Citation: Anónimo (Bento Morganti) (Ed.): "Num.° 9", in: O Anonymo. Repartido pelas semanas, para divertimento e utilidade do publico, Vol.3\009 (1754), pp. 73-86, edited in: Ertler, Klaus-Dieter / Fernández, Hans (Ed.): The "Spectators" in the international context. Digital Edition, Graz 2011- . hdl.handle.net/11471/513.20.4524 [last accessed: ].


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N.°. 9

Dos Habitos virtuozos.

Level 2► Para dizer alguma couza sobre o muito que os homens moços se afastam das regras de huma boa filosofia moral, Exemplum► me assusta o receyo de que me dem o sobre nome de Aretalogo que adquirio hum certo Estoico chamado Crispino Plotio, ◀Exemplum que naõ falava senaõ das virtudes, Exemplum► no mesmo sentido que o Emperador Pertinax se chamou tambem Chrestologo, por dizer muitas coizas boas sem obrar nenhuma, como refere Julio Capitolino. ◀Exemplum E na verdade estes discursos virtuozos sam muito maos fiadores da vida daquellas pessoas, a quem a perpetua inconstancia dos costumes faz com que se naõ pareçam com sigo mesmo, Exemplum► como expressa figurativamente o grande Seneca, Citation/Motto► quique alternis Vatinii, alternis Catones sunt, ◀Citation/Motto ha hum grande numero de outras que nunca tiram a mascara da probidade, para lhe servir de capa a todas as suas dezordens. ◀Exemplum

Citation/Motto► Qui Curios simulant, et Bacanalia vivunt. ◀Citation/Motto

ou para uzar da expressam de Cicero, quando exagera esta materia, Citation/Motto► qui ut Gallonius vivunt, loquuntur ut frugi ille Piso. ◀Citation/Motto Mas seja o que for; sem emprender [74] alargarme neste vasto campo da dissimulaçam aparente debaxo do respeitavel veo da virtude, tocarei somente no ponto precizo dos bons habitos virtuozos que os homens devem precizamente adquirir, e conservar.

Exemplum► O que Aristoteles dis do homem virtuozo, que he como huma figura cubica, Citation/Motto► quadratus sine vituperatione, ◀Citation/Motto nam he de tam dificultoza acomodaçam eomo se entende, segundo o modo ordinario de falar, quando se diz hum homem redondo, para se expressar hum homem de bem. ◀Exemplum Os termos de redondo, e quadrado sam na verdade oppostos, mas tem algumas significaçoens figuradas, que concordam muito bem entre si. A figura cubica, ou quadrada que os Pithagoricos estimaram tanto, Exemplum► e que Marciano Cappella atribue particularmente a Mercurio, Citation/Motto► numerus quadratus Cyllenio, deputatur, quod quadratus Deus solus habeatur, ◀Citation/Motto tem a propriedade de ser igual em todos os lados, e detodas a menos sogeita a ser abalada. ◀Exemplum E assim o homem virtuozo verdadeiro, por este principio tem com ella muita semelhança, nam sendo sogeito a variaçoens, e parecendo sempre, e em todos os lugares o mesmo de qualquer lado que o vejamos. Alguns disseram, que nesta igualdade se parecia muito com os estofos de duas faces, que saõ taõ agradaveis por dentro como por fóra, e que saõ bons em todo o sentido. A outra figura redonda, ou esferica tem hum semelhante privilegio de estar sempre com hum mesmo aspecto, e porque se reconhece a mais capaz, e a mais perfeita de todas; e depois de a terem atribuido ao mundo, naõ duvidaram aplicala tambem a Deos, sendo a razaõ disto, porque a copia deve ser semelhante ao seu original. Exemplum► De sorte que com Diogenes naõ foy o unico que sustentou, que hum homem de bem, e virtuozo era a verdadeira imagem dos Deozes de seu tempo, diziaõ cõmumente que e hum semelhante homem era Citation/Motto► Totus teres, atque rotundus, ◀Citation/Motto aplicandolhe neste sentido a figura redonda, e circular. ◀Exemplum Exemplum► Is-[75]to me faz lembrar de huma expressaõ de que uza Marco Antonino do duodecimo livro da sua vida, dizendo que os que poem a sua alma em hum perfeito prato, adquirem a figura do globo de Empedocles, e pessuem por esta redondez a perfeiçaõ que faz o mundo taõ consideravel para com o seu Creador. ◀Exemplum Este he o modo com que se chegou a escrever dos homens de virtude, dizendo que eraõ rodondos, ou quadrados para significar o mesmo, ainda que com termos differentes.

