Référence bibliographique: Anónimo (Bento Morganti) (Éd.): "Num.° 10", dans: O Anonymo. Repartido pelas semanas, para divertimento e utilidade do publico, Vol.2\010 (1753), pp. 73-80, édité dans: Ertler, Klaus-Dieter / Fernández, Hans (Éd.): Les "Spectators" dans le contexte international. Édition numérique, Graz 2011- . hdl.handle.net/11471/513.20.4512 [consulté le: ].


Niveau 1►

N.°.10

A peste das conversaçoens.

Niveau 2► Ora senhores he verdade que nam ha couza mais delicioza cà por fóra como he huma manham da Primavera! Levanta-se hum homem cedo pega no seu bordam, chega a huma fonte, ou a algum regato, lava os olhos, e senta se debaxo de huma arvore, [74] aonde o suave murmurio da agoa, com a canora melodia das aves; constituem aprasivel o citio, recream a natureza, e desterram em alguma parte os cuidados, e quanto a mim eu nam trocara este citio por todas as dilicias da Corte; e ainda que muitos dizem que isto nam he mào, com tudo ascrecentam, que seria muito milhor se tambem com todas estas delicias houvesse a comunicaçam dos homens, e a sociedade dos individuos da mesma especie; porque entertendo (sic) se a gente tambem com huma boa conversaçam, ao mesmo tempo seria agradavel, e mais util esta abstraçam das barafundas da Cidade. Mas o certo he que se enganam; porque nam ha couza que mais se deva aborrecer, ou ao menos nam dezejar como sam as sociedades, e companhias, porque quasi nunca deixa de entrar nellas algum espirito mordaz, que pertende (sic) fazer da mormuraçam o mais ordinario assumpto; e por comedido que hum homem seja, se nam fala tambem, porque como dizem, huma palavra puxa pela outra, ao menos sempre ouve o que nam quer, ou o que nam deve ouvir, e he para cauzar rizo a redicula cautella com que semelhantes espiritos querem dourar a sua maledicencia dizendo muito em seu juizo perfeito isto nam passe daqui como se para ser publico nam bastasse comunicarse a mais de tres, sem esperar que se conserve o segredo em muitos mais? E sam taes as feridas que fazem assim as escondidas, que se acha hum homem talvez bem opinado, com a sua reputaçam se nam morta aos menos à Santa unçam. E como para evitar ferir, ou ser ferido desta sorte nam he melhor meyo que o retiro; sem estas companhias, e sociedades passo muito descançadamente a vida, porque ao menos nesta parte [75] nam quero ter a minha conciencia embaraçada com os danos, que talvez naõ possa resarcir, pela falta que ha em se desdizer hum homem do que disse na prezença de muitos, e cà como posso vou arranhando nestes papelinhos, respondendo aos meus amigos da corte, porque me pûs no systema de nam falar se nam resposta por pergunta, e cuido que nam deixa de ser isto util para muitas couzas. Vamos com o que se segue; que sam os dous versos que achei.

Citation/Devise► Saevit atrox Volscens, nec teli conspicit usquam Auctorem nec quo se ardens immittere possit.

Virg. Aeneid. IX. Vers. 420 ◀Citation/Devise

Que na nossa lingoa dizem: Volscens todo cheyo de raiva, e de ira nam vê em alguma parte o que lhe atirou o golpe; e nam sabe para donde se vire para delle se vingar. Pois jà que este lugar do Poeta veyo parar as minhas maõs, e estou com a idéa fresca, heide encaminhalos, Citation/Devise► a que os espiritos malignos, murmuradores, mal dizentes, e satyricos, sam a peste das conversaçoens, e sociedades. ◀Citation/Devise E sobre isto encaminho o seguinte discurso.

