Cita bibliográfica: Anónimo (Bento Morganti) (Ed.): "Num.° 12", en: O Anonymo. Repartido pelas semanas, para divertimento e utilidade do publico, Vol.3\012 (1754), pp. 97-103, editado en: Ertler, Klaus-Dieter / Fernández, Hans (Ed.): Los "Spectators" en el contexto internacional. Edición digital, Graz 2011- . hdl.handle.net/11471/513.20.4527 [consultado el: ].


Nivel 1►

N.°. 12

Contra a Impudencia.

Nivel 2► Metatextualidad► Todos sabem a difficuldade que ha para agradar a todos, e ainda he mais impossivel que dificultozo, que todos uniformemente gostem do mesmo Com o papel antecedente que falava nos Bailles de Mascaras, sei que naó ficaraõ muitas pessoas satisfeitas, porque lhe naõ falei a seu gosto, ao mesmo tempo que ma-[98]yor numero de outras acharaõ que falou a razaõ contra a liberdade, e contra o abuzo. Entre as primeiras naõ faltou huma que disse, que naõ era aquelle ponto tam criminozo que merecesse huma taõ ampla censura, porque podendo ser de sua natureza indiferente, se devia conceber pela melhor parte; porque havia outros mais escandalozos que podiaõ muito bem servir de argumento, e que por serem mais frequentes eraõ mais reprehensiveis, e de quem era totalmente alhea a indifferença. Isto dito assim secamente, confesso que me deo hum pouco de cuidado, ao menos para discorrer aonde se encaminhava esta idea; mas passados alguns dias, topei com o motivo desta advertencia; e o certo he que teve muita razaõ em dizer esta tal pessoa que havia couza mais escandaloza contra quem justamente se pode declamar. ◀Metatextualidad

Relato general► Foi o cazo; recolhendome para minha casa na tarde de hum Domingo desta Quaresma, e devendo fazer caminho por huma rua em que està cituada huma antiga Paroquia, Retrato ajeno► vi hum tal tumulto de homens, que entrei no susto do que seria taõ tumultuozo ajuntamento; mas chegando para mais perto, vim a conhecer, que era hũa turba indigna de gente ocioza, e pouco timorata, que depois de practicar no Templo todo o genero de imprudencia, em quanto o Ministro Evangelico intimou a palavra de Deos neste Santo tempo para a reformaçaõ ainda dos costumes, depois quizeraõ dar o ultimo complemento à sua irreverencia, e irreligiaõ, pondo-se desfronce da porta da Igreja em huma comprida ala a tres, e a quatro e fundo, para encherem de pejo, e enfado as pessoas honestas, e devotas que sahiaõ da Igreja, que por conta de lhe ser precizo decer alguns degraos, se achavaõ expostas involuntariamente a alguma lee descompustura, que talvez nem isso fosse se naõ cahisse de-[99]baxo da vista daquelles ociozos, e inconsiderados admiradores. ◀Retrato ajeno ◀Relato general

Confesso que foi tal o horror que concebi a este indigno espectaculo, que toda a noite naõ dormi socegado, conciderando como seria possivel que em huma Corte adonde florece a devoçaõ, se pratique, ou deixe practicar taõ impunemente hum abuzo contra a boa, e recta intençaõ da Igreja, porque manifestamente se está vendo, que o grande concurso que se encontra nos Templos, naõ ha dezejo de aproveitar a doutrina Evangelica, mas sim de encher as horas de tempo, sacrificando a paciencia ao gosto, para no fim dezafogar a sensualidade ao menos nas exteriores direcçoens a que nunca se deve empregar a vista; mas depois me capacitei sem violencia, que este mào costume naõ era, nem podia ser voluntariamente permettido, mas só tollerado, por naõ chegar nem aos ouvidos, nem aos olhos de quem Pastoralmente o pòde com facilidade emmendar, e extinguir; pois estou muito bem certo, que se os Parrochos respectivamente punissem pela aniquiliçaõ de hum taõ escandalozo abuzo, reprezentariaõ o seu zelo, e se lhe naõ havia negar a conveniente providencia, pois a falta de noticia faz com que muitas vezes, e por muito tempo estejaõ em socego os criminozos.

