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        <title>Num. 11</title>
        <author>Anónimo (Bento Morganti)</author>
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        <edition>Moralische Wochenschriften</edition>
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          <name>Gerlinde Schneider</name>
          <name>Martina Scholger</name>
          <name>Johannes Stigler</name>
          <name>Gunter Vasold</name>
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                        Universität Graz</orgName>
        </publisher>
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          <orgName ref="http://informationsmodellierung.uni-graz.at">Zentrum für
                        Informationsmodellierung, Universität Graz</orgName>
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        <date when="2018-10-04">04.10.2018</date>
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        <bibl>Anónimo (Morganti, Bento): Primeira Collecçam dos Papeis Anonymos. Lisboa:
                    Pedro Ferreira, 1752, 81-87 </bibl>
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          <title level="j">O Anonymo. Repartido pelas
                        semanas, para divertimento e utilidade do publico</title>
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          <date>1752</date>
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<p rend="EU"><milestone unit="E1" xml:id="FR.1"></milestone></p>
<div1><head>N.°.11</head>
<div2><head><hi rend="italic">Sobre a reputaçam em geral, e da delicadeza do credito a respeito dos Mercadores- </hi></head>
<p rend="SO"><hi rend="smallcaps"><milestone unit="E2" xml:id="FR.2"></milestone> <milestone unit="AE" xml:id="FR.3"></milestone> De</hi>pois, que me apartei dos tumultos da Corte buscando neste retiro o meu socego, poucas vezes vou a ella, excepto quando o pedem algumas dependencias, ou por causa de alguma cousa especial, que nella haja que ver; porque sempre he bom ver tudo ao menos huma vez, para saber contar aos vindouros o que tem passado, e he muito mais efficaz a impressam do que se refere pelas pelas noticias intuitivas, do que que quãdo esta noticia he adquirida pelas noticias <pb n="82"></pb> abstractivas; e como me disseram q̃ este anno na Procissam de Corpus havia algùa novidade, entendi que o vulgo barbaro, e ignorante apagava as saudades, que tem da Serpe, e do Adrago, dos carros dos Orteloens, Tanoeiros, e Danças, &amp;c. Com que esta solemnidade de se fazia aos seus olhos mais festiva, e alegre, nam sendo na verdade nem tam grave, nem tam decente; àlem de tudo isto vinha forçado, se sem genero algum de alluzam, que lhe service de desculpa, especialmente as tres rediculas figuras dos Gigantes; mas achei por novidade ser este anno a Procissam mais breve, por se terem della eximido muitas Confrarias, e algumas Communidades Religiosas, que conseguiram ficar na sua primitiva izençam, com o que ficou sendo menos enfadonha. Na tarde do mesmo dia por nam ter occaziuam opportuna de falar em negocios, nem de fazer jornada, fiz como os mais. Vesti o meu vestido melhor, que tinha, e pedi a hum amigo, que me conduzisse com sigo na sua feje, e toda derreada fomos como em huma charola atropelar a pobre jente, que andava pelas ruas, huns retirando-se para suas cazas, e outros buscando pacificamente a sua diversam nos differentes objectos, que se encontram a cada canto. O peor foi ser a seje a hùa bestinha só, porque o amigo nam teve quem lhe emprestasse outra para inteirar e cessia da boléa, e assim hiamos aos poucos fazendo renda com os cordoens, pelo que ficou frustrado a maior parte do intento; pois se queria olhar para as janellas, jà ficava debaxo da seje hum rapàs, huma mulher, ou outro qualquer individuo, e com a gritaria de pare, tenha mam, recue, &amp;c. là hia perdida a linha da optica com tanta diferença, como era tirar os olhos do ar, e <pb n="83"></pb> dar com elles no cham, para ver de que procedia tam grande algazarra. Se applicava o cuidado para governar o carrinho nada via, porque em semelhantes ocaziòes toda a vigilancia he diminuta: a atè q̃ por ultimo veyo outra seje, quiz fazer caminho por força; e como estava tudo atravancado como as carruagens, metteu o lacayo os machos de repellam, e nam foi nada; pregou com a charola de ayesso, caimos hum por sima do outro, acudio a rapaziada, e eu todo injuriado disse para o meu companheiro: <milestone unit="D" xml:id="FR.4"></milestone> Fique-se V.m. muito embora, que eu vim na sua companhia para me divertir, e nam para me amofinar, e nam sei como ha quem tome estes descomodos por seu divertimento. <milestone rend="closer" unit="D"></milestone> Organizou se outra vez o tal carro, e eu abalei para o caffé, que me ficava perto para descançar do susto. Em quanto estava tomando o o (sic) meu chà, chegaram dous, ou tres sogeitos daquelles <hi rend="italic">sem ceremonia</hi>, <milestone