Citation: Anónimo (Bento Morganti) (Ed.): "Num.° 1.", in: O Anonymo. Repartido pelas semanas, para divertimento e utilidade do publico, Vol.3\001 (1754), pp. 2-12, edited in: Ertler, Klaus-Dieter / Fernández, Hans (Ed.): The "Spectators" in the international context. Digital Edition, Graz 2011- . hdl.handle.net/11471/513.20.4516 [last accessed: ].


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N.° 1

Sobre os Dentes.

Level 2► Metatextuality► Nam sei se os Leitores acham toda a sua satisfaçam nestes pequenos discursos, porque naõ saõ dos que fazem rir o vulgo ignorante, e que perpetuamente se quer achar sepultado em hum detestavel idiotismo; mas como eu naõ tomo este trabalho só para os divertir a elles, mas tambem por me devertir a [3] mim mesmo, escrevo o que encontro de meu gosto, sempre com o cuidado de ser couza util, e que possa servir de alguma instrucçam para o commum, que he o de que ha muita falta na Naçam Portugueza, e goste disto que offereço quem quizer, que pelo consumo que estes papeis tem, naõ tenho demaziada obrigaçam de lhe fazer o gosto, contrafazendo o meu genio, em escrever couzas insipidas, e frias, contrarias ao bem senso com que se deve trabalhar para utilidade do publico. Eu naõ respeito tanto a conveniencia propria, como a instrucçam alhea, e a mayor utilidade que pertendo receber, deste trabalho, he a consideraçaõ de poder ser util, e com isto fico muito bem satisfeito: e se naõ pertendo agradecimentos, tambem naõ espero vituperios. ◀Metatextuality

Exemplum► Ainda que Aristoteles, e Galeno formassem consideraçoens admiraveis sobre as obras da natureza; a quem ordinariamente tratam com o nome de Divina, principalmente a respeito dos animaes, quando contemplaram Anatomicamente a construcçam de seus membros; naõ deixou o ultimo de confessar, que muito mayor admiraçam deve cauzar a fabrica de todas as partes do corpo humano, ainda que se naõ possa chegar atè a excellencia do Artifice, que as formou tam maravilhozas; e he ignorarmos a fraqueza do nosso espirito se cuidamos podemos completamente attingir este ponto impenetravel. ◀Exemplum

Naõ ha quem justamente possa explicar as produçoens tam ordinarias, e tam diversas da natureza; e sobre tudo a altissima idea do Creador que ou as forma, ou as permitte: os motivos occultos destas mesmas produçoens, ou formaçoens: e finalmente o occulto segredo com que isto se acha assim disposto. [4] He certo que ha muitos lugares onde parece que a natureza produs homens muitos differentes dos outros. Exemplum► Os lobinhos sam particularmente dos Saboyardos, assim como as alporcas dos Espanhoes: ◀Exemplum e Exemplum► Ramusio observou que os habitadores das montanhas do Peru nascem quasi todos vesgos, ou tortos. ◀Exemplum Exemplum► Ha huma Naçaõ particular entre os Malabares nas Indias Orientaes aonde todos nacem com huma perna tam extraordinariamente grossa do joelho para baxo, que os outros Indianos entendem por isto que sam a maldiçoados do Ceo. Simler observa no primeiro livro da descripçaõ que faz do Pais de Valais, que nesta Regiam ha lugares em que os homens nacem quasi todos alcorcovados, naõ sendo os seus vizinhos sogeitos a este defeito; e que em outros a mayor parte sam tolos, e insansatos, e tam brutaes que se nutrem de feno, e esterco de cavalo. ◀Exemplum Exemplum► He constante pelo que referem muitas relaçoens, que de nove mil habitadores que ha em Rovigo Cidade do Estado de Veneza, ha sete mil que sam cochos, e alcorcovados. ◀Exemplum Isto basta para se considerarem menos estranha as anomalias, e irregularidades desta mesma natureza.

Nam intento entrar no vasto oceano destas maravilhas, nem interprender examinar scepticamente huma por huma todas as que compoem o individiu o humano; porque seria necessario muito tempo, para mostrar o que pode conceber a imaginaçam sobre cada huma dellas, e assim escolho por agora a menor que he o Dente, com o que pertendo entreter o meu curiozo Leitor.