Nam ha traiçam mayor, nem couza mais indigna que o atirar occultamente, e em segredo, feridas mortaes contra a boa reputaçaõ de hum homem. Os escriptos satyricos cheyos de espirito, e de fogo, tem muita semelhãça com as lanças cheyas de veneno, q̃ nam sómente fazem a ferida, mas tambem a poem no estado de incuravel. Esta he a razam porque interiormente me assusto todas as vezes que vejo hum destes espiritos malignos, acompanhado de um humor agradavel, e dezenfadado. Hum espirito cruel, e barbaro nunca se sente tam inteiramente satisfeito se nam quando molesta, e aflige hum particular, ou [76] quando exita, e move a divizam entre os parentes mais proximos, e expoem familias inteiras à censura do publico, ao mesmo tempo que elle se esconde, e que naõ ha quem o delate, e o descubra. Se além do espirito, e da malignidade he tambem viciozo, he huma das peores creaturas, e mais prejudicial que póde haver em huma sociedade civil. Seus ditos satyricos cahem certamente sobre os que deviam achar se mais abrigados. A virtude, o merecimento, e tudo o mais que he digno de louvor chegam a ser o objecto das suas murmuraçoens, e da sua maledicencia. He impossivel suppotar (sic) os males que occazionam estas settas que se despedem às escuras; e toda a desculpa que se póde allegar a respeito dos que fazem semelhantes tiros, se limita sómente que suas feridas nam offendem mais que imaginaçam, e que nam produzem outra couza se nam huma vergonha occulta, e hum enfado escondido, em quem as recebe. He precizo considerar que huma Satyra, ou hum Libello nam contem a atrocidade de outra qualquer morte: mas com tudo nam faltam pessoas que estimariam mais perder huma consideravel somma de dinheiro, toda a sua fazenda, e ainda a propria vida, antes que andar aos boleos na mormuraçam, e passarem por infames. He certo que neste cazo se nam deve medir a injuria pela idéa de quem a faz, mas sim pela idéa e quem a sofre.

Os que melhor digerem apparentemente as offensas desta natureza, nam sam com tudo exemptos de seus dissabores occultos. Exemplum► Muitas vezes tenho feito reflexam sobre hũa circunstancia da morte de Socrates, em que nenhum dos criticos ate o prezente se deteve. Pouco antes que este homem illustre tomasse a [77] mortal bebida que lhe estava preparada, fez aos seus amigos hum discurso sobre a immortalidade da alma, e ao principio lhes disse, que nam podia crer que o espirito mais comico ouvesse de falar entam com elles sobre hum semelhante assumpto: ◀Exemplum e he sem duvida que atribuio isto Exemplum► ao Poeta Aristofanes que tinha escripto expressamente huma Comedia para o converter em rediculo, e zombar das suas maximas. ◀Exemplum

Muitos authores observaram que Socrates era tam pouco inclinado às conversas desta redicula qualidade, que vendo-as reprezentar muitas vezes sobre os Theatros, em nenhuma mostrou que as approvava. E com tudo isto he tal a sua força, que parece que este procedimento indigno deixou alguma impressam no espirito deste grande Filosofo com ser demasiadamente sabio para a poder incobrir, e regeitar. E se tem tanta força para se imprimir ainda que levemente em hum juizo como o de Socrates, que nam farà em huma sociedade onde quasi todos teràm muito pouco de Socrates?

Exemplum► Quando Julio Cesar se vio exposto à malidicencia de Catulo, lhe rogou hum dia que fosse jantar com elle, e o recebeo huma fórma tam distinta, e generoza, que depois foi hum de seus mais fieis amigos. ◀Exemplum Exemplum► O Cardeal Mazzarino uzou quasi da mesma maxima com o sabio Quillet, tendolhe atirado alguns golpes com a lingoa em hum famoso Poema Latino que escreveo. Mandou-o chamar ao seu Palacio, e depois de algumas reprehensoens modestas sobre o que tinha escripto, lhe protestou o muito que o estimava, e que lhe procuraria a primeira boa Abbadia que vagasse em França, o que cumprio depois de alguns mezes. ◀Exemplum Este modo de obrar fez tam bom effeito sobre [78] o Author, que dedicou a segunda ediçam do mesmo Poema ao Cardeal, tirando-lhe todos os lugares em que o feria.