unit="MT" xml:id="FR.5"></milestone> entràram a falar sobre o triste Anonymo, que nam faz mal a ninguem, e depois de de praticarem algumas cousas com que lhe foram cozendo, ou descozendo o vestido, disse hum: <milestone unit="D" xml:id="FR.6"></milestone> He o Anonymo hum homem dos mais inconstantes, que eu conheço, e sem embargo de alguns discursos, que tem publicado sobre a economia he tam prodigo, e desmazelado, que nam presta para nada; e ainda que arezoe sobre todas as obrigaçoens da vida civil tambem outro qualquer sempre para si toma a menor parte dos seus conselhos, e foram dizendo outras cousas semelhantes. <milestone rend="closer" unit="D"></milestone> Eu como sou costumado a desprezar tudo o que se diz sem fundamento, esta rude invectiva me nam causou o ominimo (sic) enfado, <milestone rend="closer" unit="MT"></milestone> <milestone rend="closer" unit="AE"></milestone> mas atirou comigo <pb n="84"></pb> a huma profunda consideraçam sobre o bom nome, e a boa fama em geral, e nam pude deixar de me compadecer da fraqueza daquelles que fazem muito cazo do que a gente do commum diz, por hum certo genio invejozo, que os devora, sobre a conveniencia, e prejuizo daquelles de quem falam, sem que a benevolencia, ou a malignidade os anime por algum principio para huma acçam indecoroza. Entam me lembraram os versos de Horacio no lugar em que diz: </p>
<p rend="MO"><hi rend="italic"><milestone unit="ZM" xml:id="FR.7"></milestone> Quod de quoque viro, cui dicas saepe videto. </hi></p>
<p rend="QU">Hor. Lib.I. Epsti. Xviii.vers.68 </p>
<p rend="SO">Que quer dizer: <hi rend="italic">Tende muito cuidado sobre o que dizeis das pessoas de quem falais, e tomai muito sètido diante de quem fallais dellas. </hi><milestone rend="closer" unit="ZM"></milestone> Serà impossivel deixar de causar enfado, e aborrecimento a quem ler, se ouver de dizertudo quanto sinto sobre a oppinaõ que os homens conservam da boa fama, e do bom nome, e sobre o gosto inexplicavel que cada hum concebe em dar a sua approvaçam às pessoas de merecimento, quàdo elle mesmo se acha no estado de o adquirir: mas parece-me, que este credito, e boa fama se pòde dististinguir em tres differentes especies, <milestone unit="FP" xml:id="FR.8"></milestone> segundo que diz respeito a tres sortes de pessoas, que tem direito de o pertender. Huma se limita à gloria, que o Heroe tem sempre diante dos olhos: a outra à reputaçam, que todo o homem de bem deve procurar; e a terceira he o credito, que todos aquelles, que se occupam em algum negocio devem conservar. He esta hum bem mais estimavel, que a vida para os homens destes caracteres, e ainda he destes a propria vida. <milestone rend="closer" unit="FP"></milestone> </p>
<p rend="SO"><pb n="85"></pb> Nam se pòde imaginar a gloria de hum Heroe, quando he acompanhada de grandes, e nobres designos, e todos aquelles que o attacam, mostram a raiva, e a displicencia, que tem de seu luzimento, sem que a possam modificar. Se huma alta reputaçam he fundada sobre a virtude, e sobre serviços affinados, tudo quanto a esta se oppoem, nam he mais que hum rumor de muito pouca duraçam, para entrar em concurso com a gloria, que nunca acaba. </p>
<p>A reputaçam, que pertenece aos homens de bem, e às pessoas mais polidas, he permamente como a gloria, com tanto, que seja da mesma fórma bem fundada; e nisto entra muito o interesse da sociedade Civil, quando hum homem destes he calunniado, e arguido: E segundo o costume estabelecido, todo o homem, que se acha assim offendido, tem direito incontrastavel de se defender, e de rechassar qualquer injuria como toda a promptidam, e vigor. </p>
<p>O Homem de Negocio, e o Mercador he o mais infeliz de todos os homens, e o mais exposto à malignidadade, ou ao arbitrio da voz publica. Huma murmuraçam surda, e huma palavra dita ao ouvido lhe faz perder muitas vezes o seu credito. Aquelle que o fere às escondidas, he o que mais cruelmente o offende, muito peor do que aquelle que tem nas mãos hum punhal. Tenho visto muitas vezes abalar o credito de hum homem de Negocio, ou Mercador, com se nomear sómente o seu nome. Alguns dizem: <milestone unit="ZM" xml:id="FR.9"></milestone> <hi rend="italic">F. pedio hum pouco de dinheiro emprestado a hum seu amigo; pois em boa mão o entregou. Outros continuam: F. he na verdade hum Negociante universal, contrata em tudo, e em todas as partes</hi> <pb n="86"></pb> <hi rend="italic">do mundo.  <milestone rend="closer" unit="ZM"></milestone></hi> De sorte, que hum elogio acompanhado com hum tom de ironia, he muito bastante para arruimar o credito de hum homem destes. <milestone unit="EX" xml:id="FR.10"></milestone> Eu mesmo conheci muito bem hum q̃ trabalhou sempre a terra para augmentar as riquezas da sua Patria, e se achou no fim arruinado, e destruido por outro que o encheo de vergonha para com os seus nacionaes, sem mais fundamento, que esta oculta vòs que espalhou a inveja, e pòde ser, que fosse depois de lhe dever bastantes obrigaçoens. <milestone rend="closer" unit="EX"></milestone> Pois jà que todos os que conhecem o mundo vem as perniciosas consequencias de hum tam grande mal, que consideraçam, e advertencia nam deve haver quando se trata da reputaçam de hum Mercador, ou Homem de negocio, e pòde qualquer destes acharse exposto ao arbitrio, e à discriçam de hum miserval, que nam tem nad que perder, para experimètar contraria a sua fortuna arruinando se por semelhante meyo hum honesto, e rico cidadam; pelo mesmo, que elle merece toda a estimaçam negociando, e dando valor aos generos do Paiz, custandolhe grande trabalho, e despeza em os fazer girar pelas partes mais remotas do mundo. </p>
