, à sua
                                                idade, e ao seu modo de viver, e que favoreça a sua
                                                paxam, ou seu interesse. </seg> Nam ha cousa alguma,
                                            que nos seja de mayor importancia, como he fondar os
                                            nossos pensamentos, revolver os nossos coraçoens, se
                                                qui-<pb n="104"></pb>zermos ornar as nossas almas de
                                            huma virtude solida, e capaz de nos servir no ultimo
                                            dia, quando houverem de experimentar a força de huma
                                            sabedoria, e de huma justiça infinita. </seg> Como se
                                        hia fazendo tarde, e eu tinha que ir lonje, nam me pude
                                        dilatar mais para ouvir alguma cousa sobre esta materia, mas
                                        hum dos bons amigos vendo que eu me apartava desgostozo, me
                                        disse: Senhor, jà que V.m. quer ter a bondade de nos fazer
                                        companhia, venha à manham mais cedo, que protesto nam dizer
                                        cousa alguma sem V.m. chegar; com este seguro me despedi
                                        mais contente, e veremos à manham o que se diz. </seg>
                </seg> Lisboa. Na officina de Pedro Ferreira, Impressor da
                                Augustissima Rainha Nossa Senhora. </seg>
            </ab>
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        </body>
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