Assentam todos quasi por maxima geral, que os que tem poucos dentes, e muito separados huns dos outros, sam de vida curta; e disto quiz Aristoteles dar [5] alguma razam nos seus problemas: mas com tudo temos hum numero infinito de exemplos q̃ mostram o contrario; Exemplum► entre outros Augusto, que viveo quasi setenta, e seis annos, tinha os dentes muito claros, e muito distantes hum do outro: Cardano que nam viveo menos, testifica no livro que deixou escrito da sua propria vida, que os seus dentes eram mal juntos, poucos, e tracos. ◀Exemplum Exemplum► Pode com tudo ser que por isto as Insulanas de Tendaya para a parte das Molucas os mandam serrar, como refere Barboza, quando sam da pouca idade, para os terem maes fortes, e mais espessos. ◀Exemplum Exemplum► Pelo mesmo principio se entende, que quem tiver os dentes de huma só ossadura (sic) como o Rey Pyrho, e segundo o que diz Heredoto que depois da Batalha das Plateas se achou huma molher desta constituiçam, tem comsigo hum testemunho de grande vivacidade. ◀Exemplum Tambem os que tem muitos Dentes se persuadem do mesmo, e à natureza da ordinariamente aos machos, como mais robustos, mayor numero que às femeas; porque ainda que o seu numero ordinario he de trinta, e dous, muitas vezes se tem visto em algumas pessoas haver duas ordens de dentes, como aquelle Exemplum► Timacho de que fala Plinio, e Edmundo Scory affirma que nas Canarias se conserva huma cabeça de Gigante que tem oitenta, e dois dentes. ◀Exemplum Exemplum► S. Agostinho diz tambem que vira outra cabeça na costa de Utica em Africa que parecia cem vezes mayor que as nossas; ◀Exemplum isto porem nam faz nada a respeito do numero, nem o que Exemplum► diz o Padre Jozè da Costa, que examinando no Mexico a ossadura de outro Gigante na caza dos Padres da Companhia, affirma que hum dos seus mayores dentes era do tamanho de hum punho; e no corpo das transacçoens Philosoficas de [6] Londres do anno de 1700. se acha, que no Condado de Tonna em Turingia se achou no anno de 1695. huma offadura de corpo humano de taõ extraordinaria grandeza, que a canela da perna junta com o pé pezava 19 libras; a cabeça era à proporçaõ, e ainda existiaõ quatro dentes queixaes, que cada hum pezava 12. libras, e outros dous dentes menores que cada hum pezava duas libras e meya. ◀Exemplum

Exemplum► Mas a respeito do numero bem se pode ter por apocrifo o texto de Rigord, em que diz que depois que Saladino tomou a Cruz de Nosso Senhor Jezus Christo, os mininos que costumavaõ ter trinta, e trinta e dous dentes, naõ tiveraõ mais que vinte, ou vinte de dous, e se pela regra de que o maior numero de dentes he final da vida mais dilatada, se houver de se conceber vã a esperãça da duraçaõ da vida, o fundamento desta mesma regra pode servir de dezengano, pela facilidade com que se desvanece aquele mesmo principio, porque naõ ha couza no corpo humano que esteja mais sugeita a perderse, a arruinarse, e a extinguirse como saõ os dentes, e neste sentido teria de huma vida muito dilatada, e quazi perpetua hum animal das Indias a que chamaõ Manticora de que fala Plinio, e Aristoteles sobre a fé de Cresias, porque dizem que tem tres ordens de dentes. ◀Exemplum Exemplum► O Poeta Jon atribuio o mesmo a Hercules, mas a sua morte violenta fez com que se naõ podesse dizer couza alguma sobre a sua vivacidade, ou do que devia naturalmente viver. ◀Exemplum Exemplum► Com tudo semelhantes ordens de dentes saõ de muito menor estimaçaõ do que as de certos peixes de que fala Oviedo, a que chamaõ Marasci, que da boca atè a goela se contaõ nove ordens de [7] dentes. ◀Exemplum Exemplum► Aristoteles diz tambem que os peixes tem os dentes sobre a lingua, o que se pode tomar por huma excellente figura dos homens mal dizentes, que despedaçaõ cruelmente a reputaçaõ de todos de quem falaõ, e a quem se fosse possivel se deviaõ fazer mais mudos que os peixes, jà que naõ podem mover a lingua sem maltratar o seu proximo. Mas este mesmo Filosofo poem os dentes das lagostas, e de alguns caranguejos no ventre, e o mesmo podemos dizer daquelles glutoens, que sem mastigar engolem o que comem os quaes como estes ultimos animaes devem ter os dentes escondidos no estomago, aonde acabaõ de triturar as iguarias, e alimentos que nelle introduzem inteiros. ◀Exemplum

Quanto à bondade dos dentes, esta consiste principalmente, ao que parece, em serem limpos, e brancos, o que testemunha que nem o miolo, nem o ventriculo lhe comunica alguma má qualidade. Exemplum► Por este motivo he que talvez o Espozo Divino estima tanto a sua amada no Livro dos Cantares, por ter os dentes taõ puros, e taõ limpos como os rebanhos das ove. lhas tosqueadas de pouco, e que vem de se lavarem. ◀Exemplum E a Poesia profana faz proferir a hum amante elogiando os dentes de sua amada, que os considera como lurna de perolas, e diamantes.