<p>Em semelhante caso huma palavra solta, ou hum falço rumor pòde converter a abundancia em miseria, e reduzir em poucos dias huma familia opulenta, a pedir huma esmolla. Huma insinuaçam maligna he tam perigrosa para hum Mercador, como pòde ser hum testamento que se annulla para hum homem se ver privado de huma boa herança, que entenhe lhe pertenencia. Mas isto ainda he muito menos; porque o Dominio, a quinta, as cazas, e todos os bens ficam no mesmo estado em que se achavam antes daquelle <pb n="97"></pb> acto, e o merecimento, nunca muda de natureza depois de se achar escurecido, e aniquilado com alguma calumnia, ou impostura com q̃ se acometa o bom credito, e bom nome do Mercador: àlem de que o acto da herança em qualquer tempo, e lugar se pòde desfazer e pôr em claro, mas o Mercador, e Negociante, que sómente se sustenta pelo seu credito nunca pòde estar seguro dos malignos, e invejozos, que semeam falacias, e conversaçoens tam prejudiciaes. O ferro, e o fogo nam destroem tam promptamente como a lingua hum destes ralhadores, que ataca a reputaçam de Negociante. </p>
<p>Por todos estos principios he que se devia imitar o exemplo de hum sojeito meu conhecido; o qual nunca sofria ouvir dizer huma só palavra contra hum Negociante com quem tinha suas differenças; porque dizia: <milestone unit="ZM" xml:id="FR.11"></milestone> <hi rend="italic">que falar mal de hum Mercador he fazerlhe o seu processo; ou condenalo sem se ouvir. </hi><milestone rend="closer" unit="ZM"></milestone> Em huma palavra bem se pòde dizer sobre isto, que o merecimento de hum negociante excede o de todos os mais sogeitos: porque hum Bilhete seu, em quanto tem bem estabalecido o seu credito, he de mais comodidade para o serviço publico, que o dinheiro batido, e a sua palavra vale como se fosse ouro de ofir nas terras que assiste. Estas, e outras perniciosas consequencias pòde causar huma murmuraçam mal fundada contra hum homem, que serve de tanta utilidade ao publico, e que todos deviam estimar: pelo que devem todos falar com miuta cautella sobre o credito, e bom nome dos Mercadores, pois de huma simples palavra, se segue muitas vezes arruina de hum membro tam necessario para a conversaçam do corpo da Socidade Civil. <milestone rend="closer" unit="E2"></milestone> <milestone rend="closer" unit="E1"></milestone></p>
<p></p></div2></div1></body>
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                <seg type="U1">N.°.11</seg> Sobre a reputaçam em geral, e da
                                delicadeza do credito a respeito dos Mercadores- <seg synch="#FR.2" type="E2">
                  <seg synch="#FR.3" type="AE"> Depois, que me apartei dos
                                        tumultos da Corte buscando neste retiro o meu socego, poucas
                                        vezes vou a ella, excepto quando o pedem algumas
                                        dependencias, ou por causa de alguma cousa especial, que
                                        nella haja que ver; porque sempre he bom ver tudo ao menos
                                        huma vez, para saber contar aos vindouros o que tem passado,
                                        e he muito mais efficaz a impressam do que se refere pelas
                                        pelas noticias intuitivas, do que que quãdo esta noticia he
                                        adquirida pelas noticias <pb n="82"></pb> abstractivas; e como
                                        me disseram q̃ este anno na Procissam de Corpus havia algùa
                                        novidade, entendi que o vulgo barbaro, e ignorante apagava
                                        as saudades, que tem da Serpe, e do Adrago, dos carros dos
                                        Orteloens, Tanoeiros, e Danças, &amp;c. Com que esta
                                        solemnidade de se fazia aos seus olhos mais festiva, e
                                        alegre, nam sendo na verdade nem tam grave, nem tam decente;
                                        àlem de tudo isto vinha forçado, se sem genero algum de
                                        alluzam, que lhe service de desculpa, especialmente as tres