Naõ me admiro que este máo costume se practique nas sociedades profanas, porque Exemplum► jà Homero se queixou delle no seu tempo, dizendo na Illiada I.V. 225. que certo homem tinha os olhos taõ descarados, e taõ pouco compostos como os de hum caõ, como se le no original Grego- Cita/Lema► Kinos ommat’ e Kons ◀Cita/Lema mas o que me cauza admiraçaõ he ver que a perverçaõ do seculo o reduza, pelos arbitrios da malicia, a se exercitar nos Templos, e nas Assembleas devotas, influindo hum pessimo exemplo ao Cristinismo, occazionando mais [100] este argumento contra a boa pratica da verdadeira Religiaõ, e pureza das maximas que deve seguir hum bom Catholico. ◀Exemplum

Ha muito tempo que conservo no espirito a correçam da impudencia, e expor algumas queixas contras os ociozos namoradores dos Templos, e cazas de Oraçaõ; e na qualidade de observador bem posso dizer que este crime he hum dos que mais directamente me pertencem, porque quazi sempre se comette pelos olhos, e contra muitas pessoas, a quem talvez que os criminozos, naõ tenhaõ outra occaziaõ de offender se naõ desta maneira.

Naõ creyo que o publico aprovasse em tempo algum qualquer sogeito, que logo naõ tivesse hum numero infinito de imitadores degenerados. Se por acazo apareceo hum que tudo observava unindo à sua especulaçaõ tudo o que era justo, immediatamente se produziraõ outros de diferente qualidade. aparecendo no grande theatro do mundo com o titulo commum de namorantes; os quaes sem terem respeitoso ao tempo, ao lugar, e à modestia, inquietaõ huma Igreja inteira, com a indigna impudencia de seus olhos. Bem podiaõ advertir, que assim como concorre muita gente para assistir aos divertimentos publicos dos bonecos, dos bailles, das festividades seculares, &c (naõ me lembrando voluntariamente das Procissoens, porque cuido que este ponto hade ter seu lugar proprio) tambem nas Igrejas se achaõ assistentes attentos, e devotos, e que suplicaõ a Deos com muita humildade, e compustura interior, e exterior. E fazendo-se Religiozamente este conceito, he couza indigna, e escandaloza que esta tropa de irreverentes monstruozos, vaõ para as Igrejas interromper muitas destas pessoas no mesmo acto em que estaõ cumprindo com muita attençaõ, e regularidade, a obrigaçaõ de Catholicas, ou seja na assistencia do Santo Sacra-[101]ficio da Missa, ou ouvindo attentamente a palavra de Deos.

Naõ sey se he mais para chorar, do que para rir ver como estes ociozos buscaõ nas Igrejas os lugares mais convenientes, aonde tambem se offende a decencia dos Sagrados Altares encostando-se a elles, servindo-lhe de commodidade para o crime, quando só se deviam valer delles para expiarem os seus erros, e melhorando quanto podem de sitio, naõ ficaõ satisfeitos sem ganharem hum bom lugar de donde possaõ commodamente descobrir todas as pessoas em quem empregaõ, ou podem empregar os tiros da sua malignidade, sem lhe occorrer que quanto melhor he o lugar, mais expostos ficaõ á censura de todo o mundo que os admira com horror. Persuadome que as almas devotas se acham demaziadamente mortificadas, vendo-se a mayor parte dellas precizadas a cobrir-se de pejo, e vergonha, refletindo em que sendo a malicia muita e o discurso livre, se achem innocentes, e cumpleces em algum juizo, sem que nem por sombras convenhaõ nos importunos gostos daquelles impudentes, occazionando-lhe muitas vezes huma quazi impossibilidade para estarem attentas aos Sacraficios, à Oroçaõ (sic), e aos Sermoens.

