Sugestão de citação: Anónimo (Bento Morganti) (Ed.): "Num.° 4.", em: O Anonymo. Repartido pelas semanas, para divertimento e utilidade do publico, Vol.3\004 (1754), S. 29-36, etidado em: Ertler, Klaus-Dieter / Fernández, Hans (Ed.): Os "Spectators" no contexto internacional. Edição Digital, Graz 2011- . hdl.handle.net/11471/513.20.4519 [consultado em: ].


Nível 1►

N.°. 4

Dos Sonhos.

Nível 2► Por pequenas que as coizas sejam, nam ha nenhuma, que deixe de ser bastante para excitar alguma reflexam, que possa produzir effeito no espirito do homem, que quer aproveitar o tempo em discorrer; e eu quanto a mim entendo pelo que tenho prezenciado, e ouvido, que todos os homens grandes practicaram sempre a maxima de nam desprezar nada, porque tudo lhe pode ter alguma serventia, ainda o que simplesmente serve para passar o tempo, e de certo genero de divertimento honesto. Narração geral► Para seguir esta maxima como utilissima á sociedade erudita, me aproveitei de huma istoria ou verdadeira, ou fingida, que contou hum dos amigos que se ajuntam em huma caza conhecida, para passarem em boa conversaçaõ algum bocado de noute. Cada hum foi contando sua [30] galantaria, e este trouxe, naõ me lembra porque motivo, huma istoria sucedida com o Prior de huma terra vezinha da Corte. Costumava este Parrocho, por conta das suas dependencias vir muitas vezes á Cidade, e de ordinario se hospedava em caza de hum seu amigo, que o tratava com cordialidade, e grandeza. Sempre que se despedia, o importunava que fosse tambem passar com elle alguns dias, para se divertir, e descançar dos enfadonhos cuidados que lhe cauzava a sua occupaçaõ. Persuadiose o homem que lizongearia muito o seu Reverendo hospede se alguma occaziam aceitasse as suas repetidas offertas, e hum anno na Estaçam proporcionada em que he mais agradavel o campo, preparou-se, mais o seu criado, e deo comsigo em caza do Prior. Fez-lhe muito boa cara, e hospedo-o com grandeza até o terceiro dia; como se foi demorando já o hia soffrendo, como dizem, sobre posse, porque era dos que se nam esquecem da maxima de poupar, mas nam se atrevia a dizer coiza em que mostrasse pervertida a sua boa vontade. Ocorreolhe hum meio que julgou oppurtuno, mas effeito mostrou nesta occaziam a sua pouca utilidade. Depois de cear com o seu amigo, fez que tinha que sono, encostou-se à menza, e em breve tempo principiou a sonhar. Consistia o sonho em dizer que os hospedes ao terceiro dia enfadavam; que jà era muito para hospede; que nam era bom ser a jente importuna com huma demora demaziada, &c. e depois quando lhe parecia que por este modo estava o seu hospede bem advertido, fazia que acordava, e dizia: Diálogo► valhame Deos, que tam má costume que tenho! em pegando a dormir logo sonho, aposto eu que tambem agora sonhei? Respondia-lhe o amigo, sim senhor, v.m. estava falando só, mas eu naõ apliquei o ouvido para saber o que era, porque nestas materias tenho pouca curiuzi-[31]dade. Repetio o bom Reverendo algumas noutes o mesmo, mas sempre com o infeliz sucesso de que o seu hospede o naõ ouvia; atè que exesperado da pouca curiozidade do amigo, rezolveo mandar fazer a sua cama em huma caza que ficava muito mistica com o apozento do hospede, e tanto que ambos se recolheram; elle muito de seu vagar foi pondo os trastes da caza huns sobre outros, e fez hum monte, e tanto que vio que tudo estava em socego, deo com a armadilha no cham, para ver se com aquelle estrondo acordando o seu hospede, e ouvindo-o falar lhe crecia a curiozidade, ou o cuidado de ouvir o que elle dizia. Principou a falar, e a practica sempre a mesma encaminhada a verse livre daquella pençam, que já a concebia como imposta no seu beneficio que de sua natureza estava sem este encargo, ainda que he pençam ordinaria dos Parrochos de Igrejas vizinhas da Corte. Acabou o sonho; e pela manhan teve curiozidade de perguntar ao amigo se tinha ouvido o estrondo? respondeo que sim: continou em lhe perguntar se o tinha percebido falar, a isto respondeo que era verdade que bem ouvira o que tinha dito, porem que elle como amigo lhe aconselhava que tomase o seu exemplo porque tinha assentado em nam dar credito aos sonhos, que elle naõ fazia cazo disso, e se foi deixando ficar. ◀Diálogo ◀Narração geral