Citation/Motto► Urna di gemme ou` é il mio cor sepolto. ◀Citation/Motto

E assim podemos pôr entre as maiores deformidades ter os dentes amarelos, ou negros, sendo quazi melhor naõ haver nenhum, e Exemplum► com tudo naõ he só Mafeo que diz que os Chinezes os dentes negros por melhores. ◀Exemplum Exemplum► Gaspar Balby affirma no seu Itinerario [8] que as melhores de Diu, na entrada da India Oriental os fazem muito de proposito, e com grande deligencia negros para parecerem mais agradaveis, e algumas relaçoens ha que trazem praticarse o mesmo em Calicut, e na Cochinchina. ◀Exemplum Contra a sua brancura podemos ajuntar, que ella faz perder aos cavalos muita parte da sua estimaçaõ, porque segundo Aristoteles, e Plinio a velhisse lhe aclara, e fas mais candidos os dentes. A respeito do amarelo que elles contrahem, naõ ha qualidade que universalmente se despreze, porque em Sumatra para terem esta cor, atè os chegaõ a doirar, e Exemplum► o mesmo Maffeo conta particularmente dos Bonzos, ou sacrificadores de todas a India Oriental que tem hum artificoso segredo para os doirar, ou fazer amarelos. ◀Exemplum Exemplum► Marco Polo escreve que no seu tempo os homens, e mulheres da Provincia de Cardandan, sogeita ao Gram Cam de Tartaria, trazem sobre os dentes huma sutilissima chapa, ou cobertura de ouro para mostrar que os tem desta cor. ◀Exemplum Mas o trazerem esta chapa de ouro sobre os dentes fas tambem lembrar que será para os perservar das fluxoens do miolo, e das exhalaçoens do estomago que ordinariamente a cometem os dentes. Exemplum► Seja o que for, nunca ouve dente taõ branco que fosse taõ estimado como aquelle de ouro de hum rapás da Silefia que tinha sete annos, que Horatio tocou na pedra, e que Rolando outro Medico affirma que podia ter nacido naturalmente, e isto pelos annos de 1493. ◀Exemplum Mas jà que tocamos a cauza mais aparente das enfermidades ordinarias dos dentes, naõ quero ommitir lembrarme de que os Astrologos atribuem o cair dos dentes, e as suas enfermidades ao mais alto dos Planetas Saturno quando se acha em algum daquelles signos a que chamaõ aquosos. Pode ser [9] porque este bom homem devia a balar os seus, quando devorou a pedra que seu filho Jupiter lhe aprezentou por hum bom bocado. Na verdade a perda dos dentes he cõmmumente reputada por hũa grande desgraçam naõ havendo couza maes dezagradavel aos nossos olhos que huma boca desdentada. Exemplum► Esta talvez seria a cauza porque hum Inca, ou Monarca de Perú punio os habitadores de huma Naçam rebelde, com lhe mandar arrancar os dous dentes principaes de diante assim de sima, como de baxo. ◀Exemplum Mas com tudo aquelles a quem faltam por velhisse, ou por outro qualquer acontecimento, bem se podem consolar, porque tambem ha alguns lugares aonde se affecta naõ ter dentes naturaes. Exemplum► Na Ilha de Java assim os homens, como as molheres mandam limar, ou arrancar os dentes para pôr em seu lugar outros de ouro, de prata, de cobre, ou de ferro, o que estimam por mayor comodidade, e por coiza muito maes galante. ◀Exemplum Exemplum► Cicero testefica a este respeito que Esculapio foi o primeiro que tirou os dentes, de donde tiveram principio estes, a que vulgarmente se chamaõ Sacemolas; ◀Exemplum Exemplum► e sabemos que no templo de Delphos havia hum instrumento de chumbo chamado pelos Gregos odontagogos, ◀Exemplum que tam antigo he, e quazi divino o mandar tirar os dentes. E nam sei que grande ventagem podem pretender aquelles que conservam todos os dentes desvanecendo se desta prerrogativa, sabendo que nisto sam communs com o mais immundo dos animaes que he o Porco, Exemplum► de quem Aristoteles affirma que sempre conserva todos, e como o cavalo capado a quem Plinio atribue semelhante prerrogativa? ◀Exemplum