He verdade que hom homem de virtude, naõ deve ter outro motivo mais forte, e mais poderozo, que o satisfazer a sua obrigaçaõ, nem dezejar outro melhor theatro que o da sua propria conciencia. Esta virtude que elle considera como filha do Ceo, tras consigo, o mesmo que os numeros da Arithmetica, o seu valor, e a sua efficacia, conforme o pensamento do sofista Eunapio, dandolhe satifaçoens que preferem a todas as recompensas da terra; e que assim como naõ ha coiza alguma que naõ possa emprender, tambem nada lhe pode resistir, quando naõ tem outro cuidado mais que em seguir as suas determinaçoens. Ao menos por isto he que a Sybilla anima Eneas.

Citation/Motto► Invia virtuti nulla est via ◀Citation/Motto

E quando tem sucedido alguma coiza que parece contraria a tam boas maximas, os antigos fizeram culpado o Ceo, e os Gregos foram neste particular bastantemente impios, querendo injuriar a Deos da prosperidade dos vicizios.

Citation/Motto► Dei dedecus est improbos esse fortunatos. ◀Citation/Motto

A bondade destes pensamentos nam embaraçàm com tudo a que muitos queiram sustentar, que esta virtude assim tam excellente como he, naõ serve ordinariamente aos que fazem profissam de a seguir, maes que de hum ornamento vam, e mentirozo; que na verdade he huma bella Dama, mas que recompensa ordinario muito mal que a cortejam; e que ainda que [76] ella seja a inimiga declarada do vicio, tem de commum com elle, naõ obrar se nam por interesse. Isto naõ he inteiramente repugnante ao axioma das Escolas, que entre os contrarios se dà quasi semptre a mesma razam. E se do vicio se disse Citation/Motto► Nullum fine auctoramento malum est, ◀Citation/Motto ou com os termos de Sacustio, Citation/Motto► Nemo omnium gratuito malus est, a continuada experiencia nos mostra que a mayor parte destes bons homens, nada obram sem fazerem reflexam sobre a utilidade, de forte que achando todo o seu lucro, e conveniencia na hipocresia, naõ deve cauzar admiraçam se os vemos exercitar acções virtuozas, pela propria maxima dos mãos. O Poeta Latino o diz maes asperamente, e quasi sem excepçam.

Citation/Motto► Nec facile invenies multis inmilibus unum,
Virtutem praetium qui putet esse sui.
Ipsi decor recti, facti si praemia desint,
Non movet, et gratis paenitet esse bonum. ◀Citation/Motto

A prova disto seria muito facil se alguem a dezejase ouvir; mas basta que digamos com Euripides que o Ceo sempre dá alguns signaes para diferençar hum hipocrita de hum verdadeiro virtuozo, assim como os temos bem claros, e certos para se reconhecer, e distinguir a moeda falsa da verdadeira.