Esta historia que se contou por certa, me fes examinar com alguma deligencia se com effeito poderia ser tam absoluta esta negativa de que se naõ deve dar credito aos sonhos; e do que achei, quasi me rezolvi a ficar no estado da indiferença.

Porque, geralmente falando, os sonhos nam sam mais que mentiras, e a sua interpretaçam ou frivola, ou duvidoza. Exemplum► Nam ha coiza mais vam que o que se escreveo nas Onerocritas, segundo o conceito de Ar-[32]temidoro que foi do tempos dos Antoninos; ◀Exemplum e o que a este respeito deixaram tambem escripto os Arabes, dizendo que nam ha terra em que os homens deixem de se alimentar de couzas cavadas da terra, por falta de outros nutrimentos melhores. Exemplum► O sonho que Pompeo teve antes do combate de Pharfalia, em que se lhe reprezentou, que fora ornar o Templo de Venus vencedora com muitos despojos de guerra, nam lhe servio de outra coiza mais, que para lhe dividir o espirito, deixando-o em duvida se esta victoria dizia respeito a elle, ou a Cesar seu contrario, que dizia ser descendente de Eneas, a quem esta Deoza favoreceo tanto. ◀Exemplum Nam ha genero algum de extravagancias, nem da acçoens infelices, que naõ façam muitas vezes obrar os sonhos, nam sómente aos que cuidam que passeam em quanto dormem a que os Latinos chamaõ Somnambules, e os Gregos hypnobates, mas principalmente aos credulos que os interpretam a seu gosto, e q̃ delles recebem furiosas irregularidades no espirito. Na Anthologia se refere que sonhando hum Avarento ter feito huma despeza excessiva, acordando se enforcou, dezesperado de huma tam grande perda que lhe reprezentou a sua imaginaçaõ. Exemplum► Hum dos nossos Portuguezes dando credito a hum sonho, que lhe reprezentou ter sua mulher comettido adulterio, sem embargo da sua inoacencia, na manham seguinte lhe tirou com hum punhal a vida. ◀Exemplum Exemplum► O ultimo dos Dionysios a quem a sua tirannia fez tam celebres, mandou matar hum homem chamado Marsias, por saber que estando dormindo sonhou que matara este Tirano crendo que hum sonho semelhante, poderia ser produzido dos pensamentos do dia. ◀Exemplum Exemplum► O Imperador Tiberio terceiro desterrou a Felippe filho do Patricio Niceforo, só porque que contou a seus amigos, que dormindo sonhara que huma Aguia lhe cobria com [33] as azas a cabeça, o que Tiberio concebeu por hum prefagio da sua promoçam ao Imperio. ◀Exemplum E na verdade naõ pòde o espirito humano figurar couza alguma mais contraria à razam, como he dar ás reprezentaçoens mais indignas da noute, interpretaçoens que promettem todo o genero de felicidade. Exemplum► Dion Cassio diz que achando-se Cesar nas terras Gaditanas em Espanha sonhou que comettera hum indigno incesto com sua propria mãy, e Plutarco attribue o mesmo sonho antes da sua passagem de Rubicon em Italia, interpretando, ambos que por esta acçam tam criminoza, podia conceber a esperança de obter a Monarquia de todo o mundo. ◀Exemplum Exemplum► Pausanias refere de hum certo homem chamado Comon, que comettendo em sonhos hum semelhante incesto com sua mãy, que era morta havia jà muito tempo, foi para os Messinenses hum presagio da restituiçam futura da sua Cidade. ◀Exemplum Exemplum► Vicente de Beavais observa no seu espelho historial que Hugo Bispo de Auxerre, teve na noute precedente ao dia da sua eleiçam hum sonho muito semelhante aos antecedentes: Citação/Divisa► In nocte quidem electionem suam pracedente, vidit in somnis, quod Mater sua sibi esset copulanda nuptiali faedere. ◀Citação/Divisa ◀Exemplum E finalmente se os sonhos merecem algum credito porque algumas vezes vem do alto, que fizeram ao Ceo os que nunca sonham, e que naõ recebem este beneficio? Exemplum► Solino refere que huns povos da Libya a quem chama Atlantes, nunca sonham. ◀Exemplum Exemplum► Plutarco affirma que Cleon, e Thrasymedas homens que viveram muitos annos nunca em sua vida sonharam: e quasi em todos os Seculos, tem havido pessoas de hum semelhante temperamento que passaram todas as noutes sem experimentarem sonho algum. ◀Exemplum Exemplum► Certamente he o homem bem ridiculo neste particular, assim como em outras muitas coizas, e naõ pode deixar de cauzar hum grande [34] horror a impiedade dos Pagaõs que atè fizeraõ sonhar o mesmo Jupiter, cujo sonho refere Pausanias, ◀Exemplum que por ser tam infame me parece justamente incapas de se referir.