Nam foi de hum tam generozo outra Personagem de mais elevado grào, nem tam facil a perdoar estas injurias feitas pela maledicencia. Exemplum► Tanto que foi exaltado ao summo lugar da mais alta dignidade, vestiram huma noite a estatua de Pasquino com huma camiza muito negra, e por desculpa lhe escreveram, que se via precizado a vestir a camiza daquella sorte, porque a sua lavandeira se achava feita Princeza. Este dito satyrico respeitava a irman da mesma grande personagem, que vivia desta miseravel occupaçam, antes das suas grandezas. Fez esta Pasquinda tanto estrondo em Roma, que se prometteo huma grande somma de dinheiro a quem descobrisse o Author. Este infeliz descançando sobre a generozidade da promessa, e sobre algumas insinuaçoens particulares que sobre isto teve, se foi voluntariamente denunciar. Mandouse-lhe com effeito entregar a quantia promettida, mas ao mesmo tempo lhe cortaram a lingoa, e as maõs para ficar em estado de nam satyrizar para o futuro. O exemplo de Aretino he bastantemente sabido, e proprio para servir neste lugar; e entendendo q̃ nam pessoa q̃ ignore q̃ todos os Principes da Europa eram seus tributarios, e elle mesmo publicou huma carta em que se desvanecia de obrigar a huma contribuiçam annual, o grande Sophi da Persia. ◀Exemplum

Ainda que estes poucos homens de huma grande destinçaõ que acabamos de referir, se mostrassem de huma fórma quasi indiferente a respeito dos espiritos satyricos de seu seculo, que os morderam; com tu-[79]do là deram todas as provas manifestas, que estavam bastantemente sensiveis às suas murmuraçoens, e por consequencia olhavaõ para ellas como se fossem injurias grandes. Quanto amim (sic), nunca me fiaria de hum homem, que eu entendesse era capaz, de lançar pela boca fóra palavras tam venenozas, e nam duvido que seja capaz de attacar o corpo, ou os bens da mesma pessoa a quem mostre alguma amizade, denegrindo-lhe assim a reputaçam se o poder fazer com a mesma segurança. He para admirar ver a barbaridade com que nas conversaçoens se fomenta qualquer assumpto satyrico. Huma innocente donzella, ou outra qualquer molher se vê nellas exposta à murmuraçam mais riguroza, por alguma costura, ou final que tem no rosto, e que nelle recebeo por dezastre. Hum Pay de familias se converte em ridiculo, unicamente por alguma calamidade domestica que experimentou. Huma molher honesta nam poderà ter descanço, e socego em todo o tempo de sua vida, sem mais cauza que huma acçaõ, ou huma palavra mal interpretada. Mas que digo? Hum homem de bem, e de huma vida exemplar, se verà desconcertado pelas pessimas voltas que dam às mesmas qualidades que lhe deviam servir de honra. He constantemente certo que sempre he pernicioso, e pestifero todo o espirito que nam he acompanhado da virtude, e de humanidade.

Metatextualité► Nam satisfeito este vicio de rezidir sómente na lingoa, passa às mãos para conciliar huma perpetua duraçam do odio, e aborrecimento cõmum. Ha muitos escriptores insensatos, e ligeiros, que sem algum mào intento, tem sacrificado a reputaçam de seus amigos, e conhecidos, a hum certo humor li-[80]geiro, e à vam ambiçam de se distinguirem por hum espirito satyrico, e mal dizente; como se naõ fosse infinitamente mais honrozo ter um bom coraçam que passar por homem de espirito. Tanto que hum destes concebe que tem algum fogo, ou alguma viveza, ordinariamente se applica a attirar golpes mortaes indiferentemente. Por este motivo he regra certa, que muito mais se deve temer hum indiscreto, que hum homem de mào natural; porque este nam insulta mais que os seus inimigos, e aquelles a quem dezeja mal; e o outro attaca indiferentemente amigos, e inimigos. ◀Metatextualité ◀Niveau 2

Na Officina de Pedro Ferreira, Impressor da Augustissima Rainha nossa Senhora. ◀Niveau 1