[10] Esta pequena diversam sobre a falta, ou ainda sobre a privaçam total dos Dentes, puxa por outra a respeito da sua enorme grandeza, a que concebemos tam grande aversam, que parece naõ haver coiza mais contraria à fermozura, e com effeito lembra-me de ler Exemplum► em Francisco Alures que hum Preste Joaõ ou Emperador da Abyssinia recuzou espozar, como tinha promettido, a filha do Rey de Adem porque tinha os dentes muito largos, e compridos. ◀Exemplum Mas com tudo eu me persuado Exemplum► que isto naõ he de formidade no Reyno de Tiboc, ou de Tibet nas Indias Orientaes, aonde se affirma que todas as molheres tem dous dentes tam grandes como as do Javal; ◀Exemplum e nam duvido que assim Exemplum► como os lobinhos se estimam entre os Saboyardos, se estimem tambem em Tibet os dentes grandes entre as Damas desta Provincia. ◀Exemplum Exemplum► Os Romanos naõ pertendiam injuriar a hum de seus cidadãos, quando lhe chamavam Gothofredo do Dente grande: e deixo de lembrar aquella illustre familia Romana dos Dentati porque naõ adquirio este excellente nome de os ter de huma extraordinaria grandeza, mas sim por nacerem os desta familia com elles. ◀Exemplum Exemplum► Isto se conta de M. Curio Dentato, e de Cn. Papirio Carbo, que foram homens excelentes. ◀Exemplum Exemplum► Tito Livio descreve tambem o nacimento semelhante de huma donzella que foi levada a Roma, e se admirou como hum prodigio da natureza; ◀Exemplum Exemplum► e Antigono Caristio refere na sua historia das coizas maravilhozas, que hum homem chamado Arfame Persiano naceo logo com dentes na boca. ◀Exemplum Isto naõ he huma observaçam indigna da historia, porque Exemplum► jà Aristoteles observou que só o homem entre todos os animaes he quem a natureza proveo de Dentes, e que podem tambem existir sem elles. ◀Exemplum Este mesmo [11] Filosofo diz que de todos os ossos o Dente he aquelle que crece em todo o curto, da vida, e a razam he, porque estando sempre os Dentes em hum exercicio continuado que naturalmente os deve diminuir pela atriçam, e força que fazem huns contra os outros, he precizo que tenham a faculdade de crecer para repararem esta diminuiçam. Nam quero dizer coiza alguma sobre os que tem os dentes atravessados por naõ cahir na indignaçam daquelles que tem os queixos tortos, cuja cauza principal he a mà situaçam dos Dentes; e basta lembrar em seu favor, que Exemplum► Boleslao, hum dos mayores Reys da Polonia tinha esta infelicidade na boca, que lhe adquirio o sobre nome de Kirzivousti, como se póde ver na Sarmacia do Guaguin. ◀Exemplum

Exemplum► Hypocrates chamou aquelles dous Dentes grandes, ou queixaes que sam os ultimos que nacem, Dentes do Sizo; ◀Exemplum porque nam nacem se naõ aos vinte oito, ou trinta annos, e muitas vezes tem succedido nacerem maes tarde: Exemplum► e Aristoteles fala de huma mulher que se achou oprimida com a dor destes Dentes quando lhe naceram na idade de outenta annos. Aquelle velho de Bengala a quem os Dentes cahiram de velhice; e lhe naceram algumas vezes no discurso de huma vida de trezentos, e trinta. e cinco annos, que quasi se faz incrivel, e passe sobre o credito de Maffeo, da mesma sorte que aquella Condessa de Desmond em Irlanda de quem se diz que viveo cento, e quarenta annos, e que neste espaço de tempo lhe cahiram, e naceram tres vezes os dentes: mas Verolamio que propôs este exemplo, ◀Exemplum na sua historia que escreveo da vida, e da morte parece que o concebe como conto quando depois o refere no seu terceiro livro da historia natural. Bem se podia continuar maes este [12] discurso se a fome que ordinariamente me chaga as horas de jentar me naõ fizesse desviar dos dentes de que falamos, segundo a fraze vulgar, que toma por ter os dentes compridos, experimentar grande fome; e pela mesma figura se diz tambem tocar bem os dentes, para expressar hum homem que come muito, e despressa. Mas na Moral dar hum golpe de dente, ou como dizemos ordinariamente, a tirar huma dentada tem outra muito diversa significaçam, e se toma por hum mal dizente, ou offender o proximo com dizer couza que prejudique a boa reputaçam; da mesma sorte que mostrar os dentes a alguem, significa fazer-lhe rezistencia; e muitas vezes ameaçar: porque as primeiras armas dos homens foram as mãos, as unhas, e os dentes segundo o que diz Lucrecio.

Citation/Motto► Arma antiqua manus, ungues, dentes que fuerunt. ◀Citation/Motto

E por isso rengir os dentes he neste mundo hum final de colera, da mesma sorte que cremos que no outro he huma acçam que acompanha a pena dos condenados. ◀Level 2 ◀Level 1