Isto que muitas vezes tenho observado, e actualmente se està vendo, me persuade a dizer, que naõ ha couza alguma que mais agrave huma offença, como he cometer-se em hum lugar, cuja santidade se emprega para azilo do mesmo que o profana; e hum semelhante procedimento bem merece hum reparo particular, e huma censura universal, ainda que só o primeiro seria util, e efficaz, porque o segundo cuido naõ pode produzir effeito, pois semelhantes Namorantes ordinariamente nunca cedem ás razoens que nacem da natureza das couzas. A isto acrece que hum homem que tem [102] valor para fixar indecencia os olhos em hum grande ajuntamento de pessoas honestas, renunciando o pejo, a vergonha, e a propria estimaçaõ, soportando immovel a vista de todo o mundo, naõ tem facil correcçaõ por meyo de exhortaçoens.

Em quanto se lhe naõ aplica algum opportuno remedio a que naõ possa rezistir a conciencia, e o respeito, bem se lhe podia applicar hum interino, subsidiario, e facil, espalhando-se por entre elles algumas pessoas timoratas que pondo-se respectivamente diante de cada hum, naõ tirem delle os olhos para ver se assim o impede a naõ interromper as pessoas do sexo femenino que estaõ attentas às obrigaçoens de Catholicas; e alem disso seria precizo industriar aquellas pessoas destinadas para este effeito, nas regras mais exactas da optica, para se porem em huma fórma, que possa sempre encontrar os olhos do seu antagonista em qualquer movimento que delles faça; e cuido que todas as vezes que se encontrarem mutuamente os rayos visuaes dos dous contrarios, ou aquellas pessoas pelas quaes entra o impudente a ser lince, lhe derigem alguma vista favoravel, esperando disto algum feliz successo, hade conceber alguma vergonha, ou pejo, experimentando hum pouco daquelle embaraço em que se achaõ muitas vezes os mais de seu officio.

Hum destes homens adquire hum certo genero de inutilidade taõ universal, que parece tambem huma especie de proscripto pelas Leys da boa civilidade, e como tal nem o publico, nem o particular deve tomar por sua conta deffendelo, ou patrocinalo, e por isso livremente se pode tratar com desprezo. Com tudo aquelles impudentes dissimulados parece podem ser mais sofriveis do que certos estafermos, que sem consideraçaõ alguma se gavaõ muitas vezes do que naõ he [103] imaginando que com hum defeito alheyo, podem encobrir huma das mayores faltas do mundo como he serem attrevidos, e descarados; mas devem lembrar-se de que isto naõ pode durar muito, e que todo o homem que se acha convencido de hum semelhante defeito, naõ póde esperar tirar delle utilidade alguma; pelo que deve trabalhar quanto poder em lançalo fora, como quem arroja de si o que lhe faz muito pezo, porque os fins podem ser muitas vezes sinistros, como tem mostrado a experiencia.

E quanto aos indiscretos espectadores dos Adros das Igrejas, tambem no entanto podiaõ ter hum remedio providencial, que era, recolhelos por modo que naõ escapasse nenhum, em huma parte segura, e separar os que sem prejuizo irreparavel naõ fizessem falta, às suas familias, e remettellos para parte aonde se reduzisse o Ocio a utilidade, e por huma chimica politica se tirasse alguma serventia, poupando se ao menos as despezas das levas, e o trabalho dos Ministros, porque neste tempo, principalmente nas Igrejas de mayor concurso, se acharà (como dizem) o comer feito, e com pouco custo, e assim ficaria a sociedade civil livre de muita gente que naõ faz nada, e o exercicio da Religiaõ sem tantos membros inuteis que escandalozamente o pertubam, e infamaõ. ◀Nivel 2 ◀Nivel 1