He bem verdade que, se naõ quizermos desmentir todas as historias sagradas e profanas, que referem sonhos de huma grande consideraçam, podemos concordar em que se lhe deve dar credito, e que nam deve ser tam absoluta a sua incredulidade. Exemplum► Em Dionysio Halicarnasseo se lê, como hum Romano enfermo recuperou a saude depois de referir o seu sonho ao Senado. ◀Exemplum Exemplum► Em Agathias que hum Filosofo Grego estando dormido ouvio huns versos, que se lhe disseram, nos quaes se expressava que os Persas eram indignos de serem sepultados, porque a terra naõ queria receber em si os incestuozo com suas proprias mães. ◀Exemplum Exemplum► Pausanias protestou que as vizoens nocturnas que teve domindo o impediram para explicar os seus sentimentos, sobre o que se passava no Templo de Ceres Eleusina; ◀Exemplum Exemplum► e em outra parte refere que Sofocles, recebeo, estando dormindo, huma ordem de Baccho, para escrever huma Tragicomedia, de que os seus poucos annos o faziam incapas, mas com tudo, que fazendo a experiencia quando acordou, ficou admirado de ver que sahio maravilhoza a sua compoziçam. ◀Exemplum

Exemplum► Em Appiano se lé que Sylla, a quem os Romanos chamavam o homem mais feliz, sonhara que o chamava o seu destino, Citação/Divisa► vocari sejam afacto, ◀Citação/Divisa e referindo na manham seguinte a seus amigos o mesmo sonho, fes o seu testamento, e com effeito perto da noute lhe sobreveyo huma febre, e na noute seguinte morreo na idade de sessenta annos. ◀Exemplum Exemplum► Este mesmo Sylla, foy o que aconselhou Lucullo nos seus commentarios que lhe dedicou, que sobre tudo desse credito aos sonhos: Citação/Divisa► Nihil perinde fidele duceret firmum, ac [35] quod in somniis demonstraretur, ◀Citação/Divisa assim o refere Plutarco na sua vida. ◀Exemplum Exemplum► Hum sonho do Medico de Octavio Cesar foi a cauza de se achar no combate dos campos Filippicos, ede ter o meio de escapar, como diz Dirõ Cassio. ◀Exemplum Exemplum► Galeno no nono livro do seu Methodo refere que por meio dos sonhos foi expressamente obrigado por seu pay, em se aplicar à Medicina depois do estudo da Filosofia; ◀Exemplum Exemplum► e no decimo livro do uzo das partes protesta, que foi obridado a escrever, por meyo de hum sonho, as maravilhas dos olhos, reprehendendo o severamente seu pay, de que seria impio para como o seu Creador se assim o naõ executasse. ◀Exemplum Exemplum► Em outros muitos lugares da mesma obra repete o mesmo, atè que se desculpa de se servir de demostraçoens Geometricas, sebendo muito bem quanto as reprovavam os Medicos do seu tempo, uzando dellas por força, o que escreve nestes termos: Citação/Divisa► Non