                                        rediculas figuras dos Gigantes; mas achei por novidade ser
                                        este anno a Procissam mais breve, por se terem della eximido
                                        muitas Confrarias, e algumas Communidades Religiosas, que
                                        conseguiram ficar na sua primitiva izençam, com o que ficou
                                        sendo menos enfadonha. Na tarde do mesmo dia por nam ter
                                        occaziuam opportuna de falar em negocios, nem de fazer
                                        jornada, fiz como os mais. Vesti o meu vestido melhor, que
                                        tinha, e pedi a hum amigo, que me conduzisse com sigo na sua
                                        feje, e toda derreada fomos como em huma charola atropelar a
                                        pobre jente, que andava pelas ruas, huns retirando-se para
                                        suas cazas, e outros buscando pacificamente a sua diversam
                                        nos differentes objectos, que se encontram a cada canto. O
                                        peor foi ser a seje a hùa bestinha só, porque o amigo nam
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                                        boléa, e assim hiamos aos poucos fazendo renda com os                                    
    cordoens, pelo que ficou frustrado a maior parte do intento;
                                        pois se queria olhar para as janellas, jà ficava debaxo da
                                        seje hum rapàs, huma mulher, ou outro qualquer individuo, e
                                        com a gritaria de pare, tenha mam, recue, &amp;c. là hia
                                        perdida a linha da optica com tanta diferença, como era
                                        tirar os olhos do ar, e <pb n="83"></pb> dar com elles no cham,
                                        para ver de que procedia tam grande algazarra. Se applicava
                                        o cuidado para governar o carrinho nada via, porque em
                                        semelhantes ocaziòes toda a vigilancia he diminuta: a atè q̃
                                        por ultimo veyo outra seje, quiz fazer caminho por força; e
                                        como estava tudo atravancado como as carruagens, metteu o
                                        lacayo os machos de repellam, e nam foi nada; pregou com a
                                        charola de ayesso, caimos hum por sima do outro, acudio a
                                        rapaziada, e eu todo injuriado disse para o meu companheiro:
                                            <seg synch="#FR.4" type="D"> Fique-se V.m. muito embora,
                                            que eu vim na sua companhia para me divertir, e nam para
                                            me amofinar, e nam sei como ha quem tome estes
                                            descomodos por seu divertimento. </seg> Organizou se
                                        outra vez o tal carro, e eu abalei para o caffé, que me
                                        ficava perto para descançar do susto. Em quanto estava
                                        tomando o o (sic) meu chà, chegaram dous, ou tres sogeitos
                                        daquelles sem ceremonia, <seg synch="#FR.5" type="MT">
                                            entràram a falar sobre o triste Anonymo, que nam faz mal
                                            a ninguem, e depois de de praticarem algumas cousas com
                                            que lhe foram cozendo, ou descozendo o vestido, disse
                                            hum: <seg synch="#FR.6" type="D"> He o Anonymo hum homem
                                                dos mais inconstantes, que eu conheço, e sem embargo
                                                de alguns discursos, que tem publicado sobre a
                                                economia he tam prodigo, e desmazelado, que nam
                                                presta para nada; e ainda que arezoe sobre todas as
                                                obrigaçoens da vida civil tambem outro qualquer
                                                sempre para si toma a menor parte dos seus
                                                conselhos, e foram dizendo outras cousas
                                                semelhantes. </seg> Eu como sou costumado a
                                            desprezar tudo o que se diz sem fundamento, esta rude
                                            invectiva me nam causou o ominimo (sic) enfado, </seg>