Nam póde cauzar grande admiraçam vendo hum destes homens quasi sempre retirado, e occulto, fugindo da companhia dos maes, sabendo-se pela doutrina de Aristoteles que a propriedade de hum viciozo he naõ poder viver em companhia, e que ainda com o mesmo cuidado dezeja fugir da sua propria, porque a mesma consciencia lha faz odioza, e insoportavel a si mesmo: e com tudo he muito difcultozo adquirir outra diferente habituaçaõ. Todos nacemos com huma inclinaçam tam natural para o mal, que he quasi impossivel o perdela. A virtude naõ entra em nós para a combater se nam pela porta dos bons habitos difficultozos a contrahir, e logo ao principio topa tudo cheyo de contra-[77]rios como se entrasse em huma terra inimiga; e he necessario confessarmos para nossa confuzam, que a nossa natureza he nisto muito chegada aos brutos, que pomos no lugar mais inferior, querendo muitas vezes a nossa vaidade disputar com os Anjos igualaçoens. Esta proximidade brutal he a que deo ao vicio o nome de peccado, Citation/Motto► pecatum a pecore, ◀Citation/Motto porque fazendonos este desgraçado vicio obrar contra a razaõ, que he só a que nos distingue dos outros animaes, nos faz perder a nossa verdadeira forma, para tomarmos a dos brutos. Ora que meyo haverá para rezistir às propensoens semelhantes áquellas que fazem decer para o centro todos os corpos pezados, e graves? Bem podemos lançar mil vezes huma pedra ao ar, e nenhuma hade subir por si mesmo, nem tambem deixara o seu habito, ou propensam natural para decer. E certamente naõ ha maes que a Divina graça que possa remedear esta mizeravel dezordem, comunicando-nos os habitos virtuozos, que como as perolas, se foram dos puros orvalhos do Ceo: mas sam tam raros estes habitos da virtude, que seria huma especie de inhumanidade enchernos de colora contra os que naõ os recebem; em quanto ouver homens no mundo naõ deixarà de haver vicios, Citation/Motto► Vitia erunt donec homines. ◀Citation/Motto A comodemonos a esta Profecia, e soframos com paciencia os defeitos dos outros, para que tambem desculpem os nossos.

Ainda que o nosso modo ordinario de falar confunde muitas vezes as palavras intemperança, e incontinencia como se fossem synoymas, a Escola Peripatetica fez dellas huma grande distinçaõ; Exemplum► e Aristoteles diz formalmente, que o intemperante he muito peor, e de maes difcultoza correcçam do que o incontinente; ◀Exemplum e a razam que dá he, porque o vicio do primeiro tem o seu fundamento na natureza, e o do outro naõ procede se naõ de hum mào costume Segundo a sua oppiniam he impossivel vencer a natureza, e o mesmo seguio Horatio.

[78] Citation/Motto► Naturam expellas furca, tamen usque recurret. ◀Citation/Motto

E esta depravaçam ainda que por algum tempo se emmende, com facilidade torna a parecer no seu mesmo estado, porque para elle está continuamente propendendo a natureza,

Citation/Motto► Tolle periculum,
Tam vaga prosiliet frenis Natura remotis. ◀Citation/Motto

Nam he assim dos maos habitos que formam a incontinencia; porque estes com facilidade se perdem com a introduçam de outros contrarios (sem falar do que póde a razam) Citation/Motto► affectum in ordine cogit. Huma paxam na Moral abate outra, assim como ordinariamente vemos na Politica, que huma facçam oprime a que lhe he opposta; e da mesma forte que se observa nos peixes, Exemplum► porque ha alguns como he o Reverto das Indias Occidentaes, que sam costumados a comer os outros: ◀Exemplum Exemplum► o Gram Cam da Tartaria tem leoens, como tambem o Mogol Tigres de que se servem para a cassa dos outros animaes ferozes; ◀Exemplum e assim com muita utilidade se reprime muitas vezes hum costume viciozo, por utro menos perigozo, que mais facilmente póde deixar, e extinguir. Huns e outros tem o mesmo perigo sendo màos, e isto me faz lembrar hũa consideraçan do Poeta Eschiles para mostrar o poder do costume, que hum Gladiador acostumado aos golpes se naõ queixa de huma ferida q̃ recebe, obrigando esta a gritar, e assustar os espectadores. E assim os homens se endurecem no vicio, como os Gladiadores às feridas por cauza dos màos habitos, pelo que devemos procurar com ancia, e efficacia adquirir aquelles que os podem destruir.