lubens sed solum, ut Dei jussis satisfacerem, mathematicis theurematibus sum usus. ◀Citação/Divisa ◀Exemplum Exemplum► Cardano o quis nisto imitar, quando declarou no livro da dua propria vida, que fora advirtido em sonhos que puzesse na boca huma esmeralda que trazia pendente ao peseosso, se queria perder a lembrança da morte de seu filho, o que com effeito lhe succedeo. ◀Exemplum Exemplum► Por nam ser mais extenso deixo de referir o sonho de Sugerio antes que fosse Abbade de S. Dionysio, a que elle mesmo conta na vida que escreveo do Rey Luis o Gordo. ◀Exemplum Exemplum► O do conselheiro Peirese que nam he menos consideravel por ter hum successo verdadeiro: e sómente me satifaço com referir dous maravilhozos exemplos a este respeito. ◀Exemplum Exemplum► O primeiro he, que hum conselheiro do Parlamento de Dyon chamado Carrê, ouvio dormindo que se lhe diziam certas palavras Gregas, lingoa que elle nam entendia, as quaes referindo-as se interpretaraõ, Citação/Divisa► abi, non sentis infortunium tuum, ◀Citação/Divisa e como a caza em que rezidia a-[36]meaçava ruina, elle a dezemparou, e tanto que della sahio, inteiramente cahio, e se arruinou. ◀Exemplum Exemplum► O segundo exemplo he de Andrè Pujon, que achando-se em Rion, estando dormindo sonhou que fazendo hum anagrama do seu proprio nome achara que havia de ser enforcado em Rion, pela pura combinaçam das letras na lingoa Franceza: Pendu a Rion, sucesso que pouco depois confirmou o effeito, porque em breve tempo se vio executada a mesma sentença, que contra si tinha profirido naquelle anagram sonhado. ◀Exemplum Exemplum► Naõ falo dos sonhos naturaes, em que Zenon quis que todos se vissem, para nelles reconhecerem o seu temperamento, e dos que sam provocados por algumas pedras com a de que fala Solino que pondo se debaxo do travisseiro da cama fas sonhar; por algumas plantas, como a Munghoa, ou flor do sonho que os Embaixadores Hollandezes dizem que acharam na China. ◀Exemplum E finalmente naõ podemos negar que ha sonhos inteiramente Divinos; Exemplum► porque Daniel naõ sómente interpretou os sonhos do Rey Nabucodonosor, mas ainda adivinhou o mesmo que tinha sonhado, no tempo que o Rey se tinha esquecido delle. ◀Exemplum Com tudo porêm sempre o mais seguro, e o mais certo he naõ dar credito a semelhantes illussoens nocturnas, que ordinariamente naõ sam outra couza mais que huma alteraçaõ dos humores, e cantichos da fantezia de alguma sorte pervertida, e assento firmemente em que a nenhum se deve dar credito seja qualquer que for a sua natureza. ◀Nível 2

Na Officina de Pedro Ferreira, Impressor da Augustissima Rainha Nossa Senhora. ◀Nível 1