                  </seg> mas atirou comigo <pb n="84"></pb> a huma profunda
                                    consideraçam sobre o bom nome, e a boa fama em geral, e nam pude
                                    deixar de me compadecer da fraqueza daquelles que fazem muito
                                    cazo do que a gente do commum diz, por hum certo genio invejozo,
                                    que os devora, sobre a conveniencia, e prejuizo daquelles de
                                    quem falam, sem que a benevolencia, ou a malignidade os anime
                                    por algum principio para huma acçam indecoroza. Entam me
                                    lembraram os versos de Horacio no lugar em que diz: <seg synch="#FR.7" type="ZM"> Quod de quoque viro, cui dicas
                                        saepe videto. <seg type="QU">Hor. Lib.I. Epsti.
                                            Xviii.vers.68 </seg> Que quer dizer: Tende muito cuidado
                                        sobre o que dizeis das pessoas de quem falais, e tomai muito
                                        sètido diante de quem fallais dellas. </seg> Serà impossivel
                                    deixar de causar enfado, e aborrecimento a quem ler, se ouver de
                                    dizertudo quanto sinto sobre a oppinaõ que os homens conservam
                                    da boa fama, e do bom nome, e sobre o gosto inexplicavel que
                                    cada hum concebe em dar a sua approvaçam às pessoas de
                                    merecimento, quàdo elle mesmo se acha no estado de o adquirir:
                                    mas parece-me, que este credito, e boa fama se pòde
                                    dististinguir em tres differentes especies, <seg synch="#FR.8" type="FP"> segundo que diz respeito a tres sortes de
                                        pessoas, que tem direito de o pertender. Huma se limita à
                                        gloria, que o Heroe tem sempre diante dos olhos: a outra à
                                        reputaçam, que todo o homem de bem deve procurar; e a
                                        terceira he o credito, que todos aquelles, que se occupam em
                                        algum negocio devem conservar. He esta hum bem mais
                                        estimavel, que a vida para os homens destes caracteres, e
                                        ainda he destes a propria vida. </seg>
                  <pb n="85"></pb> Nam se pòde imaginar a gloria de hum Heroe, quando
                                    he acompanhada de grandes, e nobres designos, e todos aquelles
                                    que o attacam, mostram a raiva, e a displicencia, que tem de seu
                                    luzimento, sem que a possam modificar. Se huma alta reputaçam he
                                    fundada sobre a virtude, e sobre serviços affinados, tudo quanto
                                    a esta se oppoem, nam he mais que hum rumor de muito pouca
                                    duraçam, para entrar em concurso com a gloria, que nunca acaba.
                                    A reputaçam, que pertenece aos homens de bem, e às pessoas mais
                                    polidas, he permamente como a gloria, com tanto, que seja da
                                    mesma fórma bem fundada; e nisto entra muito o interesse da
                                    sociedade Civil, quando hum homem destes he calunniado, e
                                    arguido: E segundo o costume estabelecido, todo o homem, que se
                                    acha assim offendido, tem direito incontrastavel de se defender,
                                    e de rechassar qualquer injuria como toda a promptidam, e vigor.
                                    O Homem de Negocio, e o Mercador he o mais infeliz de todos os
                                    homens, e o mais exposto à malignidadade, ou ao arbitrio da voz
                                    publica. Huma murmuraçam surda, e huma palavra dita ao ouvido
                                    lhe faz perder muitas vezes o seu credito. Aquelle que o fere às
                                    escondidas, he o que mais cruelmente o offende, muito peor do 
                                   que aquelle que tem nas mãos hum punhal. Tenho visto muitas
                                    vezes abalar o credito de hum homem de Negocio, ou Mercador, com
                                    se nomear sómente o seu nome. Alguns dizem: <seg synch="#FR.9" type="ZM"> F. pedio hum pouco de dinheiro emprestado a hum
                                        seu amigo; pois em boa mão o entregou. Outros continuam: F.