Nam intento dar para isto alguns preceitos, porque já ha infinitos, e estimo como Exemplum► Seneca o pensamento do Philisofo Demetrio, dizendo que assim como he muito melhor, e mais util na luta saber só algũas venidas proprias para lançar em terra o seu competidor com tanto que se practiquem bem, e naõ aprender hum [79] grande numero dellas; que quazi sempre sam inuteis; assim tambem he muito melhor na Moral, observar o uzo ordinario de poucas maximas proprias, e conducentes para conduzirmos perfeitamente a nossa vida, que fazermos huma grande proviza dellas, que muitaes vezes confundindo-se naõ tem serventia alguma. ◀Exemplum Exemplum► Sobre tudo devo recomendar o conselho de Pytagoras, que naõ que sô de dia he que nos devemos ver aos espelho, e naõ de noute com luz emprestada, porque esta luz nunca, nos descobre bastantemente a nòs mesmos, nem com tanta fidelidade como a luz do dia. ◀Exemplum Cada hum se lizongea, e poucos se examinaõ como he necessario para se aporveitarem; Citation/Motto► hoc aequè omnium est, ut vitia sua exscusare malint, quàm excutere, quàm effugere. Com tanto q̃ agrademos ao Publico, a quem em tudo quanto he possivel queremos fazer a vontade; nam emporta que cuidemos no interior das nossa obrigaçoens, e ficamos muito satisfeitos quando nos parece que temos posto em bom estado o nosso exterior. Certamente que o mundo nos pode viver em grande obrigaçam, vendo que o amamos mais do q̃ a nòs mesmos, e que preferimos a sua aprovaçam ao nosso proprio juizo, como tambem aos mais occultos movimentos da nossa conciencia.

Sobre isto lamentamos a condiçam dos ultimos seculos; mas eu affirmo que he acuzar os innocentes, o imputar às estaçoen a forte das nossas espirituaes indispoziçoens. Confesso que os espiritos sam muitas vezes sogeitos, como os corpos, a enfermidades chronicas, e que ha tempos em que certos vicios sam mais cõmus doque em outros: isto com tudo nam impede, geralmente falando, a que depravaçam dos nossos costumes, ou a sua rectidam nam caminhe sempre com o seu passo ordinario. Citation/Motto► Hominum sunt ista, non temporum; nulla aetas vacavit a culpa Nunquam apertius quam coram Catone peccatum est. Sei muito bem que Seneca que foi quem deixou isto escrito, entendeo que a virtude cami-[86]nhava com hum passo muito differente do que o vicio, quando acrescenta, Exemplum► Citation/Motto► Omne tempus Clodios, non omne Catones feret, ◀Citation/Motto que he o mesmo q̃ se dicesse que todo o tempo produz Clodios, e naõ Catoens, atribuindo a Clodio os vicios, e a Catam as virtudes. ◀Exemplum Mas eu naõ quero buscar senaõ a elle mesmo para o convencer do erro que nisto ha. Exemplum► A sua virtude, e de alguns outros do seu tempo naõ foi menos consideravel no Imperio de Nero, do q̃ a de Catam tinha sido no Imperio do primeiro dos Cesares. ◀Exemplum Nam ha idade algũa em que se naõ viva como no seculo de oiro, com tanto que os homens se regulem sobre os principios da ley natural santamente explicados pela de Deos. Porque ainda que este oiro, fisicamente falando, he muito melhor, e adquire melhor quilate, quando està mais distante da mina que o produzio; nam he assim a rectidam moral que he precizo sempre pelo contrario puxala para a sua origem, que he o direito natural, e Divino, para se evitar a sua depravaçam. Exemplum► A este intento me lembra q̃ Marco Antonino compara o homem virtuozo com huma fonte, que no seu nacimento lança sempre as agoas claras, e puras, ainda que depois se vejam sogeitas a perderem a sua pureza, e excellencia quando se afastam da sua origem. ◀Exemplum Exemplum► E por ultima conclusam devemos ter sempre prezente a tradiçam de que fala Clemente Alexandrino como vinda do Apostolo S. Mathias, que a falta, ou defeito de hum homem se deve imputar às melhores pessoas da sua vizinhança, porque estas sem duvida lhe nam deram todo o bom exemplo para o desviar de as cometer: Citation/Motto► Si Electi vicinus peccaverit, peccavit Electus, nam si ita gessisset, ut jubet verbum, seu ratio, ejus vitam ita esset reveritus vicinus, ut non peccasset. O certo he que o bom exemplo tem muita força para animar as virtudes, e desterrar os vicios, por ser quazi natural tambem o dezejo da imitaçam, principalmente do que vemos practicar ás pessoas mais distintas, e mais recomendaveis. ◀Level 2 ◀Level 1