                                        he na verdade hum Negociante universal, contrata em tudo, e
                                        em todas as partes <pb n="86"></pb> do mundo. </seg> De sorte,
                                    que hum elogio acompanhado com hum tom de ironia, he muito
                                    bastante para arruimar o credito de hum homem destes. <seg synch="#FR.10" type="EX"> Eu mesmo conheci muito bem hum q̃
                                        trabalhou sempre a terra para augmentar as riquezas da sua
                                        Patria, e se achou no fim arruinado, e destruido por outro
                                        que o encheo de vergonha para com os seus nacionaes, sem
                                        mais fundamento, que esta oculta vòs que espalhou a inveja,
                                        e pòde ser, que fosse depois de lhe dever bastantes
                                        obrigaçoens. </seg> Pois jà que todos os que conhecem o
                                    mundo vem as perniciosas consequencias de hum tam grande mal,
                                    que consideraçam, e advertencia nam deve haver quando se trata
                                    da reputaçam de hum Mercador, ou Homem de negocio, e pòde
                                    qualquer destes acharse exposto ao arbitrio, e à discriçam de
                                    hum miserval, que nam tem nad que perder, para experimètar
                                    contraria a sua fortuna arruinando se por semelhante meyo hum
                                    honesto, e rico cidadam; pelo mesmo, que elle merece toda a
                                    estimaçam negociando, e dando valor aos generos do Paiz,
                                    custandolhe grande trabalho, e despeza em os fazer girar pelas
                                    partes mais remotas do mundo. Em semelhante caso huma palavra
                                    solta, ou hum falço rumor pòde converter a abundancia em
                                    miseria, e reduzir em poucos dias huma familia opulenta, a pedir
                                    huma esmolla. Huma insinuaçam maligna he tam perigrosa para hum
                                    Mercador, como pòde ser hum testamento que se annulla para hum
                                    homem se ver privado de huma boa herança, que entenhe lhe
                                    pertenencia. Mas isto ainda he muito menos; porque o Dominio, a
                                    quinta, as cazas, e todos os bens ficam no mesmo estado em que
                                    se achavam antes daquelle <pb n="97"></pb> acto, e o merecimento,
                                    nunca muda de natureza depois de se achar escurecido, e
                                    aniquilado com alguma calumnia, ou impostura com q̃ se acometa o
                                    bom credito, e bom nome do Mercador: àlem de que o acto da  
                                  herança em qualquer tempo, e lugar se pòde desfazer e pôr em
                                    claro, mas o Mercador, e Negociante, que sómente se sustenta
                                    pelo seu credito nunca pòde estar seguro dos malignos, e
                                    invejozos, que semeam falacias, e conversaçoens tam
                                    prejudiciaes. O ferro, e o fogo nam destroem tam promptamente
                                    como a lingua hum destes ralhadores, que ataca a reputaçam de
                                    Negociante. Por todos estos principios he que se devia imitar o
                                    exemplo de hum sojeito meu conhecido; o qual nunca sofria ouvir
                                    dizer huma só palavra contra hum Negociante com quem tinha suas
                                    differenças; porque dizia: <seg synch="#FR.11" type="ZM"> que
                                        falar mal de hum Mercador he fazerlhe o seu processo; ou
                                        condenalo sem se ouvir. </seg> Em huma palavra bem se pòde
                                    dizer sobre isto, que o merecimento de hum negociante excede o
                                    de todos os mais sogeitos: porque hum Bilhete seu, em quanto tem
                                    bem estabalecido o seu credito, he de mais comodidade para o
                                    serviço publico, que o dinheiro batido, e a sua palavra vale
                                    como se fosse ouro de ofir nas terras que assiste. Estas, e
                                    outras perniciosas consequencias pòde causar huma murmuraçam mal
                                    fundada contra hum homem, que serve de tanta utilidade ao
                                    publico, e que todos deviam estimar: pelo que devem todos falar
                                    com miuta cautella sobre o credito, e bom nome dos Mercadores,
                                    pois de huma simples palavra, se segue muitas vezes arruina de
                                    hum membro tam necessario para a conversaçam do corpo da
                                    Socidade Civil. </seg>
              </seg>
            </ab>
          </div>
        </body>
      </text>
    </group>
  </text>
</TEI>
